A cartomante

A SEGUNDA VIDA
Monsenhor Caldas interrompeu a narração do desconhecido:
— Dá licença? é só um instante. Levantou-se, foi ao interior da casa, chamou o preto velho que o servia, e disse-lhe em voz baixa:
— João, vai ali à estação de urbanos, fala da minha parte ao comandante, e pede-lhe que venha cá com um ou dois homens, para livrar-me de um sujeito doido. Anda, vai depressa.
E, voltando à sala:
— Pronto, disse ele; podemos continuar.
— Como ia dizendo a Vossa Reverendíssima, morri no dia vinte de março de 1860, às cinco horas e quarenta e três minutos da manhã. Tinha então sessenta e oito anos de idade. Minha alma voou pelo espaço, até perder a terra de vista, deixando muito abaixo a lua, as estrelas e o sol; penetrou finalmente num espaço em que não havia mais nada, e era clareado tão-somente por uma luz difusa. Continuei a subir, e comecei a ver um pontinho mais luminoso ao longe, muito longe. O ponto cresceu, fez-se sol. Fui por ali dentro, sem arder, porque as almas são incombustíveis. A sua pegou fogo alguma vez?
— Não, senhor.
— São incombustíveis. Fui subindo, subindo; na distância de quarenta mil léguas, ouvi uma deliciosa música, e logo que cheguei a cinco mil léguas, desceu um enxame de almas, que me levaram num palanquim feito de éter e plumas. Entrei daí a pouco no novo sol, que é o planeta dos virtuosos da terra. Não sou poeta, monsenhor; não ouso descreverlhe as magnificências daquela estância divina. Poeta que fosse, não poderia, usando a
linguagem humana, transmitir-lhe a emoção da grandeza, do deslumbramento, da felicidade, os êxtases, as melodias, os arrojos de luz e cores, uma coisa indefinível e incompreensível. Só vendo. Lá dentro é que soube que completava mais um milheiro de almas; tal era o motivo das festas extraordinárias que me fizeram, e que duraram dois séculos, ou, pelas nossas contas, quarenta e oito horas. Afinal, concluídas as festas, convidaram-me a tornar à terra para cumprir uma vida nova; era o privilégio de cada alma que completava um milheiro. Respondi agradecendo e recusando, mas não havia recusar.
Era uma lei eterna. A única liberdade que me deram foi a escolha do veículo; podia nascer príncipe ou condutor de ônibus. Que fazer? Que faria Vossa Reverendíssima no meu lugar?
— Não posso saber; depende…
— Tem razão; depende das circunstâncias. Mas imagine que as minhas eram tais que não me davam gosto a tornar cá. Fui vítima da inexperiência, monsenhor, tive uma velhice ruim, por essa razão. Então lembrou-me que sempre ouvira dizer a meu pai e outras pessoas mais velhas, quando viam algum rapaz: — “Quem me dera aquela idade, sabendo o que sei hoje!” Lembrou-me isto, e declarei que me era indiferente nascer mendigo ou potentado, com a condição de nascer experiente. Não imagina o riso universal com que me ouviram. Jó, que ali preside a província dos pacientes, disse-me que um tal desejo era disparate; mas eu teimei e venci. Daí a pouco escorreguei no espaço: gastei nove meses a atravessá-lo até cair nos braços de uma ama de leite, e chamei-me José Maria. Vossa
Reverendíssima é Romualdo, não?
— Sim, senhor; Romualdo de Sousa Caldas.
— Será parente do padre Sousa Caldas?
— Não, senhor.
— Bom poeta o padre Caldas. Poesia é um dom; eu nunca pude compor uma décima. Mas, vamos ao que importa. Conto-lhe primeiro o que me sucedeu; depois lhe direi o que desejo de Vossa Reverendíssima. Entretanto, se me permitisse ir fumando…
Monsenhor Caldas fez um gesto de assentimento, sem perder de vista a bengala que José Maria conservava atravessada sobre as pernas. Este preparou vagarosamente um cigarro. Era um homem de trinta e poucos anos, pálido, com um olhar ora mole e apagado, ora inquieto e centelhante. Apareceu ali, tinha o padre acabado de almoçar, e pediu-lhe uma entrevista para negócio grave e urgente. Monsenhor fê-lo entrar e sentar-se; no fim de dez minutos, viu que estava com um lunático. Perdoava-lhe a incoerência das idéias ou o assombroso das invenções; pode ser até que lhe servissem de estudo. Mas o desconhecido teve um assomo de raiva, que meteu medo ao pacato clérigo. Que podiam fazer ele e o preto, ambos velhos, contra qualquer agressão de um homem forte e louco? Enquanto esperava o auxilio policial, monsenhor Caldas desfazia-se em sorrisos e assentimentos de cabeça, espantava-se com ele, alegrava-se com ele, política útil com os loucos, as mulheres e os potentados. José Maria acendeu finalmente o cigarro, e continuou:
— Renasci em cinco de janeiro de 1861. Não lhe digo nada da nova meninice, porque aí a experiência teve só uma forma instintiva. Mamava pouco; chorava o menos que podia para não apanhar pancada. Comecei a andar tarde, por medo de cair, e daí me ficou uma tal ou qual fraqueza nas pernas. Correr e rolar, trepar nas árvores, saltar paredões, trocar murros, coisas tão úteis, nada disso fiz, por medo de contusão e sangue. Para falar com franqueza, tive uma infância aborrecida, e a escola não o foi menos. Chamavam-me tolo e moleirão. Realmente, eu vivia fugindo de tudo. Creia que durante esse tempo não escorreguei, mas também não corria nunca. Palavra, foi um tempo de aborrecimento; e, comparando as cabeças quebradas de outro tempo com o tédio de hoje, antes as cabeças
quebradas. Cresci; fiz-me rapaz, entrei no período dos amores… Não se assuste; serei casto, como a primeira ceia. Vossa Reverendíssima sabe o que é uma ceia de rapazes e mulheres?
— Como quer que saiba?…
— Tinha dezenove anos, continuou José Maria, e não imagina o espanto dos meus amigos, quando me declarei pronto a ir a uma tal ceia… Ninguém esperava tal coisa de um rapaz tão cauteloso, que fugia de tudo, dos sonos atrasados, dos sonos excessivos, de andar sozinho a horas mortas, que vivia, por assim dizer, às apalpadelas. Fui à ceia; era no Jardim Botânico, obra esplêndida. Comidas, vinhos, luzes, flores, alegria dos rapazes, os olhos das damas, e, por cima de tudo, um apetite de vinte anos. Há de crer que não comi nada? A lembrança de três indigestões apanhadas quarenta anos antes, na primeira vida, fez-me recuar. Menti dizendo que estava indisposto. Uma das damas veio sentar-se à minha direita, para curar-me; outra levantou-se também, e veio para a minha esquerda, com o mesmo fim.
Você cura de um lado, eu curo do outro, disseram elas. Eram lépidas, frescas, astuciosas, e tinham fama de devorar o coração e a vida dos rapazes. Confesso-lhe que fiquei com medo e retraí-me. Elas fizeram tudo, tudo; mas em vão. Vim de lá de manhã, apaixonado por ambas, sem nenhuma delas, e caindo de fome. Que lhe parece? concluiu José Maria pondo as mãos nos joelhos, e arqueando os braços para fora.
— Com efeito…
— Não lhe digo mais nada; Vossa Reverendíssima adivinhará o resto. A minha segunda vida é assim uma mocidade expansiva e impetuosa, enfreada por uma experiência virtual e tradicional. Vivo como Eurico, atado ao próprio cadáver… Não, a comparação não é boa. Como lhe parece que vivo?
— Sou pouco imaginoso. Suponho que vive assim como um pássaro, batendo as asas e amarrado pelos pés…
— Justamente. Pouco imaginoso? Achou a fórmula; é isso mesmo. Um pássaro, um grande pássaro, batendo as asas, assim…
José Maria ergueu-se, agitando os braços, à maneira de asas. Ao erguer-se, caiu-lhe a bengala no chão; mas ele não deu por ela. Continuou a agitar os braços, em pé, defronte do padre, e a dizer que era isso mesmo, um pássaro, um grande pássaro… De cada vez que batia os braços nas coxas, levantava os calcanhares, dando ao corpo uma cadência de movimentos, e conservava os pés unidos, para mostrar que os tinha amarrados. Monsenhor aprovava de cabeça; ao mesmo tempo afiava as orelhas para ver se ouvia passos na escada.
Tudo silêncio. Só lhe chegavam os rumores de fora: — carros e carroças que desciam, quitandeiras apregoando legumes, e um piano da vizinhança. José Maria sentou-se finalmente, depois de apanhar a bengala, e continuou nestes termos:
