A brincadeira

Um claro dia de inverno… o frio é forte e seco de estalar, e Nádenka, que eu levo pelo braço, fica com os cachos das fontes e o buço no lábio superior orvalhados de prata cintilante. Estamos no cume de um morro alto. Diante dos nossos pés, até a planície, lá embaixo, estende-se um declive escorregadio e brilhante no qual o sol se mira como um espelho. Ao nosso lado está um trenó pequenino, forrado de pano vermelho-vivo.

— Deslizemos até lá em baixo, Nadêjda Petrovna! – imploro eu. — Só uma vez! Garanto-lhe, ficaremos sãos e salvos!

Mas Nádenka tem medo. Toda essa extensão, desde as suas pequeninas galochas até o fim da montanha de gelo, se afigura a ela como um terrível abismo de profundidade imensurável. Ela fica tonta e perde o fôlego, só de olhar lá para baixo, quando eu apenas lhe proponho sentar-se no trenó – que terá então se ela arriscar despenhar-se no precipício? Ela morrerá, enlouquecerá!

— Eu lhe suplico! – digo eu. — Não tenha medo! Compreenda, isso é fraqueza, é covardia!

Nádenka cede, finalmente, e eu vejo pelo seu rosto que ela cede com receio pela própria vida. Acomodo-a, pálida e trêmula, no trenó, sento-me, enlaço-a com o braço e junto com ela precipito-me no abismo.

O trenó voa como uma bala. O ar cortado chicoteia o rosto, silva nos ouvidos, bate, belisca raivoso até doer, quer arrancar a cabeça dos ombros. A pressão do vento tolhe a respiração. É como se o próprio diabo nos tivesse agarrado com as suas patas, e, urrando, nos arrastasse para o inferno. Os objetos que nos cercam fundem-se num só longo risco, que corre vertiginoso. Parece, um instante mais, e estaremos perdidos!

— Eu te amo, Nádia! – digo eu a meia voz.

O trenó começa a deslizar mais devagar, mais devagar, os uivos do vento e os zumbidos das lâminas do trenó já não são tão terríveis, a respiração já não é tão ofegante, e, finalmente, chegamos ao fim. Nádenka está mais morta do que viva. Está pálida, mal consegue respirar. Eu a ajudo a se levantar.

— Nunca mais farei isto – diz ela, encarando-me com os olhos dilatados, cheios de terror. – Por coisa alguma do mundo! Por pouco não morri!

Logo depois, ela volta a si e já me fita com um olhar interrogador: terei sido eu quem disse aquelas quatro palavras, ou foi apenas uma alucinação dentro do zunido da ventania? Mas eu estou calado diante dela, fumando e examinando com atenção a minha luva.

Ela toma o meu braço e passeamos longos minutos diante do morro. O problema, visivelmente, não a deixa em paz. Foram pronunciadas aquelas palavras, ou não? Sim ou não? Sim ou não? É uma questão de amor-próprio, de honra, de vida, de felicidade, uma questão muito importante, a mais importante do mundo. Nádenka perscruta o meu rosto com olhares impacientes, tristes, penetrantes, responde atabalhoadamente, espera que eu fale. Oh, que jogo de emoções neste rosto encantador, que jogo! Vejo que ela luta consigo mesma, que precisa dizer alguma coisa, perguntar, mas não encontra palavras, está encabulada, amedrontada, embargada pela alegria…

— Sabe duma coisa? – diz ela, sem olhar para mim.

— O quê? – pergunto eu.

— Vamos mais uma vez… deslizar pelo morro.

Subimos para o cume, pela escada. De novo faço Nádenka, pálida e trêmula, sentar no trenó, de novo nos despencamos no precipício medonho, de novo uiva o vento e zunem as lâminas, e de novo, quando o vôo do trenó está no auge do ímpeto, eu digo a meia voz:

— Eu te amo, Nádenka!

Quando o trenó se detém, Nádenka lança um olhar para o morro que acabamos de descer voando, depois perscruta longamente o meu rosto, escuta, atenta, a minha voz indiferente e calma, e toda ela, toda, até mesmo o regalo de peles e o capuz, toda a sua figurinha, exprime extrema perplexidade. E no seu rosto está escrito: “Mas o que é que está acontecendo? Quem pronunciou aquelas palavras? Foi ele, ou foi engano dos meus ouvidos?”.

Esta incerteza a perturba, a impacienta. A pobre menina não responde às minhas perguntas, franze a testa, está prestes a romper em choro.

— Não preferes ir para casa? – pergunto eu.

— Mas eu… eu gosto destas… descidas – diz ela, enrubescendo. Não quer deslizar mais uma vez?

Ela “gosta” destas descidas, e, no entanto, sentando-se no trenó ela, como das outras vezes, fica pálida, ofegante de medo, trêmula.

Descemos pela terceira vez, e eu vejo como ela fita o meu rosto, como observa os meus lábios. Mas eu aperto o lenço contra a boca, tusso, e quando chegamos ao meio do declive, deixo escapar:

— Eu te amo, Nádia!

E a charada continua charada! Nádenka se cala, está pensando… Acompanho-a para casa, ela procura andar mais devagar, atrasa o passo, espera sempre que eu lhe diga aquelas palavras. E eu vejo como sofre sua alma, como ela tem que se esforçar para não dizer: “Não pode ser que tenha sido o vento! E eu não quero que tenha sido o vento quem falou aquilo!”.

No dia seguinte de manhã, recebo um bilhetinho: “Se o senhor vai ao morro hoje, venha me buscar. N.”. E desde essa manhã, comecei a ir com Nádenka ao morro, todos os dias e, voando encosta abaixo, no trenó, eu pronuncio, cada vez, a meia voz, as mesmas palavras:

— Eu te amo, Nádia!

Logo Nádenka acostuma-se a esta frase, como ao vinho e à morfina. Não pode viver sem ela. É verdade – voar montanha abaixo lhe dá medo, como antes, mas já agora o medo e o perigo adicionam um encanto especial às palavras sobre o amor, as palavras que, como dantes, constituem uma charada e oprimem a alma. São sempre os mesmos dois suspeitos: eu e o vento… Qual dos dois lhe declara o seu amor, ela não sabe, mas, ao que parece, isto já não lhe importa mais; não importa o vaso em que se bebe, importa ficar embriagada!

Um dia, fui até o morro sozinho; misturei-me à multidão e vi como Nádenka chegou até o sopé, como me procurou com os olhos… E depois, timidamente, ela sobe os degraus… Ela tem medo de ir sozinha, oh, quanto medo! Está pálida como a neve, treme e vai, como se fosse para o cadafalso, mas vai, vai sem olhar para trás, com decisão. Pelo visto, ela resolveu, finalmente, tirar a prova: será que se farão ouvir aquelas palavras estranhas, quando eu não estiver junto? E vejo como ela, lívida, com a boca entreaberta de horror, toma assento no trenó, fecha os olhos, e, despedindo-se para sempre do mundo, o põe em movimento… “zzzzzz…” zunem as lâminas. Ouvira Nádenka aquelas palavras? Não sei… Vejo apenas como ela se levanta do trenó, exausta, fraca. E vê-se pelo seu rosto que nem ela mesma sabe se ouviu alguma coisa ou não. O pavor, enquanto ela voava morro abaixo, roubou-lhe a capacidade de ouvir, de distinguir os sons, de entender…

Mas eis que chega o mês de Março, primaveril… O sol torna-se mais carinhoso. O nosso morro de gelo escurece, perde o seu brilho e se derrete, afinal. Acabaram os passeios de trenó. A pobre Nádenka já não tem mais onde ouvir aquelas palavras, e nem há quem as pronuncie, pois o vento não se ouve mais, e eu me preparo para voltar a Petersburgo – por muito tempo, quiçá para sempre.

