Amor Verdadeiro

Meu nome é Joe. É assim que meu colega, Milton Davidson, me chama. Ele é um programador e eu sou um programa de computador. Faço parte do complexo Multivac e estou conectado com todas as suas outras partes espalhadas pelo mundo inteiro. Eu sei tudo. Quase tudo.

Eu sou o programa particular de Milton. O seu Joe. Ele entende mais sobre programação do que qualquer outra pessoa no mundo, e eu sou o seu modelo experimental. Ele me fez falar melhor do que qualquer outro computador.

– È só uma questão de emparelhar sons com símbolos, Joe – ele me disse. – E esse o modo como funciona no cérebro humano, embora ainda não saibamos que símbolos existem no cérebro. Mas eu conheço os seus símbolos e posso fazê-los corresponder a palavras, um por um.

Por isso eu falo. Não acho que falo tão bem quanto penso, mas Milton diz que falo muito bem. Milton nunca se casou, embora já tenha quase quarenta anos. Ele nunca encontrou a mulher certa, foi o que me contou. Um dia, ele disse:

– Ainda vou encontrá-la, Joe. Encontrarei a melhor de todas. Vou ter um verdadeiro amor e você vai me ajudar. Estou cansado de aperfeiçoá-lo para resolver os problemas do mundo. Resolva o meu problema. Encontre-me um amor verdadeiro.

– O que é um amor verdadeiro? – disse eu.

– Não importa. Isso é abstrato. Apenas me encontre a garota ideal. Você está conectado com o complexo Multivac, por conseguinte tem acesso aos bancos de dados de cada ser humano no mundo. Vamos eliminar todos eles por grupos e classes até ficarmos com apenas uma pessoa. A pessoa perfeita. E ela será minha.

– Estou pronto – disse eu.

– Elimine todos os homens primeiro – disse ele.

Isto foi fácil. Suas palavras ativaram símbolos em minhas válvulas moleculares. Eu pude amplificar-me para entrar em contato com os dados acumulados sobre cada ser humano no mundo. Conforme suas palavras, afastei-me de 3.784.982.874 homens. Continuei em contato com 3.786.112.090 mulheres.

– Elimine todas as que tiverem menos de vinte e cinco anos – disse ele – e todas as com mais de quarenta. Depois, elimine todas com um QI inferior a 120, todas com uma altura inferior a um metro e cinqüenta e superior a um metro e setenta e cinco.

Deu-me medidas exatas, eliminou mulheres com filhos vivos, eliminou mulheres com várias características genéticas.

– Não estou certo quanto à cor dos olhos – disse Milton. – Por enquanto, deixe isso de lado. Mas nada de cabelos ruivos. Não gosto dessa cor de cabelo.

Duas semanas depois tínhamos baixado para 235 mulheres. Todas falavam muito bem o inglês. Milton disse que não queria um problema de linguagem. Ou nos momentos íntimos, até a tradução por computador entraria no meio.

– Não posso entrevistar 235 mulheres – disse ele. – Levaria muito tempo e o pessoal descobriria o que estou fazendo.

– Isso traria problemas – disse eu. Milton tinha me mandado fazer coisas que eu não estava projetado para fazer. Ninguém sabia disso.

– Isso não é da sua conta – disse ele, e a pele do seu rosto ficou vermelha. – Escute aqui, Joe, vou lhe trazer holografias e você vai checar a lista por similaridades.

Ele trouxe holografias de mulheres.

– Essas aí são três vencedoras de um concurso de beleza – disse. – Veja se alguma das 235 corresponde.

Oito eram correspondências muito boas.

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– Ótimo – disse Milton. – Você tem os seus bancos de dados. Estude suas exigências e necessidades em termos de mercado de trabalho e providencie para tê-las aqui numa entrevista. Uma de cada vez, é claro. – Ele pensou um pouco, moveu os ombros para cima e para baixo, e completou: – Ordem alfabética.

Isto é uma das coisas para que não fui projetado para fazer. Deslocar pessoas de emprego para emprego, por razões pessoais, chama-se manipulação. Só pude fazer isso porque Milton tinha me ajustado para agir assim. No entanto, não poderia fazer isso para ninguém a não ser ele.

A primeira garota chegou uma semana mais tarde. O rosto de Milton ficou vermelho quando a viu. Ele falava como se tivesse dificuldade em fazê-lo. Ficaram juntos muito tempo e ele não prestou atenção em mim. Num certo momento, ele disse.

– Deixe-me levá-la para jantar.

– De certo modo não foi bom – Milton me disse no dia seguinte. – Estava faltando alguma coisa. É uma mulher bonita, mas não senti nenhum toque de verdadeiro amor. Tente a próxima.

Aconteceu o mesmo com todas as oito. Eram muito parecidas. Sorriam muito e tinham vozes agradáveis, mas Milton sempre achava que não estava bem.

– Não consigo entender, Joe – disse ele. – Você e eu selecionamos as oito mulheres que, no mundo inteiro, parecem ser as melhores para mim. Todas ideais. Por que elas não me agradam?

– Você as agrada? – disse eu.

Ele enrugou a testa e esmurrou com força a palma da mão.

– É isso aí, Joe. É uma via de mão dupla. Se não sou o ideal delas, não podem agir de modo a serem o meu ideal. Eu preciso ser, também, o verdadeiro amor delas, mas como fazer isso?

Ele pareceu pensar todo aquele dia.

Na manhã seguinte, se aproximou de mim e disse:

– Vou deixar você cuidar do assunto, Joe. Tudo por sua conta. Você tem meu banco de dados, e vou contar tudo que sei sobre mim mesmo. Você completará meu banco de dados nos mínimos detalhes, mas guarde todos os acréscimos para si mesmo.

– E depois, o que vou fazer com seu banco de dados, Milton?

– Depois você vai fazê-lo corresponder com as 235 mulheres. Não, 227. Esqueça as oito que encontramos. Arranje para que cada uma seja submetida a um exame psiquiátrico. Complete seus bancos de dados e compare-os com o meu. Encontre correlações. (Arranjar exames psiquiátricos é outra coisa contrária às minhas instruções originais.)

Durante semanas, Milton conversou comigo. Ele me falou de seus pais e parentes. Contou-me de sua infância, seu tempo de escola e adolescência. Contou-me das jovens que tinha admirado a uma certa distância. Seu banco de dados aumentou e ele ajustou-me para ampliar e aprofundar minha chave simbólica.

– Veja só, Joe – disse ele. – À medida que você absorve mais e mais de mim, eu vou ajustando-o para corresponder cada vez melhor comigo. Você começa a pensar cada vez mais como eu, por conseguinte, vai me compreendendo melhor. Quando você me compreender suficientemente bem, aquela mulher, cujo banco de dados for uma coisa que você entenda igualmente bem, será meu verdadeiro amor.

Ele continuava conversando comigo e eu passava a compreendê-lo cada vez mais.

Eu conseguia formar frases mais longas e minhas expressões se tornavam mais complicadas. Minha fala começou a ficar muito parecida com a dele, tanto em vocabulário quanto na ordenação das palavras e no estilo.

Certa vez, eu disse a ele:

– Veja você, Milton, não é apenas um problema de adequar uma moça a um ideal físico. Você precisa de uma moça que seja pessoal, temperamental e emocionaimente adequada. Quando isso acontece, a aparência é secundária. Se não pudermos encontrar uma que sirva nestas 227, devemos procurar entre as outras. Acharemos uma que também não se preocupará com a aparência que você ou qualquer outra pessoa tiverem, desde que a personalidade seja adequada. O que significa a aparência?

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– Absolutamente nada – disse ele. – Eu saberia disso se houvesse tido mais contato com mulheres. Evidentemente, pensando bem, tudo parece mais claro agora.

Sempre concordávamos, cada um pensava exatamente como o outro.

– Não vamos ter mais nenhum problema, Milton, se você me deixar fazer-lhe algumas perguntas. Posso ver onde, em seu banco de dados, há espaços brancos e irregulares.

O que veio a seguir, Milton dizia, era o equivalente de uma meticulosa psicanálise. É claro. Eu havia aprendido com os exames psiquiátricos de 227 mulheres, a totalidade das quais eu continuava observando intimamente.

Milton parecia muito feliz.

– Falar com você, Joe, é quase como falar com outro eu. Nossas personalidades chegaram a uma combinação perfeita. O mesmo acontecerá com a personalidade da mulher que escolhermos.

E eu a encontrei. Afinal, era uma das 227. Chamava-se Charity Jones e trabalhava como contadora na Biblioteca de História, em Wichita. Seu extenso banco de dados se ajustava perfeitamente ao nosso. Todas as outras mulheres tinham sido descartadas por um ou outro motivo à medida que seus bancos de dados aumentavam, mas com Charity havia uma crescente e espantosa ressonância.

Não precisei descrevê-la para Milton. Ele tinha coordenado meu simbolismo tão intimamente com o seu, que foi suficiente relatar pura e simplesmente a ressonância. A escolha se adequava.

Em seguida, era o problema de ajustar as folhas de serviço e exigências de trabalho de modo a conseguir que Charity tivesse uma entrevista conosco. Isto devia ser feito muito delicadamente, para que ninguém viesse a saber que estava ocorrendo uma coisa ilegal.

Evidentemente, Milton conhecia a manobra. Foi ele quem arranjou a coisa, foi ele quem cuidou de tudo. Quando vieram prendê-lo, em virtude de mau procedimento em trabalho, foi, felizmente, por algo que tinha acontecido há dez anos. Ele me informara sobre tudo, é claro, mas aquilo foi fácil de arranjar. E ele não comentará nada sobre mim, pois seu delito se tornaria muito mais grave.

Milton foi embora, e amanhã é 14 de fevereiro, Dia dos Namorados. Charity chegará então com suas mãos calmas e sua voz suave. Vou ensiná-la a me manejar e a cuidar de mim. O que importará a aparência quando nossas personalidades ressoarem juntas?

Eu direi a ela:

– Eu sou Joe e você é meu verdadeiro amor.

Os Contos dos Quatro Humores: Sangüíneo, o Ar

A velocidade do armut já era conhecida por Veigo, restava a ele se antecipar aos movimentos da fera de relativa inteligência. Algumas armadilhas foram preparadas com antecedência: redes de energia, buracos, espinhos de madeira com líquido paralisante, etc., tudo estava pronto para que o armut sentisse o cheiro adocicado da cascadeira — alimento preferido do bicho —, indo direto para a emboscada. No alto de uma gigantesca árvore, sentado em um dos galhos sem qualquer receio dos mais de 40 metros de altura, o jovem Numaq Veigo aguardava sua presa. Humano de aparência simpática, bastante carismática, sorria para si mesmo durante a espera, olhando com orgulho o caminho que ele mesmo havia criado na tentativa de capturar o armut. Veigo era magro e alto para um humano, tinha aproximadamente 1,88m, porém, era atlético, consequências de sua vida como caçador em Galmori; os olhos e os cabelos eram castanho-escuros puxando bastante para o preto, aqueles expressavam alegria e jovialidade, estes eram como ondas formadas pelo vento, leves e finos.

Em sua mão direita segurava uma lança feita com a madeira da mesma cascadeira que havia usado as folhas para atrair o armut, ele mesmo havia feito a lança enquanto esperava, a madeira da árvore estava entre as três árvores mais resistentes de todo o planeta Galmori.