— Um pássaro, um grande pássaro. Para ver quanto é feliz a comparação, basta a aventura que me traz aqui, um caso de consciência, uma paixão, uma mulher, uma viúva, D. Clemência. Tem vinte e seis anos, uns olhos que não acabam mais, não digo no tamanho, mas na expressão, e duas pinceladas de buço, que lhe completam a fisionomia. É filha de um professor jubilado. Os vestidos pretos ficam-lhe tão bem que eu às vezes digolhe rindo que ela não enviuvou senão para andar de luto. Caçoadas! Conhecemo-nos há um
ano, em casa de um fazendeiro de Cantagalo. Saímos namorados um do outro. Já sei o que me vai perguntar: por que é que não nos casamos, sendo ambos livres…
— Sim, senhor.
— Mas, homem de Deus! é essa justamente a matéria da minha aventura. Somos livres, gostamos um do outro, e não nos casamos: tal é a situação tenebrosa que venho expor a Vossa Reverendíssima, e que a sua teologia ou o que quer que seja, explicará, se puder. Voltamos para a Corte namorados. Clemência morava com o velho pai, e um irmão empregado no comércio; relacionei-me com ambos, e comecei a freqüentar a casa, em Matacavalos. Olhos, apertos de mão, palavras soltas, outras ligadas, uma frase, duas frases, e estávamos amados e confessados. Uma noite, no patamar da escada, trocamos o primeiro beijo… Perdoe estas coisas, monsenhor; faça de conta que me está ouvindo de confissão.
Nem eu lhe digo isto senão para acrescentar que saí dali tonto, desvairado, com a imagem de Clemência na cabeça e o sabor do beijo na boca. Errei cerca de duas horas, planeando uma vida única; determinei pedir-lhe a mão no fim da semana, e casar daí a um mês.
Cheguei às derradeiras minúcias, cheguei a redigir e ornar de cabeça as cartas de participação. Entrei em casa depois de meia-noite, e toda essa fantasmagoria voou, como as mutações à vista nas antigas peças de teatro. Veja se adivinha como.
— Não alcanço…
— Considerei, no momento de despir o colete, que o amor podia acabar depressa; tem-se visto algumas vezes. Ao descalçar as botas, lembrou-me coisa pior: — podia ficar o fastio. Concluí a toilette de dormir, acendi um cigarro, e, reclinado no canapé, pensei que o costume, a convivência, podia salvar tudo; mas, logo depois adverti que as duas índoles podiam ser incompatíveis; e que fazer com duas índoles incompatíveis e inseparáveis? Mas, enfim, dei de barato tudo isso, porque a paixão era grande, violenta; considerei-me casado, com uma linda criancinha… Uma? duas, seis, oito; podiam vir oito, podiam vir dez; algumas aleijadas. Também podia vir uma crise, duas crises, falta de dinheiro, penúria, doenças; podia vir alguma dessas afeições espúrias que perturbam a paz doméstica…
Considerei tudo e concluí que o melhor era não casar. O que não lhe posso contar é o meu desespero; faltam-me expressões para lhe pintar o que padeci nessa noite… Deixa-me fumar outro cigarro?
Não esperou resposta, fez o cigarro, e acendeu-o. Monsenhor não podia deixar de admirar-lhe a bela cabeça, no meio do desalinho próprio do estado; ao mesmo tempo notou que ele falava em termos polidos, e, que apesar dos rompantes mórbidos, tinha maneiras.
Quem diabo podia ser esse homem? José Maria continuou a história, dizendo que deixou de ir à casa de Clemência, durante seis dias, mas não resistiu às cartas e às lágrimas. No fim de uma semana correu para lá, e confessou-lhe tudo, tudo. Ela ouviu-o com muito interesse, e quis saber o que era preciso para acabar com tantas cismas, que prova de amor queria que ela lhe desse. — A resposta de José Maria foi uma pergunta.
— Está disposta a fazer-me um grande sacrifício? disse-lhe eu. Clemência jurou que sim. “Pois bem, rompa com tudo, família e sociedade; venha morar comigo; casamo-nos depois desse noviciado.” Compreendo que Vossa Reverendíssima arregale os olhos. Os dela encheram-se de lágrimas; mas, apesar de humilhada, aceitou tudo. Vamos; confesse que sou um monstro.
— Não, senhor…
— Como não? Sou um monstro. Clemência veio para minha casa, e não imagina as festas com que a recebi. “Deixo tudo, disse-me ela; você é para mim o universo.” Eu beijeilhe os pés, beijei-lhe os tacões dos sapatos. Não imagina o meu contentamento. No dia
seguinte, recebi uma carta tarjada de preto; era a notícia da morte de um tio meu, em Santana do Livramento, deixando-me vinte mil contos. Fiquei fulminado. “Entendo, disse a Clemência, você sacrificou tudo, porque tinha notícia da herança.” Desta vez, Clemência não chorou, pegou em si e saiu. Fui atrás dela, envergonhado, pedi-lhe perdão; ela resistiu.
Um dia, dois dias, três dias, foi tudo vão; Clemência não cedia nada, não falava sequer.
Então declarei-lhe que me mataria; comprei um revólver, fui ter com ela, e apresentei-lho: é este.
Monsenhor Caldas empalideceu. José Maria mostrou-lhe o revólver, durante alguns segundos, tornou a metê-lo na algibeira, e continuou:
— Cheguei a dar um tiro. Ela, assustada, desarmou-me e perdoou-me. Ajustamos precipitar o casamento, e, pela minha parte, impus uma condição: doar os vinte mil contos à Biblioteca Nacional. Clemência atirou-se-me aos braços, e aprovou-me com um beijo. Dei os vinte mil contos. Há de ter lido nos jornais… Três semanas depois casamo-nos. Vossa Reverendíssima respira como quem chegou ao fim. Qual! Agora é que chegamos ao trágico. O que posso fazer é abreviar umas particularidades e suprimir outras; restrinjo-me a Clemência. Não lhe falo de outras emoções truncadas, que são todas as minhas, abortos de prazer, planos que se esgarçam no ar, nem das ilusões de saia rota, nem do tal pássaro…
plás… plás… plás…
E, de um salto, José Maria ficou outra vez de pé, agitando os braços, e dando ao corpo uma cadência. Monsenhor Caldas começou a suar frio. No fim de alguns segundos, José Maria parou, sentou-se, e reatou a narração, agora mais difusa, mais derramada, evidentemente mais delirante. Contava os sustos em que vivia, desgostos e desconfianças.
Não podia comer um figo às dentadas, como outrora; o receio do bicho diminuía-lhe o sabor. Não cria nas caras alegres da gente que ia pela rua: preocupações, desejos, ódios, tristezas, outras coisas, iam dissimuladas por umas três quartas partes delas. Vivia a temer um filho cego ou surdo-mudo, ou tuberculoso, ou assassino, etc. Não conseguia dar um jantar que não ficasse triste logo depois da sopa, pela idéia de que uma palavra sua, um gesto da mulher, qualquer falta de serviço podia sugerir o epigrama digestivo, na rua, debaixo de um lampião. A experiência dera-lhe o terror de ser empulhado. Confessava ao padre que, realmente, não tinha até agora lucrado nada; ao contrário, perdera até, porque fora levado ao sangue… Ia contar-lhe o caso do sangue. Na véspera, deitara-se cedo, e sonhou… Com quem pensava o padre que ele sonhou?
— Não atino…
— Sonhei que o Diabo lia-me o Evangelho. Chegando ao ponto em que Jesus fala dos lírios do campo, o Diabo colheu alguns e deu-mos. “Toma, disse-me ele; são os lírios da Escritura; segundo ouviste, nem Salomão em toda a pompa, pode ombrear com eles.
Salomão é a sapiência. E sabes o que são estes lírios, José? São os teus vinte anos.” Fitei-os encantado; eram lindos como não imagina. O Diabo pegou deles, cheirou-os e disse-me que os cheirasse também. Não lhe digo nada; no momento de os chegar ao nariz, vi sair de dentro um réptil fedorento e torpe, dei um grito, e arrojei para longe as flores. Então, o Diabo, escancarando uma formidável gargalhada: “José Maria, são os teus vinte anos.” Era uma gargalhada assim: — cá, cá, cá, cá, cá…
José Maria ria à solta, ria de um modo estridente e diabólico. De repente, parou; levantou-se, e contou que, tão depressa abriu os olhos, como viu a mulher diante dele aflita e desgrenhada. Os olhos de Clemência eram doces, mas ele disse-lhe que os olhos doces também fazem mal. Ela arrojou-se-lhe aos pés… Neste ponto a fisionomia de José Maria estava tão transtornada que o padre, também de pé, começou a recuar, trêmulo e pálido.
“Não, miserável! não! tu não me fugirás!” bradava José Maria investindo para ele. Tinha os olhos esbugalhados, as têmporas latejantes; o padre ia recuando… recuando… Pela escada acima ouvia-se um rumor de espadas e de pés.