Uma vez, pouco antes de partir, uns dois dias, estava eu sentado, ao crepúsculo, no jardinzinho, separado do pátio onde mora Nádenka por uma cerca alta de madeira. Ainda faz bastante frio, debaixo do lixo ainda há neve, as árvores ainda estão mortas, mas já cheira à primavera, e, preparando-se para a noitada, as gralhas fazem grande algazarra. Aproximo-me da cerca e espio pela fresta. E vejo como Nádenka sai para os degraus e fixa o olhar tristonho e saudoso no firmamento. O vento da tarde sopra-lhe no rosto pálido e desanimado… Ele lembra-lhe aquele outro vento, que uivava lá no morro, quando ela ouvia aquelas quatro palavras, e seu rosto fica triste, triste, e pela face desliza uma lágrima. E a pobre menina estende os braços, como se implorando ao vento que lhe traga aquelas palavras mais uma vez. E eu, esperando o vento favorável, sopro a meia voz:

— Eu te amo, Nádia!

Deus meu, o que se passa com Nádenka! Ela solta um grito, sorri com o rosto inteiro e estende os braços ao encontro do vento, risonha, feliz, tão bonita.

E eu vou arrumar as malas…

Isto foi há muito tempo. Agora, Nádenka já é casada; casaram-na, ou foi ela mesma que quis – isto não importa – com um secretário da Curadoria, e hoje ela já tem três filhos. Mas os nossos passeios no morro e a voz do vento trazendo-lhe as palavras “eu te amo, Nádenka”, não foram esquecidos. Para ela, isto é hoje a mais feliz, a mais comovedora e a mais bela recordação de sua vida…

Mas eu, hoje, que estou mais velho, já não compreendo mais por que dizia aquelas palavras.

Não compreendo mais por que brincava…

Conversando com a vida

Belém. Capital. Trânsito indiano. Só não mais desorganizado e confuso que a minha vida. Enfrento uma rotina que me enforca todos os dias como se eu fosse uma garrafa de cerveja, sendo assassinada pelo seu próprio gargalo. Boletos, aluguel atrasado, ciúmes, responsabilidades, ônibus lotado e um Burnout no trabalho sacrificante. Problemas. Muitos problemas. Acho que sou o ser humano que mais possui problemas nessa vida. Me chamo Sereno.

Um dia, subi no ônibus para ir ao trabalho. Sentei-me. Ufa! Como consegui essa proeza naquela hora da manhã? Enfim, peguei meu diário e tentei escrever algo. Escrevi sobre mudanças, tempo e sexo. E foi aí que algo chamou a minha atenção. Aquilo que eu vi, deixou-me petrificado; abestalhado; lesado mesmo. Olhei aquilo como se algum extraterrestre estivesse ali bem na minha frente e no mesmo ônibus do que eu. Larguei minhas anotações e observei.

Aff! Calor, sensação térmica de 40 graus, suor escorrendo pela coluna até o cóccix, gente reclamando do engarrafamento e do governo. Sirene. Ambulância. Meus tímpanos pediam “Socorro”. Mas eu ainda estava ali. Concentrado naquela… Bom, de repente, aquele ser olhou para mim e deu um longo sorriso. Sorriso? Como alguém consegue sorrir no mundo em que vivemos? Será que aquela senhora era alguma marciana? Como a mídia ou a Nasa não haviam divulgado aquele alienígena?

Meus Deus! Com fones de ouvido, ela ainda fazia uma dancinha com cabeça, devido a algum ritmo dançante que estava ouvindo. Como pode tanta alegria diante do vale das sombras que vivíamos naquele coletivo?

Um rapaz passou e esbarrou nela com violência. Ela virou-se para ele com rapidez. É agora. Esse é o momento em que aquela mulher se revoltaria e se transformaria no cavalo do vingador com nariz chamuscando e… “Opa! Tudo bem. O ônibus tá lotado. Eu entendo.” Respondeu aquela mulher. Hã? Como assim? Nada de reclamação? Ah! Eu teria falado poucas e boas para aquele sujeito.

Desci na próxima parada. E aquela criatura estranha descera junto comigo. Chuva. Ah, Belém! Eu já devia supor essa volatilidade no tempo. Fiquei puto. Cadê o meu guarda-chuva? Não estava na minha mochila. “Quer uma carona?”. Vi uma sombrinha minúscula na minha frente. “Como vou caber aí oh minha tia?” Pensei. O objeto era dela. Era da “Senhorinha” que, agora, oferecia uma vaga ao seu lado para eu não me molhar. Impossível. E ela ainda trazia aquele bendito sorriso no rosto. Aff!

Aceitei. E quando ela me deixou em um lugar seguro e coberto, seguiu o seu caminho: feliz e molhada. E eu? Ah! Molhado, enfurecido e triste com a forma que eu estava conversando com a vida.

Amor Verdadeiro

Meu nome é Joe. É assim que meu colega, Milton Davidson, me chama. Ele é um programador e eu sou um programa de computador. Faço parte do complexo Multivac e estou conectado com todas as suas outras partes espalhadas pelo mundo inteiro. Eu sei tudo. Quase tudo.

Eu sou o programa particular de Milton. O seu Joe. Ele entende mais sobre programação do que qualquer outra pessoa no mundo, e eu sou o seu modelo experimental. Ele me fez falar melhor do que qualquer outro computador.

– È só uma questão de emparelhar sons com símbolos, Joe – ele me disse. – E esse o modo como funciona no cérebro humano, embora ainda não saibamos que símbolos existem no cérebro. Mas eu conheço os seus símbolos e posso fazê-los corresponder a palavras, um por um.

Por isso eu falo. Não acho que falo tão bem quanto penso, mas Milton diz que falo muito bem. Milton nunca se casou, embora já tenha quase quarenta anos. Ele nunca encontrou a mulher certa, foi o que me contou. Um dia, ele disse:

– Ainda vou encontrá-la, Joe. Encontrarei a melhor de todas. Vou ter um verdadeiro amor e você vai me ajudar. Estou cansado de aperfeiçoá-lo para resolver os problemas do mundo. Resolva o meu problema. Encontre-me um amor verdadeiro.

– O que é um amor verdadeiro? – disse eu.

– Não importa. Isso é abstrato. Apenas me encontre a garota ideal. Você está conectado com o complexo Multivac, por conseguinte tem acesso aos bancos de dados de cada ser humano no mundo. Vamos eliminar todos eles por grupos e classes até ficarmos com apenas uma pessoa. A pessoa perfeita. E ela será minha.

– Estou pronto – disse eu.

– Elimine todos os homens primeiro – disse ele.

Isto foi fácil. Suas palavras ativaram símbolos em minhas válvulas moleculares. Eu pude amplificar-me para entrar em contato com os dados acumulados sobre cada ser humano no mundo. Conforme suas palavras, afastei-me de 3.784.982.874 homens. Continuei em contato com 3.786.112.090 mulheres.

– Elimine todas as que tiverem menos de vinte e cinco anos – disse ele – e todas as com mais de quarenta. Depois, elimine todas com um QI inferior a 120, todas com uma altura inferior a um metro e cinqüenta e superior a um metro e setenta e cinco.

Deu-me medidas exatas, eliminou mulheres com filhos vivos, eliminou mulheres com várias características genéticas.

– Não estou certo quanto à cor dos olhos – disse Milton. – Por enquanto, deixe isso de lado. Mas nada de cabelos ruivos. Não gosto dessa cor de cabelo.

Duas semanas depois tínhamos baixado para 235 mulheres. Todas falavam muito bem o inglês. Milton disse que não queria um problema de linguagem. Ou nos momentos íntimos, até a tradução por computador entraria no meio.

– Não posso entrevistar 235 mulheres – disse ele. – Levaria muito tempo e o pessoal descobriria o que estou fazendo.

– Isso traria problemas – disse eu. Milton tinha me mandado fazer coisas que eu não estava projetado para fazer. Ninguém sabia disso.

– Isso não é da sua conta – disse ele, e a pele do seu rosto ficou vermelha. – Escute aqui, Joe, vou lhe trazer holografias e você vai checar a lista por similaridades.

Ele trouxe holografias de mulheres.

– Essas aí são três vencedoras de um concurso de beleza – disse. – Veja se alguma das 235 corresponde.

