O Inferno de Gabriel

Gabriel. Nome de origem hebraica. “Homem de Deus”, “Homem forte de Deus” segundo algumas definições na web. Mas, eu preciso lhe contar algo leitor.  E que nessa historia, ele fará jus ao significado do nome que possui, devido o seu comportamento admirável para com o próximo. Mas, preciso lhe contar algo leitor. Gabriel é um empresário belenense que sempre reconhece o bom trabalho dos seus funcionários, agradecendo os pelas suas boas ideias e profissionalismo. Mas, eu preciso lhe contar algo leitor. Quando chegava para trabalhar na sua empresa, questionamentos cordiais do tipo “Como vai você?” ou “ E a família, está bem?” eram frequentes, logo, pela manhã. Mas, preciso lhe contar algo leitor

-Ideia estupida! Ninguém tem mais nada a acrescentar de interessante nessa reunião? Será que sou o único que, verdadeiramente, pensa nessa empresa? Burros! Aqui é um jornal e não o ensino fundamental patético de vocês. Parece que as boas ideias saem, somente, de mim.

Lamento leitor. Esse, de fato, é o verdadeiro Gabriel da nossa história.

Certa noite, ele chegou em casa, como de praxe, com o semblante fechado, postura imperiosa e as sobrancelhas arqueadas. Abriu a porta e olhou, por alguns instantes, aquela sala imensa com a sua decoração suntuosa. Ficou parado na entrada, como se esperasse alguém vim lhe receber com um “boa noite” amável ou com algum abraço caloroso. No entanto, não veio ninguém. Gabriel baixou a cabeça, balançou ela de um lado para o outro, suspirou forte e, logo em seguida, ergueu a coluna mais imponente do que nunca, entrou e subiu as escadas.

Depois do banho, sentou-se em frente a sua penteadeira camarim cor branca e começou a desembaraçar os cabelos. Parou. Mirou a sua imagem refletida naquele espelho e pensou um pouco. De repente, teve a impressão de que alguma presença estranha havia passado pela sua costa. Olhou para trás e não viu ninguém. Tornou a pentear os seus cachos e, pela segunda vez, algo passou como um vulto novamente atrás dele. Os poucos pelos dos braços se levantaram. Deu um salto abrupto e perguntou:

-Quem está aí? – Questionou Gabriel; segurando a escova de cabelo na mão direita com os olhos azuis arregalados.  

Caminhou até o closet. Ligou a luz, no qual roupas de grife e vários sapatos estavam organizados com perfeição, mas não havia ninguém por ali. “Estou ficando louco?” pensou o órfão rico. E no instante que colocaria o dedo no interruptor para desligar as luzes, escutou uma voz grave atrás dele.

– Gabriel, não é?                     

Um frio subiu pela coluna vertebral de Gabriel e a saliva desceu rasgando a garganta. Voltou-se para a direção da penteadeira, mas nada foi visto. Correu para a cama e embrulhou-se da cabeça aos pés. Pensou em gritar. Mas quem iria lhe socorrer? Os empregados? “Melhor não. Eles não podem me ver nessa situação. Seria patético.” pensou Gabriel. Em seguida, Dormiu.

De manhã, no jornal, Gabriel passou por alguns colaboradores sem cumprimenta-los, como se eles nem estivessem ali, executando as tarefas diárias. A cabeça erguida, de modo majestosa, e a postura ereta destacavam-se. Geralmente, algum empregado via escapar um rebolado daquele andar firme, mas que, Gabriel, logo, consertava, a fim de evitar comentários.  Um funcionário lhe entregou alguns relatórios, no qual ele passou a vista em uma só olhada, sem se desfazer das sobrancelhas arqueadas, atirou-os contra o peito daquele subordinado, sem agradece ló. Nunca agradecia. Entrou no elevador. E quando saiu dele para seguir em direção a sua sala, viu uma cena que lhe chamou a atenção: uma criança que visitava o pai no trabalho abraçava o forte. Os ombros de Gabriel foram murchando, como balões de final de festa ao ver aquele momento de carinho. O semblante dele entristeceu e os olhos fecharam-se por um instante para que uma lembrança perturbasse os seus ouvidos e o levasse para uma viagem dolorosa dentro de si.

– Pai! Pai! Vamos brincar? Pai! O senhor tá me ouvindo?

– Agora não, Gabriel. Estou trabalhando. Procure a sua babá e saia daqui!

Gabriel retornou daquela recordação, cambaleando um pouco. Quando caiu em si de novo, as sobrancelhas arquearam-se mais uma vez e a coluna voltara para posição imperiosa que estava. Em seguida, escancarou a porta daquela sala e gritou:

– O que está acontecendo aqui? Eu já não falei que é proibido a entrada de crianças? Você sabe com quem está falando?

O colaborador se desculpou e informou que aquilo não aconteceria mais. O “dono da empresa” saiu, batendo a porta com força, assustando a criança que, logo, colocou as duas mãos nos ouvidos.

Gabriel entrou na sua sala, trancou a porta e grudou-se nela de costas. Quis chorar. Caminhou até as janelas, fechou as persianas e apoiou nelas com as mãos. Abaixou a cabeça e inspirou e expirou fundo. Não lagrimou. E, logo em seguida, assustou-se quando uma sombra passou por trás dele. Gabriel sentiu um arrepio e caminhou com passos largos em direção à saída. Ao girar a maçaneta da porta, escutou a mesma voz que o assustara na noite anterior.

– Por que tanta pressa jovem Gabriel?

Ficou petrificado. Virou a cabeça bem devagar com a esperança de que não pudesse encontrar ninguém ali. Enganou-se. Um homem de estatura mediana estava parado em sua frente. Vestia um blazer escuro, calça de linho e sapatos pretos. Usava uma gravata vermelha cor de sangue e apoiava-se em uma bengala dourada cravejada de pedras preciosas. Os cabelos estavam penteados, como se estivessem sob o efeito molhado de algum gel capilar.

– Quem é voce? E o que faz  na minha empresa? A minha secretária não lhe anunciou. – Questionou Gabriel; disfarçando alguns tremores no corpo.

– Sou o diabo e serei bem objetivo.

– Diabo? – Gabriel deu um sorriso irônico. – Achava que eu era o próprio.

– Estou procurando alguém para assumir o inferno e você tem o perfil que procuro. Mas, antes, você deverá passar por um desafio: se você ganhar, será considerado como rei em todo o inferno. Terá muitas almas, trabalhando para você. Se fracassar, você, apenas, retornará para a sua… vida.

– Como pode ver – Gabriel abriu os braços, olhando ao seu redor. – Sou rico e não preciso ser rei em lugar nenhum. Eu já sou aqui mesmo.

            – Tens tudo mesmo Jovem Gabriel? – O diabo inclinou a cabeça para frente, como se soubesse a resposta daquela pergunta capciosa. – Poderá ser rei nos dois mundos: lá e aqui. Bom, aguardarei, de qualquer modo, a sua decisão até amanhã. Chame por mim.

E em um piscar de olhos, aquela figura desconhecida sumiu feito fumaça. O empresário andou de um lado para o outro, procurando aquele homem que acabara de fazer aquela proposta, mas nada viu. De qualquer forma, tudo aquilo havia mexido com ele. Não tinha mais cabeça para trabalhar. E quando teve? Precisava distrair-se com alguma coisa. Pegou o celular, falou com alguém e saiu.

Às 12:30 h, daquele mesmo dia, Gabriel estava parado na janela de um quarto; refletindo sobre a decisão que devia tomar. Fumava.

– Oh Biel, volta pra cama cara. Vamos começar um segundo round?

– O que você faria se pudesse ter mais poder? – Perguntou Gabriel, olhando pela janela.

– Hã? Que papo é esse cara? Ah, mano, se eu tivesse a oportunidade de ter mais poder, eu não perderia essa chance ora.  Li, em algum lugar, que quem tem mais poder tem menos dores e nunca se sente só.

– Isso! – Gritou Gabriel, apontando o dedo indicador para cima como se tivesse descoberto algo. – Você tem razão.

-Pra onde tu vai?

– Não interessa! Duzentos reais resolvem não é? Toma.

Na manhã seguinte, o diabo ficara satisfeito com a decisão do “dono do jornal”. No mesmo dia, Gabriel entrou em uma van, no qual todas as janelas estavam fechadas, com cortinas bem decoradas cor de vinho. Havia sido também proibido pelo motorista de abri-las sob quaisquer circunstância. A viagem não demorou.

A van parou. Gabriel desceu e deparou-se com uma imagem lúgubre; triste. O céu tinha cor laranjada e a paisagem era montanhosa; assemelhando-se a um deserto estadunidense, com vegetação rasteira e o clima seco. Lá, nunca anoitecia. Percebeu também que haviam casas organizadas como um vilarejo medieval. “Casas? No inferno?” questionou-se. Havia também pessoas que transitavam por alí. Pessoas normais; tangíveis. E não os demônios com tridentes enormes como Gabriel imaginava. Enfim, ele estava no inferno.  De repente, uma fumaça fantasmagórica apareceu próximo do jovem rico e o diabo surgiu dela, dizendo:

– Você acaba de chegar ao meu reino Jovem Gabriel.

– Ahhh. Achei lindo! Parece com um rabisco em uma cartolina preta de uma criança do maternal.

