O mendigo caolho e o milionário opulento

Robson, ou como gostava de ser chamado, Robinho quando ainda muito jovem brincava de pega-pega com sua irmã, Marisa, quando de repente, após um espirro violento, como uma cena de terror, seu olho esquerdo saiu da órbita de sua face, pouco ele sabia que 5 anos depois isso lhe garantiria um belo recipiente no rosto para sua bolinha de gude preferida.

Hoje após dramas familiares e sobretudo pessoais ele vive sob o teto dessa grande hospedaria chamada Ponte do Calabouço, a origem deste nome fica para outra história, mas que de fato é uma pequena ponte, quase um viaduto, que liga a cidade turística até a cidade industrial da região metropolitana. Isso lhe garante companhias inusitadas como o Zézinho da Colônia, um castelhano de 1,55m de altura, coxo, feio como uma tesourada no olho, cheirava a vinagre com ácido úrico, característico de quem viveu uma vida ao relento, e um bigode de marechal que lhe sugeria uma certa autoridade. O temperamento colérico e a fúria de um titã garante um ótimo guarda-costas para Robinho.

  • Ô Zézinho, tu não vai buscar marmita pra nóis hoje, vinte pratas e rende pra semana toda?
  • Vou não, hoje vou ir lá na rua de cima encontrar a Nandinha e se bobear já meto uma facada no bucho do Mariano que andou metendo a cara com uns dos meus.

Zézinho ladrava mais que mordia, mas mordia.

A tarde caía, na calçada da rua da quadra ao lado, começava a movimentação das pessoas, algumas mais importantes outras nem tanto. Happy hours, adultério, segundo turno, missa, cultos, enfim… Todo tipo de pessoa, e seria lá que Robinho faria seu ganha-pão. 

Um certo dia, passara um senhor, boina italiana, paletó corte inglês, bigode de marechal, como o do Zézinho, cantarolando um poema:

 

“Ferdinanda que lá está

Manda daqui ao Paraná

Anda sem saber como parar

Da varanda desatina meu olhar…”

 

Ao final do verso, caia de seu bolso, quase em câmera lenta, algo que era bom demais para ser verdade, uma bela nota de vinte pratas. Robinho num impasse moral de meio segundo, tomou a nota e guardou-a bem dobradinha no lugar mais seguro que conhecera, o antigo porta-bolinhas-de-gude.

Curiosamente isso se repetia, semana a semana. Sempre garantindo o “pão nosso de cada dia” de Robson, O Caolho. Lá pelas tantas, barriga cheia, Robinho lembra o amigo Zézinho da Colônia, nunca mais o havia visto. 

 

Ou havia.