Oito eram correspondências muito boas.

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– Ótimo – disse Milton. – Você tem os seus bancos de dados. Estude suas exigências e necessidades em termos de mercado de trabalho e providencie para tê-las aqui numa entrevista. Uma de cada vez, é claro. – Ele pensou um pouco, moveu os ombros para cima e para baixo, e completou: – Ordem alfabética.

Isto é uma das coisas para que não fui projetado para fazer. Deslocar pessoas de emprego para emprego, por razões pessoais, chama-se manipulação. Só pude fazer isso porque Milton tinha me ajustado para agir assim. No entanto, não poderia fazer isso para ninguém a não ser ele.

A primeira garota chegou uma semana mais tarde. O rosto de Milton ficou vermelho quando a viu. Ele falava como se tivesse dificuldade em fazê-lo. Ficaram juntos muito tempo e ele não prestou atenção em mim. Num certo momento, ele disse.

– Deixe-me levá-la para jantar.

– De certo modo não foi bom – Milton me disse no dia seguinte. – Estava faltando alguma coisa. É uma mulher bonita, mas não senti nenhum toque de verdadeiro amor. Tente a próxima.

Aconteceu o mesmo com todas as oito. Eram muito parecidas. Sorriam muito e tinham vozes agradáveis, mas Milton sempre achava que não estava bem.

– Não consigo entender, Joe – disse ele. – Você e eu selecionamos as oito mulheres que, no mundo inteiro, parecem ser as melhores para mim. Todas ideais. Por que elas não me agradam?

– Você as agrada? – disse eu.

Ele enrugou a testa e esmurrou com força a palma da mão.

– É isso aí, Joe. É uma via de mão dupla. Se não sou o ideal delas, não podem agir de modo a serem o meu ideal. Eu preciso ser, também, o verdadeiro amor delas, mas como fazer isso?

Ele pareceu pensar todo aquele dia.

Na manhã seguinte, se aproximou de mim e disse:

– Vou deixar você cuidar do assunto, Joe. Tudo por sua conta. Você tem meu banco de dados, e vou contar tudo que sei sobre mim mesmo. Você completará meu banco de dados nos mínimos detalhes, mas guarde todos os acréscimos para si mesmo.

– E depois, o que vou fazer com seu banco de dados, Milton?

– Depois você vai fazê-lo corresponder com as 235 mulheres. Não, 227. Esqueça as oito que encontramos. Arranje para que cada uma seja submetida a um exame psiquiátrico. Complete seus bancos de dados e compare-os com o meu. Encontre correlações. (Arranjar exames psiquiátricos é outra coisa contrária às minhas instruções originais.)

Durante semanas, Milton conversou comigo. Ele me falou de seus pais e parentes. Contou-me de sua infância, seu tempo de escola e adolescência. Contou-me das jovens que tinha admirado a uma certa distância. Seu banco de dados aumentou e ele ajustou-me para ampliar e aprofundar minha chave simbólica.

– Veja só, Joe – disse ele. – À medida que você absorve mais e mais de mim, eu vou ajustando-o para corresponder cada vez melhor comigo. Você começa a pensar cada vez mais como eu, por conseguinte, vai me compreendendo melhor. Quando você me compreender suficientemente bem, aquela mulher, cujo banco de dados for uma coisa que você entenda igualmente bem, será meu verdadeiro amor.

Ele continuava conversando comigo e eu passava a compreendê-lo cada vez mais.

Eu conseguia formar frases mais longas e minhas expressões se tornavam mais complicadas. Minha fala começou a ficar muito parecida com a dele, tanto em vocabulário quanto na ordenação das palavras e no estilo.

Certa vez, eu disse a ele:

– Veja você, Milton, não é apenas um problema de adequar uma moça a um ideal físico. Você precisa de uma moça que seja pessoal, temperamental e emocionaimente adequada. Quando isso acontece, a aparência é secundária. Se não pudermos encontrar uma que sirva nestas 227, devemos procurar entre as outras. Acharemos uma que também não se preocupará com a aparência que você ou qualquer outra pessoa tiverem, desde que a personalidade seja adequada. O que significa a aparência?

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– Absolutamente nada – disse ele. – Eu saberia disso se houvesse tido mais contato com mulheres. Evidentemente, pensando bem, tudo parece mais claro agora.

Sempre concordávamos, cada um pensava exatamente como o outro.

– Não vamos ter mais nenhum problema, Milton, se você me deixar fazer-lhe algumas perguntas. Posso ver onde, em seu banco de dados, há espaços brancos e irregulares.

O que veio a seguir, Milton dizia, era o equivalente de uma meticulosa psicanálise. É claro. Eu havia aprendido com os exames psiquiátricos de 227 mulheres, a totalidade das quais eu continuava observando intimamente.

Milton parecia muito feliz.

– Falar com você, Joe, é quase como falar com outro eu. Nossas personalidades chegaram a uma combinação perfeita. O mesmo acontecerá com a personalidade da mulher que escolhermos.

E eu a encontrei. Afinal, era uma das 227. Chamava-se Charity Jones e trabalhava como contadora na Biblioteca de História, em Wichita. Seu extenso banco de dados se ajustava perfeitamente ao nosso. Todas as outras mulheres tinham sido descartadas por um ou outro motivo à medida que seus bancos de dados aumentavam, mas com Charity havia uma crescente e espantosa ressonância.

Não precisei descrevê-la para Milton. Ele tinha coordenado meu simbolismo tão intimamente com o seu, que foi suficiente relatar pura e simplesmente a ressonância. A escolha se adequava.

Em seguida, era o problema de ajustar as folhas de serviço e exigências de trabalho de modo a conseguir que Charity tivesse uma entrevista conosco. Isto devia ser feito muito delicadamente, para que ninguém viesse a saber que estava ocorrendo uma coisa ilegal.

Evidentemente, Milton conhecia a manobra. Foi ele quem arranjou a coisa, foi ele quem cuidou de tudo. Quando vieram prendê-lo, em virtude de mau procedimento em trabalho, foi, felizmente, por algo que tinha acontecido há dez anos. Ele me informara sobre tudo, é claro, mas aquilo foi fácil de arranjar. E ele não comentará nada sobre mim, pois seu delito se tornaria muito mais grave.

Milton foi embora, e amanhã é 14 de fevereiro, Dia dos Namorados. Charity chegará então com suas mãos calmas e sua voz suave. Vou ensiná-la a me manejar e a cuidar de mim. O que importará a aparência quando nossas personalidades ressoarem juntas?

Eu direi a ela:

– Eu sou Joe e você é meu verdadeiro amor.

A terceira margem do rio

Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde
mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.

Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.
Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação.

Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — “Cê vai, ocê fique, você nunca volte!” Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — “Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?” Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.

Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram, tomaram juntamente conselho.
Nossa mãe, vergonhosa, se portou com muita cordura; por isso, todos pensaram de nosso pai a razão em que não queriam falar: doideira. Só uns achavam o entanto de poder também ser pagamento de promessa; ou que, nosso pai, quem sabe, por escrúpulo de estar com alguma feia doença, que seja, a lepra, se desertava para outra sina de existir, perto e longe de sua família dele. As vozes das notícias se dando pelas certas pessoas — passadores, moradores das beiras, até do afastado da outra banda — descrevendo que nosso pai nunca se surgia a tomar terra, em ponto nem canto, de dia nem de noite, da forma como cursava no rio, solto solitariamente. Então, pois, nossa mãe e os aparentados nossos, assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e, ele, ou desembarcava e viajava s’embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto, ou se arrependia, por uma vez, para casa.

No que num engano. Eu mesmo cumpria de trazer para ele, cada dia, um tanto de comida furtada: a idéia que senti, logo na primeira noite, quando o pessoal nosso experimentou de acender fogueiras em beirada do rio, enquanto que, no alumiado delas, se rezava e se chamava.

Depois, no seguinte, apareci, com rapadura, broa de pão, cacho de bananas. Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no ao-longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio.