O Inferno de Gabriel

Gabriel. Nome de origem hebraica. “Homem de Deus”, “Homem forte de Deus” segundo algumas definições na web. Mas, eu preciso lhe contar algo leitor.  E que nessa historia, ele fará jus ao significado do nome que possui, devido o seu comportamento admirável para com o próximo. Mas, preciso lhe contar algo leitor. Gabriel é um empresário belenense que sempre reconhece o bom trabalho dos seus funcionários, agradecendo os pelas suas boas ideias e profissionalismo. Mas, eu preciso lhe contar algo leitor. Quando chegava para trabalhar na sua empresa, questionamentos cordiais do tipo “Como vai você?” ou “ E a família, está bem?” eram frequentes, logo, pela manhã. Mas, preciso lhe contar algo leitor

-Ideia estupida! Ninguém tem mais nada a acrescentar de interessante nessa reunião? Será que sou o único que, verdadeiramente, pensa nessa empresa? Burros! Aqui é um jornal e não o ensino fundamental patético de vocês. Parece que as boas ideias saem, somente, de mim.

Lamento leitor. Esse, de fato, é o verdadeiro Gabriel da nossa história.

Certa noite, ele chegou em casa, como de praxe, com o semblante fechado, postura imperiosa e as sobrancelhas arqueadas. Abriu a porta e olhou, por alguns instantes, aquela sala imensa com a sua decoração suntuosa. Ficou parado na entrada, como se esperasse alguém vim lhe receber com um “boa noite” amável ou com algum abraço caloroso. No entanto, não veio ninguém. Gabriel baixou a cabeça, balançou ela de um lado para o outro, suspirou forte e, logo em seguida, ergueu a coluna mais imponente do que nunca, entrou e subiu as escadas.

Depois do banho, sentou-se em frente a sua penteadeira camarim cor branca e começou a desembaraçar os cabelos. Parou. Mirou a sua imagem refletida naquele espelho e pensou um pouco. De repente, teve a impressão de que alguma presença estranha havia passado pela sua costa. Olhou para trás e não viu ninguém. Tornou a pentear os seus cachos e, pela segunda vez, algo passou como um vulto novamente atrás dele. Os poucos pelos dos braços se levantaram. Deu um salto abrupto e perguntou:

-Quem está aí? – Questionou Gabriel; segurando a escova de cabelo na mão direita com os olhos azuis arregalados.  

