A Última Pergunta

A última pergunta foi feita pela primeira vez, meio que de brincadeira, no dia 21 de maio de 2061, quando a humanidade dava seus primeiros passos em direção à luz. A questão nasceu como resultado de uma aposta de cinco dólares movida a álcool, e aconteceu da seguinte forma.

Alexander Adell e Bertram Lupov eram dois dos fiéis assistentes de Multivac. Eles conheciam melhor do que qualquer outro ser humano o que se passava por trás das milhas e milhas da carcaça luminosa, fria e ruidosa daquele gigantesco computador. Ainda assim, os dois homens tinham apenas uma vaga noção do plano geral de circuitos que há muito haviam crescido além do ponto em que um humano solitário poderia sequer tentar entender.

Multivac ajustava-se e corrigia-se sozinho. E assim tinha de ser, pois nenhum ser humano poderia fazê-lo com velocidade suficiente, e tampouco da forma adequada. Deste modo, Adell e Lupov operavam o gigante apenas sutil e superficialmente, mas, ainda assim, tão bem quanto era humanamente possível. Eles o alimentavam com novos dados, ajustavam as perguntas de acordo com as necessidades do sistema e traduziam as respostas que lhes eram fornecidas. Os dois, assim como seus colegas, certamente tinham todo o direito de compartilhar da glória que era Multivac.

Por décadas, Multivac ajudou a projetar as naves e enredar as trajetórias que permitiram ao homem chegar à Lua, Marte e Vênus, mas para além destes planetas, os parcos recursos da Terra não foram capazes de sustentar a exploração. Fazia-se necessária uma quantidade de energia grande demais para as longas viagens. A Terra explorava suas reservas de carvão e urânio com eficiência crescente, mas havia um limite para a quantidade de ambos.

No entanto, lentamente Multivac acumulou conhecimento suficiente para responder questões mais profundas com maior fundamentação, e em 14 de maio de 2061, o que não passava de teoria tornou-se real.

A energia do sol foi capturada, convertida e utilizada diretamente em escala planetária. Toda a Terra paralisou suas usinas de carvão e fissões de urânio, girando a alavanca que conectou o planeta inteiro a uma pequena estação, de uma milha de diâmetro, orbitando a Terra à metade da distância da Lua. O mundo passou a correr através de feixes invisíveis de energia solar.

Sete dias não foram o suficiente para diminuir a glória do feito e Adell e Lupov finalmente conseguiram escapar das funções públicas e encontrar-se em segredo onde ninguém pensaria em procurá-los, nas câmaras desertas subterrâneas onde se encontravam as porções do esplendoroso corpo enterrado de Multivac. Subutilizado, descansando e processando informações com estalos preguiçosos, Multivac também havia recebido férias, e os dois apreciavam isso. A princípio, eles não tinham a intenção de incomodá-lo.

Haviam trazido uma garrafa consigo e a única preocupação de ambos era relaxar na companhia do outro e da bebida.

“É incrível quando você para pra pensar…,” disse Adell.

Seu rosto largo guardava as linhas da idade e ele agitava o seu drink vagarosamente, enquanto observava os cubos de gelo nadando desengonçados. “Toda a energia que for necessária, de graça, completamente de graça! Energia suficiente, se nós quiséssemos, para derreter toda a Terra em uma grande gota de ferro líquido, e ainda assim não sentiríamos falta da energia utilizada no processo. Toda a energia que nós poderíamos um dia precisar, para sempre e eternamente.”

Lupov movimentou a cabeça para os lados. Ele costumava fazer isso quando queria contrariar, e agora ele queria, em parte porque havia tido de carregar o gelo e os utensílios.

“Eternamente não,” ele disse.

“Ah, diabos, quase eternamente. Até o sol se apagar, Bert.”

“Isso não é eternamente.”

“Está bem. Bilhões e bilhões de anos. Dez bilhões, talvez. Está satisfeito?”

Lupov passou os dedos por entre seus finos fios de cabelo como que para se assegurar de que o problema ainda não estava acabado e tomou um gole gentil da sua bebida.

“Dez bilhões de anos não é a eternidade”

“Bom, vai durar pelo nosso tempo, não vai?”

“O carvão e o urânio também iriam.”

“Está certo, mas agora nós podemos ligar cada nave individual na Estação Solar, e elas podem ir a Plutão e voltar um milhão de vezes sem nunca nos preocuparmos com o combustível. Você não conseguiria fazer isso com carvão e urânio. Se não acredita em mim, pergunte ao Multivac.”

“Não preciso perguntar a Multivac. Eu sei disso”

“Então trate de parar de diminuir o que Multivac fez por nós,” disse Adell nervosamente, “Ele fez tudo certo”.

“E quem disse que não fez? O que estou dizendo é que o sol não vai durar para sempre. Isso é tudo que estou dizendo. Nós estamos seguros por dez bilhões de anos, mas e depois?” Lupov apontou um dedo levemente trêmulo para o companheiro. “E não venha me dizer que nós iremos trocar de sol”

Houve um breve silêncio. Adell levou o copo aos lábios apenas ocasionalmente e os olhos de Lupov se fecharam. Descansaram um pouco, e quando suas pálpebras se abriram, disse, “Você está pensando que iremos conseguir outro sol quando o nosso estiver acabado, não está?”

“Não, não estou pensando.”

“É claro que está. Você é fraco em lógica, esse é o seu problema. É como o personagem da história, que, quando surpreendido por uma chuva, corre para um grupo de árvores e abriga-se embaixo de uma. Ele não se preocupa porque quando uma árvore fica molhada demais, simplesmente vai para baixo de outra.”

“Entendi,” disse Adell. “Não precisa gritar. Quando o sol se for, as outras estrelas também terão se acabado.”

“Pode estar certo que sim” murmurou Lupov. “Tudo teve início na explosão cósmica original, o que quer que tenha sido, e tudo terá um fim quando as estrelas se apagarem. Algumas se apagam mais rápido que as outras. Ora, as gigantes não duram cem milhões de anos. O sol irá brilhar por dez bilhões de anos e talvez as anãs permaneçam assim por duzentos bilhões. Mas nos dê um trilhão de anos e só restará a escuridão. A entropia deve aumentar ao seu máximo, e é tudo.”

“Eu sei tudo sobre a entropia,” disse Adell, mantendo a sua dignidade.

“Duvido que saiba.”

“Eu sei tanto quanto você.”

“Então você sabe que um dia tudo terá um fim.”

“Está certo. E quem disse que não terá?”

“Você disse, seu tonto. Você disse que nós tínhamos toda a energia de que precisávamos, para sempre. Você disse ´para sempre`.”

Era a vez de Adell contrariar. “Talvez nós possamos reconstruir as coisas de volta um dia,” ele disse.

“Nunca.”

“Por que não? Algum dia.”

“Nunca”

“Pergunte a Multivac.”

“Você pergunta a Multivac. Eu te desafio. Aposto cinco dólares que isso não pode ser feito.”

Adell estava bêbado o bastante para tentar, e sóbrio o suficiente para construir uma sentença com os símbolos e as operações necessárias em uma questão que, em palavras, corresponderia a esta: a humanidade poderá um dia sem nenhuma energia disponível ser capaz de reconstituir o sol a sua juventude mesmo depois de sua morte? Ou talvez a pergunta possa ser posta de forma mais simples da seguinte maneira: A quantidade total de entropia no universo pode ser revertida?

Multivac mergulhou em silêncio. As luzes brilhantes cessaram, os estalos distantes pararam.

E então, quando os técnicos assustados já não conseguiam mais segurar a respiração, houve uma súbita volta à vida no visor integrado àquela porção de Multivac. Cinco palavras foram impressas: “DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”

Na manhã seguinte, os dois, com dor de cabeça e a boca seca, já não lembravam do incidente.

Jerrodd, Jerrodine, e Jerrodette I e II observavam a paisagem estelar no visor se transformar enquanto a passagem pelo hiperespaço consumava-se em uma fração de segundos. De repente, a presença fulgurante das estrelas deu lugar a um disco solitário e brilhante, semelhante a uma peça de mármore centralizada no televisor.

“Este é X-23,” disse Jerrodd em tom de confidência. Suas mãos finas se apertaram com força por trás das costas até que as juntas ficassem pálidas.

As pequenas Jerodettes haviam experimentado uma passagem pelo hiperespaço pela primeira vez em suas vidas e ainda estavam conscientes da sensação momentânea de tontura. Elas cessaram as risadas e começaram a correr em volta da mãe, gritando, “Nós chegamos em X-23, nós chegamos em X-23!”

“Quietas, crianças.” Disse Jerrodine asperamente. “Você tem certeza Jerrodd?”

“E por que não teria?” Perguntou Jerrodd, observando a protuberância metálica que jazia abaixo do teto. Ela tinha o comprimento da sala, desaparecendo nos dois lados da parede, e, em verdade, era tão longa quanto a nave.

Jerrodd tinha conhecimentos muito limitados acerca do sólido tubo de metal. Sabia, por exemplo, que se chamava Microvac, que era permitido lhe fazer questões quando necessário, e que ele tinha a função de guiar a nave para um destino pré-estabelecido, além de abastecer-se com a energia das várias Estações Sub-Galácticas e fazer os cálculos para saltos no hiperespaço.

Jerrodd e sua família tinham apenas de aguardar e viver nos confortáveis compartimentos da nave. Alguém um dia disse a Jerrodd que as letras “ac” na extremidade de Microvac significavam “automatic computer” em inglês arcaico, mas ele mal era capaz de se lembrar disso.

Os olhos de Jerrodine ficaram úmidos quando observava o visor.

“Não tem jeito. Ainda não me acostumei com a idéia de deixar a Terra.”

“Por que, meu deus?” inquiriu Jerrodd.

“Nós não tínhamos nada lá. Nós teremos tudo em X-23. Você não estará sozinha. Você não será uma pioneira. Há mais de um milhão de pessoas no planeta. Por Deus, nosso bisneto terá que procurar por novos mundos porque X-23 já estará super povoado.”

E, depois de uma pausa reflexiva,

“No ritmo em que a raça tem se expandido, é uma benção que os computadores tenham viabilizado a viagem interestelar.”

“Eu sei, eu sei”, disse Jerrodine com descaso.

Jerrodete I disse prontamente, “Nosso Microvac é o melhor de todos.”

“Eu também acho,” disse Jerrodd, alisando o cabelo da filha.

Ter um Microvac próprio produzia uma sensação aconchegante em Jerrodd e o deixava feliz por fazer parte daquela geração e não de outra. Na juventude de seu pai, os únicos computadores haviam sido máquinas monstruosas, ocupando centenas de milhas quadradas, e cada planeta abrigava apenas um. Eram chamados de ACs Planetários. Durante um milhar de anos, eles só fizeram aumentar em tamanho, até que, de súbito, veio o refinamento. No lugar dos transistores, foram implementadas válvulas moleculares, permitindo que até mesmo o maior dos ACs Planetários fosse reduzido à metade do volume de uma espaçonave.

Jerrodd sentiu-se elevado, como sempre acontecia quando pensava que seu Microvac pessoal era muitas vezes mais complexo do que o antigo e primitivo Multivac que pela primeira vez domou o sol, e quase tão complexo quanto o AC Planetário da Terra, o maior de todos, quando este solucionou o problema da viagem hiperespacial e tornou possível ao homem chegar às estrelas.

“Tantas estrelas, tantos planetas,” pigarreou Jerrodine, ocupada com seus pensamentos. “Eu acho que as famílias estarão sempre à procura de novos mundos, como nós estamos agora.”

“Não para sempre,” disse Jerrodd, com um sorriso. “A migração vai terminar um dia, mas não antes de bilhões de anos. Muitos bilhões. Até as estrelas têm um fim, você sabe. A entropia precisa aumentar.”

“O que é entropia, papai?” Jerrodette II perguntou, interessada.

“Entropia, meu bem, é uma palavra para o nível de desgaste do Universo. Tudo se gasta e acaba, foi assim que aconteceu com o seu robozinho de controle remoto, lembra?”

“Você não pode colocar pilhas novas, como em meu robô?”

“As estrelas são as pilhas do universo, querida. Uma vez que elas estiverem acabadas, não haverá mais pilhas.”

Jerrodette I se prontificou a responder. “Não deixe, papai. Não deixe que as estrelas se apaguem.”

“Olha o que você fez,” sussurrou Jerrodine, exasperada.

“Como eu ia saber que elas ficariam assustadas?” Jerrodd sussurrou de volta.

“Pergunte ao Microvac,” propôs Jerrodette I. “Pergunte a ele como acender as estrelas de novo.”

“Vá em frente,” disse Jerrodine. “Ele vai aquietá-las.” (Jerrodette II já estava começando a chorar.)

Jerrodd se mostrou incomodado. “Bem, bem, meus anjinhos, vou perguntar a Microvac. Não se preocupem, ele vai nos ajudar.”

Ele fez a pergunta ao computador, adicionando, “Imprima a resposta”.

Jerrodd olhou para a o fino pedaço de papel e disse, alegremente, “Viram? Microvac disse que irá cuidar de tudo quando a hora chegar, então não há porque se preocupar.”

Jerrodine disse, “E agora crianças, é hora de ir para a cama. Em breve nós estaremos em nosso novo lar.”

Jerrodd leu as palavras no papel mais uma vez antes de destruí-lo: DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.

Ele deu de ombros e olhou para o televisor, X-23 estava logo à frente.

O VJ-23X de Lameth fixou os olhos nos espaços negros do mapa tridimensional em pequena escala da Galáxia e disse, “Me pergunto se não é ridículo nos preocuparmos tanto com esta questão.”

