Meu Nome Era Maya

Amanhã será meu aniversário, mas ninguém se lembrará.

A data da morte é mais importante que a data do nascimento.” Quem foi mesmo que disse isso? Não importa. Minha mãe sempre disse que é bíblico, mas eu nunca vi isso escrito na Bíblia, e aposto que nem ela mesma. Ela é dessas que vive repetindo comentários alheios, ou melhor… ela era dessas. Ela teve a coragem que eu não tive, e cometeu o que, na opinião dela própria, é o maior pecado possível: o suicídio.

Nunca entendi muito bem a lógica disso. Eu entendo que tirar a própria vida seja horrível, afinal imagina quanta dor alguém tem que estar sentindo pra fazer isso. Mas como algo que só faz mal a si próprio (sem falar na dor dos familiares, é claro) pode ser menos perdoável que matar um semelhante, estuprar uma mulher ou violentar uma criança? A lógica divina definitivamente não bate com a minha.

E o motivo do suicídio dela também foi peculiar. Quer dizer, a maioria das pessoas que têm se suicidado nos últimos dias fez isso pelo desespero de sofrer uma morte lenta e dolorosa por causa do meteoro fatal que logo nos consumirá. Mas não a minha mãe. Posso dizer que ela estava até feliz pela chegada do Dia do Juízo Final. Acreditava que em algum momento do último sábado seria arrebatada.

Foi isso o que o Reverendo Mathias lhe disse, pelo menos. Ele levou os fiéis de sua igreja no bico, dizendo que recebera uma visão divina: no sábado, antes da última badalada, a Igreja seria arrebatada para Deus. Simples assim.

Não que eu tenha acreditado nele, mas será que minha minha realmente cogitou ser digna do arrebatamento? Ah, fala sério! Com toda aquela língua ferina contra tudo e todos, como se fosse a própria Jeová? Com toda soberba por ser uma das mais chegadas ao Reverendo, além, é claro, de ter mais “bens” do que os “irmãos”? Depois de ter se casado com o merda do meu padrasto unicamente pela conta bancária dele e, não contente, se fazer de cega aos olhares e carinhos dele comigo?

E aí ela se decepcionou com Deus, porque a carruagem não veio buscar a Cinderela, e se explodiu! Boom!

E até na morte ela quase ferrou com a minha vida! Assim que voltamos do enterro, o escroto provavelmente pensou que não haveria mais empecilho — como se minha mãe algum dia tivesse sido um — e veio pra cima de mim, no quarto. Mas o que ele não sabia é que eu já esperava por isso, e há tempos guardava uma faca debaixo do meu travesseiro.

Eu a atravessei nele até ter certeza de que estava morto. Não posso dizer que não me machuquei, mas não posso reclamar. Eu venci.

Mas também não importa, já que o meteoro vai acabar com nosso querido planeta azul. (Espero que você seja minimamente inteligente e consiga ler a ironia na última frase.)

O bom é que não vou passar minhas últimas horas vendo o Sol nascer quadrado. Não. Está uma confusão dos infernos lá fora. Minha casa já foi saqueada, e nada me restou além deste caderno e caneta.

Por que estou escrevendo — se ninguém vai ler -? Porque sim.

É o fim da aventura humana na Terra. Essa porra só é bonita nas canções. Se quer minha opinião, eu não a tenho de fato, mas sim duas hipóteses: (1)se Deus não existir, é meio óbvio — o fim veio pelo acaso e ponto final, game over!; mas se (2) ele existir, então todos fomos considerados imperfeitos demais para Vossa Santidade, e então ele decidiu limpar a Terra de nós e o Universo da Terra.

E o ponto de impacto é o Brasil, o que é morbidamente cômico. Sempre enchemos a boca para nos gabar de que aqui não há vulcões, tornados e demais desastres naturais — como se a gente precisasse de mais tragédias! “Deus é brasileiro!”, dizíamos em nossa falsa segurança.

Brasileiro ou gringo, Ele já deu seu veredicto!

O comunicado oficial foi feito exatamente oito dias antes do suicídio da minha mãe, na sexta-feira 13. Pra quem duvidava que a data dá azar, eis sua prova. Não me recordo das proporções do meteoro, mencionadas no plantão urgente que interrompeu meu filme favorito (aliás, interromper O Morro dos Ventos Uivantes pra me falar que eu vou morrer é imperdoável), mas não faz diferença.