Caminhou até o closet. Ligou a luz, no qual roupas de grife e vários sapatos estavam organizados com perfeição, mas não havia ninguém por ali. “Estou ficando louco?” pensou o órfão rico. E no instante que colocaria o dedo no interruptor para desligar as luzes, escutou uma voz grave atrás dele.

– Gabriel, não é?                     

Um frio subiu pela coluna vertebral de Gabriel e a saliva desceu rasgando a garganta. Voltou-se para a direção da penteadeira, mas nada foi visto. Correu para a cama e embrulhou-se da cabeça aos pés. Pensou em gritar. Mas quem iria lhe socorrer? Os empregados? “Melhor não. Eles não podem me ver nessa situação. Seria patético.” pensou Gabriel. Em seguida, Dormiu.

De manhã, no jornal, Gabriel passou por alguns colaboradores sem cumprimenta-los, como se eles nem estivessem ali, executando as tarefas diárias. A cabeça erguida, de modo majestosa, e a postura ereta destacavam-se. Geralmente, algum empregado via escapar um rebolado daquele andar firme, mas que, Gabriel, logo, consertava, a fim de evitar comentários.  Um funcionário lhe entregou alguns relatórios, no qual ele passou a vista em uma só olhada, sem se desfazer das sobrancelhas arqueadas, atirou-os contra o peito daquele subordinado, sem agradece ló. Nunca agradecia. Entrou no elevador. E quando saiu dele para seguir em direção a sua sala, viu uma cena que lhe chamou a atenção: uma criança que visitava o pai no trabalho abraçava o forte. Os ombros de Gabriel foram murchando, como balões de final de festa ao ver aquele momento de carinho. O semblante dele entristeceu e os olhos fecharam-se por um instante para que uma lembrança perturbasse os seus ouvidos e o levasse para uma viagem dolorosa dentro de si.

– Pai! Pai! Vamos brincar? Pai! O senhor tá me ouvindo?

– Agora não, Gabriel. Estou trabalhando. Procure a sua babá e saia daqui!

Gabriel retornou daquela recordação, cambaleando um pouco. Quando caiu em si de novo, as sobrancelhas arquearam-se mais uma vez e a coluna voltara para posição imperiosa que estava. Em seguida, escancarou a porta daquela sala e gritou:

– O que está acontecendo aqui? Eu já não falei que é proibido a entrada de crianças? Você sabe com quem está falando?

O colaborador se desculpou e informou que aquilo não aconteceria mais. O “dono da empresa” saiu, batendo a porta com força, assustando a criança que, logo, colocou as duas mãos nos ouvidos.

Gabriel entrou na sua sala, trancou a porta e grudou-se nela de costas. Quis chorar. Caminhou até as janelas, fechou as persianas e apoiou nelas com as mãos. Abaixou a cabeça e inspirou e expirou fundo. Não lagrimou. E, logo em seguida, assustou-se quando uma sombra passou por trás dele. Gabriel sentiu um arrepio e caminhou com passos largos em direção à saída. Ao girar a maçaneta da porta, escutou a mesma voz que o assustara na noite anterior.

– Por que tanta pressa jovem Gabriel?

Ficou petrificado. Virou a cabeça bem devagar com a esperança de que não pudesse encontrar ninguém ali. Enganou-se. Um homem de estatura mediana estava parado em sua frente. Vestia um blazer escuro, calça de linho e sapatos pretos. Usava uma gravata vermelha cor de sangue e apoiava-se em uma bengala dourada cravejada de pedras preciosas. Os cabelos estavam penteados, como se estivessem sob o efeito molhado de algum gel capilar.

– Quem é voce? E o que faz  na minha empresa? A minha secretária não lhe anunciou. – Questionou Gabriel; disfarçando alguns tremores no corpo.

– Sou o diabo e serei bem objetivo.

– Diabo? – Gabriel deu um sorriso irônico. – Achava que eu era o próprio.

– Estou procurando alguém para assumir o inferno e você tem o perfil que procuro. Mas, antes, você deverá passar por um desafio: se você ganhar, será considerado como rei em todo o inferno. Terá muitas almas, trabalhando para você. Se fracassar, você, apenas, retornará para a sua… vida.

– Como pode ver – Gabriel abriu os braços, olhando ao seu redor. – Sou rico e não preciso ser rei em lugar nenhum. Eu já sou aqui mesmo.

            – Tens tudo mesmo Jovem Gabriel? – O diabo inclinou a cabeça para frente, como se soubesse a resposta daquela pergunta capciosa. – Poderá ser rei nos dois mundos: lá e aqui. Bom, aguardarei, de qualquer modo, a sua decisão até amanhã. Chame por mim.

E em um piscar de olhos, aquela figura desconhecida sumiu feito fumaça. O empresário andou de um lado para o outro, procurando aquele homem que acabara de fazer aquela proposta, mas nada viu. De qualquer forma, tudo aquilo havia mexido com ele. Não tinha mais cabeça para trabalhar. E quando teve? Precisava distrair-se com alguma coisa. Pegou o celular, falou com alguém e saiu.

Às 12:30 h, daquele mesmo dia, Gabriel estava parado na janela de um quarto; refletindo sobre a decisão que devia tomar. Fumava.

– Oh Biel, volta pra cama cara. Vamos começar um segundo round?

– O que você faria se pudesse ter mais poder? – Perguntou Gabriel, olhando pela janela.

– Hã? Que papo é esse cara? Ah, mano, se eu tivesse a oportunidade de ter mais poder, eu não perderia essa chance ora.  Li, em algum lugar, que quem tem mais poder tem menos dores e nunca se sente só.

– Isso! – Gritou Gabriel, apontando o dedo indicador para cima como se tivesse descoberto algo. – Você tem razão.

-Pra onde tu vai?

– Não interessa! Duzentos reais resolvem não é? Toma.

Na manhã seguinte, o diabo ficara satisfeito com a decisão do “dono do jornal”. No mesmo dia, Gabriel entrou em uma van, no qual todas as janelas estavam fechadas, com cortinas bem decoradas cor de vinho. Havia sido também proibido pelo motorista de abri-las sob quaisquer circunstância. A viagem não demorou.

A van parou. Gabriel desceu e deparou-se com uma imagem lúgubre; triste. O céu tinha cor laranjada e a paisagem era montanhosa; assemelhando-se a um deserto estadunidense, com vegetação rasteira e o clima seco. Lá, nunca anoitecia. Percebeu também que haviam casas organizadas como um vilarejo medieval. “Casas? No inferno?” questionou-se. Havia também pessoas que transitavam por alí. Pessoas normais; tangíveis. E não os demônios com tridentes enormes como Gabriel imaginava. Enfim, ele estava no inferno.  De repente, uma fumaça fantasmagórica apareceu próximo do jovem rico e o diabo surgiu dela, dizendo:

– Você acaba de chegar ao meu reino Jovem Gabriel.