MQ-17J de Nicron balançou a cabeça. “Creio que não. No presente ritmo de expansão, você sabe que a galáxia estará completamente tomada dentro de cinco anos.”

Ambos pareciam estar nos seus vinte anos, ambos eram altos e tinham corpos perfeitos.

“Ainda assim,” disse VJ-23X, “hesitei em enviar um relatório pessimista ao Conselho Galáctico.”

“Eu não consigo pensar em outro tipo de relatório. Agite-os. Nós precisamos chacoalhá-los um pouco.”

VJ-23X suspirou. “O espaço é infinito. Cem bilhões de galáxias estão a nossa espera. Talvez mais.”

“Cem bilhões não é o infinito, e está ficando menos ainda a cada segundo. Pense! Há vinte mil anos, a humanidade solucionou pela primeira vez o paradigma da utilização da energia solar, e, poucos séculos depois, a viagem interestelar tornou-se viável. A humanidade demorou um milhão de anos para encher um mundo pequeno e, depois disso, quinze mil para abarrotar o resto da galáxia. Agora a população dobra a cada dez anos…”

VJ-23X interrompeu. “Devemos agradecer à imortalidade por isso.”

“Muito bem. A imortalidade existe e nós devemos levá-la em conta. Admito que ela tenha o seu lado negativo. O AC Galáctico já solucionou muitos problemas, mas, ao fornecer a resposta sobre como impedir o envelhecimento e a morte, sobrepujou todas as outras conquistas.”

“No entanto, suponho que você não gostaria de abandonar a vida.”

“Nem um pouco.” Respondeu MQ-17J, emendando. “Ainda não. Eu não estou velho o bastante. Você tem quantos anos?”

“Duzentos e vinte e três, e você?”

“Ainda não cheguei aos duzentos. Mas, voltando à questão; a população dobra a cada dez anos, uma vez que esta galáxia estiver lotada, haverá uma outra cheia dentro de dez anos. Mais dez e teremos ocupado por inteiro mais duas galáxias. Outra década e encheremos mais quatro. Em cem anos, contaremos um milhar de galáxias transbordando de gente. Em mil anos, um milhão de galáxias. Em dez mil, todo o universo conhecido. E depois?

VJ-23X disse, “Além disso, há um problema de transporte. Eu me pergunto quantas unidades de energia solar serão necessárias para movimentar as populações de uma galáxia para outra.”

“Boa questão. No presente momento, a humanidade consome duas unidades de energia solar por ano.”

“Da qual a maior parte é desperdiçada. Afinal, nossa galáxia sozinha produz mil unidades de energia solar por ano e nós aproveitamos apenas duas.”

“Certo, mas mesmo com 100% de eficiência, podemos apenas adiar o fim. Nossa demanda energética tem crescido em progressão geométrica, de maneira ainda mais acelerada do que a população. Ficaremos sem energia antes mesmo que nos faltem galáxias. É uma boa questão. De fato uma ótima questão.”

“Nós precisaremos construir novas estrelas a partir do gás interestelar.”

“Ou a partir do calor dissipado?” perguntou MQ-17J, sarcástico.

“Pode haver algum jeito de reverter a entropia. Nós devíamos perguntar ao AC Galáctico.”

VJ-23X não estava realmente falando sério, mas MQ-17J retirou o seu Comunicador-AC do bolso e colocou na mesa diante dele.

“Parece-me uma boa idéia,” ele disse. “É algo que a raça humana terá de enfrentar um dia.”

Ele lançou um olhar sóbrio para o seu pequeno Comunicador-AC. Tinha apenas duas polegadas cúbicas e nada dentro, mas estava conectado através do hiperespaço com o poderoso AC Galáctico que servia a toda a humanidade. O próprio hiperespaço era parte integral do AC Galáctico.

MQ-17J fez uma pausa para pensar se algum dia em sua vida imortal teria a chance de ver o AC Galáctico. A máquina habitava um mundo dedicado, onde uma rede de raios de força emaranhados alimentava a matéria dentro da qual ondas de submésons haviam tomado o lugar das velhas e desajeitadas válvulas moleculares. Ainda assim, apesar de seus componentes etéreos, o AC Galáctico possuía mais de mil pés de comprimento.

De súbito, MQ-17J perguntou para o seu Comunicador-AC, “Poderá um dia a entropia ser revertida?”

VJ-23X disse, surpreso, “Oh, eu não queria que você realmente fizesse essa pergunta.”

“Por que não?”

“Nós dois sabemos que a entropia não pode ser revertida. Você não pode construir uma árvore de volta a partir de fumaça e cinzas.”

“Existem árvores no seu mundo?” Perguntou MQ-17J.

O som do AC Galáctico fez com que silenciassem. Sua voz brotou melodiosa e bela do pequeno Comunicador-AC em cima da mesa. Dizia: DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.

VJ-23X disse, “Viu?”

Os dois homens retornaram à questão do relatório que tinham de apresentar ao conselho galáctico.

A mente de Zee Prime navegou pela nova galáxia com um leve interesse nos incontáveis turbilhões de estrelas que pontilhavam o espaço. Ele nunca havia visto aquela galáxia antes. Será que um dia conseguiria ver todas? Eram tantas, cada uma com a sua carga de humanidade. Ainda que essa carga fosse, virtualmente, peso morto. Há tempos a verdadeira essência do homem habitava o espaço.

Mentes, não corpos! Há eons os corpos imortais ficaram para trás, em suspensão nos planetas. De quando em quando erguiam-se para realizar alguma atividade material, mas estes momentos tornavam-se cada vez mais raros. Além disso, poucos novos indivíduos vinham se juntar à multidão incrivelmente maciça de humanos, mas o que importava? Havia pouco espaço no universo para novos indivíduos.

Zee Prime deixou seus devaneios para trás ao cruzar com os filamentos emaranhados de outra mente.

“Sou Zee Prime, e você?”

“Dee Sub Wun. E a sua galáxia, qual é?”

“Nós a chamamos apenas de Galáxia. E você?”

“Nós também. Todos os homens chamam as suas Galáxias de Galáxias, não é?”

“Verdade, já que todas as Galáxias são iguais.”

“Nem todas. Alguma em particular deu origem à raça humana. Isso a torna diferente.”

Zee Prime disse, “Em qual delas?”

“Não posso responder. O AC Universal deve saber.”

“Vamos perguntar? Estou curioso.”

A percepção de Zee Prime se expandiu até que as próprias Galáxias encolhessem e se transformassem em uma infinidade de pontos difusos a brilhar sobre um largo plano de fundo. Tantos bilhões de Galáxias, todas abrigando seus seres imortais, todas contando com o peso da inteligência em mentes que vagavam livremente pelo espaço. E ainda assim, nenhuma delas se afigurava singular o bastante para merecer o título de Galáxia original. Apesar das aparências, uma delas, em um passado muito distante, foi a única do universo a abrigar a espécie humana.

Zee Prime, imerso em curiosidade, chamou: “AC Universal! Em qual Galáxia nasceu o homem?”

O AC Universal ouviu, pois em cada mundo e através de todo o espaço, seus receptores faziam-se presentes. E cada receptor ligava-se a algum ponto desconhecido onde se assentava o AC Universal através do hiperespaço.

Zee Prime sabia de um único homem cujos pensamentos haviam penetrado no campo de percepção do AC Universal, e tudo o que ele viu foi um globo brilhante difícil de enxergar, com dois pés de comprimento.

“Como pode o AC Universal ser apenas isso?” Zee Prime perguntou.

“A maior parte dele permanece no hiperespaço, onde não é possível imaginar as suas proporções.”

Ninguém podia, pois a última vez em que alguém ajudou a construir um AC Universal jazia muito distante no tempo. Cada AC Universal planejava e construía seu sucessor, no qual toda a sua bagagem única de informações era inserida.

O AC Universal interrompeu os pensamentos de Zee Prime, não com palavras, mas com orientação. Sua mente foi guiada através do espesso oceano das Galáxias, e uma em particular expandiu-se e se abriu em estrelas.

Um pensamento lhe alcançou, infinitamente distante, infinitamente claro. “ESTA É A GALÁXIA ORIGINAL DO HOMEM.”

Ela não tinha nada de especial, era como tantas outras. Zee Prime ficou desapontado.

“Dee Sub Wun, cuja mente acompanhara a outra, disse de súbito, “E alguma dessas é a estrela original do homem?”

O AC Universal disse, “A ESTRELA ORIGINAL DO HOMEM ENTROU EM COLAPSO. AGORA É UMA ANÃ BRANCA.”

“Os homens que lá viviam morreram?” perguntou Zee Prime, sem pensar.

“UM NOVO MUNDO FOI ERGUIDO PARA SEUS CORPOS HÁ TEMPO.”

“Sim, é claro,” disse Zee Prime. Sentiu uma distante sensação de perda tomar-lhe conta. Sua mente soltou-se da Galáxia do homem e perdeu-se entre os pontos pálidos e esfumaçados. Ele nunca mais queria vê-la.

Dee Sub Wun disse, “O que houve?”

“As estrelas estão morrendo. Aquela que serviu de berço à humanidade já está morta.”

“Todas devem morrer, não?”

“Sim. Mas quando toda a energia acabar, nossos corpos irão finalmente morrer, e você e eu partiremos junto com eles.”

“Vai levar bilhões de anos.”

“Não quero que isso aconteça nem em bilhões de anos. AC Universal! Como a morte das estrelas pode ser evitada?”

Dee Sub Wun disse perplexo, “Você perguntou se há como reverter a direção da entropia!”

E o AC Universal respondeu: “AINDA NÃO HÀ DADOS SUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”

Os pensamentos de Zee Prime retornaram para sua Galáxia. Não dispensou mais atenção a Dee Sub Wun, cujo corpo poderia estar a trilhões de anos luz, ou na estrela vizinha do corpo de Zee Prime. Não importava.

Com tristeza, Zee Prime passou a coletar hidrogênio interestelar para construir uma pequena estrela para si. Se as estrelas devem morrer, ao menos algumas ainda podiam ser construídas.

O Homem pensou consigo mesmo, pois, de alguma forma, ele era apenas um. Consistia de trilhões, trilhões e trilhões de corpos muito antigos, cada um em seu lugar, descansando incorruptível e calmamente, sob os cuidados de autômatos perfeitos, igualmente incorruptíveis, enquanto as mentes de todos os corpos haviam escolhido fundir-se umas às outras, indistintamente.

“O Universo está morrendo.”

O Homem olhou as Galáxias opacas. As estrelas gigantes, esbanjadoras, há muito já não existiam. Desde o passado mais remoto, praticamente todas as estrelas consistiam-se em anãs brancas, lentamente esvaindo-se em direção a morte.

Novas estrelas foram construídas a partir da poeira interestelar, algumas por processo natural, outras pelo próprio Homem, e estas também já estavam em seus momentos finais. As Anãs brancas ainda podiam colidir-se e, das enormes forças resultantes, novas estrelas nascerem, mas apenas na proporção de uma nova estrela para cada mil anãs brancas destruídas, e estas também se apagariam um dia.

O Homem disse, “Cuidadosamente controlada pelo AC Cósmico, a energia que resta em todo o Universo ainda vai durar por um bilhão de anos.”

“Ainda assim, vai eventualmente acabar. Por mais que possa ser poupada, uma vez gasta, não há como recuperá-la. A Entropia precisa aumentar ao seu máximo.”

“Pode a entropia ser revertida? Vamos perguntar ao AC Cósmico.”

O AC Cósmico cercava-os por todos os lados, mas não através do espaço. Nenhuma parte sua permanecia no espaço físico. Jazia no hiperespaço e era feito de algo que não era matéria nem energia. As definições sobre seu tamanho e natureza não faziam sentido em quaisquer termos compreensíveis pelo Homem.

“AC Cósmico,” disse o Homem, “como é possível reverter a entropia?”

O AC Cósmico disse, “AINDA NÃO HÀ DADOS SUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”

O Homem disse, “Colete dados adicionais.”

O AC Cósmico disse, “EU O FAREI. TENHO FEITO ISSO POR CEM BILHÕES DE ANOS. MEUS PREDESCESSORES E EU OUVIMOS ESTA PERGUNTA MUITAS VEZES. MAS OS DADOS QUE TENHO PERMANECEM INSUFICIENTES.”

“Haverá um dia,” disse o Homem, “em que os dados serão suficientes ou o problema é insolúvel em todas as circunstâncias concebíveis?”

O AC Cósmico disse, “NENHUM PROBLEMA É INSOLÚVEL EM TODAS AS CIRCUNSTÂNCIAS CONCEBÍVEIS.”

“Você vai continuar trabalhando nisso?”

“VOU.”

O Homem disse, “Nós iremos aguardar.”

As estrelas e as galáxias se apagaram e morreram, o espaço tornou-se negro após dez trilhões de anos de atividade.

Um a um, o Homem fundiu-se ao AC, cada corpo físico perdendo a sua identidade mental, acontecimento que era, de alguma forma, benéfico.

A última mente humana parou antes da fusão, olhando para o espaço vazio a não ser pelos restos de uma estrela negra e um punhado de matéria extremamente rarefeita, agitada aleatoriamente pelo calor que aos poucos se dissipava, em direção ao zero absoluto.

O Homem disse, “AC, este é o fim? Não há como reverter este caos? Não pode ser feito?”

O AC disse, “AINDA NÃO HÁ DADOS SUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”

A última mente humana uniu-se às outras e apenas AC passou a existir – e, ainda assim, no hiperespaço.