O som das árvores balançando chamou a atenção de Veigo, fazendo-o girar a cabeça na mesma direção, mantendo firme a lança para o primeiro e único golpe que tinha. O calor da floresta fazia sua testa suar, o sangue fervia com a adrenalina da espera enquanto o coração disparava de excitação. Finos raios de sol que, milagrosamente, atravessavam as densas copas abarrotadas de folhas, assemelhavam-se a um ato de Providência, o caminho feito por Veigo estava estranhamente bem iluminado. Os armut eram bestas com pouca visão, tinham sérios problemas com lugares escuros e, exatamente por isso, buscavam, a qualquer custo, locais bem iluminados. O fato desses raios de sol conseguirem atravessar as copas, para Veigo, era uma incrível coincidência — ou talvez não.

            Estou com sorte hoje! Aí vem ele!, pensou.

O armut estava quase no lugar certo para o ataque, bastava mais alguns poucos metros para Veigo capturar sua maior presa, até o barulho de folhas agitando e cascos trotando cessar. Por que ele parou?, pensou franzindo o cenho. Por instinto, acabou afrouxando a mão que segurava a lança, baixando o braço sem notar que o armut havia lhe desarmado com aquele inesperado movimento. Quando a fera retomou o impulso inesperadamente, Veigo perdeu o equilíbrio com o susto, escorregando um dos pés. Em perfeita sincronia com o erro de Veigo, o armut saltou para fora da densa mata rosnando de fúria, as árvores com troncos mais finos foram varridas pela rígida cabeça que a besta possuía, a baba escorrendo entre os dentes afiadíssimos, avançando contra a árvore em que Veigo estava, agora, pendurado. Pertencendo a uma espécie bastante agressiva, com seu par de presas imensas e afiadas, chifres no focinho e um tamanho considerável, sua pelugem escura intimidava grande parte das outras feras, o armut era perigoso quando enfurecido, podendo caçar sua vítima indefinidamente. Os armuts tinham uma ótima memória.

Como era uma espécie razoavelmente inteligente, a fera percebeu que Veigo estava em apuros e poderia cair a qualquer momento, dando violentas cabeçadas no tronco para agilizar sua queda. Cada investida fazia a árvore sacudir violentamente, semelhante a um tanque. Não demorou muito para que Veigo perdesse as forças e o equilíbrio por completo, caindo em direção aos chifres e dentes da besta.

            Estou morto!, pensou o rapaz, fechando os olhos, certo que apenas um milagre salvaria sua vida. Se houver alguém aí, não importa quem seja, essa seria uma boa hora para aparecer!, pediu em pensamento, acreditando, minimamente, que algo poderia acontecer.

Enquanto caía, Veigo achou a demora para chegar aos chifres do armut muito estranha, a distância entre o galho e o chão não era tão grande assim. Abriu os olhos com receio do que iria ver: grandes dentes e chifres afiados capazes de lhe partirem ao meio com facilidade, no entanto, apesar do armut estar cerca de um palmo de distância, ele não se movia; nada se movia. Estava tudo congelado, como se o tempo tivesse parado, deixando Veigo em pleno ar sem qualquer equipamento para flutuação. Ele era o único que conseguia se mover, na verdade.

— O que está acontecendo? Como o tempo parou do nada? — perguntou a si mesmo, olhando para as próprias mãos enquanto as movia.

Numaq Veigo… — duas vozes, uma masculina e outra feminina, ecoaram em uníssono.  — Numaq Veigo… — as vozes repetiram o nome dele. Diante dos olhos do jovem rapaz uma fenda no espaço foi aberta, revelando um ser que lentamente saía do corte escuro. A fenda se expandiu para um grande buraco negro aparentemente sem fim; havia apenas o vazio e aquele ser dentro dele. A entidade tinha forma humana feminina, mas apenas seus pés e suas mãos estavam expostos, o resto do corpo era coberto por um manto feito do que parecia ser uma sombra viva, movendo-se como uma fumaça espessa; a pele era branca e delicada; o rosto estava coberto por uma máscara também branca de expressão alegre, com um largo sorriso cobrindo grande parte do rosto e olhos que acompanhavam a alegria.

— Quem… quem é você? — o medo estava estampado no rosto de Veigo.

Olá, jovem Veigo! ­Eu sou Árimah, uma das quatro Deusas dos Humores — ela flutuou para perto dele. — É de mim que os sanguíneos obtêm sua estrutura mineral ao nascerem — com um estalar dos dedos a deusa fez o corpo de Veigo flutuar lentamente até o chão, colocando-o de pé.

            Deusa? Do que ela está falando? O que é isso de “sanguíneos”?, Veigo estava de boca aberta e completamente perdido enquanto era movido por uma força desconhecida, não sabia como reagir. Será que eu morri? Ou isso é um son…

            — Isso não é um sonho, Numaq Veigo — a deusa acabou antecipando a conclusão do rapaz. — Sua falta de fé é perturbadora, mortal.

— Você leu a minha mente?! — indagou o rapaz.

Não preciso ler a sua mente, meu jovem, eu sei tudo sobre você: o que houve, o que há e o que haverá — ela tocou a testa de Veigo com o indicador e uma cachoeira de imagens desabou sobre o rapaz. Eram lembranças antes da infância dele, muito antes mesmo dele ter nascido, quando ainda era um feto na barriga da mãe, depois um simples espermatozoide percorrendo um longo caminho; então houve um clarão tão forte que Veigo perdeu a visão por um tempo, foram apenas alguns segundos até tudo voltar ao normal e ele ser jogado para o que parecia ser o futuro. Diferente de antes, onde as imagens eram claras e discerníveis, agora tudo estava borrado e confuso, com muitas vozes falando ao mesmo tempo, barulhos de risadas e metais colidindo, gritos de sofrimento e urros de vitória. Não era possível ver os rostos das pessoas, nem identificar o lugar onde elas estavam, mas Veigo sentiu a beleza, a paz e a harmonia reinando no ambiente; era alegre e descontraído, um lugar que ele pensou valer a pena morar e lutar. Às vezes, sem aviso, as imagens piscavam como um holograma defeituoso ou com sinal distante, dando vez para cenas totalmente distintas, com pessoas gritando, sons de explosões, veículos marchando, lasers, metal colidindo. Num desses momentos, Veigo vislumbrou quatro pessoas, não dava para identificar quem eram, mas elas usavam armaduras brancas. Estavam sobre um monte, cada um segurando um estandarte com dois símbolos que o jovem rapaz desconhecia. Quando Árimah se afastou de Veigo as imagens sumiram por completo, não restou nenhum rastro de que aquilo tinha realmente acontecido. Ele estava ofegante, o suor escorria sobre os olhos, o cansaço era evidente. Exausto, desabou de joelhos sobre o chão coberto por um tapete de folhas secas.

— Isso foi… isso foi a minha vida? Era o meu futuro?! — questionou quase sem fôlego.

Sim, essas foram imagens da sua vida, do passado ao seu futuro. Porém, o futuro nunca é engessado, mas fluido — ela flutuou ao redor de Veigo. — Até mesmo nós, as deusas, não podemos interferir no futuro, mesmo que ele se apresente para nós por completo, isto é, que nós saibamos como ele será, não nos demos a permissão para alterá-lo — dessa vez ela flutuou para o alto, ficando alguns metros acima de Veigo. — Fizemos isso para que vocês, mortais, pudessem mudar seu futuro.

— Vocês se impediram de mudar o futuro para que nós pudéssemos mudá-lo? — a indagação soou mais para si mesmo do que para a deusa. — Por quê?

Ora, Veigo, a resposta é simples: porque nós os amamos — Árimah soltou uma risada sincera e, voando até Veigo, fez um gesto com o indicador de baixo para cima; a resposta ao gesto veio com o corpo do rapaz flutuando até ficar de pé novamente.

— Vocês nos amam? Mas grande parte de nós nem sequer sabe da existência de vocês, como podem amar alguém ou algo que sequer retribui o sentimento? — era uma pergunta genuína, mas naturalmente mortal e peculiarmente humana. Árimah soltou outra risada, colocando as mãos na cintura e jogando a cabeça mascarada para trás; por fim se recompôs.

Você é realmente interessante, Numaq Veigo — atestou. — Mas ainda é mortal. Todo o Bem que há em você, não importa ele qual seja, em mim é infinito e puro. Em você é finito e amalgamado. O amor que você conhece, esse sentimento tão forte principalmente na sua raça, é uma fração, uma extensão de nós, deusas. Isso é uma consequência de viver sob a égide da temporalidade: tudo é passageiro, efêmero, nasce e morre. Nós, por outro lado, estamos sob a égide da atemporalidade, acima do tempo, não há passado ou futuro, pois tudo é presente. Não há nascimento e morte, mas tudo é — quanto mais Árimah explicava mais Veigo ficava interessado. Ela tinha um jeito de falar que lhe agradava, atraía, fazia brotar um sentimento de acolhimento e proteção, como entre uma mãe e um filho. O rapaz surpreendeu a si mesmo com um sorriso de orelha a orelha, os olhos brilhavam, o som da voz dela era aveludado, sua presença era aconchegante, até mesmo o paladar de Veigo despertou com um doce gosto adocicado. E em transe ele ficou, em silêncio, observando Árimah contar tudo o que queria. Ao fim da história, acordado do caloroso sentimento, ela o perguntou:

Não posso continuar nesse plano por mais tempo, Veigo. Está na hora de você tomar uma decisão importante que mudará completamente a sua vida. Sente-se — ela pediu, flutuando até o rapaz, parando diante dele. Veigo assentiu e sentou sobre um velho tronco próximo. — Minha vinda até você não foi acidente ou o destino, mas uma escolha minha. Há mais de 300 anos mortais que não nos manifestamos para vocês. A história é longa e não posso explicar tudo, mas digamos que houve um desligamento entre vocês e nós.

            — Como assim?

Lembra que eu lhe falei sobre a imposição que as deusas colocaram em si mesmas sobre o futuro de vocês? Então, nós demos a vocês, mortais, algo precioso e inegociável: o livre-arbítrio. Graças a isso, não cabe a nós, seres divinos, forçar os mortais a crer em nós, a conversar conosco, a ter fé. Isso deve vir de vocês livremente, por vontade própria — Árimah afastou-se de Veigo.

— Mas o que isso tem a ver comigo?

Você é uma das chaves que permitirá o religamento da união entre os mortais e as Deusas dos Humores.

— O que são esses humores?

Os humores são os temperamentos. Novamente questiono: lembra que eu disse que os sanguíneos retiram de mim sua estrutura mineral?

— Sim, eu me lembro.

Pois então… “Sanguíneo” é um dos Quatro Temperamentos existentes em todos os seres mortais com inteligência. São seres com grande capacidade de expansão, eles envolvem todos ao seu redor, são criativos, sociáveis e gostam de conversas e, principalmente, estão sempre a serviço do outro, ouvindo e dando a devida atenção mesmo que o outro seja um total desconhecido. Porém, é no conforto das amizades que o sanguíneo se realiza, sendo a vida do grupo, aquele que lubrifica todas as engrenagens para que elas não parem jamais. O Ar é o elemento que o representa, porque é expansivo e envolvente, não tem uma forma certa, mas está sempre em movimento, sempre no alto, permeia tudo — o entusiasmo de Árimah condizia com o humor ao qual fora atribuído a ela. — Além dele, meu caro, também há o Colérico, o Fleumático e o Melancólico. Para cada um dos temperamentos existe uma deusa que é sua causa primeira.

            — Então quer dizer que eu sou sanguíneo? Quer dizer, se você é a deusa ao qual o temperamento sanguíneo retira sua estrutura, e veio até mim, quer dizer que escolheu alguém que tenha esse temperamento, certo? — a indagação de Veigo estava mais para uma tentativa de organizar as próprias ideias, mas ele acabou soltando como uma pergunta.