O diabo deu algumas orientações ao “suposto desafiado” e, logo em seguida, sumiu de novo. Gabriel caminhou até sair dos limites daquele que considerou um “vilarejo”. Olhou para trás e viu aquelas residências se afastando. Minúsculas, agora. Chegou a um lugar, no qual havia muitas grutas e pedras gigantescas. Sentiu um tremor na espinha, mas continuou explorando aquele ambiente. Escutou passos. E quando correu para se esconder, escorregou e ralou os joelhos. Levantou-se num salto e o medo abafou um grito de dor. Escondeu-se atrás de uma pedra que cobria suficiente todo o seu corpo e espreitou.

Alguém abaixou-se no local do tombo de Gabriel e examinou aquele rastro de sangue, olhou para um lado e para o outro, como um caçador, presumindo que a caça ainda estivesse ali.

– Sei que você ainda está aqui. – Disse um homem; dando voltas em si mesmo para verificar se encontrava algo. – Você está machucado. Posso te ajudar. Não deve ser desse mundo não é?

Gabriel não o conhecia de fato. E nem queria conhecer. As mãos suavam de nervoso e, em seguida, todo o seu corpo sentiu inveja disto também. Mas, quando espreitou mais uma vez aquele desconhecido, surpreendeu-se com algo inesperado

– Te achei! – Disse aquele homem estranho, aparecendo do outro lado, de onde Gabriel estava, como um movimento rápido semelhante a um tele transporte.

O jovem empresário virou-se num salto abrupto e não conseguiu conter um gritou de susto, mas também não correu. Ficou parado.

-Calma! Desculpa cara. Me chamo Simão. Posso te ajudar?

– Não preciso da sua ajuda. Foi só um arranhão. E nem está doendo tanto assim.

– Não está doendo? – Simão riu – Você só pode estar louco cara. Vem comigo. Vou fazer um curativo em você. Tudo vai ficar bem. Garanto.

Simão levou Gabriel para a sua casa. De volta ao “vilarejo”, ele limpou os joelhos machucados, enrolou um pedaço de pano neles e deu um nó para que o sangue estancasse. Enquanto isso, Gabriel parecia nem sentir mais dor. Os seus olhos demoravam a piscar, pois estavam fixados em Simão. A íris azul piscina movimentava-se de um lado para o outro pelo globo ocular, como um raio x, analisando cada parte do corpo daquele rapaz desconhecido. A boca não fechava, admirada, devido às “habilidades medicas” de Simão

– Fui enfermeiro em vida. Tive filhos também. Não se preocupe.

– Obrigado!

Os dias passaram-se. Simão apresentou outros lugares daquele inferno para Gabriel. Contava-lhe também historias curiosas para o recente amigo e Gabriel esquecia até mesmo dele, quando ouvia todas elas com muita atenção.  Gargalhava de algumas engraçadas. Engraçado? Havia alguma coisa naquele inferno que era divertido? Mas, esses questionamentos nem, sequer, passavam mais perto do imaginário de Gabriel. Ele nunca havia dado tanta atenção para alguém assim. Beijaram-se, um dia. O coração do empresário bateu tão rápido nesse momento, ao ponto de quase explodir. A respiração era de uma maratona percorrida. Mas…

– Foi só um beijo e nada mais. Não se iluda com isso.

– Por que a resistência?

– Amor traz consequências; dores; fraquezas. E eu não sou fraco. Nunca fui e não será agora que vai ser diferente.

Era tarde demais. Ele estava apaixonado. Começaram a andar de mãos dadas por todo o inferno.

Um dia, Gabriel lembrou-se do motivo inicial de ele estar naquele lugar. Deu um ar de riso bobo por conta desse esquecimento. Foi ao castelo do Diabo para saber sobre o desafio proposto ou até mesmo para desistir de tudo aquilo. Quando chegou lá, escutou algumas vozes que, a principio, não soube distinguir de quem se tratava. Mas, depois, identificou a voz do próprio diabo. Gabriel caminhou até o salão principal de onde achava que vinha aquela discussão, chegou até o local e espreitou. Viu um homem de frente para o diabo. Gesticulava muito com as mãos e braços. Gabriel não conseguiu identifica-lo, a principio, mas, aquela voz tornava-se cada vez mais familiar. Até que ele viu parte do rosto daquele rapaz. Reconheceu o e quis escutar um pouco mais a conversa.

– Não quero mais fazer isso. Chega! Ele não merece.

– Tolo – o diabo gargalhou – Não percebe o que está em jogo aqui ou você não quer mais retornar á vida para rever seus filhos?

O diabo deu uma pausa, olhou por cima dos ombros daquele homem e falou:

– Olha quem veio nos visitar.

– Gabriel? Não é nada disso que você está pensando. – Disse Simão, erguendo os braços como se quisesse segurar o namorado. – Gabriel! Gabriel! Nãooo.

Gabriel saiu daquele lugar; passando a mão esquerda no rosto, enxugando as lágrimas. Simão virou-se, novamente, para o Diabo com olhos fulminantes, mas que, este, deu de ombros, como se não tivesse sido impressionado por aquela fúria.

Gabriel chegou a um penhasco que o próprio Simão havia o apresentado. Tinha uma visão privilegiada de todo o inferno dali de cima. Os cachos de seu cabelo batiam furiosos contra o seu rosto. Aproximou-se da beira do abismo, caiu de joelhos, olhou para o céu como se fosse suplicar algo para Deus. As lágrimas caiam como agua procedente de uma represa destroçada. Deixou a boca mais aberta possível e gritou. Deu socos de indignação em seu peito. “Idiota! Como fui tão burro?” questionava-se. Abaixou a cabeça e as duas mãos esconderam o rosto. Soluçava sem controle. De repente, sentiu passos atrás dele e alguém falou:

-Gabriel, eu ia te contar. Me perdoa cara? – Falou Simão não conseguindo esconder o choro.

O jovem rico ainda continuava com o rosto coberto pelas mãos, mas foi tirando em câmera lenta. Não chorava mais. Olhou para a frente e viu aquela paisagem lúgubre. As sobrancelhas arquearam-se, de modo estranho, dando um ar demoníaco a Gabriel. Os lábios cerraram-se e um sorriso irônico veio à tona. Logo em seguida, ele falou:

– E quem disse que eu também não fingi? – Gabriel levantou-se devagar do chão e virou-se para Simão – Eu também tenho um trato com o diabo. Estou aqui por isso e ainda continuo somente por isso também.  

– Bravo! – o diabo apareceu como um passe de mágica entre eles, batendo palmas. – Esse é, exatamente,  o perfil que procuro Jovem Gabriel.

Em seguida, o diabo fez aparecer duas taças em cada uma de suas mãos, com um líquido vermelho e misterioso, mas que não era vinho. Entregou elas para Gabriel e Simão. Em seguida, fez surgir uma para si mesmo em sua mão esquerda. Todos beberam. De repente, Simão colocou a mão no peito e o ar começou a lhe faltar. Gabriel não moveu, sequer, um musculo do corpo e olhava para Simão, como se ele fosse um inseto que deveria ser esmagado.

Simão caiu de joelhos e, depois, o seu corpo estendeu-se de lado no chão. Gabriel, aos poucos, desfazia aquele semblante sombrio e as suas lágrimas começavam a subir até o nível dos cílios. Logo em seguida, deu um pulo abrupto e correu em direção ao amado para socorrê-lo. Atirou-se junto ao corpo dele e disse:

– Estou aqui meu amor. – Gabriel pegou Simão no colo. – Vou te ajudar. Não se preocupe. Acredito em você. O que você fez com ele? – Gritou Gabriel, olhando para o diabo.

– Você acaba de perder o desafio Jovem Gabriel. Você é mais frágil do que eu imaginava. Esse é você. E esse pobre rapaz foi somente uma isca para pescar quem, realmente, você é. – Disse o diabo, com uma voz misteriosa, abaixando-se próximo ao casal. –Você não acha que esqueceu alguma coisa? – O diabo virou a cabeça, devagar, para o lugar de onde Gabriel tinha saído e corrido.

Quando Gabriel acompanhou o olhar do “dono do umbral”, viu que seu corpo estava no mesmo lugar; parado, como uma estatua de cera apresentada em um museu. Imagem perfeita. Na verdade, era ele com aquele mesmo semblante rígido ainda. Gabriel inclinou um pouco a cabeça para o lado esquerdo sem entender nada. Confuso. De repente, voltou-se para Simão e, este, estava se desfazendo em pó nos seus braços até sumir por completo. Gabriel procurou o diabo para questionar sobre aquele acontecimento. Mas não viu ninguém. Olhou para o céu, fechou os olhos e deu um grito que ecoou todo aquele lugar. Em seguida, quando caiu em si, viu-se deitado na sua própria cama, como se tivesse vindo de um sonho… Ou… de um pesadelo! Estava em seu quarto novamente; na sua casa; no seu mundo. As cortinas dançavam ao som da brisa penetrante que entrava pela janela. E o sol engatinhava em sua direção. Bem devagar. Bem devagar. Era um novo dia.

