A tortura pela esperança

Ao Senhor Edouard Nieter
“Oh! Uma voz, uma voz, para gritar!…” Edgar Poe – O Poço e o Pêndulo.
Há muitos anos, ao cair da tarde, nos cárceres do Santo Ofício de Saragoça, o venerando Pedro
Arbuez de Espila – sexto prior dos dominicanos de Segóvia, terceiro Grande Inquisidor de Espanha
–, seguido de um frade redentor (mestre torturador) e precedido de dois encarregados da Inquisição,
os quais seguravam duas candeias, descia para uma enxovia perdida. Rangeu a fechadura de uma
enorme porta; entraram num mefítico in pace, no qual a janela gradeada lá em cima deixava
entrever, entre os anéis chumbados à parede, um cavalete escuro de sangue, um queimador, um
cântaro. Sobre uma cama de palha, preso por grilhões, canga de ferro ao pescoço, sentava-se,
desfigurado, um homem em trapos, de idade incerta.
O prisioneiro não era outro senão o rabino Aser Abarbanel, judeu aragonês acusado de usura e de
impiedoso desdém pelos pobres, que tem sido diariamente submetido a torturas, há mais de um ano.
Todavia, “sua cegueira é tão dura quanto o seu couro”, e ele recusa-se a abjurar sua fé.
O rabino, brioso de uma ascendência milenar, orgulhoso de seus antepassados – pois todos os
judeus dignos desse nome são ciosos do seu sangue -, descendia talmudicamente de Othoniel e, por
conseguinte, de Ipsiboe, mulher desse último Juiz de Israel, circunstância em que também
sustentara a sua coragem diante de incessantes suplícios.
Foi com lágrimas nos olhos, ao pensar que essa alma tão firme se escusava à salvação, que o
venerando Pedro Arbuez de Espila, tendo se aproximado do fremente rabino, pronunciou as
seguintes palavras:
– Meu filho, alegra-te: vão acabar agora as tuas provações neste mundo. Embora, em face de
tanta obstinação, eu tenha sido forçado, com lástima, a permitir o emprego de tantos rigores, o meu
encargo de fraterna correcção tem seus limites. És a figueira, que passando tanto tempo sem
frutificar, vem a mirrar, e só Deus lhe pode julgar a alma. Quem sabe se a infinita Misericórdia te
iluminará no teu último instante! Esperemos que assim seja. Tem havido exemplos. Dorme, pois,
em paz esta noite. Serás incluído amanhã no auto-de-fé: isto é, serás submetido ao queimadeiro,
fogueira premonitória das Chamas Eternas; como sabes, meu filho, só arde à distância e a Morte
leva duas horas para chegar (muitas vezes três), por causa dos panos molhados e gelados com que
temos o cuidado de proteger a frente e o coração dos holocaustos. Serão apenas quarenta e três.
Considere que, estando colocado na última fila, disporás do tempo necessário para invocar Deus,
para te ofertar esse baptismo do fogo, que é do Espírito Santo. Tem assim, esperança na Luz e
dorme.
Ao acabar este discurso, dom Arbuez, depois de, com um gesto, mandar desagrilhoar o infeliz,
abraçou-o ternamente. Depois coube a vez ao frade redentor, que, sussurrando, pediu ao judeu
perdão pelo que o obrigara a sofrer para o redimir; por fim, cingiram-no os dois encarregados cujo
beijo, dado através dos capuzes, foi silencioso. Terminada a cerimónia, deixaram o cativo nas
trevas, só e atónito.
* * *
O rabino Aser Abarbanel, de boca seca e olhar embrutecido de sofrimento começou por fitar, sem
muita atenção, a porta fechada. – “Fechada?…” Esta palavra, no mais íntimo de si, despertava, nos
seus confusos pensamentos, um devaneio. Acontecia que entrevira por um instante, pela fresta entre
a porta e a muralha, o cintilar de lanternas. Uma ideia mórbida de esperança, devido à fraqueza do
seu cérebro, convulsionou-lhe todo o ser. Arrastou-se para a insólita coisa que aparecera! E,
suavemente, inserindo um dedo com grande cautela na nesga, puxou a porta para si. Que assombro!
Por extraordinário acaso, o encarregado que a fechara rodara a grossa chave um pouco antes do
embate contra os montantes de pedra, de modo que a lingueta enferrujada não entrara no seu
encaixe, e a porta voltou a rodar nos gonzos.
O rabino arriscou um olhar para fora.
Encoberto por uma espécie de obscuridade lívida, distinguiu primeiro um semicírculo de paredes
terrosas recortadas por degraus em espiral; e, diante dele, cinco ou seis degraus de pedra acima, um
portal escuro, aberto para imenso corredor, do qual apenas as primeiras arcadas lhe eram visíveis.
Deitando-se rastejou até ao rés desse limiar – sim, era mesmo um corredor, mas de comprimento
desmedido! Iluminava-o uma luz pálida, um brilho onírico: suspensas das abóbadas, chamas de
vigia banhavam de tons azuis, a intervalos, o ar pardacento: – o fundo longínquo era todo sombra.
Nem uma porta lateral em toda essa extensão! De um só dos lados, à esquerda, havia seteiras, com
grelhas em cruz, abertas nas paredes, que deixavam perpassar o crepúsculo – que devia estar
anoitecendo, dadas as réstias rubras que de quando em quando riscavam o lajeado. E que silêncio
assustador!… Contudo, ao fundo, nas profundas dessas brumas, uma saída poderia dar para a
liberdade! A vacilante esperança do judeu era tenaz, pois era a última.
Sem hesitar, avançou, conservando-se junto à parede, e procurou camuflar-se com o tom sombrio
das longas muralhas. Avançou lentamente, arrastou-se com a respiração contida, e reprimia um
grito, quando lhe martirizava uma chaga mais recente.
De súbito, chegou até ele, no eco da senda de pedra, o ruído de sandálias que se aproximava.
Tremeu; a ansiedade abafava-o; escureceu se lhe a vista. Não era possível! Seria o fim? Agachou-se
num côncavo e, quase morto, esperou.
Era um encarregado apressado. Passou rapidamente, de lacerador na mão, de capuz rebaixado,
terrível, e desapareceu. A agonia do rabino parecia ter-lhe interrompido a própria vida, e ali ficou
ele, quase uma hora, incapaz de mover-se. Receando redobrados tormentos caso fosse apanhado,
assaltou-o a ideia de voltar ao calabouço. Mas a velha esperança sussurrou-lhe na alma o divino
talvez, que nos conforta sempre, nas mais dolorosas circunstâncias. Acontecera um milagre! Não
havia que duvidar mais! Pôs-se a rastejar de novo, para a possível fuga. Avançava extenuado de
sofrimento e de fome, trémulo de angústias – e esse sepulcral corredor parecia alongar-se
misteriosamente! E ele, avançando sem parar, continuava mirando a sombra distante, onde tinha de
estar a saída salvadora.
– Oh! Oh! – voltavam a soar passos, mas, desta vez, mais lentos e mais pesados. Surgiram, ao
fundo, emergindo no ar pardacento, com os seus chapéus compridos e de abas enroladas, as formas
brancas e negras de dois inquisidores. Conversavam em voz baixa e pareciam discutir sobre um
ponto importante, pois gesticulavam veementemente.
Ao vê-los, o rabino Aser Abarbanel fechou os olhos: batia-lhe tão desordenadamente o coração
que quase o sufocava; os seus andrajos estavam húmidos do suor da agonia; conservou-se imóvel,
estendido ao longo da parede, a boca aberta, sob os raios luminosos de uma chama de vigia, orando
ao Deus de David.
Diante dele, os dois inquisidores detiveram-se sob luz fraca da lâmpada – e isto certamente por
um acaso da discussão. Um deles, escutando o seu interlocutor, pôs-se a olhar para o rabino. E, sob
esse olhar, cuja expressão absorta começou por não compreender, o infeliz julgava sentir as tenazes
quentes a lacerarem-lhe de novo as pobres carnes; então ia voltar a ser um grito e uma chaga!
Desfalecendo, oprimido, com as pálpebras vibrantes, arrepiava-se ao roçar do burel do outro. Mas,
coisa estranha, mas natural, o olhar do inquisidor era evidentemente o de alguém profundamente
absorto na resposta que daria, absorto pelo que ouvia: estava fixo – e parecia olhar o judeu sem o
ver!
Com efeito, passados alguns minutos, os dois sinistros debatedores continuaram o seu caminho,
a passos lentos, sempre conversando em voz baixa, em direcção ao compito de onde viera o
prisioneiro: NÃO FORA VISTO!… No meio da horrível confusão dos pensamentos, brotou-lhe do
espírito esta ideia: “Não me vêem porque estou morto?” Uma horrível impressão tirou-o da letargia:
ao fitar o muro, junto ao rosto, julgou ver, diante dos seus, dois olhos ferozes que o espreitavam!…
Voltou a cabeça num súbito frenesi de pavor, arrepiando-se-lhe os cabelos!… Mas, não! Não.
Esfregou a argamassa com a mão: era o reflexo dos olhos do inquisidor, ainda impressos nos
seus, e deles projectados sobre duas manchas na muralha.
Adiante! Ele precisava apressar-se para a meta que imaginava (absurdamente, sem dúvida) ser a
sua salvação, para as sombras das qual não distava agora mais de trinta passos. Atirou-se de joelhos,
com as mãos espalmadas arrastou-se penosamente, e dai a pouco entrava no trecho escuro daquele
horrível corredor.
De súbito, o miserável sentiu um frio nas mãos que apoiava nas lajes: uma lufada de ar frio,
vinda de baixo de pequena porta, aonde iam ter as duas paredes. – Ah, Deus! Se esta porta desse
para o lado de fora! Sentiu-se invadido de uma vertigem de esperança! Examinou a porta de alto a
baixo, sem conseguir distingui-la bem, dada a escuridão que reinava à volta. – Pôs-se a tactear: nem
ferrolho, nem fechadura. – Uma simples aldrava!… Endireitou se: o trinco cedeu-lhe ao polegar: a
silenciosa porta abriu-se diante dele.
* * *
– ALELUIA!… – murmurou, num imenso suspiro de acção de graças, o rabino, que estava agora
em pé no limiar, contemplando a cena que tinha diante dos olhos.
Ao abrir se, a porta deixara ver jardins, uma noite estrelada! A primavera, a liberdade, a vida!
Dava para os campos que se prolongavam para as serras, cujas sinuosas linhas azuis se perfilavam
no horizonte – enfim, era a salvação! Ah, fugir! Havia de correr toda a noite por entre os limoeiros
cuja fragrância chagavam até ele. Uma vez nas montanhas, estaria salvo! Inalou o bom ar sagrado; o
vento reanimava-o, expandiram-se-lhe os pulmões. Sentiu, no coração dilatado, o Veni foras de
Lázaro! E, para voltar a abençoar o Deus que lhe concedia tal misericórdia, estendeu os braços à sua
frente, elevando os olhos ao firmamento. Era o êxtase da alegria!
Então, julgou ver a sombra dos seus braços virar-se para ele: – julgou sentir que esses braços o
abraçavam, o enlaçavam, e que o cingiam ternamente ao peito de alguém. De fato, havia uma alta
figura junto da sua. Confiante, desceu o olhar para essa figura – e ficou imóvel, ofegante,
estarrecido, de olhar baço, tremendo, de faces inchadas e espumando de terror.
– Horror! – estava nos braços do Grande Inquisidor, o venerável Pedro Arbuez de Espila, que o
fitava, com grossas lágrimas nos olhos, e um ar de bom pastor que voltou a encontrar a ovelha
tresmalhada!…
O tenebroso dominicano apertava o judeu ao peito com tão fervoroso impulso de caridade, que
os picos do cilício monástico lhe esgadanharam a pele. E, enquanto o rabino Aser Abarbanel, de
olhos revoltos sob as pálpebras, estrebuchava de angústia entre os braços do ascético Dom Arbuez e
percebia confusamente que todas as fases da fatal noite mais não eram do que um suplício previsto,
o da Esperança!, o Grande Inquisidor, num tom de pungente censura e de olhar consternado,
murmurava-lhe ao ouvido, com o hálito ardente e debilitado pelos jejuns:
– Então, meu filho, o que é isso? Então, na véspera talvez da salvação… querias deixar-nos?