Você está perfeitamente correto, meu rapaz — ela não conteve a gargalhada. — Eu estava certa em ter escolhido você para a tarefa. Sinto-me aliviada! Apesar de avoado, você é inteligente.

            — Que tarefa? — curioso, arqueou a sobrancelha desconfiado.

Ops! Acho que falei demais — gargalhou ainda mais alto. — Você será o meu Profeta, aquele que falará em meu nome aqui nesse plano, será o fio condutor entre o sagrado e o mundano. Mas, como eu já expliquei, não posso obrigá-lo a aceitar, você é livre para escolher.

— Profeta… — o olhar de Veigo estava distante, fitando alguma coisa no chão, mas ao mesmo tempo não olhando para nada. — Terei que ir embora de Galmori? — fitou Árimah.

Sim. Se você concordar em ser meu Profeta, precisará sair deste planeta. Conhecerá outros mundos, outras pessoas, grandes homens e mulheres, mas também terríveis e cruéis. Você sorrirá pelas vidas salvas e novas, mas também chorará pelas mortes prematuras e irrevogáveis. Será caluniado, humilhado, traído por quem se dizia amigo, mas também será erguido em ombros, respeitado, louvado como um herói e se surpreenderá com inimigos virando amigos.

Veigo refletia sobre as palavras de Árimah balançando a perna freneticamente, visivelmente nervoso e indeciso. O coração estava acelerado; sentia medo de sua escolha: se aceitasse, colocaria sua vida em risco, não era um guerreiro nem tinha o físico para tal, por isso costumava evitar certas circunstâncias que lhe colocassem em situação humilhantes; no entanto, se decidisse recusar a oferta, sentia que iria se arrepender de poder construir uma nova vida, uma nova história, de enfrentar seus medos, suas dúvidas e incertezas tão constantes.

A ebulição de emoções lhe embrulhara o estômago, e Veigo vomitou tudo o que havia comido naquela manhã, várias e várias vezes até não sobrar mais nada no estômago. Limpou a boca com um lenço que estava no bolso e levantou-se.

— Desculpe por isso.

É compreensível.

            — Eu… eu aceito — engoliu seco sentindo o gosto do vômito.

Hahaha! É assim que se fala, Veigo! — exclamou Árimah. — Esse é o retorno do religamento entre mortais e divindades, depois de muitos anos… Eu, Árimah, uma das Quatro Deusas dos Humores, dou minha bênção a você, Numaq Veigo, e o nomeio como meu Profeta de hoje até os teus últimos dias. Quatro é Um e Um são Quatro!

Uma forte luz saiu dos olhos de Árimah, tão forte e expansiva que deixou Veigo novamente sem enxergar. Quando a luz cessou, os olhos dele foram retomando a visão normal, acomodando as coisas novamente. Ao fim, com tudo aparentemente normal, Árimah tinha sumido e o armut estava caído ao lado da árvore. O tempo havia voltado ao normal, as folhas balançavam, o vento soprava e as aves cantavam. Veigo deu uma última olhada ao redor, agora não tão certo de que aquilo fora realmente real.

— Talvez a minha queda tenha o atordoado…

Avistou sua lança ao lado do armut e foi até lá para pegá-la, ao se abaixar e esticar a mão, percebeu que havia um símbolo em preto pintado no dorso da mão direita: uma pirâmide com um corte horizontal poucos centímetros do topo. Esfregou a região na tentativa de retirar, achando que não passava de alguma sujeita, mas não deu certo. O símbolo fazia parte da pele de Veigo e só seria retirado se a pele fosse retira junto.

— Bom… acho que isso confirma que não foi um sonho. E isso é um grande alívio — sorriu.

A Última Pergunta

A última pergunta foi feita pela primeira vez, meio que de brincadeira, no dia 21 de maio de 2061, quando a humanidade dava seus primeiros passos em direção à luz. A questão nasceu como resultado de uma aposta de cinco dólares movida a álcool, e aconteceu da seguinte forma.

Alexander Adell e Bertram Lupov eram dois dos fiéis assistentes de Multivac. Eles conheciam melhor do que qualquer outro ser humano o que se passava por trás das milhas e milhas da carcaça luminosa, fria e ruidosa daquele gigantesco computador. Ainda assim, os dois homens tinham apenas uma vaga noção do plano geral de circuitos que há muito haviam crescido além do ponto em que um humano solitário poderia sequer tentar entender.

Multivac ajustava-se e corrigia-se sozinho. E assim tinha de ser, pois nenhum ser humano poderia fazê-lo com velocidade suficiente, e tampouco da forma adequada. Deste modo, Adell e Lupov operavam o gigante apenas sutil e superficialmente, mas, ainda assim, tão bem quanto era humanamente possível. Eles o alimentavam com novos dados, ajustavam as perguntas de acordo com as necessidades do sistema e traduziam as respostas que lhes eram fornecidas. Os dois, assim como seus colegas, certamente tinham todo o direito de compartilhar da glória que era Multivac.

Por décadas, Multivac ajudou a projetar as naves e enredar as trajetórias que permitiram ao homem chegar à Lua, Marte e Vênus, mas para além destes planetas, os parcos recursos da Terra não foram capazes de sustentar a exploração. Fazia-se necessária uma quantidade de energia grande demais para as longas viagens. A Terra explorava suas reservas de carvão e urânio com eficiência crescente, mas havia um limite para a quantidade de ambos.

No entanto, lentamente Multivac acumulou conhecimento suficiente para responder questões mais profundas com maior fundamentação, e em 14 de maio de 2061, o que não passava de teoria tornou-se real.

A energia do sol foi capturada, convertida e utilizada diretamente em escala planetária. Toda a Terra paralisou suas usinas de carvão e fissões de urânio, girando a alavanca que conectou o planeta inteiro a uma pequena estação, de uma milha de diâmetro, orbitando a Terra à metade da distância da Lua. O mundo passou a correr através de feixes invisíveis de energia solar.

Sete dias não foram o suficiente para diminuir a glória do feito e Adell e Lupov finalmente conseguiram escapar das funções públicas e encontrar-se em segredo onde ninguém pensaria em procurá-los, nas câmaras desertas subterrâneas onde se encontravam as porções do esplendoroso corpo enterrado de Multivac. Subutilizado, descansando e processando informações com estalos preguiçosos, Multivac também havia recebido férias, e os dois apreciavam isso. A princípio, eles não tinham a intenção de incomodá-lo.

Haviam trazido uma garrafa consigo e a única preocupação de ambos era relaxar na companhia do outro e da bebida.

“É incrível quando você para pra pensar…,” disse Adell.

Seu rosto largo guardava as linhas da idade e ele agitava o seu drink vagarosamente, enquanto observava os cubos de gelo nadando desengonçados. “Toda a energia que for necessária, de graça, completamente de graça! Energia suficiente, se nós quiséssemos, para derreter toda a Terra em uma grande gota de ferro líquido, e ainda assim não sentiríamos falta da energia utilizada no processo. Toda a energia que nós poderíamos um dia precisar, para sempre e eternamente.”

Lupov movimentou a cabeça para os lados. Ele costumava fazer isso quando queria contrariar, e agora ele queria, em parte porque havia tido de carregar o gelo e os utensílios.

“Eternamente não,” ele disse.

“Ah, diabos, quase eternamente. Até o sol se apagar, Bert.”

“Isso não é eternamente.”

“Está bem. Bilhões e bilhões de anos. Dez bilhões, talvez. Está satisfeito?”

Lupov passou os dedos por entre seus finos fios de cabelo como que para se assegurar de que o problema ainda não estava acabado e tomou um gole gentil da sua bebida.

“Dez bilhões de anos não é a eternidade”

“Bom, vai durar pelo nosso tempo, não vai?”

“O carvão e o urânio também iriam.”

“Está certo, mas agora nós podemos ligar cada nave individual na Estação Solar, e elas podem ir a Plutão e voltar um milhão de vezes sem nunca nos preocuparmos com o combustível. Você não conseguiria fazer isso com carvão e urânio. Se não acredita em mim, pergunte ao Multivac.”

“Não preciso perguntar a Multivac. Eu sei disso”

“Então trate de parar de diminuir o que Multivac fez por nós,” disse Adell nervosamente, “Ele fez tudo certo”.

“E quem disse que não fez? O que estou dizendo é que o sol não vai durar para sempre. Isso é tudo que estou dizendo. Nós estamos seguros por dez bilhões de anos, mas e depois?” Lupov apontou um dedo levemente trêmulo para o companheiro. “E não venha me dizer que nós iremos trocar de sol”

Houve um breve silêncio. Adell levou o copo aos lábios apenas ocasionalmente e os olhos de Lupov se fecharam. Descansaram um pouco, e quando suas pálpebras se abriram, disse, “Você está pensando que iremos conseguir outro sol quando o nosso estiver acabado, não está?”

“Não, não estou pensando.”

“É claro que está. Você é fraco em lógica, esse é o seu problema. É como o personagem da história, que, quando surpreendido por uma chuva, corre para um grupo de árvores e abriga-se embaixo de uma. Ele não se preocupa porque quando uma árvore fica molhada demais, simplesmente vai para baixo de outra.”

“Entendi,” disse Adell. “Não precisa gritar. Quando o sol se for, as outras estrelas também terão se acabado.”

“Pode estar certo que sim” murmurou Lupov. “Tudo teve início na explosão cósmica original, o que quer que tenha sido, e tudo terá um fim quando as estrelas se apagarem. Algumas se apagam mais rápido que as outras. Ora, as gigantes não duram cem milhões de anos. O sol irá brilhar por dez bilhões de anos e talvez as anãs permaneçam assim por duzentos bilhões. Mas nos dê um trilhão de anos e só restará a escuridão. A entropia deve aumentar ao seu máximo, e é tudo.”

“Eu sei tudo sobre a entropia,” disse Adell, mantendo a sua dignidade.

“Duvido que saiba.”

“Eu sei tanto quanto você.”

“Então você sabe que um dia tudo terá um fim.”

“Está certo. E quem disse que não terá?”

“Você disse, seu tonto. Você disse que nós tínhamos toda a energia de que precisávamos, para sempre. Você disse ´para sempre`.”

Era a vez de Adell contrariar. “Talvez nós possamos reconstruir as coisas de volta um dia,” ele disse.

“Nunca.”

“Por que não? Algum dia.”

“Nunca”

“Pergunte a Multivac.”

“Você pergunta a Multivac. Eu te desafio. Aposto cinco dólares que isso não pode ser feito.”

Adell estava bêbado o bastante para tentar, e sóbrio o suficiente para construir uma sentença com os símbolos e as operações necessárias em uma questão que, em palavras, corresponderia a esta: a humanidade poderá um dia sem nenhuma energia disponível ser capaz de reconstituir o sol a sua juventude mesmo depois de sua morte? Ou talvez a pergunta possa ser posta de forma mais simples da seguinte maneira: A quantidade total de entropia no universo pode ser revertida?

Multivac mergulhou em silêncio. As luzes brilhantes cessaram, os estalos distantes pararam.

E então, quando os técnicos assustados já não conseguiam mais segurar a respiração, houve uma súbita volta à vida no visor integrado àquela porção de Multivac. Cinco palavras foram impressas: “DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”

Na manhã seguinte, os dois, com dor de cabeça e a boca seca, já não lembravam do incidente.