Me viu, não remou para cá, não fez sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de pedra do barranco, a salvo de bicho mexer e a seco de chuva e orvalho. Isso, que fiz, e refiz, sempre, tempos a fora. Surpresa que mais tarde tive: que nossa mãe sabia desse meu encargo, só se encobrindo de não saber; ela mesma deixava, facilitado, sobra de coisas, para o meu conseguir. Nossa mãe muito não se demonstrava. Mandou vir o tio nosso, irmão dela, para auxiliar na fazenda e nos negócios.
Mandou vir o mestre, para nós, os meninos. Incumbiu ao padre que um dia se revestisse, em praia de margem, para esconjurar e clamar a nosso pai o ‘dever de desistir da tristonha teima. De outra, por arranjo dela, para medo, vieram os dois soldados. Tudo o que não valeu de nada.

Nosso pai passava ao largo, avistado ou diluso, cruzando na canoa, sem deixar ninguém se chegar à pega ou à fala. Mesmo quando foi, não faz muito, dos homens do jornal, que trouxeram a lancha e tencionavam tirar retrato dele, não venceram: nosso pai se desaparecia para a outra banda, aproava a canoa no brejão, de léguas, que há, por entre juncos e mato, e só ele conhecesse, a palmos, a escuridão, daquele. A gente teve de se acostumar com aquilo. Às penas, que, com aquilo, a gente mesmo nunca se acostumou, em si, na verdade. Tiro por mim, que, no que queria, e no que não queria, só com nosso pai me achava: assunto que jogava para trás meus pensamentos. O severo que era, de não se entender, de maneira nenhuma, como ele agüentava. De dia e de noite, com sol ou aguaceiros, calor, sereno, e nas friagens terríveis de meio-do-ano, sem arrumo, só com o chapéu velho na cabeça, por todas as semanas, e meses, e os anos — sem fazer conta do se-ir do viver. Não pojava em nenhuma das duas beiras, nem nas ilhas e croas do rio, não pisou mais em chão nem capim.

Por certo, ao menos, que, para dormir seu tanto, ele fizesse amarração da canoa, em alguma ponta-de-ilha, no esconso. Mas não armava um foguinho em praia, nem dispunha de sua luz feita, nunca mais riscou um fósforo. O que consumia de comer, era só um quase; mesmo do que a gente depositava, no entre as raízes da gameleira, ou na lapinha de pedra do barranco, ele recolhia pouco, nem o bastável.

Não adoecia? E a constante força dos braços, para ter tento na canoa, resistido, mesmo na demasia das enchentes, no subimento, aí quando no lanço da correnteza enorme do rio tudo rola o perigoso, aqueles corpos de bichos mortos e paus-de-árvore descendo — de espanto de esbarro. E nunca falou mais palavra, com pessoa alguma.

Nós, também, não falávamos mais nele. Só se pensava. Não, de nosso pai não se podia ter esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era só para se despertar de novo, de repente, com a memória, no passo de outros sobressaltos.

Minha irmã se casou; nossa mãe não quis festa. A gente imaginava nele, quando se comia uma comida mais gostosa; assim como, no gasalhado da noite, no desamparo dessas noites de muita chuva, fria, forte, nosso pai só com a mão e uma cabaça para ir esvaziando a canoa da água do temporal. Às vezes, algum conhecido nosso achava que eu ia ficando mais parecido com nosso pai. Mas eu sabia que ele agora virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pêlos, com o aspecto de bicho, conforme quase nu, mesmo dispondo das peças de roupas que a gente de tempos em tempos fornecia.

Nem queria saber de nós; não tinha afeto? Mas, por afeto mesmo, de respeito, sempre que às vezes me louvavam, por causa de algum meu bom procedimento, eu falava: — “Foi pai que um dia me ensinou a fazer assim…”; o que não era o certo, exato; mas, que era mentira por verdade. Sendo que, se ele não se lembrava mais, nem queria saber da gente, por que, então, não subia ou descia o rio, para outras paragens, longe, no não-encontrável? Só ele soubesse. Mas minha irmã teve menino, ela mesma entestou que queria mostrar para ele o neto. Viemos, todos, no barranco, foi num dia bonito, minha irmã de vestido branco, que tinha sido o do casamento, ela erguia nos braços a criancinha, o marido dela segurou, para defender os dois, o guarda-sol.

A gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu. Minha irmã chorou, nós todos aí choramos, abraçados.
Minha irmã se mudou, com o marido, para longe daqui. Meu irmão resolveu e se foi, para uma cidade. Os tempos mudavam, no devagar depressa dos tempos.
Nossa mãe terminou indo também, de uma vez, residir com minha irmã, ela estava envelhecida. Eu fiquei aqui, de resto. Eu nunca podia querer me casar. Eu permaneci, com as bagagens da vida. Nosso pai carecia de mim, eu sei — na vagação, no rio no ermo — sem dar razão de seu feito. Seja que, quando eu quis mesmo saber, e firme indaguei, me diz-que-disseram: que constava que nosso pai, alguma vez, tivesse revelado a explicação, ao homem que para ele aprontara a canoa.

Mas, agora, esse homem já tinha morrido, ninguém soubesse, fizesse recordação, de nada mais. Só as falsas conversas, sem senso, como por ocasião, no começo, na vinda das primeiras cheias do rio, com chuvas que não estiavam, todos temeram o fim-do-mundo, diziam: que nosso pai fosse o avisado que nem Noé, que, por tanto, a canoa ele tinha antecipado; pois agora me entrelembro. Meu pai, eu não podia malsinar. E apontavam já em mim uns primeiros cabelos brancos.
Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa?
Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio — pondo perpétuo.

Eu sofria já o começo de velhice — esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê?
Devia de padecer demais. De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar do vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranqüilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse — se as coisas fossem outras. E fui tomando idéia.

Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido.
Ninguém é doido. Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, sentado à popa.

Estava ali, de grito. Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado, tive que reforçar a voz: — “Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto… Agora, o senhor vem, não carece mais… O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!…” E, assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo.
Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n’água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto — o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia… Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.

Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.

A ponte

 Eu estava rígido e frio, era uma ponte estendido sobre um abismo. As pontas dos pés cravadas deste lado, do outro as mãos, eu me prendia firme com os dentes na argila quebradiça. As abas do meu casaco flutuavam pelos meus lados. Na profundeza fazia ruído o gelado riacho de trutas. Nenhum turista se perdia naquela altura intransitável, a ponte ainda não estava assinalada nos mapas. – Assim eu estava estendido e esperava; tinha de esperar. Uma vez erguida, nenhuma ponte pode deixar de ser ponte sem desabar.
    Certa vez, era pelo anoitecer – o primeiro, o milésimo, não sei -, meus pensamentos se moviam sempre em confusão e sempre em círculo. Pelo anoitecer no verão o riacho sussurra mais escuro – foi então que ouvi o passo de um homem ! Vinha em direção a mim, a mim. – Estenda-se, ponte, fique em posição, viga sem corrimão, segure aquele que lhe foi confiado. Compense, sem deixar vestígio a insegurança do seu passo, mas, se ele oscilar, faça-se conhecer e como um deus da montanha, atire-o à terra firme.
     Ele veio; com a ponta de ferro da bengala deu umas batidas em mim, depois levantou com ela as abas do meu casaco e as pôs em ordem em cima de mim. Passou a ponta por meu cabelo cerrado e provavelmente olhando com ferocidade em torno deixou-a ficar ali longo tempo. Mas depois – eu estava justamente seguindo-o em sonho por montanha e vale – ele saltou com os dois pés sobre o meio do meu corpo. Estremeci numa dor atroz sem compreender nada. Quem era? Uma criança? Um sonho? Um salteador de estrada? Um suicida? Um tentador? Um destruidor? E virei-me para vê-lo. – Uma ponte que dá voltas ! Eu ainda não tinha me virado e já estava caindo, desabei, já estava rasgado e trespassado pelos cascalhos afiados, que sempre me haviam fitado tão pacificamente da água enfurecida.

Meu Nome Era Maya

Amanhã será meu aniversário, mas ninguém se lembrará.