A brincadeira

Um claro dia de inverno… o frio é forte e seco de estalar, e Nádenka, que eu levo pelo braço, fica com os cachos das fontes e o buço no lábio superior orvalhados de prata cintilante. Estamos no cume de um morro alto. Diante dos nossos pés, até a planície, lá embaixo, estende-se um declive escorregadio e brilhante no qual o sol se mira como um espelho. Ao nosso lado está um trenó pequenino, forrado de pano vermelho-vivo.

— Deslizemos até lá em baixo, Nadêjda Petrovna! – imploro eu. — Só uma vez! Garanto-lhe, ficaremos sãos e salvos!

Mas Nádenka tem medo. Toda essa extensão, desde as suas pequeninas galochas até o fim da montanha de gelo, se afigura a ela como um terrível abismo de profundidade imensurável. Ela fica tonta e perde o fôlego, só de olhar lá para baixo, quando eu apenas lhe proponho sentar-se no trenó – que terá então se ela arriscar despenhar-se no precipício? Ela morrerá, enlouquecerá!

— Eu lhe suplico! – digo eu. — Não tenha medo! Compreenda, isso é fraqueza, é covardia!

Nádenka cede, finalmente, e eu vejo pelo seu rosto que ela cede com receio pela própria vida. Acomodo-a, pálida e trêmula, no trenó, sento-me, enlaço-a com o braço e junto com ela precipito-me no abismo.

O trenó voa como uma bala. O ar cortado chicoteia o rosto, silva nos ouvidos, bate, belisca raivoso até doer, quer arrancar a cabeça dos ombros. A pressão do vento tolhe a respiração. É como se o próprio diabo nos tivesse agarrado com as suas patas, e, urrando, nos arrastasse para o inferno. Os objetos que nos cercam fundem-se num só longo risco, que corre vertiginoso. Parece, um instante mais, e estaremos perdidos!

— Eu te amo, Nádia! – digo eu a meia voz.

O trenó começa a deslizar mais devagar, mais devagar, os uivos do vento e os zumbidos das lâminas do trenó já não são tão terríveis, a respiração já não é tão ofegante, e, finalmente, chegamos ao fim. Nádenka está mais morta do que viva. Está pálida, mal consegue respirar. Eu a ajudo a se levantar.

— Nunca mais farei isto – diz ela, encarando-me com os olhos dilatados, cheios de terror. – Por coisa alguma do mundo! Por pouco não morri!

Logo depois, ela volta a si e já me fita com um olhar interrogador: terei sido eu quem disse aquelas quatro palavras, ou foi apenas uma alucinação dentro do zunido da ventania? Mas eu estou calado diante dela, fumando e examinando com atenção a minha luva.

Ela toma o meu braço e passeamos longos minutos diante do morro. O problema, visivelmente, não a deixa em paz. Foram pronunciadas aquelas palavras, ou não? Sim ou não? Sim ou não? É uma questão de amor-próprio, de honra, de vida, de felicidade, uma questão muito importante, a mais importante do mundo. Nádenka perscruta o meu rosto com olhares impacientes, tristes, penetrantes, responde atabalhoadamente, espera que eu fale. Oh, que jogo de emoções neste rosto encantador, que jogo! Vejo que ela luta consigo mesma, que precisa dizer alguma coisa, perguntar, mas não encontra palavras, está encabulada, amedrontada, embargada pela alegria…

— Sabe duma coisa? – diz ela, sem olhar para mim.

— O quê? – pergunto eu.

— Vamos mais uma vez… deslizar pelo morro.

Subimos para o cume, pela escada. De novo faço Nádenka, pálida e trêmula, sentar no trenó, de novo nos despencamos no precipício medonho, de novo uiva o vento e zunem as lâminas, e de novo, quando o vôo do trenó está no auge do ímpeto, eu digo a meia voz:

— Eu te amo, Nádenka!

Quando o trenó se detém, Nádenka lança um olhar para o morro que acabamos de descer voando, depois perscruta longamente o meu rosto, escuta, atenta, a minha voz indiferente e calma, e toda ela, toda, até mesmo o regalo de peles e o capuz, toda a sua figurinha, exprime extrema perplexidade. E no seu rosto está escrito: “Mas o que é que está acontecendo? Quem pronunciou aquelas palavras? Foi ele, ou foi engano dos meus ouvidos?”.

Esta incerteza a perturba, a impacienta. A pobre menina não responde às minhas perguntas, franze a testa, está prestes a romper em choro.

— Não preferes ir para casa? – pergunto eu.

— Mas eu… eu gosto destas… descidas – diz ela, enrubescendo. Não quer deslizar mais uma vez?

Ela “gosta” destas descidas, e, no entanto, sentando-se no trenó ela, como das outras vezes, fica pálida, ofegante de medo, trêmula.

Descemos pela terceira vez, e eu vejo como ela fita o meu rosto, como observa os meus lábios. Mas eu aperto o lenço contra a boca, tusso, e quando chegamos ao meio do declive, deixo escapar:

— Eu te amo, Nádia!

E a charada continua charada! Nádenka se cala, está pensando… Acompanho-a para casa, ela procura andar mais devagar, atrasa o passo, espera sempre que eu lhe diga aquelas palavras. E eu vejo como sofre sua alma, como ela tem que se esforçar para não dizer: “Não pode ser que tenha sido o vento! E eu não quero que tenha sido o vento quem falou aquilo!”.