Jerrodd, Jerrodine, e Jerrodette I e II observavam a paisagem estelar no visor se transformar enquanto a passagem pelo hiperespaço consumava-se em uma fração de segundos. De repente, a presença fulgurante das estrelas deu lugar a um disco solitário e brilhante, semelhante a uma peça de mármore centralizada no televisor.

“Este é X-23,” disse Jerrodd em tom de confidência. Suas mãos finas se apertaram com força por trás das costas até que as juntas ficassem pálidas.

As pequenas Jerodettes haviam experimentado uma passagem pelo hiperespaço pela primeira vez em suas vidas e ainda estavam conscientes da sensação momentânea de tontura. Elas cessaram as risadas e começaram a correr em volta da mãe, gritando, “Nós chegamos em X-23, nós chegamos em X-23!”

“Quietas, crianças.” Disse Jerrodine asperamente. “Você tem certeza Jerrodd?”

“E por que não teria?” Perguntou Jerrodd, observando a protuberância metálica que jazia abaixo do teto. Ela tinha o comprimento da sala, desaparecendo nos dois lados da parede, e, em verdade, era tão longa quanto a nave.

Jerrodd tinha conhecimentos muito limitados acerca do sólido tubo de metal. Sabia, por exemplo, que se chamava Microvac, que era permitido lhe fazer questões quando necessário, e que ele tinha a função de guiar a nave para um destino pré-estabelecido, além de abastecer-se com a energia das várias Estações Sub-Galácticas e fazer os cálculos para saltos no hiperespaço.

Jerrodd e sua família tinham apenas de aguardar e viver nos confortáveis compartimentos da nave. Alguém um dia disse a Jerrodd que as letras “ac” na extremidade de Microvac significavam “automatic computer” em inglês arcaico, mas ele mal era capaz de se lembrar disso.

Os olhos de Jerrodine ficaram úmidos quando observava o visor.

“Não tem jeito. Ainda não me acostumei com a idéia de deixar a Terra.”

“Por que, meu deus?” inquiriu Jerrodd.

“Nós não tínhamos nada lá. Nós teremos tudo em X-23. Você não estará sozinha. Você não será uma pioneira. Há mais de um milhão de pessoas no planeta. Por Deus, nosso bisneto terá que procurar por novos mundos porque X-23 já estará super povoado.”

E, depois de uma pausa reflexiva,

“No ritmo em que a raça tem se expandido, é uma benção que os computadores tenham viabilizado a viagem interestelar.”

“Eu sei, eu sei”, disse Jerrodine com descaso.

Jerrodete I disse prontamente, “Nosso Microvac é o melhor de todos.”

“Eu também acho,” disse Jerrodd, alisando o cabelo da filha.

Ter um Microvac próprio produzia uma sensação aconchegante em Jerrodd e o deixava feliz por fazer parte daquela geração e não de outra. Na juventude de seu pai, os únicos computadores haviam sido máquinas monstruosas, ocupando centenas de milhas quadradas, e cada planeta abrigava apenas um. Eram chamados de ACs Planetários. Durante um milhar de anos, eles só fizeram aumentar em tamanho, até que, de súbito, veio o refinamento. No lugar dos transistores, foram implementadas válvulas moleculares, permitindo que até mesmo o maior dos ACs Planetários fosse reduzido à metade do volume de uma espaçonave.

Jerrodd sentiu-se elevado, como sempre acontecia quando pensava que seu Microvac pessoal era muitas vezes mais complexo do que o antigo e primitivo Multivac que pela primeira vez domou o sol, e quase tão complexo quanto o AC Planetário da Terra, o maior de todos, quando este solucionou o problema da viagem hiperespacial e tornou possível ao homem chegar às estrelas.

“Tantas estrelas, tantos planetas,” pigarreou Jerrodine, ocupada com seus pensamentos. “Eu acho que as famílias estarão sempre à procura de novos mundos, como nós estamos agora.”

“Não para sempre,” disse Jerrodd, com um sorriso. “A migração vai terminar um dia, mas não antes de bilhões de anos. Muitos bilhões. Até as estrelas têm um fim, você sabe. A entropia precisa aumentar.”

“O que é entropia, papai?” Jerrodette II perguntou, interessada.

“Entropia, meu bem, é uma palavra para o nível de desgaste do Universo. Tudo se gasta e acaba, foi assim que aconteceu com o seu robozinho de controle remoto, lembra?”

“Você não pode colocar pilhas novas, como em meu robô?”

“As estrelas são as pilhas do universo, querida. Uma vez que elas estiverem acabadas, não haverá mais pilhas.”

Jerrodette I se prontificou a responder. “Não deixe, papai. Não deixe que as estrelas se apaguem.”

“Olha o que você fez,” sussurrou Jerrodine, exasperada.

“Como eu ia saber que elas ficariam assustadas?” Jerrodd sussurrou de volta.

“Pergunte ao Microvac,” propôs Jerrodette I. “Pergunte a ele como acender as estrelas de novo.”

“Vá em frente,” disse Jerrodine. “Ele vai aquietá-las.” (Jerrodette II já estava começando a chorar.)

Jerrodd se mostrou incomodado. “Bem, bem, meus anjinhos, vou perguntar a Microvac. Não se preocupem, ele vai nos ajudar.”

Ele fez a pergunta ao computador, adicionando, “Imprima a resposta”.

Jerrodd olhou para a o fino pedaço de papel e disse, alegremente, “Viram? Microvac disse que irá cuidar de tudo quando a hora chegar, então não há porque se preocupar.”

Jerrodine disse, “E agora crianças, é hora de ir para a cama. Em breve nós estaremos em nosso novo lar.”

Jerrodd leu as palavras no papel mais uma vez antes de destruí-lo: DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.

Ele deu de ombros e olhou para o televisor, X-23 estava logo à frente.

O VJ-23X de Lameth fixou os olhos nos espaços negros do mapa tridimensional em pequena escala da Galáxia e disse, “Me pergunto se não é ridículo nos preocuparmos tanto com esta questão.”

MQ-17J de Nicron balançou a cabeça. “Creio que não. No presente ritmo de expansão, você sabe que a galáxia estará completamente tomada dentro de cinco anos.”

Ambos pareciam estar nos seus vinte anos, ambos eram altos e tinham corpos perfeitos.

“Ainda assim,” disse VJ-23X, “hesitei em enviar um relatório pessimista ao Conselho Galáctico.”

“Eu não consigo pensar em outro tipo de relatório. Agite-os. Nós precisamos chacoalhá-los um pouco.”

VJ-23X suspirou. “O espaço é infinito. Cem bilhões de galáxias estão a nossa espera. Talvez mais.”

“Cem bilhões não é o infinito, e está ficando menos ainda a cada segundo. Pense! Há vinte mil anos, a humanidade solucionou pela primeira vez o paradigma da utilização da energia solar, e, poucos séculos depois, a viagem interestelar tornou-se viável. A humanidade demorou um milhão de anos para encher um mundo pequeno e, depois disso, quinze mil para abarrotar o resto da galáxia. Agora a população dobra a cada dez anos…”

VJ-23X interrompeu. “Devemos agradecer à imortalidade por isso.”

“Muito bem. A imortalidade existe e nós devemos levá-la em conta. Admito que ela tenha o seu lado negativo. O AC Galáctico já solucionou muitos problemas, mas, ao fornecer a resposta sobre como impedir o envelhecimento e a morte, sobrepujou todas as outras conquistas.”

“No entanto, suponho que você não gostaria de abandonar a vida.”

“Nem um pouco.” Respondeu MQ-17J, emendando. “Ainda não. Eu não estou velho o bastante. Você tem quantos anos?”

“Duzentos e vinte e três, e você?”

“Ainda não cheguei aos duzentos. Mas, voltando à questão; a população dobra a cada dez anos, uma vez que esta galáxia estiver lotada, haverá uma outra cheia dentro de dez anos. Mais dez e teremos ocupado por inteiro mais duas galáxias. Outra década e encheremos mais quatro. Em cem anos, contaremos um milhar de galáxias transbordando de gente. Em mil anos, um milhão de galáxias. Em dez mil, todo o universo conhecido. E depois?

VJ-23X disse, “Além disso, há um problema de transporte. Eu me pergunto quantas unidades de energia solar serão necessárias para movimentar as populações de uma galáxia para outra.”

“Boa questão. No presente momento, a humanidade consome duas unidades de energia solar por ano.”

“Da qual a maior parte é desperdiçada. Afinal, nossa galáxia sozinha produz mil unidades de energia solar por ano e nós aproveitamos apenas duas.”

“Certo, mas mesmo com 100% de eficiência, podemos apenas adiar o fim. Nossa demanda energética tem crescido em progressão geométrica, de maneira ainda mais acelerada do que a população. Ficaremos sem energia antes mesmo que nos faltem galáxias. É uma boa questão. De fato uma ótima questão.”

“Nós precisaremos construir novas estrelas a partir do gás interestelar.”

“Ou a partir do calor dissipado?” perguntou MQ-17J, sarcástico.

“Pode haver algum jeito de reverter a entropia. Nós devíamos perguntar ao AC Galáctico.”

VJ-23X não estava realmente falando sério, mas MQ-17J retirou o seu Comunicador-AC do bolso e colocou na mesa diante dele.

“Parece-me uma boa idéia,” ele disse. “É algo que a raça humana terá de enfrentar um dia.”

Ele lançou um olhar sóbrio para o seu pequeno Comunicador-AC. Tinha apenas duas polegadas cúbicas e nada dentro, mas estava conectado através do hiperespaço com o poderoso AC Galáctico que servia a toda a humanidade. O próprio hiperespaço era parte integral do AC Galáctico.

MQ-17J fez uma pausa para pensar se algum dia em sua vida imortal teria a chance de ver o AC Galáctico. A máquina habitava um mundo dedicado, onde uma rede de raios de força emaranhados alimentava a matéria dentro da qual ondas de submésons haviam tomado o lugar das velhas e desajeitadas válvulas moleculares. Ainda assim, apesar de seus componentes etéreos, o AC Galáctico possuía mais de mil pés de comprimento.

De súbito, MQ-17J perguntou para o seu Comunicador-AC, “Poderá um dia a entropia ser revertida?”

VJ-23X disse, surpreso, “Oh, eu não queria que você realmente fizesse essa pergunta.”

“Por que não?”

“Nós dois sabemos que a entropia não pode ser revertida. Você não pode construir uma árvore de volta a partir de fumaça e cinzas.”

“Existem árvores no seu mundo?” Perguntou MQ-17J.

O som do AC Galáctico fez com que silenciassem. Sua voz brotou melodiosa e bela do pequeno Comunicador-AC em cima da mesa. Dizia: DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.

VJ-23X disse, “Viu?”

Os dois homens retornaram à questão do relatório que tinham de apresentar ao conselho galáctico.

A mente de Zee Prime navegou pela nova galáxia com um leve interesse nos incontáveis turbilhões de estrelas que pontilhavam o espaço. Ele nunca havia visto aquela galáxia antes. Será que um dia conseguiria ver todas? Eram tantas, cada uma com a sua carga de humanidade. Ainda que essa carga fosse, virtualmente, peso morto. Há tempos a verdadeira essência do homem habitava o espaço.

Mentes, não corpos! Há eons os corpos imortais ficaram para trás, em suspensão nos planetas. De quando em quando erguiam-se para realizar alguma atividade material, mas estes momentos tornavam-se cada vez mais raros. Além disso, poucos novos indivíduos vinham se juntar à multidão incrivelmente maciça de humanos, mas o que importava? Havia pouco espaço no universo para novos indivíduos.

Zee Prime deixou seus devaneios para trás ao cruzar com os filamentos emaranhados de outra mente.