A data da morte é mais importante que a data do nascimento.” Quem foi mesmo que disse isso? Não importa. Minha mãe sempre disse que é bíblico, mas eu nunca vi isso escrito na Bíblia, e aposto que nem ela mesma. Ela é dessas que vive repetindo comentários alheios, ou melhor… ela era dessas. Ela teve a coragem que eu não tive, e cometeu o que, na opinião dela própria, é o maior pecado possível: o suicídio.

Nunca entendi muito bem a lógica disso. Eu entendo que tirar a própria vida seja horrível, afinal imagina quanta dor alguém tem que estar sentindo pra fazer isso. Mas como algo que só faz mal a si próprio (sem falar na dor dos familiares, é claro) pode ser menos perdoável que matar um semelhante, estuprar uma mulher ou violentar uma criança? A lógica divina definitivamente não bate com a minha.

E o motivo do suicídio dela também foi peculiar. Quer dizer, a maioria das pessoas que têm se suicidado nos últimos dias fez isso pelo desespero de sofrer uma morte lenta e dolorosa por causa do meteoro fatal que logo nos consumirá. Mas não a minha mãe. Posso dizer que ela estava até feliz pela chegada do Dia do Juízo Final. Acreditava que em algum momento do último sábado seria arrebatada.

Foi isso o que o Reverendo Mathias lhe disse, pelo menos. Ele levou os fiéis de sua igreja no bico, dizendo que recebera uma visão divina: no sábado, antes da última badalada, a Igreja seria arrebatada para Deus. Simples assim.

Não que eu tenha acreditado nele, mas será que minha minha realmente cogitou ser digna do arrebatamento? Ah, fala sério! Com toda aquela língua ferina contra tudo e todos, como se fosse a própria Jeová? Com toda soberba por ser uma das mais chegadas ao Reverendo, além, é claro, de ter mais “bens” do que os “irmãos”? Depois de ter se casado com o merda do meu padrasto unicamente pela conta bancária dele e, não contente, se fazer de cega aos olhares e carinhos dele comigo?

E aí ela se decepcionou com Deus, porque a carruagem não veio buscar a Cinderela, e se explodiu! Boom!

E até na morte ela quase ferrou com a minha vida! Assim que voltamos do enterro, o escroto provavelmente pensou que não haveria mais empecilho — como se minha mãe algum dia tivesse sido um — e veio pra cima de mim, no quarto. Mas o que ele não sabia é que eu já esperava por isso, e há tempos guardava uma faca debaixo do meu travesseiro.

Eu a atravessei nele até ter certeza de que estava morto. Não posso dizer que não me machuquei, mas não posso reclamar. Eu venci.

Mas também não importa, já que o meteoro vai acabar com nosso querido planeta azul. (Espero que você seja minimamente inteligente e consiga ler a ironia na última frase.)

O bom é que não vou passar minhas últimas horas vendo o Sol nascer quadrado. Não. Está uma confusão dos infernos lá fora. Minha casa já foi saqueada, e nada me restou além deste caderno e caneta.

Por que estou escrevendo — se ninguém vai ler -? Porque sim.

É o fim da aventura humana na Terra. Essa porra só é bonita nas canções. Se quer minha opinião, eu não a tenho de fato, mas sim duas hipóteses: (1)se Deus não existir, é meio óbvio — o fim veio pelo acaso e ponto final, game over!; mas se (2) ele existir, então todos fomos considerados imperfeitos demais para Vossa Santidade, e então ele decidiu limpar a Terra de nós e o Universo da Terra.

E o ponto de impacto é o Brasil, o que é morbidamente cômico. Sempre enchemos a boca para nos gabar de que aqui não há vulcões, tornados e demais desastres naturais — como se a gente precisasse de mais tragédias! “Deus é brasileiro!”, dizíamos em nossa falsa segurança.

Brasileiro ou gringo, Ele já deu seu veredicto!

O comunicado oficial foi feito exatamente oito dias antes do suicídio da minha mãe, na sexta-feira 13. Pra quem duvidava que a data dá azar, eis sua prova. Não me recordo das proporções do meteoro, mencionadas no plantão urgente que interrompeu meu filme favorito (aliás, interromper O Morro dos Ventos Uivantes pra me falar que eu vou morrer é imperdoável), mas não faz diferença.

Ele é grande o suficiente para matar a todos, sem exceção. A todos os que sobreviverem, pelo menos. Lembra que eu disse que está uma algazarra lá fora? Pois então, só contextualizando: as ruas estão “cemiterizadas” com os corpos dos mais desesperados; alguns, é claro, foram assassinados em brigas e assaltos.

Primeiro veio o choro coletivo, seguido de preces a Deus. Ainda agora alguns acham que serão arrebatados momentos antes da queda do meteoro. Depois vieram os gritos, as brigas, os grupos criminosos que a polícia chamou de “gangues do apocalipse”. Rapidamente a maldade tomou conta de alguns; o medo de outros — e o desespero de todos.

Olavo, meu vizinho de infância, também se suicidou. Enforcamento numa árvore. Eu o vi, preso à corda, o rosto pálido pela falta de sangue… Mas é como se nada mais me chocasse de verdade.

Hoje vi uma vizinha, mãe solteira, esfaquear as duas filhas. Onde isso vai parar? Quer saber, não importa: TODOS VAMOS MORRER!

As ruas estão um caos: supermercados saqueados, veículos incendiados, pessoas perdendo a razão, a memória, a humanidade…

E ainda assim, a vida insiste em não me deixar. Ainda respiro. Ainda como. Ainda durmo e acordo. Ainda ando. E não espero mais nada. Ou quase nada: a exceção é o meteoro. Já que é inevitável, queria que chegasse logo e destruísse de uma vez a História da Terra.

Vou dormir. Amanhã é o Grande Dia. O dia do fim. Seremos esquecidos e todos os nossos esforços serão humilhantemente destroçados. Todas as lutas por igualdade, toda ciência, filosofia, toda forma de arte, tudo desaparecerá para sempre. Perda total.

Boa noite. Bem que eu poderia morrer dormindo…

***

Hoje não quero ver o sol. Esperarei o cataclismo em meu quarto. Fones de ouvido no último volume. Porta trancada. Janela fechada. Diário e caneta na mão. Mas meu destino é pior que o da própria Anne; alguém leu o diário dela, mas o meu nunca será sequer encontrado.

Essa noite sonhei que tudo isso era um trote, um engano. Nenhum meteoro caiu. Olavo morrera em vão, assim como as duas meninas esfaqueadas e tantos outros. O mundo prosseguiu. E eu segui viva.

O mundo então se tornou um lugar diferente, mais humano. A experiência de quase morte coletiva nos fez rever muitas coisas e nos transformou para a melhor.

Mas então não foi em vão? “, eu me perguntava no sonho. “Será dessa forma o Dia do Juízo, a peneira, a separação do joio e do trigo? Por quê inocentes precisaram pagar? O mal acaba aqui, ou é só temporário, e nossa natureza voltará a precisar de um novo meteoro?

Mas aquelas perguntas é que foram em vão. Eu acordei, e a realidade levou a esperança sonhada.

Voltei a escrever. Talvez esse fosse o último poema da humanidade:

DESOLAÇÃO

Se foram os sonhos

O amanhã é ilusão

Nada de arca desta vez

Apenas um meteoro em rota de colisão

Há pesar no olhar de cada um

Lágrimas e dor

Seres humanos sem esperança,

Sem humanidade ou amor

Há os que aceitaram seu frio destino

Pelo incandescente e cruel pedaço de céu

Há os que se tornaram monstros caçadores

Não importa, todos estamos ao léu

Nem sei porque escrevo isso

Ninguém quer ler agora, na verdade,

Mas, ainda assim, evita que eu fique louca,

Mais uma desvairada ateando fogo à cidade

A hora a se aproxima

E, no fim, ninguém acreditava realmente nas pregações

Todos estão, ou em fúria ou em desesperança

Todos sabemos que chega ao fim cada respiração

Cada batida de coração

Não há mais futuro, não para nós;

Estrelas continuarão a iluminar

Planetas continuarão a orbitá-las

Mas não haverá olho para observar

Agora nos despedimos

Daquilo que sempre desprezamos

Nossa Terra, família e amor

E nunca na verdade vivemos,

Sempre na verdade mentimos

É isso. Ouço os gritos à distância. Lamentos antes do fim. Ouço sons estrondosos também,um pouco mais distantes que os gritos. Logo chegará aqui. Adeus mundo.