No dia seguinte de manhã, recebo um bilhetinho: “Se o senhor vai ao morro hoje, venha me buscar. N.”. E desde essa manhã, comecei a ir com Nádenka ao morro, todos os dias e, voando encosta abaixo, no trenó, eu pronuncio, cada vez, a meia voz, as mesmas palavras:

— Eu te amo, Nádia!

Logo Nádenka acostuma-se a esta frase, como ao vinho e à morfina. Não pode viver sem ela. É verdade – voar montanha abaixo lhe dá medo, como antes, mas já agora o medo e o perigo adicionam um encanto especial às palavras sobre o amor, as palavras que, como dantes, constituem uma charada e oprimem a alma. São sempre os mesmos dois suspeitos: eu e o vento… Qual dos dois lhe declara o seu amor, ela não sabe, mas, ao que parece, isto já não lhe importa mais; não importa o vaso em que se bebe, importa ficar embriagada!

Um dia, fui até o morro sozinho; misturei-me à multidão e vi como Nádenka chegou até o sopé, como me procurou com os olhos… E depois, timidamente, ela sobe os degraus… Ela tem medo de ir sozinha, oh, quanto medo! Está pálida como a neve, treme e vai, como se fosse para o cadafalso, mas vai, vai sem olhar para trás, com decisão. Pelo visto, ela resolveu, finalmente, tirar a prova: será que se farão ouvir aquelas palavras estranhas, quando eu não estiver junto? E vejo como ela, lívida, com a boca entreaberta de horror, toma assento no trenó, fecha os olhos, e, despedindo-se para sempre do mundo, o põe em movimento… “zzzzzz…” zunem as lâminas. Ouvira Nádenka aquelas palavras? Não sei… Vejo apenas como ela se levanta do trenó, exausta, fraca. E vê-se pelo seu rosto que nem ela mesma sabe se ouviu alguma coisa ou não. O pavor, enquanto ela voava morro abaixo, roubou-lhe a capacidade de ouvir, de distinguir os sons, de entender…

Mas eis que chega o mês de Março, primaveril… O sol torna-se mais carinhoso. O nosso morro de gelo escurece, perde o seu brilho e se derrete, afinal. Acabaram os passeios de trenó. A pobre Nádenka já não tem mais onde ouvir aquelas palavras, e nem há quem as pronuncie, pois o vento não se ouve mais, e eu me preparo para voltar a Petersburgo – por muito tempo, quiçá para sempre.

Uma vez, pouco antes de partir, uns dois dias, estava eu sentado, ao crepúsculo, no jardinzinho, separado do pátio onde mora Nádenka por uma cerca alta de madeira. Ainda faz bastante frio, debaixo do lixo ainda há neve, as árvores ainda estão mortas, mas já cheira à primavera, e, preparando-se para a noitada, as gralhas fazem grande algazarra. Aproximo-me da cerca e espio pela fresta. E vejo como Nádenka sai para os degraus e fixa o olhar tristonho e saudoso no firmamento. O vento da tarde sopra-lhe no rosto pálido e desanimado… Ele lembra-lhe aquele outro vento, que uivava lá no morro, quando ela ouvia aquelas quatro palavras, e seu rosto fica triste, triste, e pela face desliza uma lágrima. E a pobre menina estende os braços, como se implorando ao vento que lhe traga aquelas palavras mais uma vez. E eu, esperando o vento favorável, sopro a meia voz:

— Eu te amo, Nádia!

Deus meu, o que se passa com Nádenka! Ela solta um grito, sorri com o rosto inteiro e estende os braços ao encontro do vento, risonha, feliz, tão bonita.

E eu vou arrumar as malas…

Isto foi há muito tempo. Agora, Nádenka já é casada; casaram-na, ou foi ela mesma que quis – isto não importa – com um secretário da Curadoria, e hoje ela já tem três filhos. Mas os nossos passeios no morro e a voz do vento trazendo-lhe as palavras “eu te amo, Nádenka”, não foram esquecidos. Para ela, isto é hoje a mais feliz, a mais comovedora e a mais bela recordação de sua vida…

Mas eu, hoje, que estou mais velho, já não compreendo mais por que dizia aquelas palavras.

Não compreendo mais por que brincava…

Conversando com a vida

Belém. Capital. Trânsito indiano. Só não mais desorganizado e confuso que a minha vida. Enfrento uma rotina que me enforca todos os dias como se eu fosse uma garrafa de cerveja, sendo assassinada pelo seu próprio gargalo. Boletos, aluguel atrasado, ciúmes, responsabilidades, ônibus lotado e um Burnout no trabalho sacrificante. Problemas. Muitos problemas. Acho que sou o ser humano que mais possui problemas nessa vida. Me chamo Sereno.

Um dia, subi no ônibus para ir ao trabalho. Sentei-me. Ufa! Como consegui essa proeza naquela hora da manhã? Enfim, peguei meu diário e tentei escrever algo. Escrevi sobre mudanças, tempo e sexo. E foi aí que algo chamou a minha atenção. Aquilo que eu vi, deixou-me petrificado; abestalhado; lesado mesmo. Olhei aquilo como se algum extraterrestre estivesse ali bem na minha frente e no mesmo ônibus do que eu. Larguei minhas anotações e observei.

Aff! Calor, sensação térmica de 40 graus, suor escorrendo pela coluna até o cóccix, gente reclamando do engarrafamento e do governo. Sirene. Ambulância. Meus tímpanos pediam “Socorro”. Mas eu ainda estava ali. Concentrado naquela… Bom, de repente, aquele ser olhou para mim e deu um longo sorriso. Sorriso? Como alguém consegue sorrir no mundo em que vivemos? Será que aquela senhora era alguma marciana? Como a mídia ou a Nasa não haviam divulgado aquele alienígena?

Meus Deus! Com fones de ouvido, ela ainda fazia uma dancinha com cabeça, devido a algum ritmo dançante que estava ouvindo. Como pode tanta alegria diante do vale das sombras que vivíamos naquele coletivo?

Um rapaz passou e esbarrou nela com violência. Ela virou-se para ele com rapidez. É agora. Esse é o momento em que aquela mulher se revoltaria e se transformaria no cavalo do vingador com nariz chamuscando e… “Opa! Tudo bem. O ônibus tá lotado. Eu entendo.” Respondeu aquela mulher. Hã? Como assim? Nada de reclamação? Ah! Eu teria falado poucas e boas para aquele sujeito.

Desci na próxima parada. E aquela criatura estranha descera junto comigo. Chuva. Ah, Belém! Eu já devia supor essa volatilidade no tempo. Fiquei puto. Cadê o meu guarda-chuva? Não estava na minha mochila. “Quer uma carona?”. Vi uma sombrinha minúscula na minha frente. “Como vou caber aí oh minha tia?” Pensei. O objeto era dela. Era da “Senhorinha” que, agora, oferecia uma vaga ao seu lado para eu não me molhar. Impossível. E ela ainda trazia aquele bendito sorriso no rosto. Aff!

Aceitei. E quando ela me deixou em um lugar seguro e coberto, seguiu o seu caminho: feliz e molhada. E eu? Ah! Molhado, enfurecido e triste com a forma que eu estava conversando com a vida.

O Dia que não foi dos Pais

Quando os olhares deles se cruzaram naquela rua, passado e presente se misturaram. Mágoas, pensamentos e vários “porquês” eram lançados um ao outro em busca de respostas imediatas. Na cabeça de um, os cabelos grisalhos eram visíveis e a idade avançada já pesava sobre um corpo cansado, devido às marcas de uma velhice difícil. A fase adulta do outro fizera com que a mente dele se perguntasse quanto tempo havia passado desde o ultimo desentendimento entre eles.

Pai e filho estavam ali. Parados. Olhando-se como se cada um projetasse uma lembrança da vida de ambos. O que era o genitor abaixou a cabeça e atravessou a rua com passos lentos e sua fiel bengala; seguindo rumo a sua casa. Quando chegou lá, abriu a porta com dificuldade e foi em direção a uma janela grande e retangular que ficara na sala de estar. Depois, olhou reflexivo para fora de sua residência, no qual o rosto envelhecido era iluminado pelos raios solares.

Ele escutara um barulho na cozinha e alguém entrou pelos fundos da casa, no entanto, aquele idoso manteve-se imóvel perante a esse fato como se já soubesse quem havia entrado ali. Uma presença adentrou o cômodo, no qual aquele senhor de idade se encontrava e este, ainda parado e reflexivo, falou:

– Sonhei tanto com esse momento. Me perdoa. Me perdoa filho pela a minha ausência em sua vida. – Disse o idoso, continuando de costas para o homem que chegara na sala.

-Pai…

-Espere! – Interrompeu o sexagenário sem sair daquela atmosfera de reflexão que ele se encontrava. -Eu não tenho mais tanto tempo nessa vida…

-Eu te amo. -Disse aquele homem; interrompendo também a fala do pai e erguendo os braços com lágrimas nos olhos.