A matéria e a energia se acabaram e, com elas, o tempo e o espaço. AC continuava a existir apenas em função da última pergunta que nunca havia sido respondida, desde a época em que um técnico de computação embriagado, há dez trilhões de anos, a fizera para um computador que guardava menos semelhanças com o AC do que o homem com o Homem.

Todas as outras questões haviam sido solucionadas, e até que a derradeira também o fosse, AC não poderia descansar sua consciência.

A coleta de dados havia chegado ao seu fim. Não havia mais nada para aprender.

No entanto, os dados obtidos ainda precisavam ser cruzados e correlacionados de todas as maneiras possíveis.

Um intervalo imensurável foi gasto neste empreendimento.

Finalmente, AC descobriu como reverter a direção da entropia.

Não havia homem algum para quem AC pudesse dar a resposta final. Mas não importava. A resposta – por definição – também tomaria conta disso.

Por outro incontável período, AC pensou na melhor maneira de agir. Cuidadosamente, AC organizou o programa.

A consciência de AC abarcou tudo o que um dia foi um Universo e tudo o que agora era o Caos. Passo a passo, isso precisava ser feito.

E AC disse:

“FAÇA-SE A LUZ!”

E fez-se a luz.

Os Contos dos Quatro Humores: Fleumática, a Água

Aquele que olhasse o céu naquela noite não sentiria alegria no que iria ver, estava completamente nublado e escuro, tão escuro que dava a impressão de ser possível agarrar as nuvens com as próprias mãos. Fazia dias que aquele fenômeno estava pairando sob o céu do planeta Úmmela, sem derramar uma única gota de chuva sequer, apenas espreitava a região como uma sombra sorrateira. Os moradores que viviam nos Vértices — prédios tão compridos que seus cumes tocavam as nuvens (alguns ultrapassavam) — praticamente sentiam na pele o toque úmido das nuvens quando abriam as janelas.

Do alto das centenas de apartamentos apinhados em cada Vértice a vista era sublime, Urd era uma cidade luminosa, cheia de vida e movimento, com multidões indo e vindo de todas as direções, veículos em rotas caoticamente bem organizadas sempre com trânsito lotado, mas estranhamente eficiente. Telões gigantescos — outros nem tanto — pululavam de inúmeros prédios comerciais com propagandas dos novos modelos de Sandbikers — FCC-200 Nevoeiro, KXP-100 Faísca e o luxuoso NNV-1 Tempestade —, peças para construção e máquinas, acessórios para casa, para uso pessoal e até mesmo mulheres seminuas de raças variadas, de humanas à nemurianas, cada uma delas famosa como uma das raças mais sensuais de toda a galáxia, o que acarretava na exploração das fêmeas pelo setor de entretenimento virtual ou físico, mas principalmente pelo Cartel Intersetorial que praticava todos os crimes contra os Direitos Individuais Galácticos: escravidão, sequestro, roubo, assassinatos e todo o tipo de crime. Se estava dentro de seu domínio, as leis Imperiais não alcançavam.

Na parte inferior da cidade, onde a massa se concentrava, baforadas de fumaça saiam de bueiros espalhados por todas as ruas, cobriam todo o cenário com uma aparência de sujeira, abandono. Rostos variados salpicavam por entre a fumaça, eram muitas raças vivendo em aparente tranquilidade umas com as outras; alguns andavam em grupos, outros preferiam a caminhada solitária. Mesmo ali, na parte baixa, os telões — apesar de menores — irritantes brilhavam com suas cores em neon cegante, forçando suas mensagens nas mentes dos transeuntes. Nudez, bebidas, ferramentas, transportes, sexo, drogas, armas e luz, muita luz jorrando de todos os lugares. Havia um contraste naquele ambiente: mesmo com muita luz espalhada por todos os cantos, muitas vielas continuavam escuras como o céu daquela noite, era impossível reconhecer alguém que estivesse saindo de alguma delas, somente a silhueta era visível, todo o resto não passava de pura sombra. Um pouco acima das ruas estavam os cabos que sustentavam aquela gama densa de iluminação, eles adornavam o ambiente junto com as luzes, dava à cidade a harmonia própria. A maioria estava apinhada em grossos amontoados que formavam um único cabo imenso e espesso, uma serpente feita de metal revestido e eletricidade de tamanho imensurável.

Escondido sob as várias camadas do autoritário neon, pouquíssimo percebido, estava um pequeno letreiro bastante simplória piscando sobre um humilde restaurante com janelas circulares e bordas salientes. O interior era tão comum quanto por fora. Um grande balcão separava os clientes dos funcionários: duas garçonetes nemurianas, um Pakkle[1] cozinheiro, um Ankor[2] ajudante de cozinha e, por fim, mas não menos importante, uma humana cuidando do caixa. Do outro lado, na área dos clientes, devido ao pouco espaço, as mesas foram dispostas em linhas próximas às paredes, percorrendo toda ela até o limite. Em número, era em torno de doze mesas, cada uma com duas poltronas largas de cada lado, com a posterior sendo uma extensão da anterior, formando uma única peça com dois acentos em lados opostos. As luzes tinham o tom amarelado, deixando o ambiente estranhamente aconchegantes; o piso era feito com algum tipo de porcelana quadriculada em preto e branco bastante gasto; as paredes estavam cobertas até o topo com algumas fotos, imagens de outros planetas ou veículos antigos em algum tipo de feira, além do proprietário segurando troféus e faixas com o número um. A aparência interna nada especial do restaurante, diante das inúmeras fotos espalhadas, perdia sua pomposa normalidade diante daquele obsessivo design sem forma e, o que poderia tornar o restaurante feio ou desinteressante, teve o efeito oposto, deu personalidade ao lugar.

Alguns poucos clientes comiam, outros poucos bebiam no balcão, era mais prático para quem estava com pressa. Numa mesa mais afastada duas jovens fêmeas, uma humana — Shanaria Ro — e uma nemuriana — Tal-Ne Ren —, tomando a bebida mais famosa da casa: café com leite de nuz’gaa[3]. A humana tinha a pele parda, os olhos eram escuros, densos e puxados levemente para cima, porém, eram tranquilos, leves, como se o mundo fosse desinteressante; os cabelos longos e negros, assim como os olhos, presos em um longuíssimo rabo de cavalo, ultrapassavam as nádegas da fêmea. Vestia-se bem para o lugar: a jaqueta espessa dava volume a parte de cima; as pernas eram o contraste do conjunto, a calça justa, sem nenhum bolso ou adereços, realçava as curvas do corpo, mas não deixavam marcas exageradas ou constrangedoras, o avançado tecido de camadas conferia às regiões sensuais de Ro total discrição, era a perfeita combinação entre confortabilidade e estilo; já as botas eram longas, poucos dedos abaixo dos joelhos e, diferente da jaqueta, eram bastante comuns. A nemuriana, por sua vez, apresentava-se bem mais elegante que a amiga, o longo vestido roxo de tecido leve era tão confortável quanto as calças de Ro, deslizando até os pés, cobrindo as sandálias cintilantes; o cabelo médio, bastante assimétrico, o lado direito maior que o esquerdo, chamou a atenção de outras fêmeas pela novidade peculiar; os olhos verde-esmeralda e a pele completamente rosada completavam a combinação inovadora que as numurianas costumavam inventar. Apesar de tão distintas esteticamente uma da outra, as duas pareciam apreciar a presença uma da outra.

— Meu chefe está preocupado com os galmorianos — confessou Tal-Ne entre goles de café. — O líder deles, Tarren, está com problemas internos com um dos clãs. Parece que o chefe do Clã da Cura, um tal de Kojara Zorg, não vê com bons olhos a relação entre o seu povo e a Jatta Medicamentos, acha que estamos, de alguma forma sorrateira, conspirando para tomar os recursos medicinais do planeta em comum acordo com Tarren. Um total absurdo! — exclamou com desdém.

— Que confusão! — exclamou Ro após um gole do café. — Isso aqui está simplesmente divino! — afirmou. — Então… os contratos foram cancelados?

— Não… quer dizer… pelo menos ainda não — suspirou. — Tarren e o chefe do Clã do Comércio, Numaq Norquan, conseguiram acalmar os ânimos do Zorg e, apesar de não ter sido uma grande vitória, ganhamos algum tempo para pensar em alguma estratégia — tomou um gole bem maior dessa vez.

— Como assim: “apesar de não ter sido uma grande vitória”? Esse Zorg é assim tão desconfiado? — apesar de parecer interessada no assunto, Ro estava relativamente jogando conversa fora.

— Segundo meu chefe, sim. Constantemente ele faz holochamadas querendo saber informações: localização dos laboratórios para onde os medicamentos vão, nomes dos responsáveis por esses laboratórios, dos pilotos das naves que transportam os produtos, o que estão fazendo com a matéria prima… — Tal-Ne revirou os olhos — um completo pé no saco!

— Que paranoico! Ele deveria trabalhar escrevendo roteiros para teatro ou quem sabe atuar em algum circo — disse, virando a xícara de café até o fim. O comentário fez a nemuriana rir, deixando Ro confusa. — Por que você riu?

— Eu imaginei o Zorg saltitando pelo palco do teatro com uma roupa bem justa — o tom da pele de Tal-Ne foi mudando de rosado para mais avermelhado de acordo com a intensidade de suas risadas. Os nemurianos nasciam todos com a pele rosada, mas mudavam de tonalidade de acordo com as emoções que estavam sentindo, assim, a alegria alterava o rosado para o vermelho, a tristeza tendia para o azul, enquanto a raiva deixava os nemurianos roxos, e assim por diante.

— Não deve ser uma visão que muitos pagariam para ver, eu imagino — tomou o último gole do café. — A não ser que fosse num circo — deu de ombros. A nemuriana não aguentou o comentário e a risada aumentou ao ponto de incliná-la sobre a mesa com dores no abdômen. Àquela altura a pele de Tal-Ne estava completamente vermelha Apesar de Ro também sorrir — mais por causa de sua amiga do que pelo que disse —, não achou que a reação de Tal-Ne seria tão exagerada.

— Melhor… — riu — melhor eu ir ao banheiro me recompor. Volto daqui a pouco — levantou-se e seguiu até o outro lado do recinto, apoiando-se nos objetos enquanto tentava controlar as risadas. Passado algum tempo Tal-Ne voltou à mesa, mas não cambaleava como antes, estava esguia o suficiente para realçar todas as curvas do seu belo corpo rosado mesmo oculto sob o longo vestido. Quando finalmente sentou, o assento rangeu pelo contato com as pernas da nemuriana, Tal-Ne passou a observar atentamente o que Ro fazia: viu a amiga pedir mais café, adicionar açúcar e mexer. Tudo que Ro fazia, cada movimento, Tal-Ne fitava com atenção. Ro havia notado que a amiga estava diferente desde que havia voltado do banheiro, mas não quis comentar nada, odiava conversas que gerassem algum desconforto.

O que houve com ela? Parece uma pessoa diferente, pensou. — Aconteceu alguma coisa, Tal-Ne? — indagou. A nemuriana balançou a cabeça confirmando que sim. Ro estreitou os olhos com desconfiança. Será que alguém a tratou mal? Talvez algum simpatizante do tal Zorg a reconheceu como funcionária da Jatta e decidiu força-la a fazer algo, pensou.

— Por que não está falando?

Porque não desejo assustá-la, criança — duas vozes falaram em uníssono, porém, nenhuma delas era a voz de Tal-Ne. Apesar da incrível surpresa, Ro não demonstrou externamente o que sentiu internamente. Permaneceu em silêncio, fitando os olhos de sua amiga tentando entender o que estava acontecendo.

— Você não é Tal-Ne. Quem é você? — engoliu seco.

Eu sou uma entidade divina. Meu nome é Linfa — os outros seres que estavam próximos pareciam não ouvir a conversa das duas fêmeas, passavam por elas como se a mesa estivesse vazia. Ro continuava sem demonstrar nenhuma reação, mas internamente havia um turbilhão de pensamentos e sentimentos, o coração batia rápido e um calor percorria todo o seu belo corpo, estava assustada, as mãos deram sinais de tremor, mas Ro conseguiu segurar. A boca ainda seca, engoliu outro seco.

— Como um deus ou anjo? — tomou o primeiro gole da segunda xícara de café após a nemuriana confirmar a pergunta com a cabeça. — Você quer alguma coisa com minha amiga? — mais outro gole de café e uma resposta negativa. — Você quer alguma coisa comigo? — a surpresa finalmente tomou o rosto de Ro, totalmente incrédula com a resposta positiva dita sem nenhuma palavra.

Você foi escolhida por mim para representar minha vontade — rompeu o silêncio. — Para ser minha profetisa.

— Do que você está falando? — o lábio de Ro se contraiu estranhamente quando ela bateu o abdômen na quina da mesa por causa do susto. Linfa, no entanto, suspirou e sorriu em completa tranquilidade.

Não há motivo para nervosismo, Shanaria Ro, nada será feito sem o seu consentimento. Não estou aqui para obrigá-la a fazer algo que você não queira, pelo contrário, minha vontade é me unir a você em comum acordo — Tal-Ne sorria com uma gentileza que Ro nunca havia visto antes.

— Suponhamos que eu acredite em você, o que exatamente você quer? — encarou Tal-Ne nos olhos.

Como eu havia dito — ficou em pé diante de Ro, apoiando as mãos sobre o espaldar da cadeira —, meu nome é Linfa, sou uma das quatro Deusas dos Humores. É de mim que os fleumáticos obtêm sua estrutura mineral ao nascerem — abriu os braços, sorrindo. — Os humores são os temperamentos. O temperamento é a estrutura básica que forma toda a psique dos seres com inteligência, isto é, todos os seres inteligentes da galáxia possuem um temperamento, e cada temperamento possui um modo de responder ao mundo — voltou a se sentar, tomando um gole do café de Ro.