Beatriz, O anjo suicida

Na noite em que a lua não aparecia, surgia Beatriz o anjo suicida, com cortes nos braços e uma dor insuportável no coração, ela não mais dormia ficava a vagar toda noite em ruas escuras.
Um anjo sem asas e sem luz, ela tinha apenas feridas na alma e vontade de chorar e morrer também mas em nenhuma das noites a morte queria ser seu bem.
Com os cabelos ao vento, olhos que refletiam a mais bela luz da noite, não poderiam refletir alegria pois era uma coisa que ela não sentia. Com suas roupas vermelhas cor de sangue e suas lâminas brilhantes no prédio abandonado ela subia.
Ela subiu até encontrar sua mais perigosa agonia, até encontrar as invenções de sua cabeça defeituosa. Ela encontrou seu coração de vidro, estilhaçado no chão e ao encostar nele de cortou. Cortou toda sua pele pálida, pintou com seu própria sangue sua pintura e viu que seu ex amor adormecia. Mas ele não podia estar lá, ele um dia também já foi um anjo suicida, só que ele não mais existia a morte o tinha levado.
Ele abriu os olhos e ela estava louca para correr para seus braços, mas algo nele havia mudado. Tinham demônios em seus olhos, isso ela podia ver, só não podia imaginar que mata-la seria seu prazer.
A máscara que os demônio tinham do seu amor caiu, agora era só seus medos, tormentos, lamentos e traumas juntos, ela iria partir para o outro mundo e não seria mais um anjo.
Ela tentou correr, mas não conseguiu acabou caindo da escada que era muito grande quando parou de cair teve sua cabeça e aberta a machadada e seu cérebro foi partido em pequenos pedaços, mas não pararia por ai, seu sangue serviu como vinho e banho para a morte e do seu corpo e coração foi feito um banquete. Sua alma por fim, ficou presa e abandonada naquela casa e gritava, como gritava era o mais horrível terror, espero que ninguém tente entrar naquela casa.

Sex, 24 de Maio de 2019

Os Contos dos Quatro Humores: Sangüíneo, o Ar

A velocidade do armut já era conhecida por Veigo, restava a ele se antecipar aos movimentos da fera de relativa inteligência. Algumas armadilhas foram preparadas com antecedência: redes de energia, buracos, espinhos de madeira com líquido paralisante, etc., tudo estava pronto para que o armut sentisse o cheiro adocicado da cascadeira — alimento preferido do bicho —, indo direto para a emboscada. No alto de uma gigantesca árvore, sentado em um dos galhos sem qualquer receio dos mais de 40 metros de altura, o jovem Numaq Veigo aguardava sua presa. Humano de aparência simpática, bastante carismática, sorria para si mesmo durante a espera, olhando com orgulho o caminho que ele mesmo havia criado na tentativa de capturar o armut. Veigo era magro e alto para um humano, tinha aproximadamente 1,88m, porém, era atlético, consequências de sua vida como caçador em Galmori; os olhos e os cabelos eram castanho-escuros puxando bastante para o preto, aqueles expressavam alegria e jovialidade, estes eram como ondas formadas pelo vento, leves e finos.

Em sua mão direita segurava uma lança feita com a madeira da mesma cascadeira que havia usado as folhas para atrair o armut, ele mesmo havia feito a lança enquanto esperava, a madeira da árvore estava entre as três árvores mais resistentes de todo o planeta Galmori.

O som das árvores balançando chamou a atenção de Veigo, fazendo-o girar a cabeça na mesma direção, mantendo firme a lança para o primeiro e único golpe que tinha. O calor da floresta fazia sua testa suar, o sangue fervia com a adrenalina da espera enquanto o coração disparava de excitação. Finos raios de sol que, milagrosamente, atravessavam as densas copas abarrotadas de folhas, assemelhavam-se a um ato de Providência, o caminho feito por Veigo estava estranhamente bem iluminado. Os armut eram bestas com pouca visão, tinham sérios problemas com lugares escuros e, exatamente por isso, buscavam, a qualquer custo, locais bem iluminados. O fato desses raios de sol conseguirem atravessar as copas, para Veigo, era uma incrível coincidência — ou talvez não.

            Estou com sorte hoje! Aí vem ele!, pensou.

O armut estava quase no lugar certo para o ataque, bastava mais alguns poucos metros para Veigo capturar sua maior presa, até o barulho de folhas agitando e cascos trotando cessar. Por que ele parou?, pensou franzindo o cenho. Por instinto, acabou afrouxando a mão que segurava a lança, baixando o braço sem notar que o armut havia lhe desarmado com aquele inesperado movimento. Quando a fera retomou o impulso inesperadamente, Veigo perdeu o equilíbrio com o susto, escorregando um dos pés. Em perfeita sincronia com o erro de Veigo, o armut saltou para fora da densa mata rosnando de fúria, as árvores com troncos mais finos foram varridas pela rígida cabeça que a besta possuía, a baba escorrendo entre os dentes afiadíssimos, avançando contra a árvore em que Veigo estava, agora, pendurado. Pertencendo a uma espécie bastante agressiva, com seu par de presas imensas e afiadas, chifres no focinho e um tamanho considerável, sua pelugem escura intimidava grande parte das outras feras, o armut era perigoso quando enfurecido, podendo caçar sua vítima indefinidamente. Os armuts tinham uma ótima memória.

Como era uma espécie razoavelmente inteligente, a fera percebeu que Veigo estava em apuros e poderia cair a qualquer momento, dando violentas cabeçadas no tronco para agilizar sua queda. Cada investida fazia a árvore sacudir violentamente, semelhante a um tanque. Não demorou muito para que Veigo perdesse as forças e o equilíbrio por completo, caindo em direção aos chifres e dentes da besta.

            Estou morto!, pensou o rapaz, fechando os olhos, certo que apenas um milagre salvaria sua vida. Se houver alguém aí, não importa quem seja, essa seria uma boa hora para aparecer!, pediu em pensamento, acreditando, minimamente, que algo poderia acontecer.

Enquanto caía, Veigo achou a demora para chegar aos chifres do armut muito estranha, a distância entre o galho e o chão não era tão grande assim. Abriu os olhos com receio do que iria ver: grandes dentes e chifres afiados capazes de lhe partirem ao meio com facilidade, no entanto, apesar do armut estar cerca de um palmo de distância, ele não se movia; nada se movia. Estava tudo congelado, como se o tempo tivesse parado, deixando Veigo em pleno ar sem qualquer equipamento para flutuação. Ele era o único que conseguia se mover, na verdade.

— O que está acontecendo? Como o tempo parou do nada? — perguntou a si mesmo, olhando para as próprias mãos enquanto as movia.

Numaq Veigo… — duas vozes, uma masculina e outra feminina, ecoaram em uníssono.  — Numaq Veigo… — as vozes repetiram o nome dele. Diante dos olhos do jovem rapaz uma fenda no espaço foi aberta, revelando um ser que lentamente saía do corte escuro. A fenda se expandiu para um grande buraco negro aparentemente sem fim; havia apenas o vazio e aquele ser dentro dele. A entidade tinha forma humana feminina, mas apenas seus pés e suas mãos estavam expostos, o resto do corpo era coberto por um manto feito do que parecia ser uma sombra viva, movendo-se como uma fumaça espessa; a pele era branca e delicada; o rosto estava coberto por uma máscara também branca de expressão alegre, com um largo sorriso cobrindo grande parte do rosto e olhos que acompanhavam a alegria.

— Quem… quem é você? — o medo estava estampado no rosto de Veigo.

Olá, jovem Veigo! ­Eu sou Árimah, uma das quatro Deusas dos Humores — ela flutuou para perto dele. — É de mim que os sanguíneos obtêm sua estrutura mineral ao nascerem — com um estalar dos dedos a deusa fez o corpo de Veigo flutuar lentamente até o chão, colocando-o de pé.

            Deusa? Do que ela está falando? O que é isso de “sanguíneos”?, Veigo estava de boca aberta e completamente perdido enquanto era movido por uma força desconhecida, não sabia como reagir. Será que eu morri? Ou isso é um son…

            — Isso não é um sonho, Numaq Veigo — a deusa acabou antecipando a conclusão do rapaz. — Sua falta de fé é perturbadora, mortal.

— Você leu a minha mente?! — indagou o rapaz.

Não preciso ler a sua mente, meu jovem, eu sei tudo sobre você: o que houve, o que há e o que haverá — ela tocou a testa de Veigo com o indicador e uma cachoeira de imagens desabou sobre o rapaz. Eram lembranças antes da infância dele, muito antes mesmo dele ter nascido, quando ainda era um feto na barriga da mãe, depois um simples espermatozoide percorrendo um longo caminho; então houve um clarão tão forte que Veigo perdeu a visão por um tempo, foram apenas alguns segundos até tudo voltar ao normal e ele ser jogado para o que parecia ser o futuro. Diferente de antes, onde as imagens eram claras e discerníveis, agora tudo estava borrado e confuso, com muitas vozes falando ao mesmo tempo, barulhos de risadas e metais colidindo, gritos de sofrimento e urros de vitória. Não era possível ver os rostos das pessoas, nem identificar o lugar onde elas estavam, mas Veigo sentiu a beleza, a paz e a harmonia reinando no ambiente; era alegre e descontraído, um lugar que ele pensou valer a pena morar e lutar. Às vezes, sem aviso, as imagens piscavam como um holograma defeituoso ou com sinal distante, dando vez para cenas totalmente distintas, com pessoas gritando, sons de explosões, veículos marchando, lasers, metal colidindo. Num desses momentos, Veigo vislumbrou quatro pessoas, não dava para identificar quem eram, mas elas usavam armaduras brancas. Estavam sobre um monte, cada um segurando um estandarte com dois símbolos que o jovem rapaz desconhecia. Quando Árimah se afastou de Veigo as imagens sumiram por completo, não restou nenhum rastro de que aquilo tinha realmente acontecido. Ele estava ofegante, o suor escorria sobre os olhos, o cansaço era evidente. Exausto, desabou de joelhos sobre o chão coberto por um tapete de folhas secas.