O idoso virou-se e caminhou em direção ao seu filho. Eles se abraçaram e. de repente, alguém deu um ultimo suspiro naquele compartimento. Um coração foi parando como se o motor de uma máquina estivesse sendo desligada por etapas. Um corpo segurou-se no colo do outro até, os dois, atingirem o chão. A bengala caiu para um lado. E uma vida se foi. Mas, foi a respiração do filho que se dissipou, de forma lenta, no ar até desaparecer completamente.

Beatriz, O anjo suicida

Na noite em que a lua não aparecia, surgia Beatriz o anjo suicida, com cortes nos braços e uma dor insuportável no coração, ela não mais dormia ficava a vagar toda noite em ruas escuras.
Um anjo sem asas e sem luz, ela tinha apenas feridas na alma e vontade de chorar e morrer também mas em nenhuma das noites a morte queria ser seu bem.
Com os cabelos ao vento, olhos que refletiam a mais bela luz da noite, não poderiam refletir alegria pois era uma coisa que ela não sentia. Com suas roupas vermelhas cor de sangue e suas lâminas brilhantes no prédio abandonado ela subia.
Ela subiu até encontrar sua mais perigosa agonia, até encontrar as invenções de sua cabeça defeituosa. Ela encontrou seu coração de vidro, estilhaçado no chão e ao encostar nele de cortou. Cortou toda sua pele pálida, pintou com seu própria sangue sua pintura e viu que seu ex amor adormecia. Mas ele não podia estar lá, ele um dia também já foi um anjo suicida, só que ele não mais existia a morte o tinha levado.
Ele abriu os olhos e ela estava louca para correr para seus braços, mas algo nele havia mudado. Tinham demônios em seus olhos, isso ela podia ver, só não podia imaginar que mata-la seria seu prazer.
A máscara que os demônio tinham do seu amor caiu, agora era só seus medos, tormentos, lamentos e traumas juntos, ela iria partir para o outro mundo e não seria mais um anjo.
Ela tentou correr, mas não conseguiu acabou caindo da escada que era muito grande quando parou de cair teve sua cabeça e aberta a machadada e seu cérebro foi partido em pequenos pedaços, mas não pararia por ai, seu sangue serviu como vinho e banho para a morte e do seu corpo e coração foi feito um banquete. Sua alma por fim, ficou presa e abandonada naquela casa e gritava, como gritava era o mais horrível terror, espero que ninguém tente entrar naquela casa.

Sex, 24 de Maio de 2019

Cronologia Viva

O salão do Conselheiro de Estado Charamikin está mergulhado em agradável penumbra. A grande lâmpada de bronze, com seu quebra-luz verde, tinge, à maneira de uma “noite da Ucrânia”, as paredes, os móveis, as fisionomias… De quando em quando, na lareira expirante, abrasa-se uma acha que se consome, e por um instante projeta nos rostos um clarão de incêndio. Isto, porém, não perturba a harmonia geral das luzes. O tom de conjunto, como diriam os pintores, mantém-se.
Ao pé da lareira, acha-se afundado em uma poltrona, na postura dum homem que acaba de jantar, Charamikin em pessoa, senhor idoso, de suíças cinzentas de funcionário, olhos de um azul doce. Transparece-lhe no rosto a benignidade. Um sorriso melancólico franze-lhe os lábios. A seus pés, sobre um mocho, com as pernas voltadas para a lareira e estirando-se preguiçosamente, está sentado o Vice-Governador Lopnef, galharda figura de cerca de quarenta anos.
Junto ao piano brincam os filhos de Charamikin – Nina, Kólia, Nádia e Vânia.
Do salão da Sra. Charamikin chega, pela porta entreaberta, uma luz tímida. Ali, sentada à secretária, vê-se Ana Pavlovna, presidenta do Comitê das damas da cidade — jovem senhora, viva e picante, dos seus trinta anos e mais alguma coisa. Através do lornhom, os olhos negros e vivos deslizam pelas páginas de um romance francês. Sob o romance encontra-se, dilacerado, um relatório do Comitê, do ano anterior.
— Antigamente, nesse ponto de vista — diz Charamikin, piscando os olhos pacatos à claridade dos tições morrediços —, nossa cidade era mais favorecida. Não se passava um inverno que não aparecesse alguma estrela. Tivemos atores e cantores célebres. E agora?… Sabe o diabo o que é! Afora prestidigitadores e tocadores de realejo, não vem mais ninguém. Nenhum prazer estético… Parece que vivemos no mato… Sim… Lembra-se, Excelência, daquele trágico italiano?… Como se chamava mesmo?… Um moreno, alto… Queira Deus que eu me lembre! Ah! sim! Luigi Ernesto di Ruggiero. Um talento notável… Que força! Era ele abrir a boca, e o teatro em peso estremecia. A minha Anniutotchka se interessava muito pelo talento dele. Conseguiu-lhe o teatro e vendeu bilhetes para dez espetáculos… Ele, em recompensa, lhe deu lições de declamação e de música. Um amor de homem! Ele esteve aqui… não vá eu enganar-me… há doze anos… Não, estou enganado… Menos, apenas dez. Anniutotchka, que idade tem a nossa Nina?
— Vai fazer dez anos — gritou Ana Pavlovna lá do seu escritório. — Por quê?
— Nada, minha filhinha, só para saber… E às vezes também vinham bons cantores… Lembra-se do tenore di grazia Priliptchin? Que amor de homem! Que aparência!… Um louro… semblante expressivo, maneiras parisienses… E que voz, Excelência! Só tinha um defeito: cantava algumas notas com o ventre e emitia o ré em falsete; no mais, tudo era bom. Dizia-se aluno de Tamberlick… Anniutotchka e eu conseguimos para ele o salão do Círculo, e, como prova de gratidão, ele cantava em nossa casa, dias e noites… Ensinava canto a Anniutotchka… Esteve aqui, lembro-me bem, pela Quaresma, isto há… doze anos. Não, mais!… Que memória, santo Deus! Anniutotchka, quantos anos tem a nossa pequena Nádia?
— Doze anos.
— Doze… se acrescentarmos dez meses… Exatamente… treze anos!… Antigamente havia na cidade — como direi? — mais vida… Vejamos, por exemplo, os nossos saraus de beneficência. Que belos saraus que houve… Que encanto! Tocava-se, cantava-se, declamava-se… Depois da guerra, lembro-me bem, houve aqui prisioneiros turcos. Anniutotchka organizou um sarau em benefício dos feridos. Rendeu mil e cem rublos… Os oficiais turcos ficaram doidos com a voz de Anniutotchka, e levavam o tempo a lhe beijar a mão. Eh! eh!… Apesar de asiáticos, são pessoas reconhecidas, os turcos. O sarau alcançou tamanho êxito que — imagine V. Exa. — eu anotei no meu diário. Isto foi, se estou bem lembrado, em 76… Não… Em 77… Não! Um momento! Quando foi mesmo que tivemos os turcos? Anniutotchka, quantos anos tem o nosso Kolitchka?
— Eu tenho sete anos, papai — disse Kólia, garoto trigueiro, de cabelos pretos como carvão.
— Sim, a gente envelhece — assenta Charamikin, sorrindo. — A nossa energia já não é a mesma… Eis aí a razão de tudo… A velhice, meu caro! Faltam precursores novos, e os velhos envelheceram… Já não se tem o mesmo ardor. Quando eu era mais moço, não gostava que as pessoas se aborrecessem… Era o primeiro a ajudar a nossa Ana Pavlovna… Tratava-se de organizar um sarau de beneficência, uma tômbola, de dar apoio a uma celebridade estrangeira? Eu largava tudo e metia mãos à obra… Um inverno, recordo-me bem, corri tanto, trabalhei tanto, que caí doente… Não posso esquecer esse inverno… Lembra-se do espetáculo que organizamos com a nossa Ana Pavlovna em benefício das vítimas do incêndio?
— Em que ano foi isso?
— Não faz muito tempo… Em 79. Não, creio que em 80. Um momento. Que idade tem nosso Vânia?
— Cinco anos — grita Ana Pavlovna lá do seu salão.
— Então foi há seis anos… Sim, meu caro, tantas coisas… Agora já não há nada disso! O ardor já não é o mesmo.
Lopnef e Charamikin meditam. A acha morrediça aviva-se pela última vez e se cobre de cinza.

Amor Verdadeiro

Meu nome é Joe. É assim que meu colega, Milton Davidson, me chama. Ele é um programador e eu sou um programa de computador. Faço parte do complexo Multivac e estou conectado com todas as suas outras partes espalhadas pelo mundo inteiro. Eu sei tudo. Quase tudo.

Eu sou o programa particular de Milton. O seu Joe. Ele entende mais sobre programação do que qualquer outra pessoa no mundo, e eu sou o seu modelo experimental. Ele me fez falar melhor do que qualquer outro computador.