– Ahhh. Achei lindo! Parece com um rabisco em uma cartolina preta de uma criança do maternal.

O diabo deu algumas orientações ao “suposto desafiado” e, logo em seguida, sumiu de novo. Gabriel caminhou até sair dos limites daquele que considerou um “vilarejo”. Olhou para trás e viu aquelas residências se afastando. Minúsculas, agora. Chegou a um lugar, no qual havia muitas grutas e pedras gigantescas. Sentiu um tremor na espinha, mas continuou explorando aquele ambiente. Escutou passos. E quando correu para se esconder, escorregou e ralou os joelhos. Levantou-se num salto e o medo abafou um grito de dor. Escondeu-se atrás de uma pedra que cobria suficiente todo o seu corpo e espreitou.

Alguém abaixou-se no local do tombo de Gabriel e examinou aquele rastro de sangue, olhou para um lado e para o outro, como um caçador, presumindo que a caça ainda estivesse ali.

– Sei que você ainda está aqui. – Disse um homem; dando voltas em si mesmo para verificar se encontrava algo. – Você está machucado. Posso te ajudar. Não deve ser desse mundo não é?

Gabriel não o conhecia de fato. E nem queria conhecer. As mãos suavam de nervoso e, em seguida, todo o seu corpo sentiu inveja disto também. Mas, quando espreitou mais uma vez aquele desconhecido, surpreendeu-se com algo inesperado

– Te achei! – Disse aquele homem estranho, aparecendo do outro lado, de onde Gabriel estava, como um movimento rápido semelhante a um tele transporte.

O jovem empresário virou-se num salto abrupto e não conseguiu conter um gritou de susto, mas também não correu. Ficou parado.

-Calma! Desculpa cara. Me chamo Simão. Posso te ajudar?

– Não preciso da sua ajuda. Foi só um arranhão. E nem está doendo tanto assim.

– Não está doendo? – Simão riu – Você só pode estar louco cara. Vem comigo. Vou fazer um curativo em você. Tudo vai ficar bem. Garanto.

Simão levou Gabriel para a sua casa. De volta ao “vilarejo”, ele limpou os joelhos machucados, enrolou um pedaço de pano neles e deu um nó para que o sangue estancasse. Enquanto isso, Gabriel parecia nem sentir mais dor. Os seus olhos demoravam a piscar, pois estavam fixados em Simão. A íris azul piscina movimentava-se de um lado para o outro pelo globo ocular, como um raio x, analisando cada parte do corpo daquele rapaz desconhecido. A boca não fechava, admirada, devido às “habilidades medicas” de Simão

– Fui enfermeiro em vida. Tive filhos também. Não se preocupe.

– Obrigado!

Os dias passaram-se. Simão apresentou outros lugares daquele inferno para Gabriel. Contava-lhe também historias curiosas para o recente amigo e Gabriel esquecia até mesmo dele, quando ouvia todas elas com muita atenção.  Gargalhava de algumas engraçadas. Engraçado? Havia alguma coisa naquele inferno que era divertido? Mas, esses questionamentos nem, sequer, passavam mais perto do imaginário de Gabriel. Ele nunca havia dado tanta atenção para alguém assim. Beijaram-se, um dia. O coração do empresário bateu tão rápido nesse momento, ao ponto de quase explodir. A respiração era de uma maratona percorrida. Mas…

– Foi só um beijo e nada mais. Não se iluda com isso.

– Por que a resistência?

– Amor traz consequências; dores; fraquezas. E eu não sou fraco. Nunca fui e não será agora que vai ser diferente.

Era tarde demais. Ele estava apaixonado. Começaram a andar de mãos dadas por todo o inferno.

Um dia, Gabriel lembrou-se do motivo inicial de ele estar naquele lugar. Deu um ar de riso bobo por conta desse esquecimento. Foi ao castelo do Diabo para saber sobre o desafio proposto ou até mesmo para desistir de tudo aquilo. Quando chegou lá, escutou algumas vozes que, a principio, não soube distinguir de quem se tratava. Mas, depois, identificou a voz do próprio diabo. Gabriel caminhou até o salão principal de onde achava que vinha aquela discussão, chegou até o local e espreitou. Viu um homem de frente para o diabo. Gesticulava muito com as mãos e braços. Gabriel não conseguiu identifica-lo, a principio, mas, aquela voz tornava-se cada vez mais familiar. Até que ele viu parte do rosto daquele rapaz. Reconheceu o e quis escutar um pouco mais a conversa.

– Não quero mais fazer isso. Chega! Ele não merece.

– Tolo – o diabo gargalhou – Não percebe o que está em jogo aqui ou você não quer mais retornar á vida para rever seus filhos?

O diabo deu uma pausa, olhou por cima dos ombros daquele homem e falou:

– Olha quem veio nos visitar.

– Gabriel? Não é nada disso que você está pensando. – Disse Simão, erguendo os braços como se quisesse segurar o namorado. – Gabriel! Gabriel! Nãooo.

Gabriel saiu daquele lugar; passando a mão esquerda no rosto, enxugando as lágrimas. Simão virou-se, novamente, para o Diabo com olhos fulminantes, mas que, este, deu de ombros, como se não tivesse sido impressionado por aquela fúria.

Gabriel chegou a um penhasco que o próprio Simão havia o apresentado. Tinha uma visão privilegiada de todo o inferno dali de cima. Os cachos de seu cabelo batiam furiosos contra o seu rosto. Aproximou-se da beira do abismo, caiu de joelhos, olhou para o céu como se fosse suplicar algo para Deus. As lágrimas caiam como agua procedente de uma represa destroçada. Deixou a boca mais aberta possível e gritou. Deu socos de indignação em seu peito. “Idiota! Como fui tão burro?” questionava-se. Abaixou a cabeça e as duas mãos esconderam o rosto. Soluçava sem controle. De repente, sentiu passos atrás dele e alguém falou:

-Gabriel, eu ia te contar. Me perdoa cara? – Falou Simão não conseguindo esconder o choro.

O jovem rico ainda continuava com o rosto coberto pelas mãos, mas foi tirando em câmera lenta. Não chorava mais. Olhou para a frente e viu aquela paisagem lúgubre. As sobrancelhas arquearam-se, de modo estranho, dando um ar demoníaco a Gabriel. Os lábios cerraram-se e um sorriso irônico veio à tona. Logo em seguida, ele falou:

– E quem disse que eu também não fingi? – Gabriel levantou-se devagar do chão e virou-se para Simão – Eu também tenho um trato com o diabo. Estou aqui por isso e ainda continuo somente por isso também.  

– Bravo! – o diabo apareceu como um passe de mágica entre eles, batendo palmas. – Esse é, exatamente,  o perfil que procuro Jovem Gabriel.

