O Inferno de Gabriel

Gabriel. Nome de origem hebraica. “Homem de Deus”, “Homem forte de Deus” segundo algumas definições na web. Mas, eu preciso lhe contar algo leitor.  E que nessa historia, ele fará jus ao significado do nome que possui, devido o seu comportamento admirável para com o próximo. Mas, preciso lhe contar algo leitor. Gabriel é um empresário belenense que sempre reconhece o bom trabalho dos seus funcionários, agradecendo os pelas suas boas ideias e profissionalismo. Mas, eu preciso lhe contar algo leitor. Quando chegava para trabalhar na sua empresa, questionamentos cordiais do tipo “Como vai você?” ou “ E a família, está bem?” eram frequentes, logo, pela manhã. Mas, preciso lhe contar algo leitor

-Ideia estupida! Ninguém tem mais nada a acrescentar de interessante nessa reunião? Será que sou o único que, verdadeiramente, pensa nessa empresa? Burros! Aqui é um jornal e não o ensino fundamental patético de vocês. Parece que as boas ideias saem, somente, de mim.

Lamento leitor. Esse, de fato, é o verdadeiro Gabriel da nossa história.

Certa noite, ele chegou em casa, como de praxe, com o semblante fechado, postura imperiosa e as sobrancelhas arqueadas. Abriu a porta e olhou, por alguns instantes, aquela sala imensa com a sua decoração suntuosa. Ficou parado na entrada, como se esperasse alguém vim lhe receber com um “boa noite” amável ou com algum abraço caloroso. No entanto, não veio ninguém. Gabriel baixou a cabeça, balançou ela de um lado para o outro, suspirou forte e, logo em seguida, ergueu a coluna mais imponente do que nunca, entrou e subiu as escadas.

Depois do banho, sentou-se em frente a sua penteadeira camarim cor branca e começou a desembaraçar os cabelos. Parou. Mirou a sua imagem refletida naquele espelho e pensou um pouco. De repente, teve a impressão de que alguma presença estranha havia passado pela sua costa. Olhou para trás e não viu ninguém. Tornou a pentear os seus cachos e, pela segunda vez, algo passou como um vulto novamente atrás dele. Os poucos pelos dos braços se levantaram. Deu um salto abrupto e perguntou:

-Quem está aí? – Questionou Gabriel; segurando a escova de cabelo na mão direita com os olhos azuis arregalados.  

Caminhou até o closet. Ligou a luz, no qual roupas de grife e vários sapatos estavam organizados com perfeição, mas não havia ninguém por ali. “Estou ficando louco?” pensou o órfão rico. E no instante que colocaria o dedo no interruptor para desligar as luzes, escutou uma voz grave atrás dele.

– Gabriel, não é?                     

Um frio subiu pela coluna vertebral de Gabriel e a saliva desceu rasgando a garganta. Voltou-se para a direção da penteadeira, mas nada foi visto. Correu para a cama e embrulhou-se da cabeça aos pés. Pensou em gritar. Mas quem iria lhe socorrer? Os empregados? “Melhor não. Eles não podem me ver nessa situação. Seria patético.” pensou Gabriel. Em seguida, Dormiu.

De manhã, no jornal, Gabriel passou por alguns colaboradores sem cumprimenta-los, como se eles nem estivessem ali, executando as tarefas diárias. A cabeça erguida, de modo majestosa, e a postura ereta destacavam-se. Geralmente, algum empregado via escapar um rebolado daquele andar firme, mas que, Gabriel, logo, consertava, a fim de evitar comentários.  Um funcionário lhe entregou alguns relatórios, no qual ele passou a vista em uma só olhada, sem se desfazer das sobrancelhas arqueadas, atirou-os contra o peito daquele subordinado, sem agradece ló. Nunca agradecia. Entrou no elevador. E quando saiu dele para seguir em direção a sua sala, viu uma cena que lhe chamou a atenção: uma criança que visitava o pai no trabalho abraçava o forte. Os ombros de Gabriel foram murchando, como balões de final de festa ao ver aquele momento de carinho. O semblante dele entristeceu e os olhos fecharam-se por um instante para que uma lembrança perturbasse os seus ouvidos e o levasse para uma viagem dolorosa dentro de si.

– Pai! Pai! Vamos brincar? Pai! O senhor tá me ouvindo?

– Agora não, Gabriel. Estou trabalhando. Procure a sua babá e saia daqui!

Gabriel retornou daquela recordação, cambaleando um pouco. Quando caiu em si de novo, as sobrancelhas arquearam-se mais uma vez e a coluna voltara para posição imperiosa que estava. Em seguida, escancarou a porta daquela sala e gritou:

– O que está acontecendo aqui? Eu já não falei que é proibido a entrada de crianças? Você sabe com quem está falando?