– È só uma questão de emparelhar sons com símbolos, Joe – ele me disse. – E esse o modo como funciona no cérebro humano, embora ainda não saibamos que símbolos existem no cérebro. Mas eu conheço os seus símbolos e posso fazê-los corresponder a palavras, um por um.

Por isso eu falo. Não acho que falo tão bem quanto penso, mas Milton diz que falo muito bem. Milton nunca se casou, embora já tenha quase quarenta anos. Ele nunca encontrou a mulher certa, foi o que me contou. Um dia, ele disse:

– Ainda vou encontrá-la, Joe. Encontrarei a melhor de todas. Vou ter um verdadeiro amor e você vai me ajudar. Estou cansado de aperfeiçoá-lo para resolver os problemas do mundo. Resolva o meu problema. Encontre-me um amor verdadeiro.

– O que é um amor verdadeiro? – disse eu.

– Não importa. Isso é abstrato. Apenas me encontre a garota ideal. Você está conectado com o complexo Multivac, por conseguinte tem acesso aos bancos de dados de cada ser humano no mundo. Vamos eliminar todos eles por grupos e classes até ficarmos com apenas uma pessoa. A pessoa perfeita. E ela será minha.

– Estou pronto – disse eu.

– Elimine todos os homens primeiro – disse ele.

Isto foi fácil. Suas palavras ativaram símbolos em minhas válvulas moleculares. Eu pude amplificar-me para entrar em contato com os dados acumulados sobre cada ser humano no mundo. Conforme suas palavras, afastei-me de 3.784.982.874 homens. Continuei em contato com 3.786.112.090 mulheres.

– Elimine todas as que tiverem menos de vinte e cinco anos – disse ele – e todas as com mais de quarenta. Depois, elimine todas com um QI inferior a 120, todas com uma altura inferior a um metro e cinqüenta e superior a um metro e setenta e cinco.

Deu-me medidas exatas, eliminou mulheres com filhos vivos, eliminou mulheres com várias características genéticas.

– Não estou certo quanto à cor dos olhos – disse Milton. – Por enquanto, deixe isso de lado. Mas nada de cabelos ruivos. Não gosto dessa cor de cabelo.

Duas semanas depois tínhamos baixado para 235 mulheres. Todas falavam muito bem o inglês. Milton disse que não queria um problema de linguagem. Ou nos momentos íntimos, até a tradução por computador entraria no meio.

– Não posso entrevistar 235 mulheres – disse ele. – Levaria muito tempo e o pessoal descobriria o que estou fazendo.

– Isso traria problemas – disse eu. Milton tinha me mandado fazer coisas que eu não estava projetado para fazer. Ninguém sabia disso.

– Isso não é da sua conta – disse ele, e a pele do seu rosto ficou vermelha. – Escute aqui, Joe, vou lhe trazer holografias e você vai checar a lista por similaridades.

Ele trouxe holografias de mulheres.

– Essas aí são três vencedoras de um concurso de beleza – disse. – Veja se alguma das 235 corresponde.

Oito eram correspondências muito boas.

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– Ótimo – disse Milton. – Você tem os seus bancos de dados. Estude suas exigências e necessidades em termos de mercado de trabalho e providencie para tê-las aqui numa entrevista. Uma de cada vez, é claro. – Ele pensou um pouco, moveu os ombros para cima e para baixo, e completou: – Ordem alfabética.

Isto é uma das coisas para que não fui projetado para fazer. Deslocar pessoas de emprego para emprego, por razões pessoais, chama-se manipulação. Só pude fazer isso porque Milton tinha me ajustado para agir assim. No entanto, não poderia fazer isso para ninguém a não ser ele.

A primeira garota chegou uma semana mais tarde. O rosto de Milton ficou vermelho quando a viu. Ele falava como se tivesse dificuldade em fazê-lo. Ficaram juntos muito tempo e ele não prestou atenção em mim. Num certo momento, ele disse.

– Deixe-me levá-la para jantar.

– De certo modo não foi bom – Milton me disse no dia seguinte. – Estava faltando alguma coisa. É uma mulher bonita, mas não senti nenhum toque de verdadeiro amor. Tente a próxima.

Aconteceu o mesmo com todas as oito. Eram muito parecidas. Sorriam muito e tinham vozes agradáveis, mas Milton sempre achava que não estava bem.

– Não consigo entender, Joe – disse ele. – Você e eu selecionamos as oito mulheres que, no mundo inteiro, parecem ser as melhores para mim. Todas ideais. Por que elas não me agradam?

– Você as agrada? – disse eu.

Ele enrugou a testa e esmurrou com força a palma da mão.

– É isso aí, Joe. É uma via de mão dupla. Se não sou o ideal delas, não podem agir de modo a serem o meu ideal. Eu preciso ser, também, o verdadeiro amor delas, mas como fazer isso?

Ele pareceu pensar todo aquele dia.

Na manhã seguinte, se aproximou de mim e disse:

– Vou deixar você cuidar do assunto, Joe. Tudo por sua conta. Você tem meu banco de dados, e vou contar tudo que sei sobre mim mesmo. Você completará meu banco de dados nos mínimos detalhes, mas guarde todos os acréscimos para si mesmo.

– E depois, o que vou fazer com seu banco de dados, Milton?

– Depois você vai fazê-lo corresponder com as 235 mulheres. Não, 227. Esqueça as oito que encontramos. Arranje para que cada uma seja submetida a um exame psiquiátrico. Complete seus bancos de dados e compare-os com o meu. Encontre correlações. (Arranjar exames psiquiátricos é outra coisa contrária às minhas instruções originais.)

Durante semanas, Milton conversou comigo. Ele me falou de seus pais e parentes. Contou-me de sua infância, seu tempo de escola e adolescência. Contou-me das jovens que tinha admirado a uma certa distância. Seu banco de dados aumentou e ele ajustou-me para ampliar e aprofundar minha chave simbólica.

– Veja só, Joe – disse ele. – À medida que você absorve mais e mais de mim, eu vou ajustando-o para corresponder cada vez melhor comigo. Você começa a pensar cada vez mais como eu, por conseguinte, vai me compreendendo melhor. Quando você me compreender suficientemente bem, aquela mulher, cujo banco de dados for uma coisa que você entenda igualmente bem, será meu verdadeiro amor.

Ele continuava conversando comigo e eu passava a compreendê-lo cada vez mais.

Eu conseguia formar frases mais longas e minhas expressões se tornavam mais complicadas. Minha fala começou a ficar muito parecida com a dele, tanto em vocabulário quanto na ordenação das palavras e no estilo.

Certa vez, eu disse a ele:

– Veja você, Milton, não é apenas um problema de adequar uma moça a um ideal físico. Você precisa de uma moça que seja pessoal, temperamental e emocionaimente adequada. Quando isso acontece, a aparência é secundária. Se não pudermos encontrar uma que sirva nestas 227, devemos procurar entre as outras. Acharemos uma que também não se preocupará com a aparência que você ou qualquer outra pessoa tiverem, desde que a personalidade seja adequada. O que significa a aparência?

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– Absolutamente nada – disse ele. – Eu saberia disso se houvesse tido mais contato com mulheres. Evidentemente, pensando bem, tudo parece mais claro agora.

Sempre concordávamos, cada um pensava exatamente como o outro.

– Não vamos ter mais nenhum problema, Milton, se você me deixar fazer-lhe algumas perguntas. Posso ver onde, em seu banco de dados, há espaços brancos e irregulares.

O que veio a seguir, Milton dizia, era o equivalente de uma meticulosa psicanálise. É claro. Eu havia aprendido com os exames psiquiátricos de 227 mulheres, a totalidade das quais eu continuava observando intimamente.

Milton parecia muito feliz.

– Falar com você, Joe, é quase como falar com outro eu. Nossas personalidades chegaram a uma combinação perfeita. O mesmo acontecerá com a personalidade da mulher que escolhermos.

E eu a encontrei. Afinal, era uma das 227. Chamava-se Charity Jones e trabalhava como contadora na Biblioteca de História, em Wichita. Seu extenso banco de dados se ajustava perfeitamente ao nosso. Todas as outras mulheres tinham sido descartadas por um ou outro motivo à medida que seus bancos de dados aumentavam, mas com Charity havia uma crescente e espantosa ressonância.

Não precisei descrevê-la para Milton. Ele tinha coordenado meu simbolismo tão intimamente com o seu, que foi suficiente relatar pura e simplesmente a ressonância. A escolha se adequava.

Em seguida, era o problema de ajustar as folhas de serviço e exigências de trabalho de modo a conseguir que Charity tivesse uma entrevista conosco. Isto devia ser feito muito delicadamente, para que ninguém viesse a saber que estava ocorrendo uma coisa ilegal.

Evidentemente, Milton conhecia a manobra. Foi ele quem arranjou a coisa, foi ele quem cuidou de tudo. Quando vieram prendê-lo, em virtude de mau procedimento em trabalho, foi, felizmente, por algo que tinha acontecido há dez anos. Ele me informara sobre tudo, é claro, mas aquilo foi fácil de arranjar. E ele não comentará nada sobre mim, pois seu delito se tornaria muito mais grave.

