Os Contos dos Quatro Humores: Sangüíneo, o Ar

A velocidade do armut já era conhecida por Veigo, restava a ele se antecipar aos movimentos da fera de relativa inteligência. Algumas armadilhas foram preparadas com antecedência: redes de energia, buracos, espinhos de madeira com líquido paralisante, etc., tudo estava pronto para que o armut sentisse o cheiro adocicado da cascadeira — alimento preferido do bicho —, indo direto para a emboscada. No alto de uma gigantesca árvore, sentado em um dos galhos sem qualquer receio dos mais de 40 metros de altura, o jovem Numaq Veigo aguardava sua presa. Humano de aparência simpática, bastante carismática, sorria para si mesmo durante a espera, olhando com orgulho o caminho que ele mesmo havia criado na tentativa de capturar o armut. Veigo era magro e alto para um humano, tinha aproximadamente 1,88m, porém, era atlético, consequências de sua vida como caçador em Galmori; os olhos e os cabelos eram castanho-escuros puxando bastante para o preto, aqueles expressavam alegria e jovialidade, estes eram como ondas formadas pelo vento, leves e finos.

Em sua mão direita segurava uma lança feita com a madeira da mesma cascadeira que havia usado as folhas para atrair o armut, ele mesmo havia feito a lança enquanto esperava, a madeira da árvore estava entre as três árvores mais resistentes de todo o planeta Galmori.

O som das árvores balançando chamou a atenção de Veigo, fazendo-o girar a cabeça na mesma direção, mantendo firme a lança para o primeiro e único golpe que tinha. O calor da floresta fazia sua testa suar, o sangue fervia com a adrenalina da espera enquanto o coração disparava de excitação. Finos raios de sol que, milagrosamente, atravessavam as densas copas abarrotadas de folhas, assemelhavam-se a um ato de Providência, o caminho feito por Veigo estava estranhamente bem iluminado. Os armut eram bestas com pouca visão, tinham sérios problemas com lugares escuros e, exatamente por isso, buscavam, a qualquer custo, locais bem iluminados. O fato desses raios de sol conseguirem atravessar as copas, para Veigo, era uma incrível coincidência — ou talvez não.

            Estou com sorte hoje! Aí vem ele!, pensou.

O armut estava quase no lugar certo para o ataque, bastava mais alguns poucos metros para Veigo capturar sua maior presa, até o barulho de folhas agitando e cascos trotando cessar. Por que ele parou?, pensou franzindo o cenho. Por instinto, acabou afrouxando a mão que segurava a lança, baixando o braço sem notar que o armut havia lhe desarmado com aquele inesperado movimento. Quando a fera retomou o impulso inesperadamente, Veigo perdeu o equilíbrio com o susto, escorregando um dos pés. Em perfeita sincronia com o erro de Veigo, o armut saltou para fora da densa mata rosnando de fúria, as árvores com troncos mais finos foram varridas pela rígida cabeça que a besta possuía, a baba escorrendo entre os dentes afiadíssimos, avançando contra a árvore em que Veigo estava, agora, pendurado. Pertencendo a uma espécie bastante agressiva, com seu par de presas imensas e afiadas, chifres no focinho e um tamanho considerável, sua pelugem escura intimidava grande parte das outras feras, o armut era perigoso quando enfurecido, podendo caçar sua vítima indefinidamente. Os armuts tinham uma ótima memória.

Como era uma espécie razoavelmente inteligente, a fera percebeu que Veigo estava em apuros e poderia cair a qualquer momento, dando violentas cabeçadas no tronco para agilizar sua queda. Cada investida fazia a árvore sacudir violentamente, semelhante a um tanque. Não demorou muito para que Veigo perdesse as forças e o equilíbrio por completo, caindo em direção aos chifres e dentes da besta.

            Estou morto!, pensou o rapaz, fechando os olhos, certo que apenas um milagre salvaria sua vida. Se houver alguém aí, não importa quem seja, essa seria uma boa hora para aparecer!, pediu em pensamento, acreditando, minimamente, que algo poderia acontecer.