Meu nome era Maya. Maya. Maya. Maya. May

O dia que tive tudo que sempre quis

Olá meu nome é Henrique tenho 17 anos e moro em Euclides da Cunha, uma cidade do interior da Bahia, mas isso não importa agora. Olha sei que esse início está bem chato, provavelmente monótono, e com certeza você pensa que sou apenas um garoto normal. Bem tenho que te dizer uma coisa: não existe essa coisa de normal, todos temos um lado louco.

Acho que vou recomeçar. Oi, de novo, meu nome é Henrique tenho 17 anos, e um dia realizei todos os meus sonhos. Mas antes de começarmos preciso que pense em seus sonhos, por mais loucos ou improváveis que sejam. Pensaram? Pois bem, então vamos nessa.

Tudo começou em uma manhã de quarta-feira. Acordei tomei café da manhã, escovei os dentes e fui pra escola, até aí tudo normal. Bom, só até eu começar o meu triste e solitário trajeto até a escola. Estava lá eu, caminhando pelas ruas da minha cidade quando eu vi um homem fazendo um show de rua. Eu sei, qual o absurdo disso? É que não era um show normal, já que tal homem estava dançando com uma porta.

Isso mesmo uma porta, nunca na minha vida tinha visto algo tão estranho. Porém, o que me parecia o cúmulo do absurdo foi as pessoas pagando e aplaudindo o show. Após alguns minutos decidi continuar meu trajeto, torcendo para nada estranho acontecer, para minha sorte cheguei na escola sem encontrar nada fora do normal.

Quando eu estava esperando o portão abrir, percebi que o porteiro estava conversando vivamente com outro homem, logo pensei que era algum amigo dele, mas quando eu vi o rosto do tal homem adivinhe. Meus parabéns se você falou que era o cara da porta, primeiramente fiquei surpreso, depois comecei a pensar e só consegui elaborar três possibilidades: a primeira era que ele era muito rápido, a segunda ele tinha um irmão gêmeo e a terceira e mais assustadora, era que esse homem estava me seguindo.

Foquei na última possibilidade e tentei descobrir o motivo da perseguição, porém fui interrompido quando o sinal da primeira aula tocou. Decidi na hora que entrei na sala que aquilo era uma mera coincidência e me concentrei na minha aula favorita: química. Na segunda aula senti vontade de ir ao banheiro e pedi ao professor para sair, ele deixou eu ir, mas falou para não demorar.

Eu fui o mais rápido que pude ao banheiro porque não queria perder o tempo precioso da aula de química, e claro também não queria levar uma boa bronca. Você deve estar se perguntando porque diabos estou narrando minha ida ao banheiro, pois bem vou explicar. Lembram daquele homem fazendo seu show estranho na rua, que reencontrei na minha escola, pois então imagine o susto que levei quando encontrei ele dentro do banheiro olhando diretamente para mim.

Para mim já bastava, com certeza esse cara estava me seguindo, só tinha essa possibilidade. Era praticamente impossível encontrar uma pessoa três vezes seguidas em locais diferentes e em pouco tempo. Mas as coisas só começaram a piorar depois que o tal homem começou a falar.

— Olá Henrique meu nome é Dream.

— O que você quer?

— Eu tenho te observado.

— Isso explica porque te encontrei três vezes hoje. Mas não explica o motivo dessa perseguição.

— Ora, isso eu posso explicar.

— Então comece porque não tenho muito tempo.

— Eu venho da terra dos sonhos, e vim com a missão de realizar todos os seus sonhos.

Nessa hora comecei a dar risada, porque aquilo era muito maluco, provavelmente esse cara devia estar drogado ou bêbado. Porém, minha risada e cara de deboche não surtiu efeito algum porque o cara ficou com a mesma expressão de alegria no rosto.

— Você pode não acreditar Henrique, mas é a mais pura verdade.

— A claro que é. Só que quero uma prova.

Decidi entrar naquele jogo só para ver onde isso iria parar.

— Eu sei o que mais deseja. Você quer uma fortuna para comprar tudo que quiser, e mesmo assim continuar rico, eu sei que quer poder controlar as horas para não perder tempo, e sei que quer a maior coleção de histórias em quadrinhos, jogos e videogames da história.

Nesse momento fiquei sem palavras, pois tudo aquilo era verdade, mas não tinha como ele saber, eu nunca tinha contado nada daquilo para ninguém, e muito menos tinha anotado no meu diário. Então será que ele falava a verdade? Não, era impossível.

— Apenas acredite Henrique e será o homem mais feliz do mundo.

— Ok.  bom, então vai lá vossa criatura mágica realize meus sonhos.

— Muito bem Henrique. Tudo que precisa fazer é atravessar a porta e será feliz.

Eu já não sabia mais o que fazer, então só fiz o que ele pedia e atravessei a porta, pelo menos era a porta para o lado de fora, eu poderia correr e chamar ajuda. Eu caminhei até a porta, abri e a atravessei.

Eu só me lembro de ver uma luz forte que me fez fechar os olhos. Quando os abri novamente não estava mais na escola, eu tinha ido parar na minha cama, ou talvez nunca tivesse saído dela, naquele momento pensei “Ah meu Deus foi só um sonhoPorém, esse pensamento durou pouco tempo, pois uma mulher que eu nunca tinha visto na minha vida entrou com uma bandeja com meu prato favorito: panquecas com chocolate, e café com leite.

Ela me cumprimentou, deixou a bandeja e foi embora, achei aquilo muito estranho, então decidi deixar a comida na cama e investigar, no momento que abri a porta e olhei para minha casa e percebi que estava três ou até quatro vezes maior que antes. Tinha uma decoração minuciosa e grandes corredores, cocei os olhos pensando ser uma ilusão, mas tudo continuou lá.

Eu procurei minha mãe pelo que me pareceram horas mas não a encontrei, na verdade, não encontrei ninguém que conhecia, na casa só tinha mulheres e homens trabalhando.

Continuei a procurar até que encontrei uma porta que dizia “Zona do Paraíso”. Eu abri a porta e encontrei diversos jogos, videogames e histórias em quadrinhos. Aquele quarto, aquela casa, o tempo que demorava passar, mas não passava tudo isso eram os meus sonhos. O homem estranho falava a verdade, eu finalmente tinha tudo que sempre quis.

Comecei a explorar o paraíso por diversas horas, que, na verdade não passaram de alguns minutos, li muitas HQS e joguei alguns jogos, até que lembrei da escola, hoje provavelmente era quinta-feira e tinha aula. Eu precisava contar aquilo pros meus amigos, saí do quarto tomei o café da manhã e me preparei para ir para escola.

No caminho para a escola eu não conseguia parar de sorrir, o que assustou algumas pessoas, desculpa aí pessoal, mas vão ter que me aturar. Quando finalmente cheguei na escola eles já tinham aberto o portão, fui logo procurar o Yago, o meu melhor amigo. Ele estava na porta da nossa sala, eu fui até lá para cumprimentá-lo, mas ele reagiu indiferente comigo, como se não me conhece-se. Tentei explicar quem eu era e o que tinha acontecido, mas não adiantou nada.

Será que isso era um efeito colateral? Bom, eu precisava saber, por isso fui procurar todas as pessoas que eu conhecia, porém, foi uma perda de tempo, ninguém me reconheceu. Eu saí da escola para tentar pensar um pouco, mas tudo que conseguia argumentar era que aconteceu um erro na hora da mágica e por isso ninguém se lembrava de mim.