— Isso foi… isso foi a minha vida? Era o meu futuro?! — questionou quase sem fôlego.

Sim, essas foram imagens da sua vida, do passado ao seu futuro. Porém, o futuro nunca é engessado, mas fluido — ela flutuou ao redor de Veigo. — Até mesmo nós, as deusas, não podemos interferir no futuro, mesmo que ele se apresente para nós por completo, isto é, que nós saibamos como ele será, não nos demos a permissão para alterá-lo — dessa vez ela flutuou para o alto, ficando alguns metros acima de Veigo. — Fizemos isso para que vocês, mortais, pudessem mudar seu futuro.

— Vocês se impediram de mudar o futuro para que nós pudéssemos mudá-lo? — a indagação soou mais para si mesmo do que para a deusa. — Por quê?

Ora, Veigo, a resposta é simples: porque nós os amamos — Árimah soltou uma risada sincera e, voando até Veigo, fez um gesto com o indicador de baixo para cima; a resposta ao gesto veio com o corpo do rapaz flutuando até ficar de pé novamente.

— Vocês nos amam? Mas grande parte de nós nem sequer sabe da existência de vocês, como podem amar alguém ou algo que sequer retribui o sentimento? — era uma pergunta genuína, mas naturalmente mortal e peculiarmente humana. Árimah soltou outra risada, colocando as mãos na cintura e jogando a cabeça mascarada para trás; por fim se recompôs.

Você é realmente interessante, Numaq Veigo — atestou. — Mas ainda é mortal. Todo o Bem que há em você, não importa ele qual seja, em mim é infinito e puro. Em você é finito e amalgamado. O amor que você conhece, esse sentimento tão forte principalmente na sua raça, é uma fração, uma extensão de nós, deusas. Isso é uma consequência de viver sob a égide da temporalidade: tudo é passageiro, efêmero, nasce e morre. Nós, por outro lado, estamos sob a égide da atemporalidade, acima do tempo, não há passado ou futuro, pois tudo é presente. Não há nascimento e morte, mas tudo é — quanto mais Árimah explicava mais Veigo ficava interessado. Ela tinha um jeito de falar que lhe agradava, atraía, fazia brotar um sentimento de acolhimento e proteção, como entre uma mãe e um filho. O rapaz surpreendeu a si mesmo com um sorriso de orelha a orelha, os olhos brilhavam, o som da voz dela era aveludado, sua presença era aconchegante, até mesmo o paladar de Veigo despertou com um doce gosto adocicado. E em transe ele ficou, em silêncio, observando Árimah contar tudo o que queria. Ao fim da história, acordado do caloroso sentimento, ela o perguntou:

Não posso continuar nesse plano por mais tempo, Veigo. Está na hora de você tomar uma decisão importante que mudará completamente a sua vida. Sente-se — ela pediu, flutuando até o rapaz, parando diante dele. Veigo assentiu e sentou sobre um velho tronco próximo. — Minha vinda até você não foi acidente ou o destino, mas uma escolha minha. Há mais de 300 anos mortais que não nos manifestamos para vocês. A história é longa e não posso explicar tudo, mas digamos que houve um desligamento entre vocês e nós.

            — Como assim?

Lembra que eu lhe falei sobre a imposição que as deusas colocaram em si mesmas sobre o futuro de vocês? Então, nós demos a vocês, mortais, algo precioso e inegociável: o livre-arbítrio. Graças a isso, não cabe a nós, seres divinos, forçar os mortais a crer em nós, a conversar conosco, a ter fé. Isso deve vir de vocês livremente, por vontade própria — Árimah afastou-se de Veigo.

— Mas o que isso tem a ver comigo?

Você é uma das chaves que permitirá o religamento da união entre os mortais e as Deusas dos Humores.

— O que são esses humores?

Os humores são os temperamentos. Novamente questiono: lembra que eu disse que os sanguíneos retiram de mim sua estrutura mineral?

— Sim, eu me lembro.

Pois então… “Sanguíneo” é um dos Quatro Temperamentos existentes em todos os seres mortais com inteligência. São seres com grande capacidade de expansão, eles envolvem todos ao seu redor, são criativos, sociáveis e gostam de conversas e, principalmente, estão sempre a serviço do outro, ouvindo e dando a devida atenção mesmo que o outro seja um total desconhecido. Porém, é no conforto das amizades que o sanguíneo se realiza, sendo a vida do grupo, aquele que lubrifica todas as engrenagens para que elas não parem jamais. O Ar é o elemento que o representa, porque é expansivo e envolvente, não tem uma forma certa, mas está sempre em movimento, sempre no alto, permeia tudo — o entusiasmo de Árimah condizia com o humor ao qual fora atribuído a ela. — Além dele, meu caro, também há o Colérico, o Fleumático e o Melancólico. Para cada um dos temperamentos existe uma deusa que é sua causa primeira.

            — Então quer dizer que eu sou sanguíneo? Quer dizer, se você é a deusa ao qual o temperamento sanguíneo retira sua estrutura, e veio até mim, quer dizer que escolheu alguém que tenha esse temperamento, certo? — a indagação de Veigo estava mais para uma tentativa de organizar as próprias ideias, mas ele acabou soltando como uma pergunta.

Você está perfeitamente correto, meu rapaz — ela não conteve a gargalhada. — Eu estava certa em ter escolhido você para a tarefa. Sinto-me aliviada! Apesar de avoado, você é inteligente.

            — Que tarefa? — curioso, arqueou a sobrancelha desconfiado.

Ops! Acho que falei demais — gargalhou ainda mais alto. — Você será o meu Profeta, aquele que falará em meu nome aqui nesse plano, será o fio condutor entre o sagrado e o mundano. Mas, como eu já expliquei, não posso obrigá-lo a aceitar, você é livre para escolher.

— Profeta… — o olhar de Veigo estava distante, fitando alguma coisa no chão, mas ao mesmo tempo não olhando para nada. — Terei que ir embora de Galmori? — fitou Árimah.

Sim. Se você concordar em ser meu Profeta, precisará sair deste planeta. Conhecerá outros mundos, outras pessoas, grandes homens e mulheres, mas também terríveis e cruéis. Você sorrirá pelas vidas salvas e novas, mas também chorará pelas mortes prematuras e irrevogáveis. Será caluniado, humilhado, traído por quem se dizia amigo, mas também será erguido em ombros, respeitado, louvado como um herói e se surpreenderá com inimigos virando amigos.

Veigo refletia sobre as palavras de Árimah balançando a perna freneticamente, visivelmente nervoso e indeciso. O coração estava acelerado; sentia medo de sua escolha: se aceitasse, colocaria sua vida em risco, não era um guerreiro nem tinha o físico para tal, por isso costumava evitar certas circunstâncias que lhe colocassem em situação humilhantes; no entanto, se decidisse recusar a oferta, sentia que iria se arrepender de poder construir uma nova vida, uma nova história, de enfrentar seus medos, suas dúvidas e incertezas tão constantes.

A ebulição de emoções lhe embrulhara o estômago, e Veigo vomitou tudo o que havia comido naquela manhã, várias e várias vezes até não sobrar mais nada no estômago. Limpou a boca com um lenço que estava no bolso e levantou-se.

— Desculpe por isso.

É compreensível.

            — Eu… eu aceito — engoliu seco sentindo o gosto do vômito.

Hahaha! É assim que se fala, Veigo! — exclamou Árimah. — Esse é o retorno do religamento entre mortais e divindades, depois de muitos anos… Eu, Árimah, uma das Quatro Deusas dos Humores, dou minha bênção a você, Numaq Veigo, e o nomeio como meu Profeta de hoje até os teus últimos dias. Quatro é Um e Um são Quatro!

Uma forte luz saiu dos olhos de Árimah, tão forte e expansiva que deixou Veigo novamente sem enxergar. Quando a luz cessou, os olhos dele foram retomando a visão normal, acomodando as coisas novamente. Ao fim, com tudo aparentemente normal, Árimah tinha sumido e o armut estava caído ao lado da árvore. O tempo havia voltado ao normal, as folhas balançavam, o vento soprava e as aves cantavam. Veigo deu uma última olhada ao redor, agora não tão certo de que aquilo fora realmente real.

— Talvez a minha queda tenha o atordoado…

Avistou sua lança ao lado do armut e foi até lá para pegá-la, ao se abaixar e esticar a mão, percebeu que havia um símbolo em preto pintado no dorso da mão direita: uma pirâmide com um corte horizontal poucos centímetros do topo. Esfregou a região na tentativa de retirar, achando que não passava de alguma sujeita, mas não deu certo. O símbolo fazia parte da pele de Veigo e só seria retirado se a pele fosse retira junto.

— Bom… acho que isso confirma que não foi um sonho. E isso é um grande alívio — sorriu.

Os Contos dos Quatro Humores: Fleumática, a Água

Aquele que olhasse o céu naquela noite não sentiria alegria no que iria ver, estava completamente nublado e escuro, tão escuro que dava a impressão de ser possível agarrar as nuvens com as próprias mãos. Fazia dias que aquele fenômeno estava pairando sob o céu do planeta Úmmela, sem derramar uma única gota de chuva sequer, apenas espreitava a região como uma sombra sorrateira. Os moradores que viviam nos Vértices — prédios tão compridos que seus cumes tocavam as nuvens (alguns ultrapassavam) — praticamente sentiam na pele o toque úmido das nuvens quando abriam as janelas.