O colaborador se desculpou e informou que aquilo não aconteceria mais. O “dono da empresa” saiu, batendo a porta com força, assustando a criança que, logo, colocou as duas mãos nos ouvidos.

Gabriel entrou na sua sala, trancou a porta e grudou-se nela de costas. Quis chorar. Caminhou até as janelas, fechou as persianas e apoiou nelas com as mãos. Abaixou a cabeça e inspirou e expirou fundo. Não lagrimou. E, logo em seguida, assustou-se quando uma sombra passou por trás dele. Gabriel sentiu um arrepio e caminhou com passos largos em direção à saída. Ao girar a maçaneta da porta, escutou a mesma voz que o assustara na noite anterior.

– Por que tanta pressa jovem Gabriel?

Ficou petrificado. Virou a cabeça bem devagar com a esperança de que não pudesse encontrar ninguém ali. Enganou-se. Um homem de estatura mediana estava parado em sua frente. Vestia um blazer escuro, calça de linho e sapatos pretos. Usava uma gravata vermelha cor de sangue e apoiava-se em uma bengala dourada cravejada de pedras preciosas. Os cabelos estavam penteados, como se estivessem sob o efeito molhado de algum gel capilar.

– Quem é voce? E o que faz  na minha empresa? A minha secretária não lhe anunciou. – Questionou Gabriel; disfarçando alguns tremores no corpo.

– Sou o diabo e serei bem objetivo.

– Diabo? – Gabriel deu um sorriso irônico. – Achava que eu era o próprio.

– Estou procurando alguém para assumir o inferno e você tem o perfil que procuro. Mas, antes, você deverá passar por um desafio: se você ganhar, será considerado como rei em todo o inferno. Terá muitas almas, trabalhando para você. Se fracassar, você, apenas, retornará para a sua… vida.

– Como pode ver – Gabriel abriu os braços, olhando ao seu redor. – Sou rico e não preciso ser rei em lugar nenhum. Eu já sou aqui mesmo.

            – Tens tudo mesmo Jovem Gabriel? – O diabo inclinou a cabeça para frente, como se soubesse a resposta daquela pergunta capciosa. – Poderá ser rei nos dois mundos: lá e aqui. Bom, aguardarei, de qualquer modo, a sua decisão até amanhã. Chame por mim.

E em um piscar de olhos, aquela figura desconhecida sumiu feito fumaça. O empresário andou de um lado para o outro, procurando aquele homem que acabara de fazer aquela proposta, mas nada viu. De qualquer forma, tudo aquilo havia mexido com ele. Não tinha mais cabeça para trabalhar. E quando teve? Precisava distrair-se com alguma coisa. Pegou o celular, falou com alguém e saiu.

Às 12:30 h, daquele mesmo dia, Gabriel estava parado na janela de um quarto; refletindo sobre a decisão que devia tomar. Fumava.

– Oh Biel, volta pra cama cara. Vamos começar um segundo round?

– O que você faria se pudesse ter mais poder? – Perguntou Gabriel, olhando pela janela.

– Hã? Que papo é esse cara? Ah, mano, se eu tivesse a oportunidade de ter mais poder, eu não perderia essa chance ora.  Li, em algum lugar, que quem tem mais poder tem menos dores e nunca se sente só.

– Isso! – Gritou Gabriel, apontando o dedo indicador para cima como se tivesse descoberto algo. – Você tem razão.

-Pra onde tu vai?

– Não interessa! Duzentos reais resolvem não é? Toma.

Na manhã seguinte, o diabo ficara satisfeito com a decisão do “dono do jornal”. No mesmo dia, Gabriel entrou em uma van, no qual todas as janelas estavam fechadas, com cortinas bem decoradas cor de vinho. Havia sido também proibido pelo motorista de abri-las sob quaisquer circunstância. A viagem não demorou.

A van parou. Gabriel desceu e deparou-se com uma imagem lúgubre; triste. O céu tinha cor laranjada e a paisagem era montanhosa; assemelhando-se a um deserto estadunidense, com vegetação rasteira e o clima seco. Lá, nunca anoitecia. Percebeu também que haviam casas organizadas como um vilarejo medieval. “Casas? No inferno?” questionou-se. Havia também pessoas que transitavam por alí. Pessoas normais; tangíveis. E não os demônios com tridentes enormes como Gabriel imaginava. Enfim, ele estava no inferno.  De repente, uma fumaça fantasmagórica apareceu próximo do jovem rico e o diabo surgiu dela, dizendo:

– Você acaba de chegar ao meu reino Jovem Gabriel.