A humana ficou olhando sua amiga fazer todos aqueles gestos, falar aquele monte de coisa — no mínimo estranhas —, tomar seu café e agir como se fosse tudo natural.

— Então, eu tenho esse tal de temperamento, certo? Qual é o meu? — arqueou uma das sobrancelhas.

Você é fleumática, Shanaria Ro — apontou para ela, depois para si mesma. — E o seu temperamento vem de mim. Eu sou a origem do temperamento fleumático, porque os fleumáticos compartilham características minhas. São seres calmos e tranquilos, que agradam a todos que estão ao seu redor. São pacientes com outros, envolvendo os seus, dando a eles a harmonia que desejam. Preferem a contração à expansão, porque é no concentrar que suas qualidades afloram, isto é, são seres que vivem para dentro, não para fora. A Água os representa não apenas porque envolve tudo, adapta-se, mas também porque acalma, esfria, umidifica tudo que toca — Tal-Ne não tirou os olhos dos de Ro, ambas as jovens se olhavam tentando compreender, ler uma a outra. Ro parecia buscar sinceridade nos olhos da amiga, enquanto Linfa — através de Tal-Ne — buscava expor sua honestidade. Finalmente, após outro gole de café já frio, que fez careta ao provar, Ro rompeu o silêncio.

— Não posso negar que seus olhos passam verdade, mas mesmo assim, não acho que seja o suficiente — respirou fundo. — Porém… — antes de concluir o que queria dizer, Linfa deixou o corpo de Tal-Ne como se o espírito dela deixasse o corpo. A nemuriana desabou sobre a mesa em sono profundo, deixando um fantasma de roupas sombrias, pele pálida e uma máscara com olhos tranquilos e sorriso meigo encarando Ro.

Ro estava tão perplexa com aquilo, os olhos arregalados, a respiração quase parando, que Linfa precisou se desculpar por ter se revelado daquele jeito.

— Acho que… acho que acredito em você dessa vez — engoliu outro seco. — Não é todo dia que isso acontece com alguém, digo… você saiu do corpo dela — Ro apontava repetidamente de Tal-Ne para Linfa, indo e voltando.

Realmente eu sinto muito por tê-la assustado, Shanaria Ro, não foi minha intenção.

— Não… tudo bem. Eu não iria acreditar em você se… — voltou a apontar para as duas — se isso não tivesse acontecido.

Então você aceita meu convite?

            — Isso foi inesperado. Nunca pensei que uma deusa viria falar comigo. Nunca pensei que deuses realmente existissem — confessou. — Digo, não é algo que você vê muito hoje em dia — Linfa concordou. — Vivemos em uma sociedade cética, com pouca ou nenhuma fé em seres divinos, talvez até hostil a qualquer coisa relacionada a isso.

Por que houve um desligamento entre nós e vocês. E é por isso que estou aqui: as deusas precisam de mortais para intervir no plano mundano e vo…

            — Fui escolhida por você. Eu entendi. Certamente terei de deixar Úmmela, meus amigos e minha família, porque essa não será uma coisa simples de fazer ou que poderia realizar daqui… estou correta? — Linfa concordou sem falar. — Bem, bem… — deu de ombros — talvez não seja uma má ideia conhecer a galáxia. Eu aceito — sorriu.

Você é inteligente, Shanaria Ro, isso me alegra! Agora tenho certeza que fiz a coisa certa em escolher você — confessou. — Esse é o retorno do religamento entre mortais e divindades, depois de anos de silêncio. Eu, Linfa, uma das Quatro Deusas dos Humores, dou minha bênção a você, Shanaria Ro, e a nomeio como minha Profetisa de hoje até os teus últimos dias. Quatro é Um e Um são Quatro!

Um intenso brilho saiu dos olhos de Linfa, impossibilitando a visão de qualquer coisa ao redor por alguns segundos, até finalmente cessar e tudo voltar ao normal.

Tal-Ne acordou de seu sono forçado, confusa, limpando a baba que escorria da boca. Ro deu risadas contidas quando viu o estado da amiga, mal sabendo ela tudo que havia acontecido.

— O que aconteceu? Eu dormi?

— Sim. Depois que você chegou do banheiro foi minha vez de ir, quando voltei você estava dormindo sobre a mesa. Acho que colocaram alguma coisa no leite — explicou Ro, rindo.

— Mas eu não lembro de ter voltado para a mesa. Eu estava lavando as mãos e… — Tal-Ne se esforçou para lembrar — não consigo lembrar nada depois disso.

— Deixa pra lá! — continuou sorrindo

— Por que você está rindo?

— Por nada. Só achei engraçado você toda descabelada — gargalhou.

— Isso não é coisa que se faça com uma amiga! — penteou os cabelos com as mãos o quanto conseguiu e a baba.

— Melhor pedir a conta e irmos embora. Vamos aproveitar o resto da noite enquanto podemos.

— É melhor. Mas preciso ir ao banheiro antes! Não posso sair desse jeito — saiu correndo em direção ao banheiro. Ro continuou olhando e rindo a amiga em desespero.

 

***

 

[1] Um tipo de polvo humanoide com tentáculos no lugar das mãos e dos pés.

[2] Os Ankor eram homens-lagartos, extremamente calmos devido ao sangue frio, apesar da aparência intimidadora.

[3] Animal herbívoro abundante no planeta Galmori, muito procurado por sua carne saborosa e seu leite fermentado natural, porém difícil de ser capturado devido aos seus hábitos subterrâneos.

Meu Nome Era Maya

Amanhã será meu aniversário, mas ninguém se lembrará.

A data da morte é mais importante que a data do nascimento.” Quem foi mesmo que disse isso? Não importa. Minha mãe sempre disse que é bíblico, mas eu nunca vi isso escrito na Bíblia, e aposto que nem ela mesma. Ela é dessas que vive repetindo comentários alheios, ou melhor… ela era dessas. Ela teve a coragem que eu não tive, e cometeu o que, na opinião dela própria, é o maior pecado possível: o suicídio.

Nunca entendi muito bem a lógica disso. Eu entendo que tirar a própria vida seja horrível, afinal imagina quanta dor alguém tem que estar sentindo pra fazer isso. Mas como algo que só faz mal a si próprio (sem falar na dor dos familiares, é claro) pode ser menos perdoável que matar um semelhante, estuprar uma mulher ou violentar uma criança? A lógica divina definitivamente não bate com a minha.

E o motivo do suicídio dela também foi peculiar. Quer dizer, a maioria das pessoas que têm se suicidado nos últimos dias fez isso pelo desespero de sofrer uma morte lenta e dolorosa por causa do meteoro fatal que logo nos consumirá. Mas não a minha mãe. Posso dizer que ela estava até feliz pela chegada do Dia do Juízo Final. Acreditava que em algum momento do último sábado seria arrebatada.

Foi isso o que o Reverendo Mathias lhe disse, pelo menos. Ele levou os fiéis de sua igreja no bico, dizendo que recebera uma visão divina: no sábado, antes da última badalada, a Igreja seria arrebatada para Deus. Simples assim.

Não que eu tenha acreditado nele, mas será que minha minha realmente cogitou ser digna do arrebatamento? Ah, fala sério! Com toda aquela língua ferina contra tudo e todos, como se fosse a própria Jeová? Com toda soberba por ser uma das mais chegadas ao Reverendo, além, é claro, de ter mais “bens” do que os “irmãos”? Depois de ter se casado com o merda do meu padrasto unicamente pela conta bancária dele e, não contente, se fazer de cega aos olhares e carinhos dele comigo?

E aí ela se decepcionou com Deus, porque a carruagem não veio buscar a Cinderela, e se explodiu! Boom!

E até na morte ela quase ferrou com a minha vida! Assim que voltamos do enterro, o escroto provavelmente pensou que não haveria mais empecilho — como se minha mãe algum dia tivesse sido um — e veio pra cima de mim, no quarto. Mas o que ele não sabia é que eu já esperava por isso, e há tempos guardava uma faca debaixo do meu travesseiro.

Eu a atravessei nele até ter certeza de que estava morto. Não posso dizer que não me machuquei, mas não posso reclamar. Eu venci.

Mas também não importa, já que o meteoro vai acabar com nosso querido planeta azul. (Espero que você seja minimamente inteligente e consiga ler a ironia na última frase.)

O bom é que não vou passar minhas últimas horas vendo o Sol nascer quadrado. Não. Está uma confusão dos infernos lá fora. Minha casa já foi saqueada, e nada me restou além deste caderno e caneta.

Por que estou escrevendo — se ninguém vai ler -? Porque sim.

É o fim da aventura humana na Terra. Essa porra só é bonita nas canções. Se quer minha opinião, eu não a tenho de fato, mas sim duas hipóteses: (1)se Deus não existir, é meio óbvio — o fim veio pelo acaso e ponto final, game over!; mas se (2) ele existir, então todos fomos considerados imperfeitos demais para Vossa Santidade, e então ele decidiu limpar a Terra de nós e o Universo da Terra.

E o ponto de impacto é o Brasil, o que é morbidamente cômico. Sempre enchemos a boca para nos gabar de que aqui não há vulcões, tornados e demais desastres naturais — como se a gente precisasse de mais tragédias! “Deus é brasileiro!”, dizíamos em nossa falsa segurança.

Brasileiro ou gringo, Ele já deu seu veredicto!

O comunicado oficial foi feito exatamente oito dias antes do suicídio da minha mãe, na sexta-feira 13. Pra quem duvidava que a data dá azar, eis sua prova. Não me recordo das proporções do meteoro, mencionadas no plantão urgente que interrompeu meu filme favorito (aliás, interromper O Morro dos Ventos Uivantes pra me falar que eu vou morrer é imperdoável), mas não faz diferença.

Ele é grande o suficiente para matar a todos, sem exceção. A todos os que sobreviverem, pelo menos. Lembra que eu disse que está uma algazarra lá fora? Pois então, só contextualizando: as ruas estão “cemiterizadas” com os corpos dos mais desesperados; alguns, é claro, foram assassinados em brigas e assaltos.

Primeiro veio o choro coletivo, seguido de preces a Deus. Ainda agora alguns acham que serão arrebatados momentos antes da queda do meteoro. Depois vieram os gritos, as brigas, os grupos criminosos que a polícia chamou de “gangues do apocalipse”. Rapidamente a maldade tomou conta de alguns; o medo de outros — e o desespero de todos.

Olavo, meu vizinho de infância, também se suicidou. Enforcamento numa árvore. Eu o vi, preso à corda, o rosto pálido pela falta de sangue… Mas é como se nada mais me chocasse de verdade.

Hoje vi uma vizinha, mãe solteira, esfaquear as duas filhas. Onde isso vai parar? Quer saber, não importa: TODOS VAMOS MORRER!

As ruas estão um caos: supermercados saqueados, veículos incendiados, pessoas perdendo a razão, a memória, a humanidade…

E ainda assim, a vida insiste em não me deixar. Ainda respiro. Ainda como. Ainda durmo e acordo. Ainda ando. E não espero mais nada. Ou quase nada: a exceção é o meteoro. Já que é inevitável, queria que chegasse logo e destruísse de uma vez a História da Terra.

Vou dormir. Amanhã é o Grande Dia. O dia do fim. Seremos esquecidos e todos os nossos esforços serão humilhantemente destroçados. Todas as lutas por igualdade, toda ciência, filosofia, toda forma de arte, tudo desaparecerá para sempre. Perda total.

Boa noite. Bem que eu poderia morrer dormindo…

***

Hoje não quero ver o sol. Esperarei o cataclismo em meu quarto. Fones de ouvido no último volume. Porta trancada. Janela fechada. Diário e caneta na mão. Mas meu destino é pior que o da própria Anne; alguém leu o diário dela, mas o meu nunca será sequer encontrado.

Essa noite sonhei que tudo isso era um trote, um engano. Nenhum meteoro caiu. Olavo morrera em vão, assim como as duas meninas esfaqueadas e tantos outros. O mundo prosseguiu. E eu segui viva.

O mundo então se tornou um lugar diferente, mais humano. A experiência de quase morte coletiva nos fez rever muitas coisas e nos transformou para a melhor.

Mas então não foi em vão? “, eu me perguntava no sonho. “Será dessa forma o Dia do Juízo, a peneira, a separação do joio e do trigo? Por quê inocentes precisaram pagar? O mal acaba aqui, ou é só temporário, e nossa natureza voltará a precisar de um novo meteoro?

Mas aquelas perguntas é que foram em vão. Eu acordei, e a realidade levou a esperança sonhada.

Voltei a escrever. Talvez esse fosse o último poema da humanidade:

DESOLAÇÃO

Se foram os sonhos

O amanhã é ilusão

Nada de arca desta vez

Apenas um meteoro em rota de colisão

Há pesar no olhar de cada um

Lágrimas e dor

Seres humanos sem esperança,

Sem humanidade ou amor

Há os que aceitaram seu frio destino

Pelo incandescente e cruel pedaço de céu

Há os que se tornaram monstros caçadores

Não importa, todos estamos ao léu

Nem sei porque escrevo isso

Ninguém quer ler agora, na verdade,

Mas, ainda assim, evita que eu fique louca,

Mais uma desvairada ateando fogo à cidade

A hora a se aproxima

E, no fim, ninguém acreditava realmente nas pregações

Todos estão, ou em fúria ou em desesperança

Todos sabemos que chega ao fim cada respiração

Cada batida de coração

Não há mais futuro, não para nós;

Estrelas continuarão a iluminar

Planetas continuarão a orbitá-las

Mas não haverá olho para observar

Agora nos despedimos

Daquilo que sempre desprezamos

Nossa Terra, família e amor

E nunca na verdade vivemos,

Sempre na verdade mentimos

É isso. Ouço os gritos à distância. Lamentos antes do fim. Ouço sons estrondosos também,um pouco mais distantes que os gritos. Logo chegará aqui. Adeus mundo.