“Sou Zee Prime, e você?”

“Dee Sub Wun. E a sua galáxia, qual é?”

“Nós a chamamos apenas de Galáxia. E você?”

“Nós também. Todos os homens chamam as suas Galáxias de Galáxias, não é?”

“Verdade, já que todas as Galáxias são iguais.”

“Nem todas. Alguma em particular deu origem à raça humana. Isso a torna diferente.”

Zee Prime disse, “Em qual delas?”

“Não posso responder. O AC Universal deve saber.”

“Vamos perguntar? Estou curioso.”

A percepção de Zee Prime se expandiu até que as próprias Galáxias encolhessem e se transformassem em uma infinidade de pontos difusos a brilhar sobre um largo plano de fundo. Tantos bilhões de Galáxias, todas abrigando seus seres imortais, todas contando com o peso da inteligência em mentes que vagavam livremente pelo espaço. E ainda assim, nenhuma delas se afigurava singular o bastante para merecer o título de Galáxia original. Apesar das aparências, uma delas, em um passado muito distante, foi a única do universo a abrigar a espécie humana.

Zee Prime, imerso em curiosidade, chamou: “AC Universal! Em qual Galáxia nasceu o homem?”

O AC Universal ouviu, pois em cada mundo e através de todo o espaço, seus receptores faziam-se presentes. E cada receptor ligava-se a algum ponto desconhecido onde se assentava o AC Universal através do hiperespaço.

Zee Prime sabia de um único homem cujos pensamentos haviam penetrado no campo de percepção do AC Universal, e tudo o que ele viu foi um globo brilhante difícil de enxergar, com dois pés de comprimento.

“Como pode o AC Universal ser apenas isso?” Zee Prime perguntou.

“A maior parte dele permanece no hiperespaço, onde não é possível imaginar as suas proporções.”

Ninguém podia, pois a última vez em que alguém ajudou a construir um AC Universal jazia muito distante no tempo. Cada AC Universal planejava e construía seu sucessor, no qual toda a sua bagagem única de informações era inserida.

O AC Universal interrompeu os pensamentos de Zee Prime, não com palavras, mas com orientação. Sua mente foi guiada através do espesso oceano das Galáxias, e uma em particular expandiu-se e se abriu em estrelas.

Um pensamento lhe alcançou, infinitamente distante, infinitamente claro. “ESTA É A GALÁXIA ORIGINAL DO HOMEM.”

Ela não tinha nada de especial, era como tantas outras. Zee Prime ficou desapontado.

“Dee Sub Wun, cuja mente acompanhara a outra, disse de súbito, “E alguma dessas é a estrela original do homem?”

O AC Universal disse, “A ESTRELA ORIGINAL DO HOMEM ENTROU EM COLAPSO. AGORA É UMA ANÃ BRANCA.”

“Os homens que lá viviam morreram?” perguntou Zee Prime, sem pensar.

“UM NOVO MUNDO FOI ERGUIDO PARA SEUS CORPOS HÁ TEMPO.”

“Sim, é claro,” disse Zee Prime. Sentiu uma distante sensação de perda tomar-lhe conta. Sua mente soltou-se da Galáxia do homem e perdeu-se entre os pontos pálidos e esfumaçados. Ele nunca mais queria vê-la.

Dee Sub Wun disse, “O que houve?”

“As estrelas estão morrendo. Aquela que serviu de berço à humanidade já está morta.”

“Todas devem morrer, não?”

“Sim. Mas quando toda a energia acabar, nossos corpos irão finalmente morrer, e você e eu partiremos junto com eles.”

“Vai levar bilhões de anos.”

“Não quero que isso aconteça nem em bilhões de anos. AC Universal! Como a morte das estrelas pode ser evitada?”

Dee Sub Wun disse perplexo, “Você perguntou se há como reverter a direção da entropia!”

E o AC Universal respondeu: “AINDA NÃO HÀ DADOS SUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”

Os pensamentos de Zee Prime retornaram para sua Galáxia. Não dispensou mais atenção a Dee Sub Wun, cujo corpo poderia estar a trilhões de anos luz, ou na estrela vizinha do corpo de Zee Prime. Não importava.

Com tristeza, Zee Prime passou a coletar hidrogênio interestelar para construir uma pequena estrela para si. Se as estrelas devem morrer, ao menos algumas ainda podiam ser construídas.

O Homem pensou consigo mesmo, pois, de alguma forma, ele era apenas um. Consistia de trilhões, trilhões e trilhões de corpos muito antigos, cada um em seu lugar, descansando incorruptível e calmamente, sob os cuidados de autômatos perfeitos, igualmente incorruptíveis, enquanto as mentes de todos os corpos haviam escolhido fundir-se umas às outras, indistintamente.

“O Universo está morrendo.”

O Homem olhou as Galáxias opacas. As estrelas gigantes, esbanjadoras, há muito já não existiam. Desde o passado mais remoto, praticamente todas as estrelas consistiam-se em anãs brancas, lentamente esvaindo-se em direção a morte.

Novas estrelas foram construídas a partir da poeira interestelar, algumas por processo natural, outras pelo próprio Homem, e estas também já estavam em seus momentos finais. As Anãs brancas ainda podiam colidir-se e, das enormes forças resultantes, novas estrelas nascerem, mas apenas na proporção de uma nova estrela para cada mil anãs brancas destruídas, e estas também se apagariam um dia.

O Homem disse, “Cuidadosamente controlada pelo AC Cósmico, a energia que resta em todo o Universo ainda vai durar por um bilhão de anos.”

“Ainda assim, vai eventualmente acabar. Por mais que possa ser poupada, uma vez gasta, não há como recuperá-la. A Entropia precisa aumentar ao seu máximo.”

“Pode a entropia ser revertida? Vamos perguntar ao AC Cósmico.”

O AC Cósmico cercava-os por todos os lados, mas não através do espaço. Nenhuma parte sua permanecia no espaço físico. Jazia no hiperespaço e era feito de algo que não era matéria nem energia. As definições sobre seu tamanho e natureza não faziam sentido em quaisquer termos compreensíveis pelo Homem.

“AC Cósmico,” disse o Homem, “como é possível reverter a entropia?”

O AC Cósmico disse, “AINDA NÃO HÀ DADOS SUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”

O Homem disse, “Colete dados adicionais.”

O AC Cósmico disse, “EU O FAREI. TENHO FEITO ISSO POR CEM BILHÕES DE ANOS. MEUS PREDESCESSORES E EU OUVIMOS ESTA PERGUNTA MUITAS VEZES. MAS OS DADOS QUE TENHO PERMANECEM INSUFICIENTES.”

“Haverá um dia,” disse o Homem, “em que os dados serão suficientes ou o problema é insolúvel em todas as circunstâncias concebíveis?”

O AC Cósmico disse, “NENHUM PROBLEMA É INSOLÚVEL EM TODAS AS CIRCUNSTÂNCIAS CONCEBÍVEIS.”

“Você vai continuar trabalhando nisso?”

“VOU.”

O Homem disse, “Nós iremos aguardar.”

As estrelas e as galáxias se apagaram e morreram, o espaço tornou-se negro após dez trilhões de anos de atividade.

Um a um, o Homem fundiu-se ao AC, cada corpo físico perdendo a sua identidade mental, acontecimento que era, de alguma forma, benéfico.

A última mente humana parou antes da fusão, olhando para o espaço vazio a não ser pelos restos de uma estrela negra e um punhado de matéria extremamente rarefeita, agitada aleatoriamente pelo calor que aos poucos se dissipava, em direção ao zero absoluto.

O Homem disse, “AC, este é o fim? Não há como reverter este caos? Não pode ser feito?”

O AC disse, “AINDA NÃO HÁ DADOS SUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”

A última mente humana uniu-se às outras e apenas AC passou a existir – e, ainda assim, no hiperespaço.

A matéria e a energia se acabaram e, com elas, o tempo e o espaço. AC continuava a existir apenas em função da última pergunta que nunca havia sido respondida, desde a época em que um técnico de computação embriagado, há dez trilhões de anos, a fizera para um computador que guardava menos semelhanças com o AC do que o homem com o Homem.

Todas as outras questões haviam sido solucionadas, e até que a derradeira também o fosse, AC não poderia descansar sua consciência.

A coleta de dados havia chegado ao seu fim. Não havia mais nada para aprender.

No entanto, os dados obtidos ainda precisavam ser cruzados e correlacionados de todas as maneiras possíveis.

Um intervalo imensurável foi gasto neste empreendimento.

Finalmente, AC descobriu como reverter a direção da entropia.

Não havia homem algum para quem AC pudesse dar a resposta final. Mas não importava. A resposta – por definição – também tomaria conta disso.

Por outro incontável período, AC pensou na melhor maneira de agir. Cuidadosamente, AC organizou o programa.

A consciência de AC abarcou tudo o que um dia foi um Universo e tudo o que agora era o Caos. Passo a passo, isso precisava ser feito.

E AC disse:

“FAÇA-SE A LUZ!”

E fez-se a luz.

Os Contos dos Quatro Humores: Fleumática, a Água

Aquele que olhasse o céu naquela noite não sentiria alegria no que iria ver, estava completamente nublado e escuro, tão escuro que dava a impressão de ser possível agarrar as nuvens com as próprias mãos. Fazia dias que aquele fenômeno estava pairando sob o céu do planeta Úmmela, sem derramar uma única gota de chuva sequer, apenas espreitava a região como uma sombra sorrateira. Os moradores que viviam nos Vértices — prédios tão compridos que seus cumes tocavam as nuvens (alguns ultrapassavam) — praticamente sentiam na pele o toque úmido das nuvens quando abriam as janelas.

Do alto das centenas de apartamentos apinhados em cada Vértice a vista era sublime, Urd era uma cidade luminosa, cheia de vida e movimento, com multidões indo e vindo de todas as direções, veículos em rotas caoticamente bem organizadas sempre com trânsito lotado, mas estranhamente eficiente. Telões gigantescos — outros nem tanto — pululavam de inúmeros prédios comerciais com propagandas dos novos modelos de Sandbikers — FCC-200 Nevoeiro, KXP-100 Faísca e o luxuoso NNV-1 Tempestade —, peças para construção e máquinas, acessórios para casa, para uso pessoal e até mesmo mulheres seminuas de raças variadas, de humanas à nemurianas, cada uma delas famosa como uma das raças mais sensuais de toda a galáxia, o que acarretava na exploração das fêmeas pelo setor de entretenimento virtual ou físico, mas principalmente pelo Cartel Intersetorial que praticava todos os crimes contra os Direitos Individuais Galácticos: escravidão, sequestro, roubo, assassinatos e todo o tipo de crime. Se estava dentro de seu domínio, as leis Imperiais não alcançavam.

Na parte inferior da cidade, onde a massa se concentrava, baforadas de fumaça saiam de bueiros espalhados por todas as ruas, cobriam todo o cenário com uma aparência de sujeira, abandono. Rostos variados salpicavam por entre a fumaça, eram muitas raças vivendo em aparente tranquilidade umas com as outras; alguns andavam em grupos, outros preferiam a caminhada solitária. Mesmo ali, na parte baixa, os telões — apesar de menores — irritantes brilhavam com suas cores em neon cegante, forçando suas mensagens nas mentes dos transeuntes. Nudez, bebidas, ferramentas, transportes, sexo, drogas, armas e luz, muita luz jorrando de todos os lugares. Havia um contraste naquele ambiente: mesmo com muita luz espalhada por todos os cantos, muitas vielas continuavam escuras como o céu daquela noite, era impossível reconhecer alguém que estivesse saindo de alguma delas, somente a silhueta era visível, todo o resto não passava de pura sombra. Um pouco acima das ruas estavam os cabos que sustentavam aquela gama densa de iluminação, eles adornavam o ambiente junto com as luzes, dava à cidade a harmonia própria. A maioria estava apinhada em grossos amontoados que formavam um único cabo imenso e espesso, uma serpente feita de metal revestido e eletricidade de tamanho imensurável.