– Ahhh. Achei lindo! Parece com um rabisco em uma cartolina preta de uma criança do maternal.

O diabo deu algumas orientações ao “suposto desafiado” e, logo em seguida, sumiu de novo. Gabriel caminhou até sair dos limites daquele que considerou um “vilarejo”. Olhou para trás e viu aquelas residências se afastando. Minúsculas, agora. Chegou a um lugar, no qual havia muitas grutas e pedras gigantescas. Sentiu um tremor na espinha, mas continuou explorando aquele ambiente. Escutou passos. E quando correu para se esconder, escorregou e ralou os joelhos. Levantou-se num salto e o medo abafou um grito de dor. Escondeu-se atrás de uma pedra que cobria suficiente todo o seu corpo e espreitou.

Alguém abaixou-se no local do tombo de Gabriel e examinou aquele rastro de sangue, olhou para um lado e para o outro, como um caçador, presumindo que a caça ainda estivesse ali.

– Sei que você ainda está aqui. – Disse um homem; dando voltas em si mesmo para verificar se encontrava algo. – Você está machucado. Posso te ajudar. Não deve ser desse mundo não é?

Gabriel não o conhecia de fato. E nem queria conhecer. As mãos suavam de nervoso e, em seguida, todo o seu corpo sentiu inveja disto também. Mas, quando espreitou mais uma vez aquele desconhecido, surpreendeu-se com algo inesperado

– Te achei! – Disse aquele homem estranho, aparecendo do outro lado, de onde Gabriel estava, como um movimento rápido semelhante a um tele transporte.

O jovem empresário virou-se num salto abrupto e não conseguiu conter um gritou de susto, mas também não correu. Ficou parado.

-Calma! Desculpa cara. Me chamo Simão. Posso te ajudar?

– Não preciso da sua ajuda. Foi só um arranhão. E nem está doendo tanto assim.

– Não está doendo? – Simão riu – Você só pode estar louco cara. Vem comigo. Vou fazer um curativo em você. Tudo vai ficar bem. Garanto.

Simão levou Gabriel para a sua casa. De volta ao “vilarejo”, ele limpou os joelhos machucados, enrolou um pedaço de pano neles e deu um nó para que o sangue estancasse. Enquanto isso, Gabriel parecia nem sentir mais dor. Os seus olhos demoravam a piscar, pois estavam fixados em Simão. A íris azul piscina movimentava-se de um lado para o outro pelo globo ocular, como um raio x, analisando cada parte do corpo daquele rapaz desconhecido. A boca não fechava, admirada, devido às “habilidades medicas” de Simão

– Fui enfermeiro em vida. Tive filhos também. Não se preocupe.

– Obrigado!

Os dias passaram-se. Simão apresentou outros lugares daquele inferno para Gabriel. Contava-lhe também historias curiosas para o recente amigo e Gabriel esquecia até mesmo dele, quando ouvia todas elas com muita atenção.  Gargalhava de algumas engraçadas. Engraçado? Havia alguma coisa naquele inferno que era divertido? Mas, esses questionamentos nem, sequer, passavam mais perto do imaginário de Gabriel. Ele nunca havia dado tanta atenção para alguém assim. Beijaram-se, um dia. O coração do empresário bateu tão rápido nesse momento, ao ponto de quase explodir. A respiração era de uma maratona percorrida. Mas…

– Foi só um beijo e nada mais. Não se iluda com isso.

– Por que a resistência?

– Amor traz consequências; dores; fraquezas. E eu não sou fraco. Nunca fui e não será agora que vai ser diferente.

Era tarde demais. Ele estava apaixonado. Começaram a andar de mãos dadas por todo o inferno.

Um dia, Gabriel lembrou-se do motivo inicial de ele estar naquele lugar. Deu um ar de riso bobo por conta desse esquecimento. Foi ao castelo do Diabo para saber sobre o desafio proposto ou até mesmo para desistir de tudo aquilo. Quando chegou lá, escutou algumas vozes que, a principio, não soube distinguir de quem se tratava. Mas, depois, identificou a voz do próprio diabo. Gabriel caminhou até o salão principal de onde achava que vinha aquela discussão, chegou até o local e espreitou. Viu um homem de frente para o diabo. Gesticulava muito com as mãos e braços. Gabriel não conseguiu identifica-lo, a principio, mas, aquela voz tornava-se cada vez mais familiar. Até que ele viu parte do rosto daquele rapaz. Reconheceu o e quis escutar um pouco mais a conversa.

– Não quero mais fazer isso. Chega! Ele não merece.

– Tolo – o diabo gargalhou – Não percebe o que está em jogo aqui ou você não quer mais retornar á vida para rever seus filhos?