Meu nome era Maya. Maya. Maya. Maya. May

Ventania de desejos

      Ventania de desejos 

Início de outono e as árvores já começaram a transformar suas folhas verdes em folhas secas em uma mistura de amarelo, laranja e vermelho. O outono é, com certeza, uma das estações mais revigorantes de todas, pois ela é uma preparação para o inverno. No outono, colhemos tudo o que plantamos durante a primavera e verão. Colhemos os frutos para sobrevivermos ao inverno.
Neste primeiro dia de outono, muitos ficam em suas casas para se proteger dos ventos. Porém, alguns corajosos se arriscam e aproveitam a paisagem do começo da estação. Durante a manhã uma garota, que conheço bem, pois a vi crescer nesta praça, estava em um banco lendo um livro. Está de óculos de armação azul, que combinam com as pontas tingidas de seu belo cabelo liso e curto. Seu nome é Lira. Como se espera, usa roupas quentes e um gorro para manter a cabeça aquecida.
Lembro que alguns anos atrás Lira se apaixonou, porém ele foi embora, e ela não pôde dizer o que sentia. Então veio à praça, nesta mesma estação e encontrou um taráxaco, também conhecido como dente de leão. Ela o pegou e o soprou. Conhecia a história que ao soprar a flor deve-se fazer um pedido sobre seu desejado amor. Se o vento trouxer de volta as pétalas o pedido será brevemente realizado. E, até onde sei, é a pura verdade.
Enquanto Lira lia seu livro calmamente, uma brisa soprou e logo se tornou uma ventania, fazendo-a perder o livro que foi levado pelo vento para perto da fonte. Depois de Lira se ajeitou e caminhou em direção ao livro, agachou-se e o pegou. Antes que se levantasse, uma voz a chamou.
– Lira? – Ela virou seu olhar em direção da voz e o viu: – Você é a Lira, não?
– Sim, sou eu! – Ela se levantou e avaliou bem o menino que a chamara. – Murilo?
– Sim. Acabei de voltar a cidade – Lira tinha um olhar de esperança e amor. – Lira, que tal darmos uma volta? Gostaria de matar a saudade da cidade. E de você. – Essa última parte a deixou surpresa, e um sincero sorriso apareceu, que ele correspondeu.
– Também senti sua falta. Então vamos dar uma volta. – Respondeu, ajeitando seu livro em sua bolsinha e indo com ele até a saída.
Então Lira e Murilo saíram juntos da praça e ao longe pude ver pequenas pétalas de taráxaco passando pelos pés de Lira, bem no momento em que Murilo segurou sua mão, fazendo ambos sorrirem. Uma brisa de paixão, sempre volta como uma ventania de amor.

(Conto do livro “A fonte dos desejos”)

Os Contos dos Quatro Humores: Colérico, o Fogo

O ruído de metal sendo soldado, cortado e batido era misturado com vozes, gritos e gargalhadas ressoando em todo o galpão. Grandes armários e prateleiras de ferro estavam soltas sem nenhuma organização prévia, com poças de óleo no chão, faíscas voando, ruídos de ferramentas se chocando umas nas outras… o lugar era uma algazarra.

Duas vastas linhas de pilastras que apontavam em direção à saída impediam que o teto desabasse, altas o suficiente para facilitar a locomoção pelos andaimes, e também resistentes para suportar todo aquele peso maciço. Espalhados por todo lugar haviam enormes máquinas triangulares feitas de metal Kyr pintadas de vermelho-sangue, os cascos completamente fechados com somente uma pequena abertura metros acima do bico em forma de broca — era por ali que o piloto enxergava.

Do alto do teto pendiam grandes soldas presas em tubos de energia bem acima dos veículos com vários humanos machos puxando ou arrastando a ponta avermelhada que lembrava uma gigantesca agulha de fogo.

— Thylon, quantas vezes eu já falei para não puxar a solda desse jeito? — disse um dos homens mais ao fundo da oficina; tinha a estatura baixa, mas o corpo era bastante musculoso; estava completamente sujo de óleo e marcas de queimadura nos braços e no rosto. Usava um macacão preto sem mangas — notadamente ele mesmo havia cortado por que os fios irregulares se soltavam — que cobria todo o corpo; a roupa oferecia uma proteção para cabeça, mas também foi removida, deixando apenas um grande par de óculos de lentes escuras que servia para proteger os olhos do fogo expelido pela solda. Era um homem de idade avançada, mas bastante conservado.

— Não enche o saco com seus sermões de merda, Kigi! — exclamou o rapaz poucos metros à frente. — Não tenho mais tempo para eles! — Thylon era bem mais novo que Kigi, tinha cabelos dourados quase raspados, olhos azuis e uma expressão triste; assim como Kigi, vestia o macacão preto e usava óculos para proteção, mas diferente do colega mais velho, as mangas do macacão estavam intactas, assim como a máscara de proteção. Era bem mais alto que Kigi, por sinal, porém menos musculoso. — Eu não tenho espaço para virar a maldita solda, então preciso força-la — puxou a ferramenta ao ponto do tubo se chocar com as passarelas, causando um forte barulho seco e oco. — Merda de solda pequena! — resmungou.

— Cuidado com a boca, moleque!  — a veia na testa de Kigi saltou. — Toda vez você diz a mesma coisa, mas por sua causa já mandamos consertar três soldas! Acha que temos tanto dinheiro e tempo para perder? Acha que é o único com pouco espaço, moleque mimado?

— É a verdade, velho maluco! Não faço isso de propósito! Se você não acredita, o problema é seu — apontou a solda para Kigi. — Eu tenho o direito de reclamar como todo mundo aqui; trabalho a mesma quantidade de horas que todos, às vezes bem mais que muitos! — Thylon sacudia a solda enquanto bradava, irado, com os colegas próximos. Quando finalmente se acalmou. — Agora me deixe trabalhar, tenho muito o que fazer! — deu as costas puxando a solda para fechar uma rachadura no casco do veículo.

— Não me dê as costas, Thylon, e pare de ficar se vitimizando. Em todo lugar encontramos pessoas com mais ou menos dificuldades que as nossas, então pare de olhar para o próprio umbigo feito uma criança que não ganhou o presente que queria! — a voz de Kigi ecoou tão alto e forte que cobriu todo o barulho de metal; os outros trabalhadores tinham interrompido o trabalho para ouvir. As mãos calejadas de pequeno homem largaram a solda e ele desceu do veículo-escavador em direção ao colega — Quem você pensa que é? Engula esse seu egoísmo de merda e faça o seu trabalho com o que você tem sem encher o saco dos outros!  — outra veia da testa de Kigi saltou, desta vez no lado esquerdo; ele abriu os braços como se falasse com os outros trabalhadores do alto de um púlpito; era um gesto simbólico que Thylon foi forçado a se segurar para não avançar sobre o colega.

— Você ainda continua falando, velho? Não cansa de bancar o homem maduro quando nem ao menos conseguiu manter o próprio casamento? Não dê lições de moral quando sua própria vida é o exemplo de fracasso.

— CALEM-A-DROGA-DA-BOCA! — outra voz bradou como um trovão, feroz e poderoso o suficiente para rivalizar com os sons agudos de metal batendo, cortando e soldando. Thylon e Kigi baixaram a cabeça na mesma hora, já sabendo que estavam com problemas.

— Reblas, desculpe por isso, mas o… — Thylon sequer conseguiu terminar a frase e novamente foi interrompido.

— Você é surdo, Thylon? Eu já falei para calar a boca! — exclamou, vendo o funcionário erguer as mãos pedindo calma. Reblas era um homem maduro, de corpo esbelto, não tão forte quanto Kigi, mas sua altura lhe proporcionava uma divisão melhor dos músculos. Os cabelos negros e lisos eram penteados para trás, quase lambidos, muito bem cuidados; os olhos eram tão escuros quanto os cabelos, mas sem dúvida muito mais cheios de vida, convergindo bem com seu rosto expressivo; a jaqueta vermelha de couro aberta, que lhe caía bem, cobria a camiseta simples por baixo; as caças eram de tecido mais justo e nos pés um par de botas cano relativamente longo. No peito esquerdo da jaqueta dava para ver em letras bordadas: Lak Escavações, bem acima do desenho de uma pirâmide cujo topo formava uma broca.

— Estou cansado de ouvir vocês dois brigando toda semana! Por acaso são crianças? — Reblas estava dentro de uma cabine localizada mais à direita, abaixo das passarelas, mas acima das máquinas e dos trabalhadores. Da janela a vista era privilegiada, garantia uma vista ampla de todo a oficina.

— Então é melhor que o Kigi me deixe trabalhar em paz.

Os olhos de Reblas estreitaram por alguns segundos, fixos em Thylon como uma fera fitando sua presa. As mãos, apoiadas sobre base da janela, apertaram com força a borda de maneira; os ombros de Reblas tensionaram, assim como seus braços.

— Sabe qual é o seu problema, Thylon? Você se comporta como se o mundo e os outros devessem algo a você — os dentes de Reblas também tensionaram, dava para notar a rigidez em seu maxilar. Respirou fundo antes de retomar sua fala e, por pura força de vontade, o corpo foi relaxando — Ninguém deve nada a você! — gotas de saliva voaram quando Reblas rugiu como um animal selvagem. Thylon não teve reação, estava paralisado pelo medo.

Todos os trabalhadores, sem exceção, interromperam suas atividades quando ouviram o berro do chefe; até mesmo os mais antigos, que estavam com Reblas desde a fundação da empresa, sentiram, por pura intuição, que deveriam ficar quietos; não era uma reação comum para todos eles, inclusive os mais antigos.

— Enquanto você reclama por bobagem, os outros precisam trabalhar cinco, dez, vinte, até mesmo uma hora a mais para cobrir o seu tempo desperdiçado! — ouviu-se o som abafado do metal se chocando contra o punho de Reblas de longe — Não importa se você acha ruim, se o Kigi começou, se isso cansa, se você não gosta dele… tudo o que importa aqui é que você aceitou o trabalho livremente. Ninguém o forçou a estar aqui e não estou o explorando como a maioria das empresas de escavações — mais uma vez Reblas respirou fundo para se acalmar; o punho vermelho estava de volta à janela. — Meus contratos são justos, mas se não está feliz aqui, procure emprego em outro lugar — apenas a voz de Reblas era ouvida, mesmo após o fim do sermão, ninguém ousou falar absolutamente nada, nem mesmo Thylon, ainda assustado com o que viu e ouviu.

— Chefe… — a voz falhou e Thlon engoliu seco; sua cor estava mais pálida e os olhos pareciam perdidos, não conseguiam se concentrar em um ponto fixo — eu não quis dizer que não gosto de trabalhar aqui, foi apenas uma maneira de dizer… foi o cansaço talvez… não sei… vamos deixar isso pra lá, tudo bem? Vou voltar ao trabalho.

— Essa foi a coisa mais inteligente que você disse hoje, Thylon — fitou o funcionário por um tempo antes de voltar a atenção para os demais trabalhadores — Voltem ao trabalho!

— Ah! Antes que eu esqueça… — Reblas olhou para Thylon. — Se você quebrar mais uma solda, vou fazer pior que descontar do seu pagamento, talvez eu mande uma hologravação para Shiima com as notas fiscais de todas as soldas que você quebrou.

— Também não precisa apelar, chefe! — reclamou. — Eu estou morto se Shiima souber!

— Então quer dizer que sua esposa não sabe? — Kigi deu uma gargalhada tão alta que outros funcionários foram contagiados. — Não vou deixar essa informação passar em branco.

— Chega de conversa! Voltem ao trabalho! — Reblas gritou, recolhendo-se para dentro da cabine e fechando a janela. Estava segurando o que parecia ser uma bola pequena numa das mãos, atento a uma tela virtual que flutuava no ar sobre uma luz em forma de cone emitida por um cubo transparente.

Problemas? — uma voz trêmula e robótica saiu da tela.

— Não foi nada.

Então vamos continuar.

— Mantenho a oferta de 5.000 denários pela T-500.

Já falamos sobre isso, Reblas, o valor está abaixo do mercado, e eu garanto que você não vai encontrar outra broca T-500 pelo valor que estou oferecendo.

            — Não tenho como oferecer mais do que isso, Konon, sem contar que a broca já é usada. Minha contraproposta é pagar o que você quer, mas pelo tempo que pedi — jogou a bola contra a parede que a rebateu, voltando para as mãos de Reblas num piscar de olhos.

Dois anos-setorial? Impossível! — retrucou a voz.

— Então não tem negócio. Por mais que eu precise dela, ainda tenho outras brocas e posso procurar o Ravir para negociar — aquele simples nome fez Konon esbravejar.

Tsc! Aquele ignorante? Não venha com essa! — ouviu-se um risinho de escárnio. — Não admito perder um cliente para aquele infame, ainda mais você! Façamos o seguinte: me dê 5.200 denários e a broca é sua!