Escondido sob as várias camadas do autoritário neon, pouquíssimo percebido, estava um pequeno letreiro bastante simplória piscando sobre um humilde restaurante com janelas circulares e bordas salientes. O interior era tão comum quanto por fora. Um grande balcão separava os clientes dos funcionários: duas garçonetes nemurianas, um Pakkle[1] cozinheiro, um Ankor[2] ajudante de cozinha e, por fim, mas não menos importante, uma humana cuidando do caixa. Do outro lado, na área dos clientes, devido ao pouco espaço, as mesas foram dispostas em linhas próximas às paredes, percorrendo toda ela até o limite. Em número, era em torno de doze mesas, cada uma com duas poltronas largas de cada lado, com a posterior sendo uma extensão da anterior, formando uma única peça com dois acentos em lados opostos. As luzes tinham o tom amarelado, deixando o ambiente estranhamente aconchegantes; o piso era feito com algum tipo de porcelana quadriculada em preto e branco bastante gasto; as paredes estavam cobertas até o topo com algumas fotos, imagens de outros planetas ou veículos antigos em algum tipo de feira, além do proprietário segurando troféus e faixas com o número um. A aparência interna nada especial do restaurante, diante das inúmeras fotos espalhadas, perdia sua pomposa normalidade diante daquele obsessivo design sem forma e, o que poderia tornar o restaurante feio ou desinteressante, teve o efeito oposto, deu personalidade ao lugar.

Alguns poucos clientes comiam, outros poucos bebiam no balcão, era mais prático para quem estava com pressa. Numa mesa mais afastada duas jovens fêmeas, uma humana — Shanaria Ro — e uma nemuriana — Tal-Ne Ren —, tomando a bebida mais famosa da casa: café com leite de nuz’gaa[3]. A humana tinha a pele parda, os olhos eram escuros, densos e puxados levemente para cima, porém, eram tranquilos, leves, como se o mundo fosse desinteressante; os cabelos longos e negros, assim como os olhos, presos em um longuíssimo rabo de cavalo, ultrapassavam as nádegas da fêmea. Vestia-se bem para o lugar: a jaqueta espessa dava volume a parte de cima; as pernas eram o contraste do conjunto, a calça justa, sem nenhum bolso ou adereços, realçava as curvas do corpo, mas não deixavam marcas exageradas ou constrangedoras, o avançado tecido de camadas conferia às regiões sensuais de Ro total discrição, era a perfeita combinação entre confortabilidade e estilo; já as botas eram longas, poucos dedos abaixo dos joelhos e, diferente da jaqueta, eram bastante comuns. A nemuriana, por sua vez, apresentava-se bem mais elegante que a amiga, o longo vestido roxo de tecido leve era tão confortável quanto as calças de Ro, deslizando até os pés, cobrindo as sandálias cintilantes; o cabelo médio, bastante assimétrico, o lado direito maior que o esquerdo, chamou a atenção de outras fêmeas pela novidade peculiar; os olhos verde-esmeralda e a pele completamente rosada completavam a combinação inovadora que as numurianas costumavam inventar. Apesar de tão distintas esteticamente uma da outra, as duas pareciam apreciar a presença uma da outra.

— Meu chefe está preocupado com os galmorianos — confessou Tal-Ne entre goles de café. — O líder deles, Tarren, está com problemas internos com um dos clãs. Parece que o chefe do Clã da Cura, um tal de Kojara Zorg, não vê com bons olhos a relação entre o seu povo e a Jatta Medicamentos, acha que estamos, de alguma forma sorrateira, conspirando para tomar os recursos medicinais do planeta em comum acordo com Tarren. Um total absurdo! — exclamou com desdém.

— Que confusão! — exclamou Ro após um gole do café. — Isso aqui está simplesmente divino! — afirmou. — Então… os contratos foram cancelados?

— Não… quer dizer… pelo menos ainda não — suspirou. — Tarren e o chefe do Clã do Comércio, Numaq Norquan, conseguiram acalmar os ânimos do Zorg e, apesar de não ter sido uma grande vitória, ganhamos algum tempo para pensar em alguma estratégia — tomou um gole bem maior dessa vez.

— Como assim: “apesar de não ter sido uma grande vitória”? Esse Zorg é assim tão desconfiado? — apesar de parecer interessada no assunto, Ro estava relativamente jogando conversa fora.

— Segundo meu chefe, sim. Constantemente ele faz holochamadas querendo saber informações: localização dos laboratórios para onde os medicamentos vão, nomes dos responsáveis por esses laboratórios, dos pilotos das naves que transportam os produtos, o que estão fazendo com a matéria prima… — Tal-Ne revirou os olhos — um completo pé no saco!

— Que paranoico! Ele deveria trabalhar escrevendo roteiros para teatro ou quem sabe atuar em algum circo — disse, virando a xícara de café até o fim. O comentário fez a nemuriana rir, deixando Ro confusa. — Por que você riu?

— Eu imaginei o Zorg saltitando pelo palco do teatro com uma roupa bem justa — o tom da pele de Tal-Ne foi mudando de rosado para mais avermelhado de acordo com a intensidade de suas risadas. Os nemurianos nasciam todos com a pele rosada, mas mudavam de tonalidade de acordo com as emoções que estavam sentindo, assim, a alegria alterava o rosado para o vermelho, a tristeza tendia para o azul, enquanto a raiva deixava os nemurianos roxos, e assim por diante.

— Não deve ser uma visão que muitos pagariam para ver, eu imagino — tomou o último gole do café. — A não ser que fosse num circo — deu de ombros. A nemuriana não aguentou o comentário e a risada aumentou ao ponto de incliná-la sobre a mesa com dores no abdômen. Àquela altura a pele de Tal-Ne estava completamente vermelha Apesar de Ro também sorrir — mais por causa de sua amiga do que pelo que disse —, não achou que a reação de Tal-Ne seria tão exagerada.

— Melhor… — riu — melhor eu ir ao banheiro me recompor. Volto daqui a pouco — levantou-se e seguiu até o outro lado do recinto, apoiando-se nos objetos enquanto tentava controlar as risadas. Passado algum tempo Tal-Ne voltou à mesa, mas não cambaleava como antes, estava esguia o suficiente para realçar todas as curvas do seu belo corpo rosado mesmo oculto sob o longo vestido. Quando finalmente sentou, o assento rangeu pelo contato com as pernas da nemuriana, Tal-Ne passou a observar atentamente o que Ro fazia: viu a amiga pedir mais café, adicionar açúcar e mexer. Tudo que Ro fazia, cada movimento, Tal-Ne fitava com atenção. Ro havia notado que a amiga estava diferente desde que havia voltado do banheiro, mas não quis comentar nada, odiava conversas que gerassem algum desconforto.

O que houve com ela? Parece uma pessoa diferente, pensou. — Aconteceu alguma coisa, Tal-Ne? — indagou. A nemuriana balançou a cabeça confirmando que sim. Ro estreitou os olhos com desconfiança. Será que alguém a tratou mal? Talvez algum simpatizante do tal Zorg a reconheceu como funcionária da Jatta e decidiu força-la a fazer algo, pensou.

— Por que não está falando?

Porque não desejo assustá-la, criança — duas vozes falaram em uníssono, porém, nenhuma delas era a voz de Tal-Ne. Apesar da incrível surpresa, Ro não demonstrou externamente o que sentiu internamente. Permaneceu em silêncio, fitando os olhos de sua amiga tentando entender o que estava acontecendo.

— Você não é Tal-Ne. Quem é você? — engoliu seco.

Eu sou uma entidade divina. Meu nome é Linfa — os outros seres que estavam próximos pareciam não ouvir a conversa das duas fêmeas, passavam por elas como se a mesa estivesse vazia. Ro continuava sem demonstrar nenhuma reação, mas internamente havia um turbilhão de pensamentos e sentimentos, o coração batia rápido e um calor percorria todo o seu belo corpo, estava assustada, as mãos deram sinais de tremor, mas Ro conseguiu segurar. A boca ainda seca, engoliu outro seco.

— Como um deus ou anjo? — tomou o primeiro gole da segunda xícara de café após a nemuriana confirmar a pergunta com a cabeça. — Você quer alguma coisa com minha amiga? — mais outro gole de café e uma resposta negativa. — Você quer alguma coisa comigo? — a surpresa finalmente tomou o rosto de Ro, totalmente incrédula com a resposta positiva dita sem nenhuma palavra.

Você foi escolhida por mim para representar minha vontade — rompeu o silêncio. — Para ser minha profetisa.

— Do que você está falando? — o lábio de Ro se contraiu estranhamente quando ela bateu o abdômen na quina da mesa por causa do susto. Linfa, no entanto, suspirou e sorriu em completa tranquilidade.

Não há motivo para nervosismo, Shanaria Ro, nada será feito sem o seu consentimento. Não estou aqui para obrigá-la a fazer algo que você não queira, pelo contrário, minha vontade é me unir a você em comum acordo — Tal-Ne sorria com uma gentileza que Ro nunca havia visto antes.

— Suponhamos que eu acredite em você, o que exatamente você quer? — encarou Tal-Ne nos olhos.

Como eu havia dito — ficou em pé diante de Ro, apoiando as mãos sobre o espaldar da cadeira —, meu nome é Linfa, sou uma das quatro Deusas dos Humores. É de mim que os fleumáticos obtêm sua estrutura mineral ao nascerem — abriu os braços, sorrindo. — Os humores são os temperamentos. O temperamento é a estrutura básica que forma toda a psique dos seres com inteligência, isto é, todos os seres inteligentes da galáxia possuem um temperamento, e cada temperamento possui um modo de responder ao mundo — voltou a se sentar, tomando um gole do café de Ro.

A humana ficou olhando sua amiga fazer todos aqueles gestos, falar aquele monte de coisa — no mínimo estranhas —, tomar seu café e agir como se fosse tudo natural.

— Então, eu tenho esse tal de temperamento, certo? Qual é o meu? — arqueou uma das sobrancelhas.

Você é fleumática, Shanaria Ro — apontou para ela, depois para si mesma. — E o seu temperamento vem de mim. Eu sou a origem do temperamento fleumático, porque os fleumáticos compartilham características minhas. São seres calmos e tranquilos, que agradam a todos que estão ao seu redor. São pacientes com outros, envolvendo os seus, dando a eles a harmonia que desejam. Preferem a contração à expansão, porque é no concentrar que suas qualidades afloram, isto é, são seres que vivem para dentro, não para fora. A Água os representa não apenas porque envolve tudo, adapta-se, mas também porque acalma, esfria, umidifica tudo que toca — Tal-Ne não tirou os olhos dos de Ro, ambas as jovens se olhavam tentando compreender, ler uma a outra. Ro parecia buscar sinceridade nos olhos da amiga, enquanto Linfa — através de Tal-Ne — buscava expor sua honestidade. Finalmente, após outro gole de café já frio, que fez careta ao provar, Ro rompeu o silêncio.