Enquanto caía, Veigo achou a demora para chegar aos chifres do armut muito estranha, a distância entre o galho e o chão não era tão grande assim. Abriu os olhos com receio do que iria ver: grandes dentes e chifres afiados capazes de lhe partirem ao meio com facilidade, no entanto, apesar do armut estar cerca de um palmo de distância, ele não se movia; nada se movia. Estava tudo congelado, como se o tempo tivesse parado, deixando Veigo em pleno ar sem qualquer equipamento para flutuação. Ele era o único que conseguia se mover, na verdade.

— O que está acontecendo? Como o tempo parou do nada? — perguntou a si mesmo, olhando para as próprias mãos enquanto as movia.

Numaq Veigo… — duas vozes, uma masculina e outra feminina, ecoaram em uníssono.  — Numaq Veigo… — as vozes repetiram o nome dele. Diante dos olhos do jovem rapaz uma fenda no espaço foi aberta, revelando um ser que lentamente saía do corte escuro. A fenda se expandiu para um grande buraco negro aparentemente sem fim; havia apenas o vazio e aquele ser dentro dele. A entidade tinha forma humana feminina, mas apenas seus pés e suas mãos estavam expostos, o resto do corpo era coberto por um manto feito do que parecia ser uma sombra viva, movendo-se como uma fumaça espessa; a pele era branca e delicada; o rosto estava coberto por uma máscara também branca de expressão alegre, com um largo sorriso cobrindo grande parte do rosto e olhos que acompanhavam a alegria.

— Quem… quem é você? — o medo estava estampado no rosto de Veigo.

Olá, jovem Veigo! ­Eu sou Árimah, uma das quatro Deusas dos Humores — ela flutuou para perto dele. — É de mim que os sanguíneos obtêm sua estrutura mineral ao nascerem — com um estalar dos dedos a deusa fez o corpo de Veigo flutuar lentamente até o chão, colocando-o de pé.

            Deusa? Do que ela está falando? O que é isso de “sanguíneos”?, Veigo estava de boca aberta e completamente perdido enquanto era movido por uma força desconhecida, não sabia como reagir. Será que eu morri? Ou isso é um son…

            — Isso não é um sonho, Numaq Veigo — a deusa acabou antecipando a conclusão do rapaz. — Sua falta de fé é perturbadora, mortal.

— Você leu a minha mente?! — indagou o rapaz.

Não preciso ler a sua mente, meu jovem, eu sei tudo sobre você: o que houve, o que há e o que haverá — ela tocou a testa de Veigo com o indicador e uma cachoeira de imagens desabou sobre o rapaz. Eram lembranças antes da infância dele, muito antes mesmo dele ter nascido, quando ainda era um feto na barriga da mãe, depois um simples espermatozoide percorrendo um longo caminho; então houve um clarão tão forte que Veigo perdeu a visão por um tempo, foram apenas alguns segundos até tudo voltar ao normal e ele ser jogado para o que parecia ser o futuro. Diferente de antes, onde as imagens eram claras e discerníveis, agora tudo estava borrado e confuso, com muitas vozes falando ao mesmo tempo, barulhos de risadas e metais colidindo, gritos de sofrimento e urros de vitória. Não era possível ver os rostos das pessoas, nem identificar o lugar onde elas estavam, mas Veigo sentiu a beleza, a paz e a harmonia reinando no ambiente; era alegre e descontraído, um lugar que ele pensou valer a pena morar e lutar. Às vezes, sem aviso, as imagens piscavam como um holograma defeituoso ou com sinal distante, dando vez para cenas totalmente distintas, com pessoas gritando, sons de explosões, veículos marchando, lasers, metal colidindo. Num desses momentos, Veigo vislumbrou quatro pessoas, não dava para identificar quem eram, mas elas usavam armaduras brancas. Estavam sobre um monte, cada um segurando um estandarte com dois símbolos que o jovem rapaz desconhecia. Quando Árimah se afastou de Veigo as imagens sumiram por completo, não restou nenhum rastro de que aquilo tinha realmente acontecido. Ele estava ofegante, o suor escorria sobre os olhos, o cansaço era evidente. Exausto, desabou de joelhos sobre o chão coberto por um tapete de folhas secas.

— Isso foi… isso foi a minha vida? Era o meu futuro?! — questionou quase sem fôlego.