Em seguida, o diabo fez aparecer duas taças em cada uma de suas mãos, com um líquido vermelho e misterioso, mas que não era vinho. Entregou elas para Gabriel e Simão. Em seguida, fez surgir uma para si mesmo em sua mão esquerda. Todos beberam. De repente, Simão colocou a mão no peito e o ar começou a lhe faltar. Gabriel não moveu, sequer, um musculo do corpo e olhava para Simão, como se ele fosse um inseto que deveria ser esmagado.

Simão caiu de joelhos e, depois, o seu corpo estendeu-se de lado no chão. Gabriel, aos poucos, desfazia aquele semblante sombrio e as suas lágrimas começavam a subir até o nível dos cílios. Logo em seguida, deu um pulo abrupto e correu em direção ao amado para socorrê-lo. Atirou-se junto ao corpo dele e disse:

– Estou aqui meu amor. – Gabriel pegou Simão no colo. – Vou te ajudar. Não se preocupe. Acredito em você. O que você fez com ele? – Gritou Gabriel, olhando para o diabo.

– Você acaba de perder o desafio Jovem Gabriel. Você é mais frágil do que eu imaginava. Esse é você. E esse pobre rapaz foi somente uma isca para pescar quem, realmente, você é. – Disse o diabo, com uma voz misteriosa, abaixando-se próximo ao casal. –Você não acha que esqueceu alguma coisa? – O diabo virou a cabeça, devagar, para o lugar de onde Gabriel tinha saído e corrido.

Quando Gabriel acompanhou o olhar do “dono do umbral”, viu que seu corpo estava no mesmo lugar; parado, como uma estatua de cera apresentada em um museu. Imagem perfeita. Na verdade, era ele com aquele mesmo semblante rígido ainda. Gabriel inclinou um pouco a cabeça para o lado esquerdo sem entender nada. Confuso. De repente, voltou-se para Simão e, este, estava se desfazendo em pó nos seus braços até sumir por completo. Gabriel procurou o diabo para questionar sobre aquele acontecimento. Mas não viu ninguém. Olhou para o céu, fechou os olhos e deu um grito que ecoou todo aquele lugar. Em seguida, quando caiu em si, viu-se deitado na sua própria cama, como se tivesse vindo de um sonho… Ou… de um pesadelo! Estava em seu quarto novamente; na sua casa; no seu mundo. As cortinas dançavam ao som da brisa penetrante que entrava pela janela. E o sol engatinhava em sua direção. Bem devagar. Bem devagar. Era um novo dia.

O Dia que não foi dos Pais

Quando os olhares deles se cruzaram naquela rua, passado e presente se misturaram. Mágoas, pensamentos e vários “porquês” eram lançados um ao outro em busca de respostas imediatas. Na cabeça de um, os cabelos grisalhos eram visíveis e a idade avançada já pesava sobre um corpo cansado, devido às marcas de uma velhice difícil. A fase adulta do outro fizera com que a mente dele se perguntasse quanto tempo havia passado desde o ultimo desentendimento entre eles.

Pai e filho estavam ali. Parados. Olhando-se como se cada um projetasse uma lembrança da vida de ambos. O que era o genitor abaixou a cabeça e atravessou a rua com passos lentos e sua fiel bengala; seguindo rumo a sua casa. Quando chegou lá, abriu a porta com dificuldade e foi em direção a uma janela grande e retangular que ficara na sala de estar. Depois, olhou reflexivo para fora de sua residência, no qual o rosto envelhecido era iluminado pelos raios solares.

Ele escutara um barulho na cozinha e alguém entrou pelos fundos da casa, no entanto, aquele idoso manteve-se imóvel perante a esse fato como se já soubesse quem havia entrado ali. Uma presença adentrou o cômodo, no qual aquele senhor de idade se encontrava e este, ainda parado e reflexivo, falou:

– Sonhei tanto com esse momento. Me perdoa. Me perdoa filho pela a minha ausência em sua vida. – Disse o idoso, continuando de costas para o homem que chegara na sala.

-Pai…

-Espere! – Interrompeu o sexagenário sem sair daquela atmosfera de reflexão que ele se encontrava. -Eu não tenho mais tanto tempo nessa vida…

-Eu te amo. -Disse aquele homem; interrompendo também a fala do pai e erguendo os braços com lágrimas nos olhos.

O idoso virou-se e caminhou em direção ao seu filho. Eles se abraçaram e. de repente, alguém deu um ultimo suspiro naquele compartimento. Um coração foi parando como se o motor de uma máquina estivesse sendo desligada por etapas. Um corpo segurou-se no colo do outro até, os dois, atingirem o chão. A bengala caiu para um lado. E uma vida se foi. Mas, foi a respiração do filho que se dissipou, de forma lenta, no ar até desaparecer completamente.

A ponte

 Eu estava rígido e frio, era uma ponte estendido sobre um abismo. As pontas dos pés cravadas deste lado, do outro as mãos, eu me prendia firme com os dentes na argila quebradiça. As abas do meu casaco flutuavam pelos meus lados. Na profundeza fazia ruído o gelado riacho de trutas. Nenhum turista se perdia naquela altura intransitável, a ponte ainda não estava assinalada nos mapas. – Assim eu estava estendido e esperava; tinha de esperar. Uma vez erguida, nenhuma ponte pode deixar de ser ponte sem desabar.
    Certa vez, era pelo anoitecer – o primeiro, o milésimo, não sei -, meus pensamentos se moviam sempre em confusão e sempre em círculo. Pelo anoitecer no verão o riacho sussurra mais escuro – foi então que ouvi o passo de um homem ! Vinha em direção a mim, a mim. – Estenda-se, ponte, fique em posição, viga sem corrimão, segure aquele que lhe foi confiado. Compense, sem deixar vestígio a insegurança do seu passo, mas, se ele oscilar, faça-se conhecer e como um deus da montanha, atire-o à terra firme.
     Ele veio; com a ponta de ferro da bengala deu umas batidas em mim, depois levantou com ela as abas do meu casaco e as pôs em ordem em cima de mim. Passou a ponta por meu cabelo cerrado e provavelmente olhando com ferocidade em torno deixou-a ficar ali longo tempo. Mas depois – eu estava justamente seguindo-o em sonho por montanha e vale – ele saltou com os dois pés sobre o meio do meu corpo. Estremeci numa dor atroz sem compreender nada. Quem era? Uma criança? Um sonho? Um salteador de estrada? Um suicida? Um tentador? Um destruidor? E virei-me para vê-lo. – Uma ponte que dá voltas ! Eu ainda não tinha me virado e já estava caindo, desabei, já estava rasgado e trespassado pelos cascalhos afiados, que sempre me haviam fitado tão pacificamente da água enfurecida.