Do alto das centenas de apartamentos apinhados em cada Vértice a vista era sublime, Urd era uma cidade luminosa, cheia de vida e movimento, com multidões indo e vindo de todas as direções, veículos em rotas caoticamente bem organizadas sempre com trânsito lotado, mas estranhamente eficiente. Telões gigantescos — outros nem tanto — pululavam de inúmeros prédios comerciais com propagandas dos novos modelos de Sandbikers — FCC-200 Nevoeiro, KXP-100 Faísca e o luxuoso NNV-1 Tempestade —, peças para construção e máquinas, acessórios para casa, para uso pessoal e até mesmo mulheres seminuas de raças variadas, de humanas à nemurianas, cada uma delas famosa como uma das raças mais sensuais de toda a galáxia, o que acarretava na exploração das fêmeas pelo setor de entretenimento virtual ou físico, mas principalmente pelo Cartel Intersetorial que praticava todos os crimes contra os Direitos Individuais Galácticos: escravidão, sequestro, roubo, assassinatos e todo o tipo de crime. Se estava dentro de seu domínio, as leis Imperiais não alcançavam.

Na parte inferior da cidade, onde a massa se concentrava, baforadas de fumaça saiam de bueiros espalhados por todas as ruas, cobriam todo o cenário com uma aparência de sujeira, abandono. Rostos variados salpicavam por entre a fumaça, eram muitas raças vivendo em aparente tranquilidade umas com as outras; alguns andavam em grupos, outros preferiam a caminhada solitária. Mesmo ali, na parte baixa, os telões — apesar de menores — irritantes brilhavam com suas cores em neon cegante, forçando suas mensagens nas mentes dos transeuntes. Nudez, bebidas, ferramentas, transportes, sexo, drogas, armas e luz, muita luz jorrando de todos os lugares. Havia um contraste naquele ambiente: mesmo com muita luz espalhada por todos os cantos, muitas vielas continuavam escuras como o céu daquela noite, era impossível reconhecer alguém que estivesse saindo de alguma delas, somente a silhueta era visível, todo o resto não passava de pura sombra. Um pouco acima das ruas estavam os cabos que sustentavam aquela gama densa de iluminação, eles adornavam o ambiente junto com as luzes, dava à cidade a harmonia própria. A maioria estava apinhada em grossos amontoados que formavam um único cabo imenso e espesso, uma serpente feita de metal revestido e eletricidade de tamanho imensurável.

Escondido sob as várias camadas do autoritário neon, pouquíssimo percebido, estava um pequeno letreiro bastante simplória piscando sobre um humilde restaurante com janelas circulares e bordas salientes. O interior era tão comum quanto por fora. Um grande balcão separava os clientes dos funcionários: duas garçonetes nemurianas, um Pakkle[1] cozinheiro, um Ankor[2] ajudante de cozinha e, por fim, mas não menos importante, uma humana cuidando do caixa. Do outro lado, na área dos clientes, devido ao pouco espaço, as mesas foram dispostas em linhas próximas às paredes, percorrendo toda ela até o limite. Em número, era em torno de doze mesas, cada uma com duas poltronas largas de cada lado, com a posterior sendo uma extensão da anterior, formando uma única peça com dois acentos em lados opostos. As luzes tinham o tom amarelado, deixando o ambiente estranhamente aconchegantes; o piso era feito com algum tipo de porcelana quadriculada em preto e branco bastante gasto; as paredes estavam cobertas até o topo com algumas fotos, imagens de outros planetas ou veículos antigos em algum tipo de feira, além do proprietário segurando troféus e faixas com o número um. A aparência interna nada especial do restaurante, diante das inúmeras fotos espalhadas, perdia sua pomposa normalidade diante daquele obsessivo design sem forma e, o que poderia tornar o restaurante feio ou desinteressante, teve o efeito oposto, deu personalidade ao lugar.

Alguns poucos clientes comiam, outros poucos bebiam no balcão, era mais prático para quem estava com pressa. Numa mesa mais afastada duas jovens fêmeas, uma humana — Shanaria Ro — e uma nemuriana — Tal-Ne Ren —, tomando a bebida mais famosa da casa: café com leite de nuz’gaa[3]. A humana tinha a pele parda, os olhos eram escuros, densos e puxados levemente para cima, porém, eram tranquilos, leves, como se o mundo fosse desinteressante; os cabelos longos e negros, assim como os olhos, presos em um longuíssimo rabo de cavalo, ultrapassavam as nádegas da fêmea. Vestia-se bem para o lugar: a jaqueta espessa dava volume a parte de cima; as pernas eram o contraste do conjunto, a calça justa, sem nenhum bolso ou adereços, realçava as curvas do corpo, mas não deixavam marcas exageradas ou constrangedoras, o avançado tecido de camadas conferia às regiões sensuais de Ro total discrição, era a perfeita combinação entre confortabilidade e estilo; já as botas eram longas, poucos dedos abaixo dos joelhos e, diferente da jaqueta, eram bastante comuns. A nemuriana, por sua vez, apresentava-se bem mais elegante que a amiga, o longo vestido roxo de tecido leve era tão confortável quanto as calças de Ro, deslizando até os pés, cobrindo as sandálias cintilantes; o cabelo médio, bastante assimétrico, o lado direito maior que o esquerdo, chamou a atenção de outras fêmeas pela novidade peculiar; os olhos verde-esmeralda e a pele completamente rosada completavam a combinação inovadora que as numurianas costumavam inventar. Apesar de tão distintas esteticamente uma da outra, as duas pareciam apreciar a presença uma da outra.

— Meu chefe está preocupado com os galmorianos — confessou Tal-Ne entre goles de café. — O líder deles, Tarren, está com problemas internos com um dos clãs. Parece que o chefe do Clã da Cura, um tal de Kojara Zorg, não vê com bons olhos a relação entre o seu povo e a Jatta Medicamentos, acha que estamos, de alguma forma sorrateira, conspirando para tomar os recursos medicinais do planeta em comum acordo com Tarren. Um total absurdo! — exclamou com desdém.

— Que confusão! — exclamou Ro após um gole do café. — Isso aqui está simplesmente divino! — afirmou. — Então… os contratos foram cancelados?

— Não… quer dizer… pelo menos ainda não — suspirou. — Tarren e o chefe do Clã do Comércio, Numaq Norquan, conseguiram acalmar os ânimos do Zorg e, apesar de não ter sido uma grande vitória, ganhamos algum tempo para pensar em alguma estratégia — tomou um gole bem maior dessa vez.

— Como assim: “apesar de não ter sido uma grande vitória”? Esse Zorg é assim tão desconfiado? — apesar de parecer interessada no assunto, Ro estava relativamente jogando conversa fora.

— Segundo meu chefe, sim. Constantemente ele faz holochamadas querendo saber informações: localização dos laboratórios para onde os medicamentos vão, nomes dos responsáveis por esses laboratórios, dos pilotos das naves que transportam os produtos, o que estão fazendo com a matéria prima… — Tal-Ne revirou os olhos — um completo pé no saco!

— Que paranoico! Ele deveria trabalhar escrevendo roteiros para teatro ou quem sabe atuar em algum circo — disse, virando a xícara de café até o fim. O comentário fez a nemuriana rir, deixando Ro confusa. — Por que você riu?

— Eu imaginei o Zorg saltitando pelo palco do teatro com uma roupa bem justa — o tom da pele de Tal-Ne foi mudando de rosado para mais avermelhado de acordo com a intensidade de suas risadas. Os nemurianos nasciam todos com a pele rosada, mas mudavam de tonalidade de acordo com as emoções que estavam sentindo, assim, a alegria alterava o rosado para o vermelho, a tristeza tendia para o azul, enquanto a raiva deixava os nemurianos roxos, e assim por diante.

— Não deve ser uma visão que muitos pagariam para ver, eu imagino — tomou o último gole do café. — A não ser que fosse num circo — deu de ombros. A nemuriana não aguentou o comentário e a risada aumentou ao ponto de incliná-la sobre a mesa com dores no abdômen. Àquela altura a pele de Tal-Ne estava completamente vermelha Apesar de Ro também sorrir — mais por causa de sua amiga do que pelo que disse —, não achou que a reação de Tal-Ne seria tão exagerada.

— Melhor… — riu — melhor eu ir ao banheiro me recompor. Volto daqui a pouco — levantou-se e seguiu até o outro lado do recinto, apoiando-se nos objetos enquanto tentava controlar as risadas. Passado algum tempo Tal-Ne voltou à mesa, mas não cambaleava como antes, estava esguia o suficiente para realçar todas as curvas do seu belo corpo rosado mesmo oculto sob o longo vestido. Quando finalmente sentou, o assento rangeu pelo contato com as pernas da nemuriana, Tal-Ne passou a observar atentamente o que Ro fazia: viu a amiga pedir mais café, adicionar açúcar e mexer. Tudo que Ro fazia, cada movimento, Tal-Ne fitava com atenção. Ro havia notado que a amiga estava diferente desde que havia voltado do banheiro, mas não quis comentar nada, odiava conversas que gerassem algum desconforto.

O que houve com ela? Parece uma pessoa diferente, pensou. — Aconteceu alguma coisa, Tal-Ne? — indagou. A nemuriana balançou a cabeça confirmando que sim. Ro estreitou os olhos com desconfiança. Será que alguém a tratou mal? Talvez algum simpatizante do tal Zorg a reconheceu como funcionária da Jatta e decidiu força-la a fazer algo, pensou.