Deixei a escola e fui procurar o homem estranho, procurei por vários pontos da cidade, até bati em algumas portas para perguntar, mas sem sucesso ele não estava em lugar nenhum, eu voltei para o primeiro lugar que tinha visto ele, na esperança de encontrá-lo, porém quando cheguei lá não tinha ninguém, não aguentei e desabei, cai de joelhos e comecei a chorar.

As pessoas passavam e só comentavam o meu choro, ninguém me ajudava, claro como poderiam fazer isso, mas pelo menos se tentassem eu me sentiria melhor. Após muito tempo de choro e arrependimento, um homem parou para me ajudar. Ele estendeu a mão e me ajudou a levantar, eu já ia agradecendo quando vi seu rosto, era o homem dos sonhos não consegui me controlar e o abracei de felicidade.

Eu pedi sua ajuda, expliquei que tinha acontecido alguma coisa de errado, falei que ninguém se lembrava de mim e que ele precisava consertar as coisas, mas tudo que ele disse foi que era isso que acontecia, para realizar os sonhos era preciso apagar a nossa antiga vida, eu não podia acreditar naquilo, tinha que ter um jeito uma solução por mais ruim que fosse, eu precisava que todos se lembrassem de mim.

A única ideia que tive foi que ele precisava desfazer aquilo tudo, precisava que tudo voltasse ao normal, por mais chato que fosse eu tinha que voltar. De primeira ele não aceitou, mas consegui convencê-lo. Ele pediu para atravessar a porta de uma casa, eu fiz isso e vi a mesma luz branca. Quando abri os olhos estavam novamente na minha cama, abri a porta torcendo para tudo estar de volta ao normal e para minha sorte estava. Corri até a cozinha, abracei minha mãe e falei o quanto eu a amava, depois eu fui até a escola e cumprimentei todos e falei que os amava.

Bem essa foi a minha história, estranha e assustadora, mas eu agradeço que tenha acontecido, pois até hoje eu levo uma lição que aprendi: não vale a pena realizar os nossos sonhos, e deixar a família e as pessoas que amamos para trás, só é gratificante se tivermos alguém com quem compartilhar a felicidade.

O coração delator

É verdade! Nervoso, muito, muito nervoso mesmo eu estive e estou; mas por que você vai  dizer que estou louco? A doença exacerbou meus sentidos, não os destruiu, não os embotou. Mais que os outros estava aguçado o sentido da audição. Ouvi todas as coisas no céu e na terra. Ouvi muitas coisas no inferno. Como então posso estar louco? Preste atenção! E observe com que sanidade, com que calma, posso lhe contar toda a história.

É impossível saber como a idéia penetrou pela primeira vez no meu cérebro, mas, uma vez concebida, ela me atormentou dia e noite. Objetivo não havia. Paixão não havia. Eu gostava do velho. Ele nunca me fez mal. Ele nunca me insultou. Seu ouro eu não desejava. Acho que era seu olho! É, era isso! Um de seus olhos parecia o de um abutre – um olho azul claro coberto por um véu. Sempre que caía sobre mim o meu sangue gelava, e então pouco a pouco, bem devagar, tomei a decisão de tirar a vida do velho, e com isso me livrar do olho, para sempre.

Agora esse é o ponto. O senhor acha que sou louco. Homens loucos de nada sabem. Mas deveria ter-me visto. Deveria ter visto com que sensatez eu agi — com que precaução —, com que prudência, com que dissimulação, pus mãos à obra! Nunca fui tão gentil com o velho como durante toda a semana antes de matá-lo. E todas as noites, por volta de meia-noite, eu girava o trinco da sua porta e a abria, ah, com tanta delicadeza! E então, quando tinha conseguido uma abertura suficiente para minha cabeça, punha lá dentro uma lanterna furta-fogo bem fechada, fechada para que nenhuma luz brilhasse, e então eu passava a cabeça.

Ah! o senhor teria rido se visse com que habilidade eu a passava. Eu a movia devagar, muito, muito devagar, para não perturbar o sono do velho. Levava uma hora para passar a cabeça toda pela abertura, o mais à frente possível, para que pudesse vê-lo deitado em sua cama. Aha! Teria um louco sido assim tão esperto? E então, quando minha cabeça estava bem dentro do quarto, eu abria a lanterna com cuidado — ah!, com tanto cuidado! —, com cuidado (porque a dobradiça rangia), eu a abria só o suficiente para que um raiozinho fino de luz caísse sobre o olho do abutre. E fiz isso por sete longas noites, todas as noites à meia-noite em ponto, mas eu sempre encontrava o olho fechado, e então era impossível fazer o trabalho, porque não era o velho que me exasperava, e sim seu Olho Maligno. E todas as manhãs, quando o dia raiava, eu entrava corajosamente no quarto e falava Com ele cheio de coragem, chamando-o pelo nome em tom cordial e perguntando como tinha passado a noite. Então, o senhor vê que ele teria que ter sido, na verdade, um velho muito astuto, para suspeitar que todas as noites, à meia-noite em ponto, eu o observava enquanto dormia.

Na oitava noite, eu tomei um cuidado ainda maior ao abrir a porta. O ponteiro de minutos de um relógio se move mais depressa do que então a minha mão. Nunca antes daquela noite eu sentira a extensão de meus próprios poderes, de minha sagacidade. Eu mal conseguia conter meu sentimento de triunfo. Pensar que lá estava eu, abrindo pouco a pouco a porta, e ele sequer suspeitava de meus atos ou pensamentos secretos. Cheguei a rir com essa idéia, e ele talvez tenha ouvido, porque de repente se mexeu na cama como num sobressalto. Agora o senhor pode pensar que eu recuei — mas não. Seu quarto estava preto como breu com aquela escuridão espessa (porque as venezianas estavam bem fechadas, de medo de ladrões) e então eu soube que ele não poderia ver a porta sendo aberta e continuei a empurrá-la mais, e mais.

Minha cabeça estava dentro e eu quase abrindo a lanterna quando meu polegar deslizou sobre a lingüeta de metal e o velho deu um pulo na cama, gritando:

— Quem está aí?

Fiquei imóvel e em silêncio. Por uma hora inteira não movi um músculo, e durante esse tempo não o ouvi se deitar. Ele continuava sentado na cama, ouvindo bem como eu havia feito noite após noite prestando atenção aos relógios fúnebres na parede.

Nesse instante, ouvi um leve gemido, e eu soube que era o gemido do terror mortal. Não era um gemido de dor ou de tristeza — ah, não! era o som fraco e abafado que sobe do fundo da alma quando sobrecarregada de terror. Eu conhecia bem aquele som. Muitas noites, à meia-noite em ponto, ele brotara de meu próprio peito, aprofundando, com seu eco pavoroso, os terrores que me perturbavam. Digo que os conhecia bem. Eu sabia o que sentia o velho e me apiedava dele embora risse por dentro. Eu sabia que ele estivera desperto, desde o primeiro barulhinho, quando se virara na cama. Seus medos foram desde então crescendo dentro dele. Ele estivera tentando fazer de conta que eram infundados, mas não conseguira. Dissera consigo mesmo: “Isto não passa do vento na chaminé; é apenas um camundongo andando pelo chão”, ou “É só um grilo cricrilando um pouco”.

É, ele estivera tentando confortar-se com tais suposições; mas descobrira ser tudo em vão. Tudo em vão, porque a Morte ao se aproximar o atacara de frente com sua sombra negra e com ela envolvera a vítima. E a fúnebre influência da despercebida sombra fizera com que sentisse, ainda que não visse ou ouvisse, sentisse a presença da minha cabeça dentro do quarto.

Quando já havia esperado por muito tempo e com muita paciência sem ouvi-lo se deitar, decidi abrir uma fenda — uma fenda muito, muito pequena na lanterna. Então eu a abri — o senhor não pode imaginar com que gestos furtivos, tão furtivos — até que afinal um único raio pálido como o fio da aranha brotou da fenda e caiu sobre o olho do abutre.