Meu Nome Era Maya

Amanhã será meu aniversário, mas ninguém se lembrará.

A data da morte é mais importante que a data do nascimento.” Quem foi mesmo que disse isso? Não importa. Minha mãe sempre disse que é bíblico, mas eu nunca vi isso escrito na Bíblia, e aposto que nem ela mesma. Ela é dessas que vive repetindo comentários alheios, ou melhor… ela era dessas. Ela teve a coragem que eu não tive, e cometeu o que, na opinião dela própria, é o maior pecado possível: o suicídio.

Nunca entendi muito bem a lógica disso. Eu entendo que tirar a própria vida seja horrível, afinal imagina quanta dor alguém tem que estar sentindo pra fazer isso. Mas como algo que só faz mal a si próprio (sem falar na dor dos familiares, é claro) pode ser menos perdoável que matar um semelhante, estuprar uma mulher ou violentar uma criança? A lógica divina definitivamente não bate com a minha.

E o motivo do suicídio dela também foi peculiar. Quer dizer, a maioria das pessoas que têm se suicidado nos últimos dias fez isso pelo desespero de sofrer uma morte lenta e dolorosa por causa do meteoro fatal que logo nos consumirá. Mas não a minha mãe. Posso dizer que ela estava até feliz pela chegada do Dia do Juízo Final. Acreditava que em algum momento do último sábado seria arrebatada.

Foi isso o que o Reverendo Mathias lhe disse, pelo menos. Ele levou os fiéis de sua igreja no bico, dizendo que recebera uma visão divina: no sábado, antes da última badalada, a Igreja seria arrebatada para Deus. Simples assim.

Não que eu tenha acreditado nele, mas será que minha minha realmente cogitou ser digna do arrebatamento? Ah, fala sério! Com toda aquela língua ferina contra tudo e todos, como se fosse a própria Jeová? Com toda soberba por ser uma das mais chegadas ao Reverendo, além, é claro, de ter mais “bens” do que os “irmãos”? Depois de ter se casado com o merda do meu padrasto unicamente pela conta bancária dele e, não contente, se fazer de cega aos olhares e carinhos dele comigo?

E aí ela se decepcionou com Deus, porque a carruagem não veio buscar a Cinderela, e se explodiu! Boom!

E até na morte ela quase ferrou com a minha vida! Assim que voltamos do enterro, o escroto provavelmente pensou que não haveria mais empecilho — como se minha mãe algum dia tivesse sido um — e veio pra cima de mim, no quarto. Mas o que ele não sabia é que eu já esperava por isso, e há tempos guardava uma faca debaixo do meu travesseiro.

Eu a atravessei nele até ter certeza de que estava morto. Não posso dizer que não me machuquei, mas não posso reclamar. Eu venci.

Mas também não importa, já que o meteoro vai acabar com nosso querido planeta azul. (Espero que você seja minimamente inteligente e consiga ler a ironia na última frase.)

O bom é que não vou passar minhas últimas horas vendo o Sol nascer quadrado. Não. Está uma confusão dos infernos lá fora. Minha casa já foi saqueada, e nada me restou além deste caderno e caneta.

Por que estou escrevendo — se ninguém vai ler -? Porque sim.

É o fim da aventura humana na Terra. Essa porra só é bonita nas canções. Se quer minha opinião, eu não a tenho de fato, mas sim duas hipóteses: (1)se Deus não existir, é meio óbvio — o fim veio pelo acaso e ponto final, game over!; mas se (2) ele existir, então todos fomos considerados imperfeitos demais para Vossa Santidade, e então ele decidiu limpar a Terra de nós e o Universo da Terra.

E o ponto de impacto é o Brasil, o que é morbidamente cômico. Sempre enchemos a boca para nos gabar de que aqui não há vulcões, tornados e demais desastres naturais — como se a gente precisasse de mais tragédias! “Deus é brasileiro!”, dizíamos em nossa falsa segurança.

Brasileiro ou gringo, Ele já deu seu veredicto!

O comunicado oficial foi feito exatamente oito dias antes do suicídio da minha mãe, na sexta-feira 13. Pra quem duvidava que a data dá azar, eis sua prova. Não me recordo das proporções do meteoro, mencionadas no plantão urgente que interrompeu meu filme favorito (aliás, interromper O Morro dos Ventos Uivantes pra me falar que eu vou morrer é imperdoável), mas não faz diferença.

Ele é grande o suficiente para matar a todos, sem exceção. A todos os que sobreviverem, pelo menos. Lembra que eu disse que está uma algazarra lá fora? Pois então, só contextualizando: as ruas estão “cemiterizadas” com os corpos dos mais desesperados; alguns, é claro, foram assassinados em brigas e assaltos.

Primeiro veio o choro coletivo, seguido de preces a Deus. Ainda agora alguns acham que serão arrebatados momentos antes da queda do meteoro. Depois vieram os gritos, as brigas, os grupos criminosos que a polícia chamou de “gangues do apocalipse”. Rapidamente a maldade tomou conta de alguns; o medo de outros — e o desespero de todos.

Olavo, meu vizinho de infância, também se suicidou. Enforcamento numa árvore. Eu o vi, preso à corda, o rosto pálido pela falta de sangue… Mas é como se nada mais me chocasse de verdade.

Hoje vi uma vizinha, mãe solteira, esfaquear as duas filhas. Onde isso vai parar? Quer saber, não importa: TODOS VAMOS MORRER!

As ruas estão um caos: supermercados saqueados, veículos incendiados, pessoas perdendo a razão, a memória, a humanidade…

E ainda assim, a vida insiste em não me deixar. Ainda respiro. Ainda como. Ainda durmo e acordo. Ainda ando. E não espero mais nada. Ou quase nada: a exceção é o meteoro. Já que é inevitável, queria que chegasse logo e destruísse de uma vez a História da Terra.

Vou dormir. Amanhã é o Grande Dia. O dia do fim. Seremos esquecidos e todos os nossos esforços serão humilhantemente destroçados. Todas as lutas por igualdade, toda ciência, filosofia, toda forma de arte, tudo desaparecerá para sempre. Perda total.

Boa noite. Bem que eu poderia morrer dormindo…

***

Hoje não quero ver o sol. Esperarei o cataclismo em meu quarto. Fones de ouvido no último volume. Porta trancada. Janela fechada. Diário e caneta na mão. Mas meu destino é pior que o da própria Anne; alguém leu o diário dela, mas o meu nunca será sequer encontrado.

Essa noite sonhei que tudo isso era um trote, um engano. Nenhum meteoro caiu. Olavo morrera em vão, assim como as duas meninas esfaqueadas e tantos outros. O mundo prosseguiu. E eu segui viva.