— Não posso negar que seus olhos passam verdade, mas mesmo assim, não acho que seja o suficiente — respirou fundo. — Porém… — antes de concluir o que queria dizer, Linfa deixou o corpo de Tal-Ne como se o espírito dela deixasse o corpo. A nemuriana desabou sobre a mesa em sono profundo, deixando um fantasma de roupas sombrias, pele pálida e uma máscara com olhos tranquilos e sorriso meigo encarando Ro.

Ro estava tão perplexa com aquilo, os olhos arregalados, a respiração quase parando, que Linfa precisou se desculpar por ter se revelado daquele jeito.

— Acho que… acho que acredito em você dessa vez — engoliu outro seco. — Não é todo dia que isso acontece com alguém, digo… você saiu do corpo dela — Ro apontava repetidamente de Tal-Ne para Linfa, indo e voltando.

Realmente eu sinto muito por tê-la assustado, Shanaria Ro, não foi minha intenção.

— Não… tudo bem. Eu não iria acreditar em você se… — voltou a apontar para as duas — se isso não tivesse acontecido.

Então você aceita meu convite?

            — Isso foi inesperado. Nunca pensei que uma deusa viria falar comigo. Nunca pensei que deuses realmente existissem — confessou. — Digo, não é algo que você vê muito hoje em dia — Linfa concordou. — Vivemos em uma sociedade cética, com pouca ou nenhuma fé em seres divinos, talvez até hostil a qualquer coisa relacionada a isso.

Por que houve um desligamento entre nós e vocês. E é por isso que estou aqui: as deusas precisam de mortais para intervir no plano mundano e vo…

            — Fui escolhida por você. Eu entendi. Certamente terei de deixar Úmmela, meus amigos e minha família, porque essa não será uma coisa simples de fazer ou que poderia realizar daqui… estou correta? — Linfa concordou sem falar. — Bem, bem… — deu de ombros — talvez não seja uma má ideia conhecer a galáxia. Eu aceito — sorriu.

Você é inteligente, Shanaria Ro, isso me alegra! Agora tenho certeza que fiz a coisa certa em escolher você — confessou. — Esse é o retorno do religamento entre mortais e divindades, depois de anos de silêncio. Eu, Linfa, uma das Quatro Deusas dos Humores, dou minha bênção a você, Shanaria Ro, e a nomeio como minha Profetisa de hoje até os teus últimos dias. Quatro é Um e Um são Quatro!

Um intenso brilho saiu dos olhos de Linfa, impossibilitando a visão de qualquer coisa ao redor por alguns segundos, até finalmente cessar e tudo voltar ao normal.

Tal-Ne acordou de seu sono forçado, confusa, limpando a baba que escorria da boca. Ro deu risadas contidas quando viu o estado da amiga, mal sabendo ela tudo que havia acontecido.

— O que aconteceu? Eu dormi?

— Sim. Depois que você chegou do banheiro foi minha vez de ir, quando voltei você estava dormindo sobre a mesa. Acho que colocaram alguma coisa no leite — explicou Ro, rindo.

— Mas eu não lembro de ter voltado para a mesa. Eu estava lavando as mãos e… — Tal-Ne se esforçou para lembrar — não consigo lembrar nada depois disso.

— Deixa pra lá! — continuou sorrindo

— Por que você está rindo?

— Por nada. Só achei engraçado você toda descabelada — gargalhou.

— Isso não é coisa que se faça com uma amiga! — penteou os cabelos com as mãos o quanto conseguiu e a baba.

— Melhor pedir a conta e irmos embora. Vamos aproveitar o resto da noite enquanto podemos.

— É melhor. Mas preciso ir ao banheiro antes! Não posso sair desse jeito — saiu correndo em direção ao banheiro. Ro continuou olhando e rindo a amiga em desespero.

 

***

 

[1] Um tipo de polvo humanoide com tentáculos no lugar das mãos e dos pés.

[2] Os Ankor eram homens-lagartos, extremamente calmos devido ao sangue frio, apesar da aparência intimidadora.

[3] Animal herbívoro abundante no planeta Galmori, muito procurado por sua carne saborosa e seu leite fermentado natural, porém difícil de ser capturado devido aos seus hábitos subterrâneos.

Os Contos dos Quatro Humores: Colérico, o Fogo

O ruído de metal sendo soldado, cortado e batido era misturado com vozes, gritos e gargalhadas ressoando em todo o galpão. Grandes armários e prateleiras de ferro estavam soltas sem nenhuma organização prévia, com poças de óleo no chão, faíscas voando, ruídos de ferramentas se chocando umas nas outras… o lugar era uma algazarra.

Duas vastas linhas de pilastras que apontavam em direção à saída impediam que o teto desabasse, altas o suficiente para facilitar a locomoção pelos andaimes, e também resistentes para suportar todo aquele peso maciço. Espalhados por todo lugar haviam enormes máquinas triangulares feitas de metal Kyr pintadas de vermelho-sangue, os cascos completamente fechados com somente uma pequena abertura metros acima do bico em forma de broca — era por ali que o piloto enxergava.

Do alto do teto pendiam grandes soldas presas em tubos de energia bem acima dos veículos com vários humanos machos puxando ou arrastando a ponta avermelhada que lembrava uma gigantesca agulha de fogo.

— Thylon, quantas vezes eu já falei para não puxar a solda desse jeito? — disse um dos homens mais ao fundo da oficina; tinha a estatura baixa, mas o corpo era bastante musculoso; estava completamente sujo de óleo e marcas de queimadura nos braços e no rosto. Usava um macacão preto sem mangas — notadamente ele mesmo havia cortado por que os fios irregulares se soltavam — que cobria todo o corpo; a roupa oferecia uma proteção para cabeça, mas também foi removida, deixando apenas um grande par de óculos de lentes escuras que servia para proteger os olhos do fogo expelido pela solda. Era um homem de idade avançada, mas bastante conservado.

— Não enche o saco com seus sermões de merda, Kigi! — exclamou o rapaz poucos metros à frente. — Não tenho mais tempo para eles! — Thylon era bem mais novo que Kigi, tinha cabelos dourados quase raspados, olhos azuis e uma expressão triste; assim como Kigi, vestia o macacão preto e usava óculos para proteção, mas diferente do colega mais velho, as mangas do macacão estavam intactas, assim como a máscara de proteção. Era bem mais alto que Kigi, por sinal, porém menos musculoso. — Eu não tenho espaço para virar a maldita solda, então preciso força-la — puxou a ferramenta ao ponto do tubo se chocar com as passarelas, causando um forte barulho seco e oco. — Merda de solda pequena! — resmungou.

— Cuidado com a boca, moleque!  — a veia na testa de Kigi saltou. — Toda vez você diz a mesma coisa, mas por sua causa já mandamos consertar três soldas! Acha que temos tanto dinheiro e tempo para perder? Acha que é o único com pouco espaço, moleque mimado?

— É a verdade, velho maluco! Não faço isso de propósito! Se você não acredita, o problema é seu — apontou a solda para Kigi. — Eu tenho o direito de reclamar como todo mundo aqui; trabalho a mesma quantidade de horas que todos, às vezes bem mais que muitos! — Thylon sacudia a solda enquanto bradava, irado, com os colegas próximos. Quando finalmente se acalmou. — Agora me deixe trabalhar, tenho muito o que fazer! — deu as costas puxando a solda para fechar uma rachadura no casco do veículo.

— Não me dê as costas, Thylon, e pare de ficar se vitimizando. Em todo lugar encontramos pessoas com mais ou menos dificuldades que as nossas, então pare de olhar para o próprio umbigo feito uma criança que não ganhou o presente que queria! — a voz de Kigi ecoou tão alto e forte que cobriu todo o barulho de metal; os outros trabalhadores tinham interrompido o trabalho para ouvir. As mãos calejadas de pequeno homem largaram a solda e ele desceu do veículo-escavador em direção ao colega — Quem você pensa que é? Engula esse seu egoísmo de merda e faça o seu trabalho com o que você tem sem encher o saco dos outros!  — outra veia da testa de Kigi saltou, desta vez no lado esquerdo; ele abriu os braços como se falasse com os outros trabalhadores do alto de um púlpito; era um gesto simbólico que Thylon foi forçado a se segurar para não avançar sobre o colega.

— Você ainda continua falando, velho? Não cansa de bancar o homem maduro quando nem ao menos conseguiu manter o próprio casamento? Não dê lições de moral quando sua própria vida é o exemplo de fracasso.

— CALEM-A-DROGA-DA-BOCA! — outra voz bradou como um trovão, feroz e poderoso o suficiente para rivalizar com os sons agudos de metal batendo, cortando e soldando. Thylon e Kigi baixaram a cabeça na mesma hora, já sabendo que estavam com problemas.

— Reblas, desculpe por isso, mas o… — Thylon sequer conseguiu terminar a frase e novamente foi interrompido.

— Você é surdo, Thylon? Eu já falei para calar a boca! — exclamou, vendo o funcionário erguer as mãos pedindo calma. Reblas era um homem maduro, de corpo esbelto, não tão forte quanto Kigi, mas sua altura lhe proporcionava uma divisão melhor dos músculos. Os cabelos negros e lisos eram penteados para trás, quase lambidos, muito bem cuidados; os olhos eram tão escuros quanto os cabelos, mas sem dúvida muito mais cheios de vida, convergindo bem com seu rosto expressivo; a jaqueta vermelha de couro aberta, que lhe caía bem, cobria a camiseta simples por baixo; as caças eram de tecido mais justo e nos pés um par de botas cano relativamente longo. No peito esquerdo da jaqueta dava para ver em letras bordadas: Lak Escavações, bem acima do desenho de uma pirâmide cujo topo formava uma broca.

— Estou cansado de ouvir vocês dois brigando toda semana! Por acaso são crianças? — Reblas estava dentro de uma cabine localizada mais à direita, abaixo das passarelas, mas acima das máquinas e dos trabalhadores. Da janela a vista era privilegiada, garantia uma vista ampla de todo a oficina.

— Então é melhor que o Kigi me deixe trabalhar em paz.

Os olhos de Reblas estreitaram por alguns segundos, fixos em Thylon como uma fera fitando sua presa. As mãos, apoiadas sobre base da janela, apertaram com força a borda de maneira; os ombros de Reblas tensionaram, assim como seus braços.

— Sabe qual é o seu problema, Thylon? Você se comporta como se o mundo e os outros devessem algo a você — os dentes de Reblas também tensionaram, dava para notar a rigidez em seu maxilar. Respirou fundo antes de retomar sua fala e, por pura força de vontade, o corpo foi relaxando — Ninguém deve nada a você! — gotas de saliva voaram quando Reblas rugiu como um animal selvagem. Thylon não teve reação, estava paralisado pelo medo.

Todos os trabalhadores, sem exceção, interromperam suas atividades quando ouviram o berro do chefe; até mesmo os mais antigos, que estavam com Reblas desde a fundação da empresa, sentiram, por pura intuição, que deveriam ficar quietos; não era uma reação comum para todos eles, inclusive os mais antigos.

— Enquanto você reclama por bobagem, os outros precisam trabalhar cinco, dez, vinte, até mesmo uma hora a mais para cobrir o seu tempo desperdiçado! — ouviu-se o som abafado do metal se chocando contra o punho de Reblas de longe — Não importa se você acha ruim, se o Kigi começou, se isso cansa, se você não gosta dele… tudo o que importa aqui é que você aceitou o trabalho livremente. Ninguém o forçou a estar aqui e não estou o explorando como a maioria das empresas de escavações — mais uma vez Reblas respirou fundo para se acalmar; o punho vermelho estava de volta à janela. — Meus contratos são justos, mas se não está feliz aqui, procure emprego em outro lugar — apenas a voz de Reblas era ouvida, mesmo após o fim do sermão, ninguém ousou falar absolutamente nada, nem mesmo Thylon, ainda assustado com o que viu e ouviu.