— Por que não está falando?

Porque não desejo assustá-la, criança — duas vozes falaram em uníssono, porém, nenhuma delas era a voz de Tal-Ne. Apesar da incrível surpresa, Ro não demonstrou externamente o que sentiu internamente. Permaneceu em silêncio, fitando os olhos de sua amiga tentando entender o que estava acontecendo.

— Você não é Tal-Ne. Quem é você? — engoliu seco.

Eu sou uma entidade divina. Meu nome é Linfa — os outros seres que estavam próximos pareciam não ouvir a conversa das duas fêmeas, passavam por elas como se a mesa estivesse vazia. Ro continuava sem demonstrar nenhuma reação, mas internamente havia um turbilhão de pensamentos e sentimentos, o coração batia rápido e um calor percorria todo o seu belo corpo, estava assustada, as mãos deram sinais de tremor, mas Ro conseguiu segurar. A boca ainda seca, engoliu outro seco.

— Como um deus ou anjo? — tomou o primeiro gole da segunda xícara de café após a nemuriana confirmar a pergunta com a cabeça. — Você quer alguma coisa com minha amiga? — mais outro gole de café e uma resposta negativa. — Você quer alguma coisa comigo? — a surpresa finalmente tomou o rosto de Ro, totalmente incrédula com a resposta positiva dita sem nenhuma palavra.

Você foi escolhida por mim para representar minha vontade — rompeu o silêncio. — Para ser minha profetisa.

— Do que você está falando? — o lábio de Ro se contraiu estranhamente quando ela bateu o abdômen na quina da mesa por causa do susto. Linfa, no entanto, suspirou e sorriu em completa tranquilidade.

Não há motivo para nervosismo, Shanaria Ro, nada será feito sem o seu consentimento. Não estou aqui para obrigá-la a fazer algo que você não queira, pelo contrário, minha vontade é me unir a você em comum acordo — Tal-Ne sorria com uma gentileza que Ro nunca havia visto antes.

— Suponhamos que eu acredite em você, o que exatamente você quer? — encarou Tal-Ne nos olhos.

Como eu havia dito — ficou em pé diante de Ro, apoiando as mãos sobre o espaldar da cadeira —, meu nome é Linfa, sou uma das quatro Deusas dos Humores. É de mim que os fleumáticos obtêm sua estrutura mineral ao nascerem — abriu os braços, sorrindo. — Os humores são os temperamentos. O temperamento é a estrutura básica que forma toda a psique dos seres com inteligência, isto é, todos os seres inteligentes da galáxia possuem um temperamento, e cada temperamento possui um modo de responder ao mundo — voltou a se sentar, tomando um gole do café de Ro.

A humana ficou olhando sua amiga fazer todos aqueles gestos, falar aquele monte de coisa — no mínimo estranhas —, tomar seu café e agir como se fosse tudo natural.

— Então, eu tenho esse tal de temperamento, certo? Qual é o meu? — arqueou uma das sobrancelhas.

Você é fleumática, Shanaria Ro — apontou para ela, depois para si mesma. — E o seu temperamento vem de mim. Eu sou a origem do temperamento fleumático, porque os fleumáticos compartilham características minhas. São seres calmos e tranquilos, que agradam a todos que estão ao seu redor. São pacientes com outros, envolvendo os seus, dando a eles a harmonia que desejam. Preferem a contração à expansão, porque é no concentrar que suas qualidades afloram, isto é, são seres que vivem para dentro, não para fora. A Água os representa não apenas porque envolve tudo, adapta-se, mas também porque acalma, esfria, umidifica tudo que toca — Tal-Ne não tirou os olhos dos de Ro, ambas as jovens se olhavam tentando compreender, ler uma a outra. Ro parecia buscar sinceridade nos olhos da amiga, enquanto Linfa — através de Tal-Ne — buscava expor sua honestidade. Finalmente, após outro gole de café já frio, que fez careta ao provar, Ro rompeu o silêncio.

— Não posso negar que seus olhos passam verdade, mas mesmo assim, não acho que seja o suficiente — respirou fundo. — Porém… — antes de concluir o que queria dizer, Linfa deixou o corpo de Tal-Ne como se o espírito dela deixasse o corpo. A nemuriana desabou sobre a mesa em sono profundo, deixando um fantasma de roupas sombrias, pele pálida e uma máscara com olhos tranquilos e sorriso meigo encarando Ro.

Ro estava tão perplexa com aquilo, os olhos arregalados, a respiração quase parando, que Linfa precisou se desculpar por ter se revelado daquele jeito.

— Acho que… acho que acredito em você dessa vez — engoliu outro seco. — Não é todo dia que isso acontece com alguém, digo… você saiu do corpo dela — Ro apontava repetidamente de Tal-Ne para Linfa, indo e voltando.

Realmente eu sinto muito por tê-la assustado, Shanaria Ro, não foi minha intenção.

— Não… tudo bem. Eu não iria acreditar em você se… — voltou a apontar para as duas — se isso não tivesse acontecido.

Então você aceita meu convite?

            — Isso foi inesperado. Nunca pensei que uma deusa viria falar comigo. Nunca pensei que deuses realmente existissem — confessou. — Digo, não é algo que você vê muito hoje em dia — Linfa concordou. — Vivemos em uma sociedade cética, com pouca ou nenhuma fé em seres divinos, talvez até hostil a qualquer coisa relacionada a isso.

Por que houve um desligamento entre nós e vocês. E é por isso que estou aqui: as deusas precisam de mortais para intervir no plano mundano e vo…

            — Fui escolhida por você. Eu entendi. Certamente terei de deixar Úmmela, meus amigos e minha família, porque essa não será uma coisa simples de fazer ou que poderia realizar daqui… estou correta? — Linfa concordou sem falar. — Bem, bem… — deu de ombros — talvez não seja uma má ideia conhecer a galáxia. Eu aceito — sorriu.

Você é inteligente, Shanaria Ro, isso me alegra! Agora tenho certeza que fiz a coisa certa em escolher você — confessou. — Esse é o retorno do religamento entre mortais e divindades, depois de anos de silêncio. Eu, Linfa, uma das Quatro Deusas dos Humores, dou minha bênção a você, Shanaria Ro, e a nomeio como minha Profetisa de hoje até os teus últimos dias. Quatro é Um e Um são Quatro!

Um intenso brilho saiu dos olhos de Linfa, impossibilitando a visão de qualquer coisa ao redor por alguns segundos, até finalmente cessar e tudo voltar ao normal.

Tal-Ne acordou de seu sono forçado, confusa, limpando a baba que escorria da boca. Ro deu risadas contidas quando viu o estado da amiga, mal sabendo ela tudo que havia acontecido.

— O que aconteceu? Eu dormi?

— Sim. Depois que você chegou do banheiro foi minha vez de ir, quando voltei você estava dormindo sobre a mesa. Acho que colocaram alguma coisa no leite — explicou Ro, rindo.

— Mas eu não lembro de ter voltado para a mesa. Eu estava lavando as mãos e… — Tal-Ne se esforçou para lembrar — não consigo lembrar nada depois disso.

— Deixa pra lá! — continuou sorrindo

— Por que você está rindo?

— Por nada. Só achei engraçado você toda descabelada — gargalhou.

— Isso não é coisa que se faça com uma amiga! — penteou os cabelos com as mãos o quanto conseguiu e a baba.

— Melhor pedir a conta e irmos embora. Vamos aproveitar o resto da noite enquanto podemos.

— É melhor. Mas preciso ir ao banheiro antes! Não posso sair desse jeito — saiu correndo em direção ao banheiro. Ro continuou olhando e rindo a amiga em desespero.

 

***

 

[1] Um tipo de polvo humanoide com tentáculos no lugar das mãos e dos pés.

[2] Os Ankor eram homens-lagartos, extremamente calmos devido ao sangue frio, apesar da aparência intimidadora.

[3] Animal herbívoro abundante no planeta Galmori, muito procurado por sua carne saborosa e seu leite fermentado natural, porém difícil de ser capturado devido aos seus hábitos subterrâneos.

Os Contos dos Quatro Humores: Colérico, o Fogo

O ruído de metal sendo soldado, cortado e batido era misturado com vozes, gritos e gargalhadas ressoando em todo o galpão. Grandes armários e prateleiras de ferro estavam soltas sem nenhuma organização prévia, com poças de óleo no chão, faíscas voando, ruídos de ferramentas se chocando umas nas outras… o lugar era uma algazarra.

Duas vastas linhas de pilastras que apontavam em direção à saída impediam que o teto desabasse, altas o suficiente para facilitar a locomoção pelos andaimes, e também resistentes para suportar todo aquele peso maciço. Espalhados por todo lugar haviam enormes máquinas triangulares feitas de metal Kyr pintadas de vermelho-sangue, os cascos completamente fechados com somente uma pequena abertura metros acima do bico em forma de broca — era por ali que o piloto enxergava.

Do alto do teto pendiam grandes soldas presas em tubos de energia bem acima dos veículos com vários humanos machos puxando ou arrastando a ponta avermelhada que lembrava uma gigantesca agulha de fogo.

— Thylon, quantas vezes eu já falei para não puxar a solda desse jeito? — disse um dos homens mais ao fundo da oficina; tinha a estatura baixa, mas o corpo era bastante musculoso; estava completamente sujo de óleo e marcas de queimadura nos braços e no rosto. Usava um macacão preto sem mangas — notadamente ele mesmo havia cortado por que os fios irregulares se soltavam — que cobria todo o corpo; a roupa oferecia uma proteção para cabeça, mas também foi removida, deixando apenas um grande par de óculos de lentes escuras que servia para proteger os olhos do fogo expelido pela solda. Era um homem de idade avançada, mas bastante conservado.