Milton foi embora, e amanhã é 14 de fevereiro, Dia dos Namorados. Charity chegará então com suas mãos calmas e sua voz suave. Vou ensiná-la a me manejar e a cuidar de mim. O que importará a aparência quando nossas personalidades ressoarem juntas?

Eu direi a ela:

– Eu sou Joe e você é meu verdadeiro amor.

A terceira margem do rio

Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde
mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.

Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.
Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação.

Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — “Cê vai, ocê fique, você nunca volte!” Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — “Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?” Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.

Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram, tomaram juntamente conselho.
Nossa mãe, vergonhosa, se portou com muita cordura; por isso, todos pensaram de nosso pai a razão em que não queriam falar: doideira. Só uns achavam o entanto de poder também ser pagamento de promessa; ou que, nosso pai, quem sabe, por escrúpulo de estar com alguma feia doença, que seja, a lepra, se desertava para outra sina de existir, perto e longe de sua família dele. As vozes das notícias se dando pelas certas pessoas — passadores, moradores das beiras, até do afastado da outra banda — descrevendo que nosso pai nunca se surgia a tomar terra, em ponto nem canto, de dia nem de noite, da forma como cursava no rio, solto solitariamente. Então, pois, nossa mãe e os aparentados nossos, assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e, ele, ou desembarcava e viajava s’embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto, ou se arrependia, por uma vez, para casa.

No que num engano. Eu mesmo cumpria de trazer para ele, cada dia, um tanto de comida furtada: a idéia que senti, logo na primeira noite, quando o pessoal nosso experimentou de acender fogueiras em beirada do rio, enquanto que, no alumiado delas, se rezava e se chamava.

Depois, no seguinte, apareci, com rapadura, broa de pão, cacho de bananas. Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no ao-longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio.

Me viu, não remou para cá, não fez sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de pedra do barranco, a salvo de bicho mexer e a seco de chuva e orvalho. Isso, que fiz, e refiz, sempre, tempos a fora. Surpresa que mais tarde tive: que nossa mãe sabia desse meu encargo, só se encobrindo de não saber; ela mesma deixava, facilitado, sobra de coisas, para o meu conseguir. Nossa mãe muito não se demonstrava. Mandou vir o tio nosso, irmão dela, para auxiliar na fazenda e nos negócios.
Mandou vir o mestre, para nós, os meninos. Incumbiu ao padre que um dia se revestisse, em praia de margem, para esconjurar e clamar a nosso pai o ‘dever de desistir da tristonha teima. De outra, por arranjo dela, para medo, vieram os dois soldados. Tudo o que não valeu de nada.

Nosso pai passava ao largo, avistado ou diluso, cruzando na canoa, sem deixar ninguém se chegar à pega ou à fala. Mesmo quando foi, não faz muito, dos homens do jornal, que trouxeram a lancha e tencionavam tirar retrato dele, não venceram: nosso pai se desaparecia para a outra banda, aproava a canoa no brejão, de léguas, que há, por entre juncos e mato, e só ele conhecesse, a palmos, a escuridão, daquele. A gente teve de se acostumar com aquilo. Às penas, que, com aquilo, a gente mesmo nunca se acostumou, em si, na verdade. Tiro por mim, que, no que queria, e no que não queria, só com nosso pai me achava: assunto que jogava para trás meus pensamentos. O severo que era, de não se entender, de maneira nenhuma, como ele agüentava. De dia e de noite, com sol ou aguaceiros, calor, sereno, e nas friagens terríveis de meio-do-ano, sem arrumo, só com o chapéu velho na cabeça, por todas as semanas, e meses, e os anos — sem fazer conta do se-ir do viver. Não pojava em nenhuma das duas beiras, nem nas ilhas e croas do rio, não pisou mais em chão nem capim.

Por certo, ao menos, que, para dormir seu tanto, ele fizesse amarração da canoa, em alguma ponta-de-ilha, no esconso. Mas não armava um foguinho em praia, nem dispunha de sua luz feita, nunca mais riscou um fósforo. O que consumia de comer, era só um quase; mesmo do que a gente depositava, no entre as raízes da gameleira, ou na lapinha de pedra do barranco, ele recolhia pouco, nem o bastável.

Não adoecia? E a constante força dos braços, para ter tento na canoa, resistido, mesmo na demasia das enchentes, no subimento, aí quando no lanço da correnteza enorme do rio tudo rola o perigoso, aqueles corpos de bichos mortos e paus-de-árvore descendo — de espanto de esbarro. E nunca falou mais palavra, com pessoa alguma.

Nós, também, não falávamos mais nele. Só se pensava. Não, de nosso pai não se podia ter esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era só para se despertar de novo, de repente, com a memória, no passo de outros sobressaltos.

Minha irmã se casou; nossa mãe não quis festa. A gente imaginava nele, quando se comia uma comida mais gostosa; assim como, no gasalhado da noite, no desamparo dessas noites de muita chuva, fria, forte, nosso pai só com a mão e uma cabaça para ir esvaziando a canoa da água do temporal. Às vezes, algum conhecido nosso achava que eu ia ficando mais parecido com nosso pai. Mas eu sabia que ele agora virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pêlos, com o aspecto de bicho, conforme quase nu, mesmo dispondo das peças de roupas que a gente de tempos em tempos fornecia.

Nem queria saber de nós; não tinha afeto? Mas, por afeto mesmo, de respeito, sempre que às vezes me louvavam, por causa de algum meu bom procedimento, eu falava: — “Foi pai que um dia me ensinou a fazer assim…”; o que não era o certo, exato; mas, que era mentira por verdade. Sendo que, se ele não se lembrava mais, nem queria saber da gente, por que, então, não subia ou descia o rio, para outras paragens, longe, no não-encontrável? Só ele soubesse. Mas minha irmã teve menino, ela mesma entestou que queria mostrar para ele o neto. Viemos, todos, no barranco, foi num dia bonito, minha irmã de vestido branco, que tinha sido o do casamento, ela erguia nos braços a criancinha, o marido dela segurou, para defender os dois, o guarda-sol.

A gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu. Minha irmã chorou, nós todos aí choramos, abraçados.
Minha irmã se mudou, com o marido, para longe daqui. Meu irmão resolveu e se foi, para uma cidade. Os tempos mudavam, no devagar depressa dos tempos.
Nossa mãe terminou indo também, de uma vez, residir com minha irmã, ela estava envelhecida. Eu fiquei aqui, de resto. Eu nunca podia querer me casar. Eu permaneci, com as bagagens da vida. Nosso pai carecia de mim, eu sei — na vagação, no rio no ermo — sem dar razão de seu feito. Seja que, quando eu quis mesmo saber, e firme indaguei, me diz-que-disseram: que constava que nosso pai, alguma vez, tivesse revelado a explicação, ao homem que para ele aprontara a canoa.

Mas, agora, esse homem já tinha morrido, ninguém soubesse, fizesse recordação, de nada mais. Só as falsas conversas, sem senso, como por ocasião, no começo, na vinda das primeiras cheias do rio, com chuvas que não estiavam, todos temeram o fim-do-mundo, diziam: que nosso pai fosse o avisado que nem Noé, que, por tanto, a canoa ele tinha antecipado; pois agora me entrelembro. Meu pai, eu não podia malsinar. E apontavam já em mim uns primeiros cabelos brancos.
Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa?
Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio — pondo perpétuo.

Eu sofria já o começo de velhice — esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê?
Devia de padecer demais. De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar do vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranqüilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse — se as coisas fossem outras. E fui tomando idéia.

Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido.
Ninguém é doido. Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, sentado à popa.

Estava ali, de grito. Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado, tive que reforçar a voz: — “Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto… Agora, o senhor vem, não carece mais… O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!…” E, assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo.
Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n’água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto — o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia… Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.

Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.

A ponte

 Eu estava rígido e frio, era uma ponte estendido sobre um abismo. As pontas dos pés cravadas deste lado, do outro as mãos, eu me prendia firme com os dentes na argila quebradiça. As abas do meu casaco flutuavam pelos meus lados. Na profundeza fazia ruído o gelado riacho de trutas. Nenhum turista se perdia naquela altura intransitável, a ponte ainda não estava assinalada nos mapas. – Assim eu estava estendido e esperava; tinha de esperar. Uma vez erguida, nenhuma ponte pode deixar de ser ponte sem desabar.
    Certa vez, era pelo anoitecer – o primeiro, o milésimo, não sei -, meus pensamentos se moviam sempre em confusão e sempre em círculo. Pelo anoitecer no verão o riacho sussurra mais escuro – foi então que ouvi o passo de um homem ! Vinha em direção a mim, a mim. – Estenda-se, ponte, fique em posição, viga sem corrimão, segure aquele que lhe foi confiado. Compense, sem deixar vestígio a insegurança do seu passo, mas, se ele oscilar, faça-se conhecer e como um deus da montanha, atire-o à terra firme.
     Ele veio; com a ponta de ferro da bengala deu umas batidas em mim, depois levantou com ela as abas do meu casaco e as pôs em ordem em cima de mim. Passou a ponta por meu cabelo cerrado e provavelmente olhando com ferocidade em torno deixou-a ficar ali longo tempo. Mas depois – eu estava justamente seguindo-o em sonho por montanha e vale – ele saltou com os dois pés sobre o meio do meu corpo. Estremeci numa dor atroz sem compreender nada. Quem era? Uma criança? Um sonho? Um salteador de estrada? Um suicida? Um tentador? Um destruidor? E virei-me para vê-lo. – Uma ponte que dá voltas ! Eu ainda não tinha me virado e já estava caindo, desabei, já estava rasgado e trespassado pelos cascalhos afiados, que sempre me haviam fitado tão pacificamente da água enfurecida.

