O Diário

Dia 1

Olho pela janela e vejo a cidade, taciturna e receosa como alguém que tem algo a dizer e nada diz. No primeiro plano desta, vejo meu reflexo, inquieto e falando sozinho em um rádio na esperança de obter uma resposta. Talvez a saudade de algo que não conhecemos (ou lembramos) possa ser chamado de esperança (ou fé). Isso é o que sinto todos os dias em que me recordo de ligar este rádio e ouvir a estática ensurdecendo meus pensamentos. Meu corpo, ora cansado, ora preguiçoso, reluta em permanecer ao pé da mesa do rádio com o comunicador em mãos.

– Boa noite, sou eu novamente, Bernardo… (sshhhhh) … Alguém na escuta? Câmbio.

– (Shhhhh)

Recito as palavras escritas em uma agenda tão velha quanto o rádio, quase como uma oração, na expectativa que haja alguma resposta.  Esse mantra, ora enfadonho, ora intrigante ainda não é conveniente expô-lo aqui…

A noite avança mais lenta que passos de tartaruga nos meridianos, porém aqui ela parece durar mais que o habitual, permitindo que a vaidosa lua ofusque o brilho das demais estrelas por mais tempo. Assim aprendemos, nas aulas do professor Oséias, há 3 anos, que a Lua e o Sol, arquitetam noite após noite, um complô contra os demais astros. Tomo um livro de astronomia e percebo Oséias via o cosmos com os olhos de Deus. Adormeço.

Dia 2

 

O dia, no verão, em Sombra D’água, começa a ser escaldante cerca de 15 minutos antes da aurora (é o que ouvi em alguma situação social de alguma boca falante), quando o sol ainda muito tímido, porém sempre vaidoso, nos favorece a certeza do bom funcionamento das glândulas sudoríparas.

Acordei e logo tomei um café. Descendo as escadas sinto o frescor, ainda resguardado da madrugada, pelos corredores do prédio, embora refrescante, o isolamento térmico promove o cheiro de umidade que meu nariz jamais acostumará.

Antes de sair pelo portão, cruzo por Leonora, uma singela vizinha de olhos e cabelos castanhos de poucos atrativos, mas que certa vez por uma gentileza, me recompensou com 15 segundos de conversa…:

(Iniciando minha rotina diária, descendo as escadas vi Leonora subindo com muitas sacolas de supermercado)

– Deixa-me te ajudar vizinha! 

Falei com despretensiosa suavidade e ela sem muita escolha:

– Pode pegar essas da minha mão direita, obrigada, muito obrigada.

E ainda:

– Sabe como é, vida de secretária, passo muito tempo sentada, se não fosse esse emprego seria tudo diferente.

– É, seria tudo diferente. 

Retruquei, preenchendo o ar com algumas palavras.

Esse diálogo me despertou uma questão, caro leitor…

 

Dia 3 

Cova Alta é o nome que dei a essas terras que vim parar não sei como. Última coisa que me lembro é de conversar com Leonora nas escadas do prédio em que moro, ou morava. Pareci despertar de um desmaio repentino e quando vi, o pavor me tomou conta, parecia estar em uma cabana rústica feita de troncos com cortes quase cirúrgicos e acabamentos dignos de um Deus marceneiro, ousaria dizer que esta casa foi feita na carpintaria de José pelas mãos de Cristo. Ergui a cabeça do travesseiro com cheiro de mofo e a primeira e única coisa familiar que vejo é o rádio e a agenda. O que isso significaria?

Pela janela só vejo pinheiros fechando minha visão do horizonte, não parece dia nem noite, apenas um céu nublado com alguma claridade. Talvez o clima ou o ambiente me fez entender que este lugar é bem acima do nível do mar. Resolvo sair e olhar a cabana de fora, já que os pinheiros limitam a visão da clareira em que se encontra a cabana. A cabana por fora segue impecável, mas o que me chama atenção é que ela não é uma casa comum de quatro paredes, esta cabana é sextavada, assim como um caixão. Ângulos bastante sutis, mas ainda sim, sextavado. Batizei este lugar de Cova Alta.

Após vasculhar o lugar a procura de alguém, procuro lidar com o que já estou acostumado, ligo o rádio e clamo por ajuda. Como não obtive resposta, apelei para a leitura habitual do mantra:

“Perpétuo chamado do caminho sem sabor

Tão longa a espera que tenho que esperar

Mesmo fatigável que seja esse labor

Sou movido, sem chance de parar

 

As palavras são insuficientes então

A razão não pode compreender

A falta que faz um capitão

E alguém para se prender

 

Da madeira sextavada,

Para o sótão ou o porão

Ninguém escapa dessa espada

Que parte o coração

 

Oferenda e sacrifício

A labuta e o ofício

Palestra e o comício

A queda e o vício

 

Saudação

Comunicação

Satisfação

Opção”