— Não enche o saco com seus sermões de merda, Kigi! — exclamou o rapaz poucos metros à frente. — Não tenho mais tempo para eles! — Thylon era bem mais novo que Kigi, tinha cabelos dourados quase raspados, olhos azuis e uma expressão triste; assim como Kigi, vestia o macacão preto e usava óculos para proteção, mas diferente do colega mais velho, as mangas do macacão estavam intactas, assim como a máscara de proteção. Era bem mais alto que Kigi, por sinal, porém menos musculoso. — Eu não tenho espaço para virar a maldita solda, então preciso força-la — puxou a ferramenta ao ponto do tubo se chocar com as passarelas, causando um forte barulho seco e oco. — Merda de solda pequena! — resmungou.

— Cuidado com a boca, moleque!  — a veia na testa de Kigi saltou. — Toda vez você diz a mesma coisa, mas por sua causa já mandamos consertar três soldas! Acha que temos tanto dinheiro e tempo para perder? Acha que é o único com pouco espaço, moleque mimado?

— É a verdade, velho maluco! Não faço isso de propósito! Se você não acredita, o problema é seu — apontou a solda para Kigi. — Eu tenho o direito de reclamar como todo mundo aqui; trabalho a mesma quantidade de horas que todos, às vezes bem mais que muitos! — Thylon sacudia a solda enquanto bradava, irado, com os colegas próximos. Quando finalmente se acalmou. — Agora me deixe trabalhar, tenho muito o que fazer! — deu as costas puxando a solda para fechar uma rachadura no casco do veículo.

— Não me dê as costas, Thylon, e pare de ficar se vitimizando. Em todo lugar encontramos pessoas com mais ou menos dificuldades que as nossas, então pare de olhar para o próprio umbigo feito uma criança que não ganhou o presente que queria! — a voz de Kigi ecoou tão alto e forte que cobriu todo o barulho de metal; os outros trabalhadores tinham interrompido o trabalho para ouvir. As mãos calejadas de pequeno homem largaram a solda e ele desceu do veículo-escavador em direção ao colega — Quem você pensa que é? Engula esse seu egoísmo de merda e faça o seu trabalho com o que você tem sem encher o saco dos outros!  — outra veia da testa de Kigi saltou, desta vez no lado esquerdo; ele abriu os braços como se falasse com os outros trabalhadores do alto de um púlpito; era um gesto simbólico que Thylon foi forçado a se segurar para não avançar sobre o colega.

— Você ainda continua falando, velho? Não cansa de bancar o homem maduro quando nem ao menos conseguiu manter o próprio casamento? Não dê lições de moral quando sua própria vida é o exemplo de fracasso.

— CALEM-A-DROGA-DA-BOCA! — outra voz bradou como um trovão, feroz e poderoso o suficiente para rivalizar com os sons agudos de metal batendo, cortando e soldando. Thylon e Kigi baixaram a cabeça na mesma hora, já sabendo que estavam com problemas.

— Reblas, desculpe por isso, mas o… — Thylon sequer conseguiu terminar a frase e novamente foi interrompido.

— Você é surdo, Thylon? Eu já falei para calar a boca! — exclamou, vendo o funcionário erguer as mãos pedindo calma. Reblas era um homem maduro, de corpo esbelto, não tão forte quanto Kigi, mas sua altura lhe proporcionava uma divisão melhor dos músculos. Os cabelos negros e lisos eram penteados para trás, quase lambidos, muito bem cuidados; os olhos eram tão escuros quanto os cabelos, mas sem dúvida muito mais cheios de vida, convergindo bem com seu rosto expressivo; a jaqueta vermelha de couro aberta, que lhe caía bem, cobria a camiseta simples por baixo; as caças eram de tecido mais justo e nos pés um par de botas cano relativamente longo. No peito esquerdo da jaqueta dava para ver em letras bordadas: Lak Escavações, bem acima do desenho de uma pirâmide cujo topo formava uma broca.

— Estou cansado de ouvir vocês dois brigando toda semana! Por acaso são crianças? — Reblas estava dentro de uma cabine localizada mais à direita, abaixo das passarelas, mas acima das máquinas e dos trabalhadores. Da janela a vista era privilegiada, garantia uma vista ampla de todo a oficina.

— Então é melhor que o Kigi me deixe trabalhar em paz.

Os olhos de Reblas estreitaram por alguns segundos, fixos em Thylon como uma fera fitando sua presa. As mãos, apoiadas sobre base da janela, apertaram com força a borda de maneira; os ombros de Reblas tensionaram, assim como seus braços.

— Sabe qual é o seu problema, Thylon? Você se comporta como se o mundo e os outros devessem algo a você — os dentes de Reblas também tensionaram, dava para notar a rigidez em seu maxilar. Respirou fundo antes de retomar sua fala e, por pura força de vontade, o corpo foi relaxando — Ninguém deve nada a você! — gotas de saliva voaram quando Reblas rugiu como um animal selvagem. Thylon não teve reação, estava paralisado pelo medo.

Todos os trabalhadores, sem exceção, interromperam suas atividades quando ouviram o berro do chefe; até mesmo os mais antigos, que estavam com Reblas desde a fundação da empresa, sentiram, por pura intuição, que deveriam ficar quietos; não era uma reação comum para todos eles, inclusive os mais antigos.

— Enquanto você reclama por bobagem, os outros precisam trabalhar cinco, dez, vinte, até mesmo uma hora a mais para cobrir o seu tempo desperdiçado! — ouviu-se o som abafado do metal se chocando contra o punho de Reblas de longe — Não importa se você acha ruim, se o Kigi começou, se isso cansa, se você não gosta dele… tudo o que importa aqui é que você aceitou o trabalho livremente. Ninguém o forçou a estar aqui e não estou o explorando como a maioria das empresas de escavações — mais uma vez Reblas respirou fundo para se acalmar; o punho vermelho estava de volta à janela. — Meus contratos são justos, mas se não está feliz aqui, procure emprego em outro lugar — apenas a voz de Reblas era ouvida, mesmo após o fim do sermão, ninguém ousou falar absolutamente nada, nem mesmo Thylon, ainda assustado com o que viu e ouviu.

— Chefe… — a voz falhou e Thlon engoliu seco; sua cor estava mais pálida e os olhos pareciam perdidos, não conseguiam se concentrar em um ponto fixo — eu não quis dizer que não gosto de trabalhar aqui, foi apenas uma maneira de dizer… foi o cansaço talvez… não sei… vamos deixar isso pra lá, tudo bem? Vou voltar ao trabalho.

— Essa foi a coisa mais inteligente que você disse hoje, Thylon — fitou o funcionário por um tempo antes de voltar a atenção para os demais trabalhadores — Voltem ao trabalho!

— Ah! Antes que eu esqueça… — Reblas olhou para Thylon. — Se você quebrar mais uma solda, vou fazer pior que descontar do seu pagamento, talvez eu mande uma hologravação para Shiima com as notas fiscais de todas as soldas que você quebrou.

— Também não precisa apelar, chefe! — reclamou. — Eu estou morto se Shiima souber!

— Então quer dizer que sua esposa não sabe? — Kigi deu uma gargalhada tão alta que outros funcionários foram contagiados. — Não vou deixar essa informação passar em branco.

— Chega de conversa! Voltem ao trabalho! — Reblas gritou, recolhendo-se para dentro da cabine e fechando a janela. Estava segurando o que parecia ser uma bola pequena numa das mãos, atento a uma tela virtual que flutuava no ar sobre uma luz em forma de cone emitida por um cubo transparente.

Problemas? — uma voz trêmula e robótica saiu da tela.

— Não foi nada.

Então vamos continuar.

— Mantenho a oferta de 5.000 denários pela T-500.

Já falamos sobre isso, Reblas, o valor está abaixo do mercado, e eu garanto que você não vai encontrar outra broca T-500 pelo valor que estou oferecendo.

            — Não tenho como oferecer mais do que isso, Konon, sem contar que a broca já é usada. Minha contraproposta é pagar o que você quer, mas pelo tempo que pedi — jogou a bola contra a parede que a rebateu, voltando para as mãos de Reblas num piscar de olhos.

Dois anos-setorial? Impossível! — retrucou a voz.

— Então não tem negócio. Por mais que eu precise dela, ainda tenho outras brocas e posso procurar o Ravir para negociar — aquele simples nome fez Konon esbravejar.

Tsc! Aquele ignorante? Não venha com essa! — ouviu-se um risinho de escárnio. — Não admito perder um cliente para aquele infame, ainda mais você! Façamos o seguinte: me dê 5.200 denários e a broca é sua!

— É assim que se fala! — sorriu, transferindo o dinheiro pela tela flutuante. Houve um som de alguma coisa sendo processada e então um “Pim!” seguido por um pequeno quadrado verde no centro da tela com as palavras: Transferência Finalizada. — O valor já está na sua conta. Já sabe para onde mandar o equipamento. Qual o prazo?

Certo… recebido — confirmou. — Deixa-me ver aqui… um, dois… — a voz ficou em silêncio por alguns segundos — em no máximo uma semana.

— Ótimo! — Reblas deu a volta para sentar na cadeira atrás da mesa. — Foi bom fazer negócios com você, Konon — despediu-se.

