A sentença final

A sentença final

A notícia do crime bárbaro se espalhou rapidamente pela pacata cidadezinha, deixando a todos perplexos diante de tão inesperado e terrível acontecimento: um homem, que todos imaginavam acima de qualquer suspeita, sequestrou, violentou e matou uma pobre garotinha de apenas 13 anos. A investigação policial, logo após a notícia do desaparecimento da menina, e auxiliada por uma denúncia anônima, rapidamente levou à descoberta da identidade do suspeito: um cidadão comum, funcionário público, sem passagens pela polícia. Ao ser encontrado, não ofereceu resistência, e se entregou aos policiais, sendo conduzido para a prisão. Passados alguns dias, foi levado ao fórum da cidade para prestar seu depoimento diante do júri. E faria isso com uma fria riqueza de detalhes, impressionando a todos.

No dia marcado, uma multidão exaltada apareceu para acompanhar o desfecho daquela trágica história. Quando a viatura chegou ao fórum, e o prisioneiro saiu escoltado por dois policiais, os gritos e xingamentos do povo indignado logo se fizeram ouvir: “Assassino!”; “maldito, merece a morte!”; “vai pro inferno seu nojento!”, e outros tantos inomináveis palavrões, que raramente se ouvia da boca daquela gente simples. A família da vítima — formada pelo pai, a mãe e um irmão mais velho — chegou cedo ao local, para poder finalmente entender a razão disso tudo, e poder olhar nos olhos daquele que tirou, de forma tão desumana e doentia, a vida da sua caçula tão preciosa: Ana era o seu nome, em homenagem à querida avó já falecida.

Durante o depoimento, perante o juiz, advogado, promotor e os jurados, o criminoso confessou todos os detalhes de como encontrou e sequestrou Ana na saída da escola, o que fez com ela no seu cativeiro, e como finalmente a matou depois de alguns dias (detalhes esses que não comentarei aqui, para não chocar os corações mais sensíveis). E depois de tudo confessar perante o tribunal, não demonstrou arrependimento, permanecendo com a cabeça baixa, mas tinha a voz calma e perturbadoramente serena, o que chocou a todos, principalmente, aquela família humilde. Era nítido no rosto daquelas pessoas a indignação, a revolta e a dor de sofrer uma perda dessas: está além das palavras.

Depois de concluído o processo, foi lida a sentença pelo juiz: 20 anos de reclusão. Após a martelada final do Meritíssimo, os policiais o retiraram da sala e o encaminharam para a sua cela solitária da prisão. Nesse instante o irmão mais velho — revoltado e totalmente fora de si — tentou atacar o assassino, mas sua tentativa foi em vão, sendo logo contido por seu pai e por um policial. Fez-se um grande alvoroço, e todos puderam ver a revolta e o ódio estampado em seus olhos. Acredito que, se não o tivessem segurado a tempo, teria matado o assassino com suas próprias mãos ali mesmo. Mas, ainda muito transtornado e inconformado com o destino — o seu ver ameno daquele homem — o irmão da menina assassinada proferiu de sua boca a sua própria sentença para o condenado:

— “Assassino! A minha irmãzinha não merecia isso seu doente! Que o diabo lhe carregue!” — Foram estas as suas palavras.

Depois de acalmados os ânimos, o condenado foi enfim levado para a sua cela, isolado dos outros presos, e lá ficou em silêncio, continuando com sua atitude de não falar nada, e a cabeça sempre baixa.

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Na manhã seguinte, quando os guardas levaram a sua refeição matinal, ao abrirem a cela, uma surpresa chocante: o assassino estava morto. Foi encontrado caído no chão, os olhos arregalados, a boca aberta escorrendo saliva, e uma horrível expressão de pavor estampada no rosto já frio. O laudo médico após a autópsia constatou um infarto agudo, o que surpreendeu a todos, pois aparentemente ele tinha boa saúde. Para os guardas da prisão e os médicos que viram seu corpo — a julgar pela expressão de seu rosto — ele tinha morrido literalmente de medo. Alguma coisa o deixou tão aterrorizado que seu coração não resistiu.

Realizou-se uma investigação. Os outros presos relataram, em seus depoimentos, que durante a noite ouvira gritos horripilantes vindos da cela do assassino, além de batidas na porta como se ele tivesse, em desespero, tentado fugir dali. A cela onde passou suas últimas horas foram minuciosamente examinada pela perícia e nada foi encontrado, a não ser por um estranho detalhe: ao abrirem-na, sentiram um fedor muito forte de enxofre. A sentença final estava cumprida.

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