— É assim que se fala! — sorriu, transferindo o dinheiro pela tela flutuante. Houve um som de alguma coisa sendo processada e então um “Pim!” seguido por um pequeno quadrado verde no centro da tela com as palavras: Transferência Finalizada. — O valor já está na sua conta. Já sabe para onde mandar o equipamento. Qual o prazo?

Certo… recebido — confirmou. — Deixa-me ver aqui… um, dois… — a voz ficou em silêncio por alguns segundos — em no máximo uma semana.

— Ótimo! — Reblas deu a volta para sentar na cadeira atrás da mesa. — Foi bom fazer negócios com você, Konon — despediu-se.

Você é um safado de um esperto, mas é um dos meus melhores e fieis clientes, não posso reclamar muito — a voz soltou uma risada. — Até mais, Reblas! Avise-me caso precise de mais alguma coisa — a voz se desconectou e a tela flutuante foi recolhida quando o cone de luz sumiu.

A cadeira rangeu quando Reblas sentou, forçando o espaldar para se espreguiçar, bocejando. O corpo todo estava tenso e dolorido devido ao longo tempo sentado; os olhos já estavam pesados àquela altura, até Reblas finalmente cair no sono.

O som da holochamada o acordou, fazendo-o saltar da cadeira com o susto. Olhou a hora na tela flutuante já ativada, era tarde e ele deveria ter ido embora. O ruído do comunicador não parava de soar, mas Reblas preferiu não atender.

Toque o quanto quiser, pensou, pegando a jaqueta sobre a mesa e seguindo em direção à saída.

Não vai atender, Lak Reblas? — disse a voz no holocomunicador que, em verdade, eram duas, uma masculina e outra feminina. Reblas virou em direção a mesa totalmente assustado. Não seria possível o equipamento ter feito o autoatendimento, ele não possuía essa função desde quando seu antigo dono a retirou.

Se não atender, serei forçada a ir até aí — ameaçou a voz, mas Reblas permaneceu em silêncio, aproximando-se do holocomunicador devagar, em passos curtos e quase inaudíveis. Próximo o bastante para tocá-lo, tomou outro susto.

Acha que não estou ouvindo você, Lak Reblas? Eu ouço, vejo e sinto TUDO! — as palavras do holocomunicador paralisaram Reblas por um momento, no entanto, não o suficiente para amedrontá-lo.

— Isso é algum tipo de brincadeira? Quem é você? — indagou. — É você, Méjja? Se for vo… — não deu tempo de continuar a frase, Reblas teve a sensação de que algo no ar estava diferente. No mesmo instante o espaço foi rasgado, bem ali, na frente da mesa dele, diante dele. A fenda era tão escura que não dava para saber o que havia do outro lado, ao menos não até duas mãos, dois braços e todo o corpo de uma mulher atravessar, como se um pedaço daquele breu estivesse ganhando vida.

Os olhos escuros de Reblas não piscavam, estavam esbugalhados; toda a face havia perdido o rubor e Reblas sentiu o corpo transpirar mais que o normal. Deixou a jaqueta cair sobre os próprios pés devido ao susto. A mulher tinha quase todo o corpo coberto por um manto incrivelmente escuro, com tiras negras que flutuavam se assemelhando à roupas desfiadas e as mãos, delicadas como seda, estavam amostra; o rosto era coberto por uma máscara branca com um sorriso de orelha a orelha, além dos olhos com expressões ferozes e audaciosas.

— Isso é um sonho? — indagou Reblas enquanto tocava o próprio corpo.

­Eu sou Íbilis, uma das quatro Deusas dos Humores — disse sem dar atenção a pergunta dele. — É de mim que os Coléricos obtêm sua estrutura mineral ao nascerem — afirmou, afastando os braços num gesto de autoelogio.

— Deusas dos humores? Você é uma deusa? — a entonação da palavra “deusa” saiu junto com um risinho de incredulidade, causando uma reação tensa de Íbilis.

Está zombando de mim, mortal? — disse se aproximando de Reblas, a mão se erguendo poucos metros antes de alcançar seu alvo, fazendo Reblas flutuar alguns centímetros do chão e voar em sua direção tão rápido que o deixou tonto. O encaixe da palma de Íbilis sobre o pescoço do rapaz foi perfeito, quase natural. Reblas tentou se desvencilhar, mas nada do que fazia era o suficiente, não tinha força para se soltar e não conseguia acertar um chute na mulher porque seus pés paravam antes de alcança-la.

— Tu-tu… tudo… be-bem… — balbuciou em desespero, o rosto completamente vermelho, bem diferente da palidez anterior. Íbilis por fim o largou.

Não sou como minhas irmãs, mortal, então tome cuidado com o que sair de sua boca enquanto estiver diante de mim! — exclamou. Seu ficou tão próximo ao de Reblas que o humano sentiu vontade de reagir, mas sua notável força de vontade o conteve.

— Tudo bem, Sra. Deusa dos…

Íbilis. Me chame de Íbilis.

— Certo… Íbilis. O que você quer de mim — por mais estranho que isso seja? — a voz falhou ligeiramente devido a dor na garganta. Reblas massageava toda a região com desconforto.

Direto ao ponto. Gosto disso. Sente-se — não esperou a resposta antes de erguer Reblas no ar com um único gesto, repousando-o sobre a cadeira.

Os humores são os temperamentos. O temperamento é a estrutura básica que forma toda a psique dos seres com inteligência, isto é, todos os seres inteligentes da galáxia possuem um ou mais temperamentos. No entanto, a imensa maioria possui um em destaque. Ora, o temperamento é responsável pelo modo como cada ser compreende o mundo ao seu redor, ou seja, todos recebem impressões do mundo e, naturalmente, devolvem essas impressões de uma maneira muito específica. Portanto, um melancólico não reagirá de forma natural diante de alguma circunstância do mesmo modo que um colérico, sanguíneo ou fleumático. Cada humor tem características específicas, apesar de serem apenas quatro.

— Hum… e qual seria o meu temperamento? — indagou ainda com a voz fraca.

Como a deusa ao qual os coléricos obtêm sua estrutura, e por ter vindo especificamente por sua causa, fica evidente que você é um ser de temperamento colérico — predominantemente colérico. Em você vejo a capacidade para liderar os seus, de guia-los rumo à verdade e de protege-los quando em perigo; vejo o ímpeto que o faz confiar nas suas escolhas, não se importando com as opiniões dos outros, porém, sem a arrogância ditatorial nem a rigidez da ira. Você é aquele que trouxe o fogo e, como tal, deve ser aquele quem os outros devem seguir. O fogo queima, mas o fogo aquece, e as duas coisas são fundamentais.

— Você é a deusa que representa os coléricos?

Não… eu sou a origem do qual os coléricos são coléricos — corrigiu.

— Então — levantou-se —, você é uma deusa que possui três outras deusas como irmãs, e cada uma é origem dessa estrutura psíquica ou mental de todos que você chama de temperamento, é isso? — não havia desdém nem zombaria nas palavras.

Correto.

— Eu aceito.

Tem certeza?

            ­— Sim.

Por que aceitou tão rápido?

— Meu avô contava estórias sobre você e suas irmãs e tinha fé nas suas existências — um pequeno sorriso se formou. — Fui criado por ele e adorava essas estórias, mas elas foram muito mais do que simples estórias para mim.

Eu lembro do seu avô, era um homem bom, cheio de energia, seu enorme coração lhe permitia olhar o próximo com empatia honesta, e isso o tornava adorável aos olhos de todos. Um legítimo Sanguíneo! — flutuou para frente. — Seu avô o educou bem, Lak Reblas. Vejo que fiz a escolha certa — Íbilis fez uma reverência.

— Ele era realmente o melhor dos melhores — suspirou. — A honra é minha em ter sido escolhido — retribuiu a reverência. — Quatro é Um e Um são Quatro — disse, sorrindo para Íbilis que não conteve a risada.

Esse é o retorno do religamento entre mortais e divindades, depois de anos de silêncio. Eu, Íbilis, uma das Quatro Deusas dos Humores, dou minha bênção a você, Lak Reblas, e o nomeio como meu Profeta de hoje até os teus últimos dias. Quatro é Um e Um são Quatro!

Houve um intenso brilho vindo dos olhos de Íbilis, forte o bastante para ofuscar tudo ao redor, cegando Reblas por alguns segundos e o acordando em seguida. Ele havia caído da cadeira por ter feito força demais para trás enquanto dormia.

— Foi um sonho? Mas pareceu tão real… — aquelas eram nítidas palavras de lamento. Levantando-se, colocou a cadeira no lugar e arrumou rapidamente a mesa, percebendo sua jaqueta mais ao canto. Foi até lá, inclinou-se e esticou a mão para pegá-la até notar uma mancha escura no dorso de sua mão: três linhas de tamanho idêntico, todas em posição vertical, com a linha central ligeiramente abaixo das outras duas. Instantaneamente Reblas começou a rir.

— Eu sabia que não era um sonho! — exclamou.

A sentença final

A sentença final

A notícia do crime bárbaro se espalhou rapidamente pela pacata cidadezinha, deixando a todos perplexos diante de tão inesperado e terrível acontecimento: um homem, que todos imaginavam acima de qualquer suspeita, sequestrou, violentou e matou uma pobre garotinha de apenas 13 anos. A investigação policial, logo após a notícia do desaparecimento da menina, e auxiliada por uma denúncia anônima, rapidamente levou à descoberta da identidade do suspeito: um cidadão comum, funcionário público, sem passagens pela polícia. Ao ser encontrado, não ofereceu resistência, e se entregou aos policiais, sendo conduzido para a prisão. Passados alguns dias, foi levado ao fórum da cidade para prestar seu depoimento diante do júri. E faria isso com uma fria riqueza de detalhes, impressionando a todos.

No dia marcado, uma multidão exaltada apareceu para acompanhar o desfecho daquela trágica história. Quando a viatura chegou ao fórum, e o prisioneiro saiu escoltado por dois policiais, os gritos e xingamentos do povo indignado logo se fizeram ouvir: “Assassino!”; “maldito, merece a morte!”; “vai pro inferno seu nojento!”, e outros tantos inomináveis palavrões, que raramente se ouvia da boca daquela gente simples. A família da vítima — formada pelo pai, a mãe e um irmão mais velho — chegou cedo ao local, para poder finalmente entender a razão disso tudo, e poder olhar nos olhos daquele que tirou, de forma tão desumana e doentia, a vida da sua caçula tão preciosa: Ana era o seu nome, em homenagem à querida avó já falecida.

Durante o depoimento, perante o juiz, advogado, promotor e os jurados, o criminoso confessou todos os detalhes de como encontrou e sequestrou Ana na saída da escola, o que fez com ela no seu cativeiro, e como finalmente a matou depois de alguns dias (detalhes esses que não comentarei aqui, para não chocar os corações mais sensíveis). E depois de tudo confessar perante o tribunal, não demonstrou arrependimento, permanecendo com a cabeça baixa, mas tinha a voz calma e perturbadoramente serena, o que chocou a todos, principalmente, aquela família humilde. Era nítido no rosto daquelas pessoas a indignação, a revolta e a dor de sofrer uma perda dessas: está além das palavras.

Depois de concluído o processo, foi lida a sentença pelo juiz: 20 anos de reclusão. Após a martelada final do Meritíssimo, os policiais o retiraram da sala e o encaminharam para a sua cela solitária da prisão. Nesse instante o irmão mais velho — revoltado e totalmente fora de si — tentou atacar o assassino, mas sua tentativa foi em vão, sendo logo contido por seu pai e por um policial. Fez-se um grande alvoroço, e todos puderam ver a revolta e o ódio estampado em seus olhos. Acredito que, se não o tivessem segurado a tempo, teria matado o assassino com suas próprias mãos ali mesmo. Mas, ainda muito transtornado e inconformado com o destino — o seu ver ameno daquele homem — o irmão da menina assassinada proferiu de sua boca a sua própria sentença para o condenado:

— “Assassino! A minha irmãzinha não merecia isso seu doente! Que o diabo lhe carregue!” — Foram estas as suas palavras.

Depois de acalmados os ânimos, o condenado foi enfim levado para a sua cela, isolado dos outros presos, e lá ficou em silêncio, continuando com sua atitude de não falar nada, e a cabeça sempre baixa.

* * *

Na manhã seguinte, quando os guardas levaram a sua refeição matinal, ao abrirem a cela, uma surpresa chocante: o assassino estava morto. Foi encontrado caído no chão, os olhos arregalados, a boca aberta escorrendo saliva, e uma horrível expressão de pavor estampada no rosto já frio. O laudo médico após a autópsia constatou um infarto agudo, o que surpreendeu a todos, pois aparentemente ele tinha boa saúde. Para os guardas da prisão e os médicos que viram seu corpo — a julgar pela expressão de seu rosto — ele tinha morrido literalmente de medo. Alguma coisa o deixou tão aterrorizado que seu coração não resistiu.

Realizou-se uma investigação. Os outros presos relataram, em seus depoimentos, que durante a noite ouvira gritos horripilantes vindos da cela do assassino, além de batidas na porta como se ele tivesse, em desespero, tentado fugir dali. A cela onde passou suas últimas horas foram minuciosamente examinada pela perícia e nada foi encontrado, a não ser por um estranho detalhe: ao abrirem-na, sentiram um fedor muito forte de enxofre. A sentença final estava cumprida.

* * *

O dia que tive tudo que sempre quis

Olá meu nome é Henrique tenho 17 anos e moro em Euclides da Cunha, uma cidade do interior da Bahia, mas isso não importa agora. Olha sei que esse início está bem chato, provavelmente monótono, e com certeza você pensa que sou apenas um garoto normal. Bem tenho que te dizer uma coisa: não existe essa coisa de normal, todos temos um lado louco.