Sim, essas foram imagens da sua vida, do passado ao seu futuro. Porém, o futuro nunca é engessado, mas fluido — ela flutuou ao redor de Veigo. — Até mesmo nós, as deusas, não podemos interferir no futuro, mesmo que ele se apresente para nós por completo, isto é, que nós saibamos como ele será, não nos demos a permissão para alterá-lo — dessa vez ela flutuou para o alto, ficando alguns metros acima de Veigo. — Fizemos isso para que vocês, mortais, pudessem mudar seu futuro.

— Vocês se impediram de mudar o futuro para que nós pudéssemos mudá-lo? — a indagação soou mais para si mesmo do que para a deusa. — Por quê?

Ora, Veigo, a resposta é simples: porque nós os amamos — Árimah soltou uma risada sincera e, voando até Veigo, fez um gesto com o indicador de baixo para cima; a resposta ao gesto veio com o corpo do rapaz flutuando até ficar de pé novamente.

— Vocês nos amam? Mas grande parte de nós nem sequer sabe da existência de vocês, como podem amar alguém ou algo que sequer retribui o sentimento? — era uma pergunta genuína, mas naturalmente mortal e peculiarmente humana. Árimah soltou outra risada, colocando as mãos na cintura e jogando a cabeça mascarada para trás; por fim se recompôs.

Você é realmente interessante, Numaq Veigo — atestou. — Mas ainda é mortal. Todo o Bem que há em você, não importa ele qual seja, em mim é infinito e puro. Em você é finito e amalgamado. O amor que você conhece, esse sentimento tão forte principalmente na sua raça, é uma fração, uma extensão de nós, deusas. Isso é uma consequência de viver sob a égide da temporalidade: tudo é passageiro, efêmero, nasce e morre. Nós, por outro lado, estamos sob a égide da atemporalidade, acima do tempo, não há passado ou futuro, pois tudo é presente. Não há nascimento e morte, mas tudo é — quanto mais Árimah explicava mais Veigo ficava interessado. Ela tinha um jeito de falar que lhe agradava, atraía, fazia brotar um sentimento de acolhimento e proteção, como entre uma mãe e um filho. O rapaz surpreendeu a si mesmo com um sorriso de orelha a orelha, os olhos brilhavam, o som da voz dela era aveludado, sua presença era aconchegante, até mesmo o paladar de Veigo despertou com um doce gosto adocicado. E em transe ele ficou, em silêncio, observando Árimah contar tudo o que queria. Ao fim da história, acordado do caloroso sentimento, ela o perguntou:

Não posso continuar nesse plano por mais tempo, Veigo. Está na hora de você tomar uma decisão importante que mudará completamente a sua vida. Sente-se — ela pediu, flutuando até o rapaz, parando diante dele. Veigo assentiu e sentou sobre um velho tronco próximo. — Minha vinda até você não foi acidente ou o destino, mas uma escolha minha. Há mais de 300 anos mortais que não nos manifestamos para vocês. A história é longa e não posso explicar tudo, mas digamos que houve um desligamento entre vocês e nós.

            — Como assim?

Lembra que eu lhe falei sobre a imposição que as deusas colocaram em si mesmas sobre o futuro de vocês? Então, nós demos a vocês, mortais, algo precioso e inegociável: o livre-arbítrio. Graças a isso, não cabe a nós, seres divinos, forçar os mortais a crer em nós, a conversar conosco, a ter fé. Isso deve vir de vocês livremente, por vontade própria — Árimah afastou-se de Veigo.

— Mas o que isso tem a ver comigo?

Você é uma das chaves que permitirá o religamento da união entre os mortais e as Deusas dos Humores.

— O que são esses humores?

Os humores são os temperamentos. Novamente questiono: lembra que eu disse que os sanguíneos retiram de mim sua estrutura mineral?

— Sim, eu me lembro.

Pois então… “Sanguíneo” é um dos Quatro Temperamentos existentes em todos os seres mortais com inteligência. São seres com grande capacidade de expansão, eles envolvem todos ao seu redor, são criativos, sociáveis e gostam de conversas e, principalmente, estão sempre a serviço do outro, ouvindo e dando a devida atenção mesmo que o outro seja um total desconhecido. Porém, é no conforto das amizades que o sanguíneo se realiza, sendo a vida do grupo, aquele que lubrifica todas as engrenagens para que elas não parem jamais. O Ar é o elemento que o representa, porque é expansivo e envolvente, não tem uma forma certa, mas está sempre em movimento, sempre no alto, permeia tudo — o entusiasmo de Árimah condizia com o humor ao qual fora atribuído a ela. — Além dele, meu caro, também há o Colérico, o Fleumático e o Melancólico. Para cada um dos temperamentos existe uma deusa que é sua causa primeira.