Os Contos dos Quatro Humores: Sangüíneo, o Ar

A velocidade do armut já era conhecida por Veigo, restava a ele se antecipar aos movimentos da fera de relativa inteligência. Algumas armadilhas foram preparadas com antecedência: redes de energia, buracos, espinhos de madeira com líquido paralisante, etc., tudo estava pronto para que o armut sentisse o cheiro adocicado da cascadeira — alimento preferido do bicho —, indo direto para a emboscada. No alto de uma gigantesca árvore, sentado em um dos galhos sem qualquer receio dos mais de 40 metros de altura, o jovem Numaq Veigo aguardava sua presa. Humano de aparência simpática, bastante carismática, sorria para si mesmo durante a espera, olhando com orgulho o caminho que ele mesmo havia criado na tentativa de capturar o armut. Veigo era magro e alto para um humano, tinha aproximadamente 1,88m, porém, era atlético, consequências de sua vida como caçador em Galmori; os olhos e os cabelos eram castanho-escuros puxando bastante para o preto, aqueles expressavam alegria e jovialidade, estes eram como ondas formadas pelo vento, leves e finos.

Em sua mão direita segurava uma lança feita com a madeira da mesma cascadeira que havia usado as folhas para atrair o armut, ele mesmo havia feito a lança enquanto esperava, a madeira da árvore estava entre as três árvores mais resistentes de todo o planeta Galmori.

O som das árvores balançando chamou a atenção de Veigo, fazendo-o girar a cabeça na mesma direção, mantendo firme a lança para o primeiro e único golpe que tinha. O calor da floresta fazia sua testa suar, o sangue fervia com a adrenalina da espera enquanto o coração disparava de excitação. Finos raios de sol que, milagrosamente, atravessavam as densas copas abarrotadas de folhas, assemelhavam-se a um ato de Providência, o caminho feito por Veigo estava estranhamente bem iluminado. Os armut eram bestas com pouca visão, tinham sérios problemas com lugares escuros e, exatamente por isso, buscavam, a qualquer custo, locais bem iluminados. O fato desses raios de sol conseguirem atravessar as copas, para Veigo, era uma incrível coincidência — ou talvez não.

            Estou com sorte hoje! Aí vem ele!, pensou.

O armut estava quase no lugar certo para o ataque, bastava mais alguns poucos metros para Veigo capturar sua maior presa, até o barulho de folhas agitando e cascos trotando cessar. Por que ele parou?, pensou franzindo o cenho. Por instinto, acabou afrouxando a mão que segurava a lança, baixando o braço sem notar que o armut havia lhe desarmado com aquele inesperado movimento. Quando a fera retomou o impulso inesperadamente, Veigo perdeu o equilíbrio com o susto, escorregando um dos pés. Em perfeita sincronia com o erro de Veigo, o armut saltou para fora da densa mata rosnando de fúria, as árvores com troncos mais finos foram varridas pela rígida cabeça que a besta possuía, a baba escorrendo entre os dentes afiadíssimos, avançando contra a árvore em que Veigo estava, agora, pendurado. Pertencendo a uma espécie bastante agressiva, com seu par de presas imensas e afiadas, chifres no focinho e um tamanho considerável, sua pelugem escura intimidava grande parte das outras feras, o armut era perigoso quando enfurecido, podendo caçar sua vítima indefinidamente. Os armuts tinham uma ótima memória.

Como era uma espécie razoavelmente inteligente, a fera percebeu que Veigo estava em apuros e poderia cair a qualquer momento, dando violentas cabeçadas no tronco para agilizar sua queda. Cada investida fazia a árvore sacudir violentamente, semelhante a um tanque. Não demorou muito para que Veigo perdesse as forças e o equilíbrio por completo, caindo em direção aos chifres e dentes da besta.

            Estou morto!, pensou o rapaz, fechando os olhos, certo que apenas um milagre salvaria sua vida. Se houver alguém aí, não importa quem seja, essa seria uma boa hora para aparecer!, pediu em pensamento, acreditando, minimamente, que algo poderia acontecer.

Enquanto caía, Veigo achou a demora para chegar aos chifres do armut muito estranha, a distância entre o galho e o chão não era tão grande assim. Abriu os olhos com receio do que iria ver: grandes dentes e chifres afiados capazes de lhe partirem ao meio com facilidade, no entanto, apesar do armut estar cerca de um palmo de distância, ele não se movia; nada se movia. Estava tudo congelado, como se o tempo tivesse parado, deixando Veigo em pleno ar sem qualquer equipamento para flutuação. Ele era o único que conseguia se mover, na verdade.

— O que está acontecendo? Como o tempo parou do nada? — perguntou a si mesmo, olhando para as próprias mãos enquanto as movia.

Numaq Veigo… — duas vozes, uma masculina e outra feminina, ecoaram em uníssono.  — Numaq Veigo… — as vozes repetiram o nome dele. Diante dos olhos do jovem rapaz uma fenda no espaço foi aberta, revelando um ser que lentamente saía do corte escuro. A fenda se expandiu para um grande buraco negro aparentemente sem fim; havia apenas o vazio e aquele ser dentro dele. A entidade tinha forma humana feminina, mas apenas seus pés e suas mãos estavam expostos, o resto do corpo era coberto por um manto feito do que parecia ser uma sombra viva, movendo-se como uma fumaça espessa; a pele era branca e delicada; o rosto estava coberto por uma máscara também branca de expressão alegre, com um largo sorriso cobrindo grande parte do rosto e olhos que acompanhavam a alegria.

— Quem… quem é você? — o medo estava estampado no rosto de Veigo.

Olá, jovem Veigo! ­Eu sou Árimah, uma das quatro Deusas dos Humores — ela flutuou para perto dele. — É de mim que os sanguíneos obtêm sua estrutura mineral ao nascerem — com um estalar dos dedos a deusa fez o corpo de Veigo flutuar lentamente até o chão, colocando-o de pé.

            Deusa? Do que ela está falando? O que é isso de “sanguíneos”?, Veigo estava de boca aberta e completamente perdido enquanto era movido por uma força desconhecida, não sabia como reagir. Será que eu morri? Ou isso é um son…

            — Isso não é um sonho, Numaq Veigo — a deusa acabou antecipando a conclusão do rapaz. — Sua falta de fé é perturbadora, mortal.

— Você leu a minha mente?! — indagou o rapaz.

Não preciso ler a sua mente, meu jovem, eu sei tudo sobre você: o que houve, o que há e o que haverá — ela tocou a testa de Veigo com o indicador e uma cachoeira de imagens desabou sobre o rapaz. Eram lembranças antes da infância dele, muito antes mesmo dele ter nascido, quando ainda era um feto na barriga da mãe, depois um simples espermatozoide percorrendo um longo caminho; então houve um clarão tão forte que Veigo perdeu a visão por um tempo, foram apenas alguns segundos até tudo voltar ao normal e ele ser jogado para o que parecia ser o futuro. Diferente de antes, onde as imagens eram claras e discerníveis, agora tudo estava borrado e confuso, com muitas vozes falando ao mesmo tempo, barulhos de risadas e metais colidindo, gritos de sofrimento e urros de vitória. Não era possível ver os rostos das pessoas, nem identificar o lugar onde elas estavam, mas Veigo sentiu a beleza, a paz e a harmonia reinando no ambiente; era alegre e descontraído, um lugar que ele pensou valer a pena morar e lutar. Às vezes, sem aviso, as imagens piscavam como um holograma defeituoso ou com sinal distante, dando vez para cenas totalmente distintas, com pessoas gritando, sons de explosões, veículos marchando, lasers, metal colidindo. Num desses momentos, Veigo vislumbrou quatro pessoas, não dava para identificar quem eram, mas elas usavam armaduras brancas. Estavam sobre um monte, cada um segurando um estandarte com dois símbolos que o jovem rapaz desconhecia. Quando Árimah se afastou de Veigo as imagens sumiram por completo, não restou nenhum rastro de que aquilo tinha realmente acontecido. Ele estava ofegante, o suor escorria sobre os olhos, o cansaço era evidente. Exausto, desabou de joelhos sobre o chão coberto por um tapete de folhas secas.