O mundo então se tornou um lugar diferente, mais humano. A experiência de quase morte coletiva nos fez rever muitas coisas e nos transformou para a melhor.

Mas então não foi em vão? “, eu me perguntava no sonho. “Será dessa forma o Dia do Juízo, a peneira, a separação do joio e do trigo? Por quê inocentes precisaram pagar? O mal acaba aqui, ou é só temporário, e nossa natureza voltará a precisar de um novo meteoro?

Mas aquelas perguntas é que foram em vão. Eu acordei, e a realidade levou a esperança sonhada.

Voltei a escrever. Talvez esse fosse o último poema da humanidade:

DESOLAÇÃO

Se foram os sonhos

O amanhã é ilusão

Nada de arca desta vez

Apenas um meteoro em rota de colisão

Há pesar no olhar de cada um

Lágrimas e dor

Seres humanos sem esperança,

Sem humanidade ou amor

Há os que aceitaram seu frio destino

Pelo incandescente e cruel pedaço de céu

Há os que se tornaram monstros caçadores

Não importa, todos estamos ao léu

Nem sei porque escrevo isso

Ninguém quer ler agora, na verdade,

Mas, ainda assim, evita que eu fique louca,

Mais uma desvairada ateando fogo à cidade

A hora a se aproxima

E, no fim, ninguém acreditava realmente nas pregações

Todos estão, ou em fúria ou em desesperança

Todos sabemos que chega ao fim cada respiração

Cada batida de coração

Não há mais futuro, não para nós;

Estrelas continuarão a iluminar

Planetas continuarão a orbitá-las

Mas não haverá olho para observar

Agora nos despedimos

Daquilo que sempre desprezamos

Nossa Terra, família e amor

E nunca na verdade vivemos,

Sempre na verdade mentimos

É isso. Ouço os gritos à distância. Lamentos antes do fim. Ouço sons estrondosos também,um pouco mais distantes que os gritos. Logo chegará aqui. Adeus mundo.

Meu nome era Maya. Maya. Maya. Maya. May

O Diário

Dia 1

Olho pela janela e vejo a cidade, taciturna e receosa como alguém que tem algo a dizer e nada diz. No primeiro plano desta, vejo meu reflexo, inquieto e falando sozinho em um rádio na esperança de obter uma resposta. Talvez a saudade de algo que não conhecemos (ou lembramos) possa ser chamado de esperança (ou fé). Isso é o que sinto todos os dias em que me recordo de ligar este rádio e ouvir a estática ensurdecendo meus pensamentos. Meu corpo, ora cansado, ora preguiçoso, reluta em permanecer ao pé da mesa do rádio com o comunicador em mãos.

– Boa noite, sou eu novamente, Bernardo… (sshhhhh) … Alguém na escuta? Câmbio.

– (Shhhhh)

Recito as palavras escritas em uma agenda tão velha quanto o rádio, quase como uma oração, na expectativa que haja alguma resposta.  Esse mantra, ora enfadonho, ora intrigante ainda não é conveniente expô-lo aqui…

A noite avança mais lenta que passos de tartaruga nos meridianos, porém aqui ela parece durar mais que o habitual, permitindo que a vaidosa lua ofusque o brilho das demais estrelas por mais tempo. Assim aprendemos, nas aulas do professor Oséias, há 3 anos, que a Lua e o Sol, arquitetam noite após noite, um complô contra os demais astros. Tomo um livro de astronomia e percebo Oséias via o cosmos com os olhos de Deus. Adormeço.

Dia 2

 

O dia, no verão, em Sombra D’água, começa a ser escaldante cerca de 15 minutos antes da aurora (é o que ouvi em alguma situação social de alguma boca falante), quando o sol ainda muito tímido, porém sempre vaidoso, nos favorece a certeza do bom funcionamento das glândulas sudoríparas.

Acordei e logo tomei um café. Descendo as escadas sinto o frescor, ainda resguardado da madrugada, pelos corredores do prédio, embora refrescante, o isolamento térmico promove o cheiro de umidade que meu nariz jamais acostumará.

Antes de sair pelo portão, cruzo por Leonora, uma singela vizinha de olhos e cabelos castanhos de poucos atrativos, mas que certa vez por uma gentileza, me recompensou com 15 segundos de conversa…:

(Iniciando minha rotina diária, descendo as escadas vi Leonora subindo com muitas sacolas de supermercado)

– Deixa-me te ajudar vizinha! 

Falei com despretensiosa suavidade e ela sem muita escolha:

– Pode pegar essas da minha mão direita, obrigada, muito obrigada.

E ainda:

– Sabe como é, vida de secretária, passo muito tempo sentada, se não fosse esse emprego seria tudo diferente.

– É, seria tudo diferente. 

Retruquei, preenchendo o ar com algumas palavras.

Esse diálogo me despertou uma questão, caro leitor…

 

Dia 3 

Cova Alta é o nome que dei a essas terras que vim parar não sei como. Última coisa que me lembro é de conversar com Leonora nas escadas do prédio em que moro, ou morava. Pareci despertar de um desmaio repentino e quando vi, o pavor me tomou conta, parecia estar em uma cabana rústica feita de troncos com cortes quase cirúrgicos e acabamentos dignos de um Deus marceneiro, ousaria dizer que esta casa foi feita na carpintaria de José pelas mãos de Cristo. Ergui a cabeça do travesseiro com cheiro de mofo e a primeira e única coisa familiar que vejo é o rádio e a agenda. O que isso significaria?

Pela janela só vejo pinheiros fechando minha visão do horizonte, não parece dia nem noite, apenas um céu nublado com alguma claridade. Talvez o clima ou o ambiente me fez entender que este lugar é bem acima do nível do mar. Resolvo sair e olhar a cabana de fora, já que os pinheiros limitam a visão da clareira em que se encontra a cabana. A cabana por fora segue impecável, mas o que me chama atenção é que ela não é uma casa comum de quatro paredes, esta cabana é sextavada, assim como um caixão. Ângulos bastante sutis, mas ainda sim, sextavado. Batizei este lugar de Cova Alta.

Após vasculhar o lugar a procura de alguém, procuro lidar com o que já estou acostumado, ligo o rádio e clamo por ajuda. Como não obtive resposta, apelei para a leitura habitual do mantra:

“Perpétuo chamado do caminho sem sabor

Tão longa a espera que tenho que esperar

Mesmo fatigável que seja esse labor

Sou movido, sem chance de parar

 

As palavras são insuficientes então

A razão não pode compreender

A falta que faz um capitão

E alguém para se prender

 

Da madeira sextavada,

Para o sótão ou o porão

Ninguém escapa dessa espada

Que parte o coração

 

Oferenda e sacrifício

A labuta e o ofício

Palestra e o comício

A queda e o vício

 

Saudação

Comunicação

Satisfação

Opção”