Acho que vou recomeçar. Oi, de novo, meu nome é Henrique tenho 17 anos, e um dia realizei todos os meus sonhos. Mas antes de começarmos preciso que pense em seus sonhos, por mais loucos ou improváveis que sejam. Pensaram? Pois bem, então vamos nessa.

Tudo começou em uma manhã de quarta-feira. Acordei tomei café da manhã, escovei os dentes e fui pra escola, até aí tudo normal. Bom, só até eu começar o meu triste e solitário trajeto até a escola. Estava lá eu, caminhando pelas ruas da minha cidade quando eu vi um homem fazendo um show de rua. Eu sei, qual o absurdo disso? É que não era um show normal, já que tal homem estava dançando com uma porta.

Isso mesmo uma porta, nunca na minha vida tinha visto algo tão estranho. Porém, o que me parecia o cúmulo do absurdo foi as pessoas pagando e aplaudindo o show. Após alguns minutos decidi continuar meu trajeto, torcendo para nada estranho acontecer, para minha sorte cheguei na escola sem encontrar nada fora do normal.

Quando eu estava esperando o portão abrir, percebi que o porteiro estava conversando vivamente com outro homem, logo pensei que era algum amigo dele, mas quando eu vi o rosto do tal homem adivinhe. Meus parabéns se você falou que era o cara da porta, primeiramente fiquei surpreso, depois comecei a pensar e só consegui elaborar três possibilidades: a primeira era que ele era muito rápido, a segunda ele tinha um irmão gêmeo e a terceira e mais assustadora, era que esse homem estava me seguindo.

Foquei na última possibilidade e tentei descobrir o motivo da perseguição, porém fui interrompido quando o sinal da primeira aula tocou. Decidi na hora que entrei na sala que aquilo era uma mera coincidência e me concentrei na minha aula favorita: química. Na segunda aula senti vontade de ir ao banheiro e pedi ao professor para sair, ele deixou eu ir, mas falou para não demorar.

Eu fui o mais rápido que pude ao banheiro porque não queria perder o tempo precioso da aula de química, e claro também não queria levar uma boa bronca. Você deve estar se perguntando porque diabos estou narrando minha ida ao banheiro, pois bem vou explicar. Lembram daquele homem fazendo seu show estranho na rua, que reencontrei na minha escola, pois então imagine o susto que levei quando encontrei ele dentro do banheiro olhando diretamente para mim.

Para mim já bastava, com certeza esse cara estava me seguindo, só tinha essa possibilidade. Era praticamente impossível encontrar uma pessoa três vezes seguidas em locais diferentes e em pouco tempo. Mas as coisas só começaram a piorar depois que o tal homem começou a falar.

— Olá Henrique meu nome é Dream.

— O que você quer?

— Eu tenho te observado.

— Isso explica porque te encontrei três vezes hoje. Mas não explica o motivo dessa perseguição.

— Ora, isso eu posso explicar.

— Então comece porque não tenho muito tempo.

— Eu venho da terra dos sonhos, e vim com a missão de realizar todos os seus sonhos.

Nessa hora comecei a dar risada, porque aquilo era muito maluco, provavelmente esse cara devia estar drogado ou bêbado. Porém, minha risada e cara de deboche não surtiu efeito algum porque o cara ficou com a mesma expressão de alegria no rosto.

— Você pode não acreditar Henrique, mas é a mais pura verdade.

— A claro que é. Só que quero uma prova.

Decidi entrar naquele jogo só para ver onde isso iria parar.

— Eu sei o que mais deseja. Você quer uma fortuna para comprar tudo que quiser, e mesmo assim continuar rico, eu sei que quer poder controlar as horas para não perder tempo, e sei que quer a maior coleção de histórias em quadrinhos, jogos e videogames da história.

Nesse momento fiquei sem palavras, pois tudo aquilo era verdade, mas não tinha como ele saber, eu nunca tinha contado nada daquilo para ninguém, e muito menos tinha anotado no meu diário. Então será que ele falava a verdade? Não, era impossível.

— Apenas acredite Henrique e será o homem mais feliz do mundo.

— Ok.  bom, então vai lá vossa criatura mágica realize meus sonhos.

— Muito bem Henrique. Tudo que precisa fazer é atravessar a porta e será feliz.

Eu já não sabia mais o que fazer, então só fiz o que ele pedia e atravessei a porta, pelo menos era a porta para o lado de fora, eu poderia correr e chamar ajuda. Eu caminhei até a porta, abri e a atravessei.

Eu só me lembro de ver uma luz forte que me fez fechar os olhos. Quando os abri novamente não estava mais na escola, eu tinha ido parar na minha cama, ou talvez nunca tivesse saído dela, naquele momento pensei “Ah meu Deus foi só um sonhoPorém, esse pensamento durou pouco tempo, pois uma mulher que eu nunca tinha visto na minha vida entrou com uma bandeja com meu prato favorito: panquecas com chocolate, e café com leite.

Ela me cumprimentou, deixou a bandeja e foi embora, achei aquilo muito estranho, então decidi deixar a comida na cama e investigar, no momento que abri a porta e olhei para minha casa e percebi que estava três ou até quatro vezes maior que antes. Tinha uma decoração minuciosa e grandes corredores, cocei os olhos pensando ser uma ilusão, mas tudo continuou lá.

Eu procurei minha mãe pelo que me pareceram horas mas não a encontrei, na verdade, não encontrei ninguém que conhecia, na casa só tinha mulheres e homens trabalhando.

Continuei a procurar até que encontrei uma porta que dizia “Zona do Paraíso”. Eu abri a porta e encontrei diversos jogos, videogames e histórias em quadrinhos. Aquele quarto, aquela casa, o tempo que demorava passar, mas não passava tudo isso eram os meus sonhos. O homem estranho falava a verdade, eu finalmente tinha tudo que sempre quis.

Comecei a explorar o paraíso por diversas horas, que, na verdade não passaram de alguns minutos, li muitas HQS e joguei alguns jogos, até que lembrei da escola, hoje provavelmente era quinta-feira e tinha aula. Eu precisava contar aquilo pros meus amigos, saí do quarto tomei o café da manhã e me preparei para ir para escola.

No caminho para a escola eu não conseguia parar de sorrir, o que assustou algumas pessoas, desculpa aí pessoal, mas vão ter que me aturar. Quando finalmente cheguei na escola eles já tinham aberto o portão, fui logo procurar o Yago, o meu melhor amigo. Ele estava na porta da nossa sala, eu fui até lá para cumprimentá-lo, mas ele reagiu indiferente comigo, como se não me conhece-se. Tentei explicar quem eu era e o que tinha acontecido, mas não adiantou nada.

Será que isso era um efeito colateral? Bom, eu precisava saber, por isso fui procurar todas as pessoas que eu conhecia, porém, foi uma perda de tempo, ninguém me reconheceu. Eu saí da escola para tentar pensar um pouco, mas tudo que conseguia argumentar era que aconteceu um erro na hora da mágica e por isso ninguém se lembrava de mim.

Deixei a escola e fui procurar o homem estranho, procurei por vários pontos da cidade, até bati em algumas portas para perguntar, mas sem sucesso ele não estava em lugar nenhum, eu voltei para o primeiro lugar que tinha visto ele, na esperança de encontrá-lo, porém quando cheguei lá não tinha ninguém, não aguentei e desabei, cai de joelhos e comecei a chorar.

As pessoas passavam e só comentavam o meu choro, ninguém me ajudava, claro como poderiam fazer isso, mas pelo menos se tentassem eu me sentiria melhor. Após muito tempo de choro e arrependimento, um homem parou para me ajudar. Ele estendeu a mão e me ajudou a levantar, eu já ia agradecendo quando vi seu rosto, era o homem dos sonhos não consegui me controlar e o abracei de felicidade.

Eu pedi sua ajuda, expliquei que tinha acontecido alguma coisa de errado, falei que ninguém se lembrava de mim e que ele precisava consertar as coisas, mas tudo que ele disse foi que era isso que acontecia, para realizar os sonhos era preciso apagar a nossa antiga vida, eu não podia acreditar naquilo, tinha que ter um jeito uma solução por mais ruim que fosse, eu precisava que todos se lembrassem de mim.

A única ideia que tive foi que ele precisava desfazer aquilo tudo, precisava que tudo voltasse ao normal, por mais chato que fosse eu tinha que voltar. De primeira ele não aceitou, mas consegui convencê-lo. Ele pediu para atravessar a porta de uma casa, eu fiz isso e vi a mesma luz branca. Quando abri os olhos estavam novamente na minha cama, abri a porta torcendo para tudo estar de volta ao normal e para minha sorte estava. Corri até a cozinha, abracei minha mãe e falei o quanto eu a amava, depois eu fui até a escola e cumprimentei todos e falei que os amava.

Bem essa foi a minha história, estranha e assustadora, mas eu agradeço que tenha acontecido, pois até hoje eu levo uma lição que aprendi: não vale a pena realizar os nossos sonhos, e deixar a família e as pessoas que amamos para trás, só é gratificante se tivermos alguém com quem compartilhar a felicidade.

O coração delator

É verdade! Nervoso, muito, muito nervoso mesmo eu estive e estou; mas por que você vai  dizer que estou louco? A doença exacerbou meus sentidos, não os destruiu, não os embotou. Mais que os outros estava aguçado o sentido da audição. Ouvi todas as coisas no céu e na terra. Ouvi muitas coisas no inferno. Como então posso estar louco? Preste atenção! E observe com que sanidade, com que calma, posso lhe contar toda a história.

É impossível saber como a idéia penetrou pela primeira vez no meu cérebro, mas, uma vez concebida, ela me atormentou dia e noite. Objetivo não havia. Paixão não havia. Eu gostava do velho. Ele nunca me fez mal. Ele nunca me insultou. Seu ouro eu não desejava. Acho que era seu olho! É, era isso! Um de seus olhos parecia o de um abutre – um olho azul claro coberto por um véu. Sempre que caía sobre mim o meu sangue gelava, e então pouco a pouco, bem devagar, tomei a decisão de tirar a vida do velho, e com isso me livrar do olho, para sempre.

Agora esse é o ponto. O senhor acha que sou louco. Homens loucos de nada sabem. Mas deveria ter-me visto. Deveria ter visto com que sensatez eu agi — com que precaução —, com que prudência, com que dissimulação, pus mãos à obra! Nunca fui tão gentil com o velho como durante toda a semana antes de matá-lo. E todas as noites, por volta de meia-noite, eu girava o trinco da sua porta e a abria, ah, com tanta delicadeza! E então, quando tinha conseguido uma abertura suficiente para minha cabeça, punha lá dentro uma lanterna furta-fogo bem fechada, fechada para que nenhuma luz brilhasse, e então eu passava a cabeça.

Ah! o senhor teria rido se visse com que habilidade eu a passava. Eu a movia devagar, muito, muito devagar, para não perturbar o sono do velho. Levava uma hora para passar a cabeça toda pela abertura, o mais à frente possível, para que pudesse vê-lo deitado em sua cama. Aha! Teria um louco sido assim tão esperto? E então, quando minha cabeça estava bem dentro do quarto, eu abria a lanterna com cuidado — ah!, com tanto cuidado! —, com cuidado (porque a dobradiça rangia), eu a abria só o suficiente para que um raiozinho fino de luz caísse sobre o olho do abutre. E fiz isso por sete longas noites, todas as noites à meia-noite em ponto, mas eu sempre encontrava o olho fechado, e então era impossível fazer o trabalho, porque não era o velho que me exasperava, e sim seu Olho Maligno. E todas as manhãs, quando o dia raiava, eu entrava corajosamente no quarto e falava Com ele cheio de coragem, chamando-o pelo nome em tom cordial e perguntando como tinha passado a noite. Então, o senhor vê que ele teria que ter sido, na verdade, um velho muito astuto, para suspeitar que todas as noites, à meia-noite em ponto, eu o observava enquanto dormia.

Na oitava noite, eu tomei um cuidado ainda maior ao abrir a porta. O ponteiro de minutos de um relógio se move mais depressa do que então a minha mão. Nunca antes daquela noite eu sentira a extensão de meus próprios poderes, de minha sagacidade. Eu mal conseguia conter meu sentimento de triunfo. Pensar que lá estava eu, abrindo pouco a pouco a porta, e ele sequer suspeitava de meus atos ou pensamentos secretos. Cheguei a rir com essa idéia, e ele talvez tenha ouvido, porque de repente se mexeu na cama como num sobressalto. Agora o senhor pode pensar que eu recuei — mas não. Seu quarto estava preto como breu com aquela escuridão espessa (porque as venezianas estavam bem fechadas, de medo de ladrões) e então eu soube que ele não poderia ver a porta sendo aberta e continuei a empurrá-la mais, e mais.

Minha cabeça estava dentro e eu quase abrindo a lanterna quando meu polegar deslizou sobre a lingüeta de metal e o velho deu um pulo na cama, gritando:

— Quem está aí?

Fiquei imóvel e em silêncio. Por uma hora inteira não movi um músculo, e durante esse tempo não o ouvi se deitar. Ele continuava sentado na cama, ouvindo bem como eu havia feito noite após noite prestando atenção aos relógios fúnebres na parede.