— Isso foi… isso foi a minha vida? Era o meu futuro?! — questionou quase sem fôlego.

Sim, essas foram imagens da sua vida, do passado ao seu futuro. Porém, o futuro nunca é engessado, mas fluido — ela flutuou ao redor de Veigo. — Até mesmo nós, as deusas, não podemos interferir no futuro, mesmo que ele se apresente para nós por completo, isto é, que nós saibamos como ele será, não nos demos a permissão para alterá-lo — dessa vez ela flutuou para o alto, ficando alguns metros acima de Veigo. — Fizemos isso para que vocês, mortais, pudessem mudar seu futuro.

— Vocês se impediram de mudar o futuro para que nós pudéssemos mudá-lo? — a indagação soou mais para si mesmo do que para a deusa. — Por quê?

Ora, Veigo, a resposta é simples: porque nós os amamos — Árimah soltou uma risada sincera e, voando até Veigo, fez um gesto com o indicador de baixo para cima; a resposta ao gesto veio com o corpo do rapaz flutuando até ficar de pé novamente.

— Vocês nos amam? Mas grande parte de nós nem sequer sabe da existência de vocês, como podem amar alguém ou algo que sequer retribui o sentimento? — era uma pergunta genuína, mas naturalmente mortal e peculiarmente humana. Árimah soltou outra risada, colocando as mãos na cintura e jogando a cabeça mascarada para trás; por fim se recompôs.

Você é realmente interessante, Numaq Veigo — atestou. — Mas ainda é mortal. Todo o Bem que há em você, não importa ele qual seja, em mim é infinito e puro. Em você é finito e amalgamado. O amor que você conhece, esse sentimento tão forte principalmente na sua raça, é uma fração, uma extensão de nós, deusas. Isso é uma consequência de viver sob a égide da temporalidade: tudo é passageiro, efêmero, nasce e morre. Nós, por outro lado, estamos sob a égide da atemporalidade, acima do tempo, não há passado ou futuro, pois tudo é presente. Não há nascimento e morte, mas tudo é — quanto mais Árimah explicava mais Veigo ficava interessado. Ela tinha um jeito de falar que lhe agradava, atraía, fazia brotar um sentimento de acolhimento e proteção, como entre uma mãe e um filho. O rapaz surpreendeu a si mesmo com um sorriso de orelha a orelha, os olhos brilhavam, o som da voz dela era aveludado, sua presença era aconchegante, até mesmo o paladar de Veigo despertou com um doce gosto adocicado. E em transe ele ficou, em silêncio, observando Árimah contar tudo o que queria. Ao fim da história, acordado do caloroso sentimento, ela o perguntou:

Não posso continuar nesse plano por mais tempo, Veigo. Está na hora de você tomar uma decisão importante que mudará completamente a sua vida. Sente-se — ela pediu, flutuando até o rapaz, parando diante dele. Veigo assentiu e sentou sobre um velho tronco próximo. — Minha vinda até você não foi acidente ou o destino, mas uma escolha minha. Há mais de 300 anos mortais que não nos manifestamos para vocês. A história é longa e não posso explicar tudo, mas digamos que houve um desligamento entre vocês e nós.

            — Como assim?

Lembra que eu lhe falei sobre a imposição que as deusas colocaram em si mesmas sobre o futuro de vocês? Então, nós demos a vocês, mortais, algo precioso e inegociável: o livre-arbítrio. Graças a isso, não cabe a nós, seres divinos, forçar os mortais a crer em nós, a conversar conosco, a ter fé. Isso deve vir de vocês livremente, por vontade própria — Árimah afastou-se de Veigo.

— Mas o que isso tem a ver comigo?

Você é uma das chaves que permitirá o religamento da união entre os mortais e as Deusas dos Humores.

— O que são esses humores?

Os humores são os temperamentos. Novamente questiono: lembra que eu disse que os sanguíneos retiram de mim sua estrutura mineral?

— Sim, eu me lembro.

Pois então… “Sanguíneo” é um dos Quatro Temperamentos existentes em todos os seres mortais com inteligência. São seres com grande capacidade de expansão, eles envolvem todos ao seu redor, são criativos, sociáveis e gostam de conversas e, principalmente, estão sempre a serviço do outro, ouvindo e dando a devida atenção mesmo que o outro seja um total desconhecido. Porém, é no conforto das amizades que o sanguíneo se realiza, sendo a vida do grupo, aquele que lubrifica todas as engrenagens para que elas não parem jamais. O Ar é o elemento que o representa, porque é expansivo e envolvente, não tem uma forma certa, mas está sempre em movimento, sempre no alto, permeia tudo — o entusiasmo de Árimah condizia com o humor ao qual fora atribuído a ela. — Além dele, meu caro, também há o Colérico, o Fleumático e o Melancólico. Para cada um dos temperamentos existe uma deusa que é sua causa primeira.

            — Então quer dizer que eu sou sanguíneo? Quer dizer, se você é a deusa ao qual o temperamento sanguíneo retira sua estrutura, e veio até mim, quer dizer que escolheu alguém que tenha esse temperamento, certo? — a indagação de Veigo estava mais para uma tentativa de organizar as próprias ideias, mas ele acabou soltando como uma pergunta.

Você está perfeitamente correto, meu rapaz — ela não conteve a gargalhada. — Eu estava certa em ter escolhido você para a tarefa. Sinto-me aliviada! Apesar de avoado, você é inteligente.

            — Que tarefa? — curioso, arqueou a sobrancelha desconfiado.

Ops! Acho que falei demais — gargalhou ainda mais alto. — Você será o meu Profeta, aquele que falará em meu nome aqui nesse plano, será o fio condutor entre o sagrado e o mundano. Mas, como eu já expliquei, não posso obrigá-lo a aceitar, você é livre para escolher.

— Profeta… — o olhar de Veigo estava distante, fitando alguma coisa no chão, mas ao mesmo tempo não olhando para nada. — Terei que ir embora de Galmori? — fitou Árimah.

Sim. Se você concordar em ser meu Profeta, precisará sair deste planeta. Conhecerá outros mundos, outras pessoas, grandes homens e mulheres, mas também terríveis e cruéis. Você sorrirá pelas vidas salvas e novas, mas também chorará pelas mortes prematuras e irrevogáveis. Será caluniado, humilhado, traído por quem se dizia amigo, mas também será erguido em ombros, respeitado, louvado como um herói e se surpreenderá com inimigos virando amigos.

Veigo refletia sobre as palavras de Árimah balançando a perna freneticamente, visivelmente nervoso e indeciso. O coração estava acelerado; sentia medo de sua escolha: se aceitasse, colocaria sua vida em risco, não era um guerreiro nem tinha o físico para tal, por isso costumava evitar certas circunstâncias que lhe colocassem em situação humilhantes; no entanto, se decidisse recusar a oferta, sentia que iria se arrepender de poder construir uma nova vida, uma nova história, de enfrentar seus medos, suas dúvidas e incertezas tão constantes.

A ebulição de emoções lhe embrulhara o estômago, e Veigo vomitou tudo o que havia comido naquela manhã, várias e várias vezes até não sobrar mais nada no estômago. Limpou a boca com um lenço que estava no bolso e levantou-se.

— Desculpe por isso.

É compreensível.

            — Eu… eu aceito — engoliu seco sentindo o gosto do vômito.

Hahaha! É assim que se fala, Veigo! — exclamou Árimah. — Esse é o retorno do religamento entre mortais e divindades, depois de muitos anos… Eu, Árimah, uma das Quatro Deusas dos Humores, dou minha bênção a você, Numaq Veigo, e o nomeio como meu Profeta de hoje até os teus últimos dias. Quatro é Um e Um são Quatro!

Uma forte luz saiu dos olhos de Árimah, tão forte e expansiva que deixou Veigo novamente sem enxergar. Quando a luz cessou, os olhos dele foram retomando a visão normal, acomodando as coisas novamente. Ao fim, com tudo aparentemente normal, Árimah tinha sumido e o armut estava caído ao lado da árvore. O tempo havia voltado ao normal, as folhas balançavam, o vento soprava e as aves cantavam. Veigo deu uma última olhada ao redor, agora não tão certo de que aquilo fora realmente real.

— Talvez a minha queda tenha o atordoado…

Avistou sua lança ao lado do armut e foi até lá para pegá-la, ao se abaixar e esticar a mão, percebeu que havia um símbolo em preto pintado no dorso da mão direita: uma pirâmide com um corte horizontal poucos centímetros do topo. Esfregou a região na tentativa de retirar, achando que não passava de alguma sujeita, mas não deu certo. O símbolo fazia parte da pele de Veigo e só seria retirado se a pele fosse retira junto.

— Bom… acho que isso confirma que não foi um sonho. E isso é um grande alívio — sorriu.