O diabo deu uma pausa, olhou por cima dos ombros daquele homem e falou:

– Olha quem veio nos visitar.

– Gabriel? Não é nada disso que você está pensando. – Disse Simão, erguendo os braços como se quisesse segurar o namorado. – Gabriel! Gabriel! Nãooo.

Gabriel saiu daquele lugar; passando a mão esquerda no rosto, enxugando as lágrimas. Simão virou-se, novamente, para o Diabo com olhos fulminantes, mas que, este, deu de ombros, como se não tivesse sido impressionado por aquela fúria.

Gabriel chegou a um penhasco que o próprio Simão havia o apresentado. Tinha uma visão privilegiada de todo o inferno dali de cima. Os cachos de seu cabelo batiam furiosos contra o seu rosto. Aproximou-se da beira do abismo, caiu de joelhos, olhou para o céu como se fosse suplicar algo para Deus. As lágrimas caiam como agua procedente de uma represa destroçada. Deixou a boca mais aberta possível e gritou. Deu socos de indignação em seu peito. “Idiota! Como fui tão burro?” questionava-se. Abaixou a cabeça e as duas mãos esconderam o rosto. Soluçava sem controle. De repente, sentiu passos atrás dele e alguém falou:

-Gabriel, eu ia te contar. Me perdoa cara? – Falou Simão não conseguindo esconder o choro.

O jovem rico ainda continuava com o rosto coberto pelas mãos, mas foi tirando em câmera lenta. Não chorava mais. Olhou para a frente e viu aquela paisagem lúgubre. As sobrancelhas arquearam-se, de modo estranho, dando um ar demoníaco a Gabriel. Os lábios cerraram-se e um sorriso irônico veio à tona. Logo em seguida, ele falou:

– E quem disse que eu também não fingi? – Gabriel levantou-se devagar do chão e virou-se para Simão – Eu também tenho um trato com o diabo. Estou aqui por isso e ainda continuo somente por isso também.  

– Bravo! – o diabo apareceu como um passe de mágica entre eles, batendo palmas. – Esse é, exatamente,  o perfil que procuro Jovem Gabriel.

Em seguida, o diabo fez aparecer duas taças em cada uma de suas mãos, com um líquido vermelho e misterioso, mas que não era vinho. Entregou elas para Gabriel e Simão. Em seguida, fez surgir uma para si mesmo em sua mão esquerda. Todos beberam. De repente, Simão colocou a mão no peito e o ar começou a lhe faltar. Gabriel não moveu, sequer, um musculo do corpo e olhava para Simão, como se ele fosse um inseto que deveria ser esmagado.

Simão caiu de joelhos e, depois, o seu corpo estendeu-se de lado no chão. Gabriel, aos poucos, desfazia aquele semblante sombrio e as suas lágrimas começavam a subir até o nível dos cílios. Logo em seguida, deu um pulo abrupto e correu em direção ao amado para socorrê-lo. Atirou-se junto ao corpo dele e disse:

– Estou aqui meu amor. – Gabriel pegou Simão no colo. – Vou te ajudar. Não se preocupe. Acredito em você. O que você fez com ele? – Gritou Gabriel, olhando para o diabo.

– Você acaba de perder o desafio Jovem Gabriel. Você é mais frágil do que eu imaginava. Esse é você. E esse pobre rapaz foi somente uma isca para pescar quem, realmente, você é. – Disse o diabo, com uma voz misteriosa, abaixando-se próximo ao casal. –Você não acha que esqueceu alguma coisa? – O diabo virou a cabeça, devagar, para o lugar de onde Gabriel tinha saído e corrido.

Quando Gabriel acompanhou o olhar do “dono do umbral”, viu que seu corpo estava no mesmo lugar; parado, como uma estatua de cera apresentada em um museu. Imagem perfeita. Na verdade, era ele com aquele mesmo semblante rígido ainda. Gabriel inclinou um pouco a cabeça para o lado esquerdo sem entender nada. Confuso. De repente, voltou-se para Simão e, este, estava se desfazendo em pó nos seus braços até sumir por completo. Gabriel procurou o diabo para questionar sobre aquele acontecimento. Mas não viu ninguém. Olhou para o céu, fechou os olhos e deu um grito que ecoou todo aquele lugar. Em seguida, quando caiu em si, viu-se deitado na sua própria cama, como se tivesse vindo de um sonho… Ou… de um pesadelo! Estava em seu quarto novamente; na sua casa; no seu mundo. As cortinas dançavam ao som da brisa penetrante que entrava pela janela. E o sol engatinhava em sua direção. Bem devagar. Bem devagar. Era um novo dia.