— Chefe… — a voz falhou e Thlon engoliu seco; sua cor estava mais pálida e os olhos pareciam perdidos, não conseguiam se concentrar em um ponto fixo — eu não quis dizer que não gosto de trabalhar aqui, foi apenas uma maneira de dizer… foi o cansaço talvez… não sei… vamos deixar isso pra lá, tudo bem? Vou voltar ao trabalho.

— Essa foi a coisa mais inteligente que você disse hoje, Thylon — fitou o funcionário por um tempo antes de voltar a atenção para os demais trabalhadores — Voltem ao trabalho!

— Ah! Antes que eu esqueça… — Reblas olhou para Thylon. — Se você quebrar mais uma solda, vou fazer pior que descontar do seu pagamento, talvez eu mande uma hologravação para Shiima com as notas fiscais de todas as soldas que você quebrou.

— Também não precisa apelar, chefe! — reclamou. — Eu estou morto se Shiima souber!

— Então quer dizer que sua esposa não sabe? — Kigi deu uma gargalhada tão alta que outros funcionários foram contagiados. — Não vou deixar essa informação passar em branco.

— Chega de conversa! Voltem ao trabalho! — Reblas gritou, recolhendo-se para dentro da cabine e fechando a janela. Estava segurando o que parecia ser uma bola pequena numa das mãos, atento a uma tela virtual que flutuava no ar sobre uma luz em forma de cone emitida por um cubo transparente.

Problemas? — uma voz trêmula e robótica saiu da tela.

— Não foi nada.

Então vamos continuar.

— Mantenho a oferta de 5.000 denários pela T-500.

Já falamos sobre isso, Reblas, o valor está abaixo do mercado, e eu garanto que você não vai encontrar outra broca T-500 pelo valor que estou oferecendo.

            — Não tenho como oferecer mais do que isso, Konon, sem contar que a broca já é usada. Minha contraproposta é pagar o que você quer, mas pelo tempo que pedi — jogou a bola contra a parede que a rebateu, voltando para as mãos de Reblas num piscar de olhos.

Dois anos-setorial? Impossível! — retrucou a voz.

— Então não tem negócio. Por mais que eu precise dela, ainda tenho outras brocas e posso procurar o Ravir para negociar — aquele simples nome fez Konon esbravejar.

Tsc! Aquele ignorante? Não venha com essa! — ouviu-se um risinho de escárnio. — Não admito perder um cliente para aquele infame, ainda mais você! Façamos o seguinte: me dê 5.200 denários e a broca é sua!

— É assim que se fala! — sorriu, transferindo o dinheiro pela tela flutuante. Houve um som de alguma coisa sendo processada e então um “Pim!” seguido por um pequeno quadrado verde no centro da tela com as palavras: Transferência Finalizada. — O valor já está na sua conta. Já sabe para onde mandar o equipamento. Qual o prazo?

Certo… recebido — confirmou. — Deixa-me ver aqui… um, dois… — a voz ficou em silêncio por alguns segundos — em no máximo uma semana.

— Ótimo! — Reblas deu a volta para sentar na cadeira atrás da mesa. — Foi bom fazer negócios com você, Konon — despediu-se.

Você é um safado de um esperto, mas é um dos meus melhores e fieis clientes, não posso reclamar muito — a voz soltou uma risada. — Até mais, Reblas! Avise-me caso precise de mais alguma coisa — a voz se desconectou e a tela flutuante foi recolhida quando o cone de luz sumiu.

A cadeira rangeu quando Reblas sentou, forçando o espaldar para se espreguiçar, bocejando. O corpo todo estava tenso e dolorido devido ao longo tempo sentado; os olhos já estavam pesados àquela altura, até Reblas finalmente cair no sono.

O som da holochamada o acordou, fazendo-o saltar da cadeira com o susto. Olhou a hora na tela flutuante já ativada, era tarde e ele deveria ter ido embora. O ruído do comunicador não parava de soar, mas Reblas preferiu não atender.

Toque o quanto quiser, pensou, pegando a jaqueta sobre a mesa e seguindo em direção à saída.

Não vai atender, Lak Reblas? — disse a voz no holocomunicador que, em verdade, eram duas, uma masculina e outra feminina. Reblas virou em direção a mesa totalmente assustado. Não seria possível o equipamento ter feito o autoatendimento, ele não possuía essa função desde quando seu antigo dono a retirou.

Se não atender, serei forçada a ir até aí — ameaçou a voz, mas Reblas permaneceu em silêncio, aproximando-se do holocomunicador devagar, em passos curtos e quase inaudíveis. Próximo o bastante para tocá-lo, tomou outro susto.

Acha que não estou ouvindo você, Lak Reblas? Eu ouço, vejo e sinto TUDO! — as palavras do holocomunicador paralisaram Reblas por um momento, no entanto, não o suficiente para amedrontá-lo.

— Isso é algum tipo de brincadeira? Quem é você? — indagou. — É você, Méjja? Se for vo… — não deu tempo de continuar a frase, Reblas teve a sensação de que algo no ar estava diferente. No mesmo instante o espaço foi rasgado, bem ali, na frente da mesa dele, diante dele. A fenda era tão escura que não dava para saber o que havia do outro lado, ao menos não até duas mãos, dois braços e todo o corpo de uma mulher atravessar, como se um pedaço daquele breu estivesse ganhando vida.

Os olhos escuros de Reblas não piscavam, estavam esbugalhados; toda a face havia perdido o rubor e Reblas sentiu o corpo transpirar mais que o normal. Deixou a jaqueta cair sobre os próprios pés devido ao susto. A mulher tinha quase todo o corpo coberto por um manto incrivelmente escuro, com tiras negras que flutuavam se assemelhando à roupas desfiadas e as mãos, delicadas como seda, estavam amostra; o rosto era coberto por uma máscara branca com um sorriso de orelha a orelha, além dos olhos com expressões ferozes e audaciosas.

— Isso é um sonho? — indagou Reblas enquanto tocava o próprio corpo.

­Eu sou Íbilis, uma das quatro Deusas dos Humores — disse sem dar atenção a pergunta dele. — É de mim que os Coléricos obtêm sua estrutura mineral ao nascerem — afirmou, afastando os braços num gesto de autoelogio.

— Deusas dos humores? Você é uma deusa? — a entonação da palavra “deusa” saiu junto com um risinho de incredulidade, causando uma reação tensa de Íbilis.

Está zombando de mim, mortal? — disse se aproximando de Reblas, a mão se erguendo poucos metros antes de alcançar seu alvo, fazendo Reblas flutuar alguns centímetros do chão e voar em sua direção tão rápido que o deixou tonto. O encaixe da palma de Íbilis sobre o pescoço do rapaz foi perfeito, quase natural. Reblas tentou se desvencilhar, mas nada do que fazia era o suficiente, não tinha força para se soltar e não conseguia acertar um chute na mulher porque seus pés paravam antes de alcança-la.

— Tu-tu… tudo… be-bem… — balbuciou em desespero, o rosto completamente vermelho, bem diferente da palidez anterior. Íbilis por fim o largou.

Não sou como minhas irmãs, mortal, então tome cuidado com o que sair de sua boca enquanto estiver diante de mim! — exclamou. Seu ficou tão próximo ao de Reblas que o humano sentiu vontade de reagir, mas sua notável força de vontade o conteve.

— Tudo bem, Sra. Deusa dos…

Íbilis. Me chame de Íbilis.

— Certo… Íbilis. O que você quer de mim — por mais estranho que isso seja? — a voz falhou ligeiramente devido a dor na garganta. Reblas massageava toda a região com desconforto.

Direto ao ponto. Gosto disso. Sente-se — não esperou a resposta antes de erguer Reblas no ar com um único gesto, repousando-o sobre a cadeira.

Os humores são os temperamentos. O temperamento é a estrutura básica que forma toda a psique dos seres com inteligência, isto é, todos os seres inteligentes da galáxia possuem um ou mais temperamentos. No entanto, a imensa maioria possui um em destaque. Ora, o temperamento é responsável pelo modo como cada ser compreende o mundo ao seu redor, ou seja, todos recebem impressões do mundo e, naturalmente, devolvem essas impressões de uma maneira muito específica. Portanto, um melancólico não reagirá de forma natural diante de alguma circunstância do mesmo modo que um colérico, sanguíneo ou fleumático. Cada humor tem características específicas, apesar de serem apenas quatro.

— Hum… e qual seria o meu temperamento? — indagou ainda com a voz fraca.

Como a deusa ao qual os coléricos obtêm sua estrutura, e por ter vindo especificamente por sua causa, fica evidente que você é um ser de temperamento colérico — predominantemente colérico. Em você vejo a capacidade para liderar os seus, de guia-los rumo à verdade e de protege-los quando em perigo; vejo o ímpeto que o faz confiar nas suas escolhas, não se importando com as opiniões dos outros, porém, sem a arrogância ditatorial nem a rigidez da ira. Você é aquele que trouxe o fogo e, como tal, deve ser aquele quem os outros devem seguir. O fogo queima, mas o fogo aquece, e as duas coisas são fundamentais.

— Você é a deusa que representa os coléricos?

Não… eu sou a origem do qual os coléricos são coléricos — corrigiu.

— Então — levantou-se —, você é uma deusa que possui três outras deusas como irmãs, e cada uma é origem dessa estrutura psíquica ou mental de todos que você chama de temperamento, é isso? — não havia desdém nem zombaria nas palavras.

Correto.

— Eu aceito.

Tem certeza?

            ­— Sim.

Por que aceitou tão rápido?

— Meu avô contava estórias sobre você e suas irmãs e tinha fé nas suas existências — um pequeno sorriso se formou. — Fui criado por ele e adorava essas estórias, mas elas foram muito mais do que simples estórias para mim.

Eu lembro do seu avô, era um homem bom, cheio de energia, seu enorme coração lhe permitia olhar o próximo com empatia honesta, e isso o tornava adorável aos olhos de todos. Um legítimo Sanguíneo! — flutuou para frente. — Seu avô o educou bem, Lak Reblas. Vejo que fiz a escolha certa — Íbilis fez uma reverência.

— Ele era realmente o melhor dos melhores — suspirou. — A honra é minha em ter sido escolhido — retribuiu a reverência. — Quatro é Um e Um são Quatro — disse, sorrindo para Íbilis que não conteve a risada.

Esse é o retorno do religamento entre mortais e divindades, depois de anos de silêncio. Eu, Íbilis, uma das Quatro Deusas dos Humores, dou minha bênção a você, Lak Reblas, e o nomeio como meu Profeta de hoje até os teus últimos dias. Quatro é Um e Um são Quatro!

Houve um intenso brilho vindo dos olhos de Íbilis, forte o bastante para ofuscar tudo ao redor, cegando Reblas por alguns segundos e o acordando em seguida. Ele havia caído da cadeira por ter feito força demais para trás enquanto dormia.

— Foi um sonho? Mas pareceu tão real… — aquelas eram nítidas palavras de lamento. Levantando-se, colocou a cadeira no lugar e arrumou rapidamente a mesa, percebendo sua jaqueta mais ao canto. Foi até lá, inclinou-se e esticou a mão para pegá-la até notar uma mancha escura no dorso de sua mão: três linhas de tamanho idêntico, todas em posição vertical, com a linha central ligeiramente abaixo das outras duas. Instantaneamente Reblas começou a rir.

— Eu sabia que não era um sonho! — exclamou.