Você é um safado de um esperto, mas é um dos meus melhores e fieis clientes, não posso reclamar muito — a voz soltou uma risada. — Até mais, Reblas! Avise-me caso precise de mais alguma coisa — a voz se desconectou e a tela flutuante foi recolhida quando o cone de luz sumiu.

A cadeira rangeu quando Reblas sentou, forçando o espaldar para se espreguiçar, bocejando. O corpo todo estava tenso e dolorido devido ao longo tempo sentado; os olhos já estavam pesados àquela altura, até Reblas finalmente cair no sono.

O som da holochamada o acordou, fazendo-o saltar da cadeira com o susto. Olhou a hora na tela flutuante já ativada, era tarde e ele deveria ter ido embora. O ruído do comunicador não parava de soar, mas Reblas preferiu não atender.

Toque o quanto quiser, pensou, pegando a jaqueta sobre a mesa e seguindo em direção à saída.

Não vai atender, Lak Reblas? — disse a voz no holocomunicador que, em verdade, eram duas, uma masculina e outra feminina. Reblas virou em direção a mesa totalmente assustado. Não seria possível o equipamento ter feito o autoatendimento, ele não possuía essa função desde quando seu antigo dono a retirou.

Se não atender, serei forçada a ir até aí — ameaçou a voz, mas Reblas permaneceu em silêncio, aproximando-se do holocomunicador devagar, em passos curtos e quase inaudíveis. Próximo o bastante para tocá-lo, tomou outro susto.

Acha que não estou ouvindo você, Lak Reblas? Eu ouço, vejo e sinto TUDO! — as palavras do holocomunicador paralisaram Reblas por um momento, no entanto, não o suficiente para amedrontá-lo.

— Isso é algum tipo de brincadeira? Quem é você? — indagou. — É você, Méjja? Se for vo… — não deu tempo de continuar a frase, Reblas teve a sensação de que algo no ar estava diferente. No mesmo instante o espaço foi rasgado, bem ali, na frente da mesa dele, diante dele. A fenda era tão escura que não dava para saber o que havia do outro lado, ao menos não até duas mãos, dois braços e todo o corpo de uma mulher atravessar, como se um pedaço daquele breu estivesse ganhando vida.

Os olhos escuros de Reblas não piscavam, estavam esbugalhados; toda a face havia perdido o rubor e Reblas sentiu o corpo transpirar mais que o normal. Deixou a jaqueta cair sobre os próprios pés devido ao susto. A mulher tinha quase todo o corpo coberto por um manto incrivelmente escuro, com tiras negras que flutuavam se assemelhando à roupas desfiadas e as mãos, delicadas como seda, estavam amostra; o rosto era coberto por uma máscara branca com um sorriso de orelha a orelha, além dos olhos com expressões ferozes e audaciosas.

— Isso é um sonho? — indagou Reblas enquanto tocava o próprio corpo.

­Eu sou Íbilis, uma das quatro Deusas dos Humores — disse sem dar atenção a pergunta dele. — É de mim que os Coléricos obtêm sua estrutura mineral ao nascerem — afirmou, afastando os braços num gesto de autoelogio.

— Deusas dos humores? Você é uma deusa? — a entonação da palavra “deusa” saiu junto com um risinho de incredulidade, causando uma reação tensa de Íbilis.

Está zombando de mim, mortal? — disse se aproximando de Reblas, a mão se erguendo poucos metros antes de alcançar seu alvo, fazendo Reblas flutuar alguns centímetros do chão e voar em sua direção tão rápido que o deixou tonto. O encaixe da palma de Íbilis sobre o pescoço do rapaz foi perfeito, quase natural. Reblas tentou se desvencilhar, mas nada do que fazia era o suficiente, não tinha força para se soltar e não conseguia acertar um chute na mulher porque seus pés paravam antes de alcança-la.

— Tu-tu… tudo… be-bem… — balbuciou em desespero, o rosto completamente vermelho, bem diferente da palidez anterior. Íbilis por fim o largou.

Não sou como minhas irmãs, mortal, então tome cuidado com o que sair de sua boca enquanto estiver diante de mim! — exclamou. Seu ficou tão próximo ao de Reblas que o humano sentiu vontade de reagir, mas sua notável força de vontade o conteve.

— Tudo bem, Sra. Deusa dos…

Íbilis. Me chame de Íbilis.

— Certo… Íbilis. O que você quer de mim — por mais estranho que isso seja? — a voz falhou ligeiramente devido a dor na garganta. Reblas massageava toda a região com desconforto.

Direto ao ponto. Gosto disso. Sente-se — não esperou a resposta antes de erguer Reblas no ar com um único gesto, repousando-o sobre a cadeira.

Os humores são os temperamentos. O temperamento é a estrutura básica que forma toda a psique dos seres com inteligência, isto é, todos os seres inteligentes da galáxia possuem um ou mais temperamentos. No entanto, a imensa maioria possui um em destaque. Ora, o temperamento é responsável pelo modo como cada ser compreende o mundo ao seu redor, ou seja, todos recebem impressões do mundo e, naturalmente, devolvem essas impressões de uma maneira muito específica. Portanto, um melancólico não reagirá de forma natural diante de alguma circunstância do mesmo modo que um colérico, sanguíneo ou fleumático. Cada humor tem características específicas, apesar de serem apenas quatro.

— Hum… e qual seria o meu temperamento? — indagou ainda com a voz fraca.

Como a deusa ao qual os coléricos obtêm sua estrutura, e por ter vindo especificamente por sua causa, fica evidente que você é um ser de temperamento colérico — predominantemente colérico. Em você vejo a capacidade para liderar os seus, de guia-los rumo à verdade e de protege-los quando em perigo; vejo o ímpeto que o faz confiar nas suas escolhas, não se importando com as opiniões dos outros, porém, sem a arrogância ditatorial nem a rigidez da ira. Você é aquele que trouxe o fogo e, como tal, deve ser aquele quem os outros devem seguir. O fogo queima, mas o fogo aquece, e as duas coisas são fundamentais.

— Você é a deusa que representa os coléricos?

Não… eu sou a origem do qual os coléricos são coléricos — corrigiu.

— Então — levantou-se —, você é uma deusa que possui três outras deusas como irmãs, e cada uma é origem dessa estrutura psíquica ou mental de todos que você chama de temperamento, é isso? — não havia desdém nem zombaria nas palavras.

Correto.

— Eu aceito.

Tem certeza?

            ­— Sim.

Por que aceitou tão rápido?

— Meu avô contava estórias sobre você e suas irmãs e tinha fé nas suas existências — um pequeno sorriso se formou. — Fui criado por ele e adorava essas estórias, mas elas foram muito mais do que simples estórias para mim.

Eu lembro do seu avô, era um homem bom, cheio de energia, seu enorme coração lhe permitia olhar o próximo com empatia honesta, e isso o tornava adorável aos olhos de todos. Um legítimo Sanguíneo! — flutuou para frente. — Seu avô o educou bem, Lak Reblas. Vejo que fiz a escolha certa — Íbilis fez uma reverência.

— Ele era realmente o melhor dos melhores — suspirou. — A honra é minha em ter sido escolhido — retribuiu a reverência. — Quatro é Um e Um são Quatro — disse, sorrindo para Íbilis que não conteve a risada.

Esse é o retorno do religamento entre mortais e divindades, depois de anos de silêncio. Eu, Íbilis, uma das Quatro Deusas dos Humores, dou minha bênção a você, Lak Reblas, e o nomeio como meu Profeta de hoje até os teus últimos dias. Quatro é Um e Um são Quatro!

Houve um intenso brilho vindo dos olhos de Íbilis, forte o bastante para ofuscar tudo ao redor, cegando Reblas por alguns segundos e o acordando em seguida. Ele havia caído da cadeira por ter feito força demais para trás enquanto dormia.

— Foi um sonho? Mas pareceu tão real… — aquelas eram nítidas palavras de lamento. Levantando-se, colocou a cadeira no lugar e arrumou rapidamente a mesa, percebendo sua jaqueta mais ao canto. Foi até lá, inclinou-se e esticou a mão para pegá-la até notar uma mancha escura no dorso de sua mão: três linhas de tamanho idêntico, todas em posição vertical, com a linha central ligeiramente abaixo das outras duas. Instantaneamente Reblas começou a rir.

— Eu sabia que não era um sonho! — exclamou.

A prece atendida

Seitas se formam e se reúnem frequentemente a cada dia, o mundo se tornou tarado atrás do “bem” mais valioso que algum deus poderia conceder: uma prece atendida.

Um mundo baseado nas descobertas de uma cultura muito antiga que afinal foi validada e comprovada: os launitas. A cada década uma prece de algum ser humano teria sua prece daquele dia atendida, não importando qual fosse. Com o apoio da ciência que no último século, financiado pelas grandes famílias globalistas do mundo, conseguiram com uma boa propaganda e muita observação, identificar das nove preces, quatro incidentes de causas desproporcionais, que coincidiam com o desejo de um ser humano. Após essa descoberta, todas religiões caíram em apostasia geral, com seus fiéis convertendo-se ao launismo. Seitas formavam-se em uma mesma prece na tentativa de que o escolhido estivesse entre eles e satisfizesse um desejo comum daquela seita, assim como sua primeira heresia, os obvienistas, pessoas que como oração diária desejavam que o Sol se pusesse no Oeste e nascesse no Leste dia seguinte. O que obviamente, é uma obviedade…