Nesse instante, ouvi um leve gemido, e eu soube que era o gemido do terror mortal. Não era um gemido de dor ou de tristeza — ah, não! era o som fraco e abafado que sobe do fundo da alma quando sobrecarregada de terror. Eu conhecia bem aquele som. Muitas noites, à meia-noite em ponto, ele brotara de meu próprio peito, aprofundando, com seu eco pavoroso, os terrores que me perturbavam. Digo que os conhecia bem. Eu sabia o que sentia o velho e me apiedava dele embora risse por dentro. Eu sabia que ele estivera desperto, desde o primeiro barulhinho, quando se virara na cama. Seus medos foram desde então crescendo dentro dele. Ele estivera tentando fazer de conta que eram infundados, mas não conseguira. Dissera consigo mesmo: “Isto não passa do vento na chaminé; é apenas um camundongo andando pelo chão”, ou “É só um grilo cricrilando um pouco”.

É, ele estivera tentando confortar-se com tais suposições; mas descobrira ser tudo em vão. Tudo em vão, porque a Morte ao se aproximar o atacara de frente com sua sombra negra e com ela envolvera a vítima. E a fúnebre influência da despercebida sombra fizera com que sentisse, ainda que não visse ou ouvisse, sentisse a presença da minha cabeça dentro do quarto.

Quando já havia esperado por muito tempo e com muita paciência sem ouvi-lo se deitar, decidi abrir uma fenda — uma fenda muito, muito pequena na lanterna. Então eu a abri — o senhor não pode imaginar com que gestos furtivos, tão furtivos — até que afinal um único raio pálido como o fio da aranha brotou da fenda e caiu sobre o olho do abutre.

Ele estava aberto, muito, muito aberto, e fui ficando furioso enquanto o fitava. Eu o vi com perfeita clareza – todo de um azul fosco e coberto por um véu medonho que enregelou até a medula dos meus ossos, mas era tudo o que eu podia ver do rosto ou do corpo do velho, pois dirigira o raio, como por instinto, exatamente para o ponto maldito.

E agora, eu não lhe disse que aquilo que o senhor tomou por loucura não passava de hiperagudeza dos sentidos? Agora, repito, chegou a meus ouvidos um ruído baixo, surdo e rápido, algo como faz um relógio quando envolto em algodão. Eu também conhecia bem aquele som. Eram as batidas do coração do velho. Aquilo aumentou a minha fúria, como o bater do tambor instiga a coragem do soldado.

Mas mesmo então eu me contive e continuei imóvel. Quase não respirava. Segurava imóvel a lanterna. Tentei ao máximo possível manter o raio sobre o olho. Enquanto isso, aumentava o diabólico tamborilar do coração. Ficava a cada instante mais e mais rápido, mais e mais alto. O terror do velho deve ter sido extremo. Ficava mais alto, estou dizendo, mais alto a cada instante! — está me entendendo? Eu lhe disse que estou nervoso: estou mesmo. E agora, altas horas da noite, em meio ao silêncio pavoroso dessa casa velha, um ruído tão estranho quanto esse me levou ao terror incontrolável. Ainda assim por mais alguns minutos me contive e continuei imóvel. Mas as batidas ficaram mais altas, mais altas! Achei que o coração iria explodir. E agora uma nova ansiedade tomava conta de mim — o som seria ouvido por um vizinho! Chegara a hora do velho! Com um berro, abri por completo a lanterna e saltei para dentro do quarto.

Ele deu um grito agudo — um só. Num instante, arrastei-o para o chão e derrubei sobre ele a cama pesada. Então sorri contente, ao ver meu ato tão adiantado. Mas por muitos minutos o coração bateu com um som amortecido. Aquilo, entretanto, não me exasperou; não seria ouvido através da parede. Por fim, cessou. O velho estava morto. Afastei a cama e examinei o cadáver. É, estava morto, bem morto. Pus a mão sobre seu coração e a mantive ali por muitos minutos. Não havia pulsação. Ele estava bem morto. Seu olho não me perturbaria mais.

Se ainda me acha louco, não mais pensará assim quando eu descrever as sensatas precauções que tomei para ocultar o corpo. A noite avançava, e trabalhei depressa, mas em silêncio. Antes de tudo desmembrei o cadáver. Separei a cabeça, os braços e as pernas.

Arranquei três tábuas do assoalho do quarto e depositei tudo entre as vigas. Recoloquei então as pranchas com tanta habilidade e astúcia que nenhum olho humano — nem mesmo o dele — poderia detectar algo de errado. Nada havia a ser lavado — nenhuma mancha de qualquer tipo — nenhuma marca de sangue. Eu fora muito cauteloso. Uma tina absorvera tudo – ha! ha!

Quando terminei todo aquele trabalho, eram quatro horas — ainda tão escuro quanto à meia-noite.
Quando o sino deu as horas, houve uma batida à porta da rua. Desci para abrir com o coração leve — pois o que tinha agora a temer? Entraram três homens, que se apresentaram, com perfeita suavidade, como oficiais de polícia. Um grito fora ouvido por um vizinho durante a noite; suspeitas de traição haviam sido levantadas; uma queixa fora apresentada à delegacia e eles (os policiais) haviam sido encarregados de examinar o local.

Sorri — pois o que tinha a temer? Dei as boas-vindas aos senhores. O grito, disse, fora meu, num sonho. O velho, mencionei, estava fora, no campo. Acompanhei minhas visitas por toda a casa. Incentivei-os a procurar — procurar bem. Levei-os, por fim, ao quarto dele. Mostrei-lhes seus tesouros, seguro, imperturbável. No entusiasmo de minha confiança, levei cadeiras para o quarto e convidei-os para ali descansarem de seus afazeres, enquanto eu mesmo, na louca audácia de um triunfo perfeito, instalei minha própria cadeira exatamente no ponto sob o qual repousava o cadáver da vítima.

Os oficiais estavam satisfeitos. Meus modos os haviam convencido. Eu estava bastante à vontade. Sentaram-se e, enquanto eu respondia animado, falaram de coisas familiares. Mas, pouco depois, senti que empalidecia e desejei que se fossem. Minha cabeça doía e me parecia sentir um zumbido nos ouvidos; mas eles continuavam sentados e continuavam a falar. O zumbido ficou mais claro — continuava e ficava mais claro: falei com mais vivacidade para me livrar da sensação: mas ela continuou e se instalou — até que, afinal, descobri que o barulho não estava dentro de meus ouvidos.

Sem dúvida agora fiquei muito pálido; mas falei com mais fluência, e em voz mais alta. Mas o som crescia – e o que eu podia fazer? Era um som baixo, surdo, rápido — muito parecido com o som que faz um relógio quando envolto em algodão. Arfei em busca de ar, e os policiais ainda não o ouviam. Falei mais depressa, com mais intensidade, mas o barulho continuava a crescer. Levantei-me e discuti sobre ninharias, num tom alto e gesticulando com ênfase; mas o barulho continuava a crescer. Por que eles não podiam ir embora? Andei de um lado para outro a passos largos e pesados, como se me enfurecessem as observações dos homens, mas o barulho continuava a crescer. Ai meu Deus! O que eu poderia fazer? Espumei — vociferei — xinguei! Sacudi a cadeira na qual estivera sentado e arrastei-a pelas tábuas, mas o barulho abafava tudo e continuava a crescer. Ficou mais alto — mais alto — mais alto! E os homens ainda conversavam animadamente, e sorriam. Seria possível que não ouvissem? Deus Todo-Poderoso! — não, não? Eles ouviam! — eles suspeitavam! — eles sabiam! – Eles estavam zombando do meu horror! — Assim pensei e assim penso. Mas qualquer coisa seria melhor do que essa agonia! Qualquer coisa seria mais tolerável do que esse escárnio. Eu não poderia suportar por mais tempo aqueles sorrisos hipócritas! Senti que precisava gritar ou morrer! — e agora — de novo — ouça! mais alto! mais alto! mais alto! mais alto!

— Miseráveis! — berrei — Não disfarcem mais! Admito o que fiz! levantem as pranchas! — aqui, aqui! — são as batidas do horrendo coração!

O Diário

Dia 1

Olho pela janela e vejo a cidade, taciturna e receosa como alguém que tem algo a dizer e nada diz. No primeiro plano desta, vejo meu reflexo, inquieto e falando sozinho em um rádio na esperança de obter uma resposta. Talvez a saudade de algo que não conhecemos (ou lembramos) possa ser chamado de esperança (ou fé). Isso é o que sinto todos os dias em que me recordo de ligar este rádio e ouvir a estática ensurdecendo meus pensamentos. Meu corpo, ora cansado, ora preguiçoso, reluta em permanecer ao pé da mesa do rádio com o comunicador em mãos.

– Boa noite, sou eu novamente, Bernardo… (sshhhhh) … Alguém na escuta? Câmbio.

– (Shhhhh)

Recito as palavras escritas em uma agenda tão velha quanto o rádio, quase como uma oração, na expectativa que haja alguma resposta.  Esse mantra, ora enfadonho, ora intrigante ainda não é conveniente expô-lo aqui…

A noite avança mais lenta que passos de tartaruga nos meridianos, porém aqui ela parece durar mais que o habitual, permitindo que a vaidosa lua ofusque o brilho das demais estrelas por mais tempo. Assim aprendemos, nas aulas do professor Oséias, há 3 anos, que a Lua e o Sol, arquitetam noite após noite, um complô contra os demais astros. Tomo um livro de astronomia e percebo Oséias via o cosmos com os olhos de Deus. Adormeço.

Dia 2

 

O dia, no verão, em Sombra D’água, começa a ser escaldante cerca de 15 minutos antes da aurora (é o que ouvi em alguma situação social de alguma boca falante), quando o sol ainda muito tímido, porém sempre vaidoso, nos favorece a certeza do bom funcionamento das glândulas sudoríparas.

Acordei e logo tomei um café. Descendo as escadas sinto o frescor, ainda resguardado da madrugada, pelos corredores do prédio, embora refrescante, o isolamento térmico promove o cheiro de umidade que meu nariz jamais acostumará.

Antes de sair pelo portão, cruzo por Leonora, uma singela vizinha de olhos e cabelos castanhos de poucos atrativos, mas que certa vez por uma gentileza, me recompensou com 15 segundos de conversa…:

(Iniciando minha rotina diária, descendo as escadas vi Leonora subindo com muitas sacolas de supermercado)

– Deixa-me te ajudar vizinha! 

Falei com despretensiosa suavidade e ela sem muita escolha:

– Pode pegar essas da minha mão direita, obrigada, muito obrigada.

E ainda:

– Sabe como é, vida de secretária, passo muito tempo sentada, se não fosse esse emprego seria tudo diferente.

– É, seria tudo diferente. 

Retruquei, preenchendo o ar com algumas palavras.

Esse diálogo me despertou uma questão, caro leitor…

 

Dia 3 

Cova Alta é o nome que dei a essas terras que vim parar não sei como. Última coisa que me lembro é de conversar com Leonora nas escadas do prédio em que moro, ou morava. Pareci despertar de um desmaio repentino e quando vi, o pavor me tomou conta, parecia estar em uma cabana rústica feita de troncos com cortes quase cirúrgicos e acabamentos dignos de um Deus marceneiro, ousaria dizer que esta casa foi feita na carpintaria de José pelas mãos de Cristo. Ergui a cabeça do travesseiro com cheiro de mofo e a primeira e única coisa familiar que vejo é o rádio e a agenda. O que isso significaria?

Pela janela só vejo pinheiros fechando minha visão do horizonte, não parece dia nem noite, apenas um céu nublado com alguma claridade. Talvez o clima ou o ambiente me fez entender que este lugar é bem acima do nível do mar. Resolvo sair e olhar a cabana de fora, já que os pinheiros limitam a visão da clareira em que se encontra a cabana. A cabana por fora segue impecável, mas o que me chama atenção é que ela não é uma casa comum de quatro paredes, esta cabana é sextavada, assim como um caixão. Ângulos bastante sutis, mas ainda sim, sextavado. Batizei este lugar de Cova Alta.

Após vasculhar o lugar a procura de alguém, procuro lidar com o que já estou acostumado, ligo o rádio e clamo por ajuda. Como não obtive resposta, apelei para a leitura habitual do mantra:

“Perpétuo chamado do caminho sem sabor

Tão longa a espera que tenho que esperar

Mesmo fatigável que seja esse labor

Sou movido, sem chance de parar

 

As palavras são insuficientes então

A razão não pode compreender

A falta que faz um capitão

E alguém para se prender

 

Da madeira sextavada,

Para o sótão ou o porão

Ninguém escapa dessa espada

Que parte o coração

 

Oferenda e sacrifício

A labuta e o ofício

Palestra e o comício

A queda e o vício

 

Saudação

Comunicação

Satisfação

Opção”

A prece atendida

Seitas se formam e se reúnem frequentemente a cada dia, o mundo se tornou tarado atrás do “bem” mais valioso que algum deus poderia conceder: uma prece atendida.

Um mundo baseado nas descobertas de uma cultura muito antiga que afinal foi validada e comprovada: os launitas. A cada década uma prece de algum ser humano teria sua prece daquele dia atendida, não importando qual fosse. Com o apoio da ciência que no último século, financiado pelas grandes famílias globalistas do mundo, conseguiram com uma boa propaganda e muita observação, identificar das nove preces, quatro incidentes de causas desproporcionais, que coincidiam com o desejo de um ser humano. Após essa descoberta, todas religiões caíram em apostasia geral, com seus fiéis convertendo-se ao launismo. Seitas formavam-se em uma mesma prece na tentativa de que o escolhido estivesse entre eles e satisfizesse um desejo comum daquela seita, assim como sua primeira heresia, os obvienistas, pessoas que como oração diária desejavam que o Sol se pusesse no Oeste e nascesse no Leste dia seguinte. O que obviamente, é uma obviedade…