Conversando com a vida

Belém. Capital. Trânsito indiano. Só não mais desorganizado e confuso que a minha vida. Enfrento uma rotina que me enforca todos os dias como se eu fosse uma garrafa de cerveja, sendo assassinada pelo seu próprio gargalo. Boletos, aluguel atrasado, ciúmes, responsabilidades, ônibus lotado e um Burnout no trabalho sacrificante. Problemas. Muitos problemas. Acho que sou o ser humano que mais possui problemas nessa vida. Me chamo Sereno.

Um dia, subi no ônibus para ir ao trabalho. Sentei-me. Ufa! Como consegui essa proeza naquela hora da manhã? Enfim, peguei meu diário e tentei escrever algo. Escrevi sobre mudanças, tempo e sexo. E foi aí que algo chamou a minha atenção. Aquilo que eu vi, deixou-me petrificado; abestalhado; lesado mesmo. Olhei aquilo como se algum extraterrestre estivesse ali bem na minha frente e no mesmo ônibus do que eu. Larguei minhas anotações e observei.

Aff! Calor, sensação térmica de 40 graus, suor escorrendo pela coluna até o cóccix, gente reclamando do engarrafamento e do governo. Sirene. Ambulância. Meus tímpanos pediam “Socorro”. Mas eu ainda estava ali. Concentrado naquela… Bom, de repente, aquele ser olhou para mim e deu um longo sorriso. Sorriso? Como alguém consegue sorrir no mundo em que vivemos? Será que aquela senhora era alguma marciana? Como a mídia ou a Nasa não haviam divulgado aquele alienígena?

Meus Deus! Com fones de ouvido, ela ainda fazia uma dancinha com cabeça, devido a algum ritmo dançante que estava ouvindo. Como pode tanta alegria diante do vale das sombras que vivíamos naquele coletivo?

Um rapaz passou e esbarrou nela com violência. Ela virou-se para ele com rapidez. É agora. Esse é o momento em que aquela mulher se revoltaria e se transformaria no cavalo do vingador com nariz chamuscando e… “Opa! Tudo bem. O ônibus tá lotado. Eu entendo.” Respondeu aquela mulher. Hã? Como assim? Nada de reclamação? Ah! Eu teria falado poucas e boas para aquele sujeito.

Desci na próxima parada. E aquela criatura estranha descera junto comigo. Chuva. Ah, Belém! Eu já devia supor essa volatilidade no tempo. Fiquei puto. Cadê o meu guarda-chuva? Não estava na minha mochila. “Quer uma carona?”. Vi uma sombrinha minúscula na minha frente. “Como vou caber aí oh minha tia?” Pensei. O objeto era dela. Era da “Senhorinha” que, agora, oferecia uma vaga ao seu lado para eu não me molhar. Impossível. E ela ainda trazia aquele bendito sorriso no rosto. Aff!

Aceitei. E quando ela me deixou em um lugar seguro e coberto, seguiu o seu caminho: feliz e molhada. E eu? Ah! Molhado, enfurecido e triste com a forma que eu estava conversando com a vida.