O Dia que não foi dos Pais

Quando os olhares deles se cruzaram naquela rua, passado e presente se misturaram. Mágoas, pensamentos e vários “porquês” eram lançados um ao outro em busca de respostas imediatas. Na cabeça de um, os cabelos grisalhos eram visíveis e a idade avançada já pesava sobre um corpo cansado, devido às marcas de uma velhice difícil. A fase adulta do outro fizera com que a mente dele se perguntasse quanto tempo havia passado desde o ultimo desentendimento entre eles.

Pai e filho estavam ali. Parados. Olhando-se como se cada um projetasse uma lembrança da vida de ambos. O que era o genitor abaixou a cabeça e atravessou a rua com passos lentos e sua fiel bengala; seguindo rumo a sua casa. Quando chegou lá, abriu a porta com dificuldade e foi em direção a uma janela grande e retangular que ficara na sala de estar. Depois, olhou reflexivo para fora de sua residência, no qual o rosto envelhecido era iluminado pelos raios solares.

Ele escutara um barulho na cozinha e alguém entrou pelos fundos da casa, no entanto, aquele idoso manteve-se imóvel perante a esse fato como se já soubesse quem havia entrado ali. Uma presença adentrou o cômodo, no qual aquele senhor de idade se encontrava e este, ainda parado e reflexivo, falou:

– Sonhei tanto com esse momento. Me perdoa. Me perdoa filho pela a minha ausência em sua vida. – Disse o idoso, continuando de costas para o homem que chegara na sala.

-Pai…

-Espere! – Interrompeu o sexagenário sem sair daquela atmosfera de reflexão que ele se encontrava. -Eu não tenho mais tanto tempo nessa vida…

-Eu te amo. -Disse aquele homem; interrompendo também a fala do pai e erguendo os braços com lágrimas nos olhos.

O idoso virou-se e caminhou em direção ao seu filho. Eles se abraçaram e. de repente, alguém deu um ultimo suspiro naquele compartimento. Um coração foi parando como se o motor de uma máquina estivesse sendo desligada por etapas. Um corpo segurou-se no colo do outro até, os dois, atingirem o chão. A bengala caiu para um lado. E uma vida se foi. Mas, foi a respiração do filho que se dissipou, de forma lenta, no ar até desaparecer completamente.