            — Então quer dizer que eu sou sanguíneo? Quer dizer, se você é a deusa ao qual o temperamento sanguíneo retira sua estrutura, e veio até mim, quer dizer que escolheu alguém que tenha esse temperamento, certo? — a indagação de Veigo estava mais para uma tentativa de organizar as próprias ideias, mas ele acabou soltando como uma pergunta.

Você está perfeitamente correto, meu rapaz — ela não conteve a gargalhada. — Eu estava certa em ter escolhido você para a tarefa. Sinto-me aliviada! Apesar de avoado, você é inteligente.

            — Que tarefa? — curioso, arqueou a sobrancelha desconfiado.

Ops! Acho que falei demais — gargalhou ainda mais alto. — Você será o meu Profeta, aquele que falará em meu nome aqui nesse plano, será o fio condutor entre o sagrado e o mundano. Mas, como eu já expliquei, não posso obrigá-lo a aceitar, você é livre para escolher.

— Profeta… — o olhar de Veigo estava distante, fitando alguma coisa no chão, mas ao mesmo tempo não olhando para nada. — Terei que ir embora de Galmori? — fitou Árimah.

Sim. Se você concordar em ser meu Profeta, precisará sair deste planeta. Conhecerá outros mundos, outras pessoas, grandes homens e mulheres, mas também terríveis e cruéis. Você sorrirá pelas vidas salvas e novas, mas também chorará pelas mortes prematuras e irrevogáveis. Será caluniado, humilhado, traído por quem se dizia amigo, mas também será erguido em ombros, respeitado, louvado como um herói e se surpreenderá com inimigos virando amigos.

Veigo refletia sobre as palavras de Árimah balançando a perna freneticamente, visivelmente nervoso e indeciso. O coração estava acelerado; sentia medo de sua escolha: se aceitasse, colocaria sua vida em risco, não era um guerreiro nem tinha o físico para tal, por isso costumava evitar certas circunstâncias que lhe colocassem em situação humilhantes; no entanto, se decidisse recusar a oferta, sentia que iria se arrepender de poder construir uma nova vida, uma nova história, de enfrentar seus medos, suas dúvidas e incertezas tão constantes.

A ebulição de emoções lhe embrulhara o estômago, e Veigo vomitou tudo o que havia comido naquela manhã, várias e várias vezes até não sobrar mais nada no estômago. Limpou a boca com um lenço que estava no bolso e levantou-se.

— Desculpe por isso.

É compreensível.

            — Eu… eu aceito — engoliu seco sentindo o gosto do vômito.

Hahaha! É assim que se fala, Veigo! — exclamou Árimah. — Esse é o retorno do religamento entre mortais e divindades, depois de muitos anos… Eu, Árimah, uma das Quatro Deusas dos Humores, dou minha bênção a você, Numaq Veigo, e o nomeio como meu Profeta de hoje até os teus últimos dias. Quatro é Um e Um são Quatro!

Uma forte luz saiu dos olhos de Árimah, tão forte e expansiva que deixou Veigo novamente sem enxergar. Quando a luz cessou, os olhos dele foram retomando a visão normal, acomodando as coisas novamente. Ao fim, com tudo aparentemente normal, Árimah tinha sumido e o armut estava caído ao lado da árvore. O tempo havia voltado ao normal, as folhas balançavam, o vento soprava e as aves cantavam. Veigo deu uma última olhada ao redor, agora não tão certo de que aquilo fora realmente real.

— Talvez a minha queda tenha o atordoado…

Avistou sua lança ao lado do armut e foi até lá para pegá-la, ao se abaixar e esticar a mão, percebeu que havia um símbolo em preto pintado no dorso da mão direita: uma pirâmide com um corte horizontal poucos centímetros do topo. Esfregou a região na tentativa de retirar, achando que não passava de alguma sujeita, mas não deu certo. O símbolo fazia parte da pele de Veigo e só seria retirado se a pele fosse retira junto.

— Bom… acho que isso confirma que não foi um sonho. E isso é um grande alívio — sorriu.