Ele é grande o suficiente para matar a todos, sem exceção. A todos os que sobreviverem, pelo menos. Lembra que eu disse que está uma algazarra lá fora? Pois então, só contextualizando: as ruas estão “cemiterizadas” com os corpos dos mais desesperados; alguns, é claro, foram assassinados em brigas e assaltos.

Primeiro veio o choro coletivo, seguido de preces a Deus. Ainda agora alguns acham que serão arrebatados momentos antes da queda do meteoro. Depois vieram os gritos, as brigas, os grupos criminosos que a polícia chamou de “gangues do apocalipse”. Rapidamente a maldade tomou conta de alguns; o medo de outros — e o desespero de todos.

Olavo, meu vizinho de infância, também se suicidou. Enforcamento numa árvore. Eu o vi, preso à corda, o rosto pálido pela falta de sangue… Mas é como se nada mais me chocasse de verdade.

Hoje vi uma vizinha, mãe solteira, esfaquear as duas filhas. Onde isso vai parar? Quer saber, não importa: TODOS VAMOS MORRER!

As ruas estão um caos: supermercados saqueados, veículos incendiados, pessoas perdendo a razão, a memória, a humanidade…

E ainda assim, a vida insiste em não me deixar. Ainda respiro. Ainda como. Ainda durmo e acordo. Ainda ando. E não espero mais nada. Ou quase nada: a exceção é o meteoro. Já que é inevitável, queria que chegasse logo e destruísse de uma vez a História da Terra.

Vou dormir. Amanhã é o Grande Dia. O dia do fim. Seremos esquecidos e todos os nossos esforços serão humilhantemente destroçados. Todas as lutas por igualdade, toda ciência, filosofia, toda forma de arte, tudo desaparecerá para sempre. Perda total.

Boa noite. Bem que eu poderia morrer dormindo…

***

Hoje não quero ver o sol. Esperarei o cataclismo em meu quarto. Fones de ouvido no último volume. Porta trancada. Janela fechada. Diário e caneta na mão. Mas meu destino é pior que o da própria Anne; alguém leu o diário dela, mas o meu nunca será sequer encontrado.

Essa noite sonhei que tudo isso era um trote, um engano. Nenhum meteoro caiu. Olavo morrera em vão, assim como as duas meninas esfaqueadas e tantos outros. O mundo prosseguiu. E eu segui viva.

O mundo então se tornou um lugar diferente, mais humano. A experiência de quase morte coletiva nos fez rever muitas coisas e nos transformou para a melhor.

Mas então não foi em vão? “, eu me perguntava no sonho. “Será dessa forma o Dia do Juízo, a peneira, a separação do joio e do trigo? Por quê inocentes precisaram pagar? O mal acaba aqui, ou é só temporário, e nossa natureza voltará a precisar de um novo meteoro?

Mas aquelas perguntas é que foram em vão. Eu acordei, e a realidade levou a esperança sonhada.

Voltei a escrever. Talvez esse fosse o último poema da humanidade:

DESOLAÇÃO

Se foram os sonhos

O amanhã é ilusão

Nada de arca desta vez

Apenas um meteoro em rota de colisão

Há pesar no olhar de cada um

Lágrimas e dor

Seres humanos sem esperança,

Sem humanidade ou amor

Há os que aceitaram seu frio destino

Pelo incandescente e cruel pedaço de céu

Há os que se tornaram monstros caçadores

Não importa, todos estamos ao léu

Nem sei porque escrevo isso

Ninguém quer ler agora, na verdade,

Mas, ainda assim, evita que eu fique louca,

Mais uma desvairada ateando fogo à cidade

A hora a se aproxima

E, no fim, ninguém acreditava realmente nas pregações

Todos estão, ou em fúria ou em desesperança

Todos sabemos que chega ao fim cada respiração

Cada batida de coração

Não há mais futuro, não para nós;

Estrelas continuarão a iluminar

Planetas continuarão a orbitá-las

Mas não haverá olho para observar

Agora nos despedimos

Daquilo que sempre desprezamos

Nossa Terra, família e amor

E nunca na verdade vivemos,

Sempre na verdade mentimos

É isso. Ouço os gritos à distância. Lamentos antes do fim. Ouço sons estrondosos também,um pouco mais distantes que os gritos. Logo chegará aqui. Adeus mundo.

Meu nome era Maya. Maya. Maya. Maya. May