Ele estava aberto, muito, muito aberto, e fui ficando furioso enquanto o fitava. Eu o vi com perfeita clareza – todo de um azul fosco e coberto por um véu medonho que enregelou até a medula dos meus ossos, mas era tudo o que eu podia ver do rosto ou do corpo do velho, pois dirigira o raio, como por instinto, exatamente para o ponto maldito.

E agora, eu não lhe disse que aquilo que o senhor tomou por loucura não passava de hiperagudeza dos sentidos? Agora, repito, chegou a meus ouvidos um ruído baixo, surdo e rápido, algo como faz um relógio quando envolto em algodão. Eu também conhecia bem aquele som. Eram as batidas do coração do velho. Aquilo aumentou a minha fúria, como o bater do tambor instiga a coragem do soldado.

Mas mesmo então eu me contive e continuei imóvel. Quase não respirava. Segurava imóvel a lanterna. Tentei ao máximo possível manter o raio sobre o olho. Enquanto isso, aumentava o diabólico tamborilar do coração. Ficava a cada instante mais e mais rápido, mais e mais alto. O terror do velho deve ter sido extremo. Ficava mais alto, estou dizendo, mais alto a cada instante! — está me entendendo? Eu lhe disse que estou nervoso: estou mesmo. E agora, altas horas da noite, em meio ao silêncio pavoroso dessa casa velha, um ruído tão estranho quanto esse me levou ao terror incontrolável. Ainda assim por mais alguns minutos me contive e continuei imóvel. Mas as batidas ficaram mais altas, mais altas! Achei que o coração iria explodir. E agora uma nova ansiedade tomava conta de mim — o som seria ouvido por um vizinho! Chegara a hora do velho! Com um berro, abri por completo a lanterna e saltei para dentro do quarto.

Ele deu um grito agudo — um só. Num instante, arrastei-o para o chão e derrubei sobre ele a cama pesada. Então sorri contente, ao ver meu ato tão adiantado. Mas por muitos minutos o coração bateu com um som amortecido. Aquilo, entretanto, não me exasperou; não seria ouvido através da parede. Por fim, cessou. O velho estava morto. Afastei a cama e examinei o cadáver. É, estava morto, bem morto. Pus a mão sobre seu coração e a mantive ali por muitos minutos. Não havia pulsação. Ele estava bem morto. Seu olho não me perturbaria mais.

Se ainda me acha louco, não mais pensará assim quando eu descrever as sensatas precauções que tomei para ocultar o corpo. A noite avançava, e trabalhei depressa, mas em silêncio. Antes de tudo desmembrei o cadáver. Separei a cabeça, os braços e as pernas.

Arranquei três tábuas do assoalho do quarto e depositei tudo entre as vigas. Recoloquei então as pranchas com tanta habilidade e astúcia que nenhum olho humano — nem mesmo o dele — poderia detectar algo de errado. Nada havia a ser lavado — nenhuma mancha de qualquer tipo — nenhuma marca de sangue. Eu fora muito cauteloso. Uma tina absorvera tudo – ha! ha!

Quando terminei todo aquele trabalho, eram quatro horas — ainda tão escuro quanto à meia-noite.
Quando o sino deu as horas, houve uma batida à porta da rua. Desci para abrir com o coração leve — pois o que tinha agora a temer? Entraram três homens, que se apresentaram, com perfeita suavidade, como oficiais de polícia. Um grito fora ouvido por um vizinho durante a noite; suspeitas de traição haviam sido levantadas; uma queixa fora apresentada à delegacia e eles (os policiais) haviam sido encarregados de examinar o local.

Sorri — pois o que tinha a temer? Dei as boas-vindas aos senhores. O grito, disse, fora meu, num sonho. O velho, mencionei, estava fora, no campo. Acompanhei minhas visitas por toda a casa. Incentivei-os a procurar — procurar bem. Levei-os, por fim, ao quarto dele. Mostrei-lhes seus tesouros, seguro, imperturbável. No entusiasmo de minha confiança, levei cadeiras para o quarto e convidei-os para ali descansarem de seus afazeres, enquanto eu mesmo, na louca audácia de um triunfo perfeito, instalei minha própria cadeira exatamente no ponto sob o qual repousava o cadáver da vítima.

Os oficiais estavam satisfeitos. Meus modos os haviam convencido. Eu estava bastante à vontade. Sentaram-se e, enquanto eu respondia animado, falaram de coisas familiares. Mas, pouco depois, senti que empalidecia e desejei que se fossem. Minha cabeça doía e me parecia sentir um zumbido nos ouvidos; mas eles continuavam sentados e continuavam a falar. O zumbido ficou mais claro — continuava e ficava mais claro: falei com mais vivacidade para me livrar da sensação: mas ela continuou e se instalou — até que, afinal, descobri que o barulho não estava dentro de meus ouvidos.

Sem dúvida agora fiquei muito pálido; mas falei com mais fluência, e em voz mais alta. Mas o som crescia – e o que eu podia fazer? Era um som baixo, surdo, rápido — muito parecido com o som que faz um relógio quando envolto em algodão. Arfei em busca de ar, e os policiais ainda não o ouviam. Falei mais depressa, com mais intensidade, mas o barulho continuava a crescer. Levantei-me e discuti sobre ninharias, num tom alto e gesticulando com ênfase; mas o barulho continuava a crescer. Por que eles não podiam ir embora? Andei de um lado para outro a passos largos e pesados, como se me enfurecessem as observações dos homens, mas o barulho continuava a crescer. Ai meu Deus! O que eu poderia fazer? Espumei — vociferei — xinguei! Sacudi a cadeira na qual estivera sentado e arrastei-a pelas tábuas, mas o barulho abafava tudo e continuava a crescer. Ficou mais alto — mais alto — mais alto! E os homens ainda conversavam animadamente, e sorriam. Seria possível que não ouvissem? Deus Todo-Poderoso! — não, não? Eles ouviam! — eles suspeitavam! — eles sabiam! – Eles estavam zombando do meu horror! — Assim pensei e assim penso. Mas qualquer coisa seria melhor do que essa agonia! Qualquer coisa seria mais tolerável do que esse escárnio. Eu não poderia suportar por mais tempo aqueles sorrisos hipócritas! Senti que precisava gritar ou morrer! — e agora — de novo — ouça! mais alto! mais alto! mais alto! mais alto!

— Miseráveis! — berrei — Não disfarcem mais! Admito o que fiz! levantem as pranchas! — aqui, aqui! — são as batidas do horrendo coração!

O Diário

Dia 1

Olho pela janela e vejo a cidade, taciturna e receosa como alguém que tem algo a dizer e nada diz. No primeiro plano desta, vejo meu reflexo, inquieto e falando sozinho em um rádio na esperança de obter uma resposta. Talvez a saudade de algo que não conhecemos (ou lembramos) possa ser chamado de esperança (ou fé). Isso é o que sinto todos os dias em que me recordo de ligar este rádio e ouvir a estática ensurdecendo meus pensamentos. Meu corpo, ora cansado, ora preguiçoso, reluta em permanecer ao pé da mesa do rádio com o comunicador em mãos.

– Boa noite, sou eu novamente, Bernardo… (sshhhhh) … Alguém na escuta? Câmbio.

– (Shhhhh)

Recito as palavras escritas em uma agenda tão velha quanto o rádio, quase como uma oração, na expectativa que haja alguma resposta.  Esse mantra, ora enfadonho, ora intrigante ainda não é conveniente expô-lo aqui…

A noite avança mais lenta que passos de tartaruga nos meridianos, porém aqui ela parece durar mais que o habitual, permitindo que a vaidosa lua ofusque o brilho das demais estrelas por mais tempo. Assim aprendemos, nas aulas do professor Oséias, há 3 anos, que a Lua e o Sol, arquitetam noite após noite, um complô contra os demais astros. Tomo um livro de astronomia e percebo Oséias via o cosmos com os olhos de Deus. Adormeço.

Dia 2

 

O dia, no verão, em Sombra D’água, começa a ser escaldante cerca de 15 minutos antes da aurora (é o que ouvi em alguma situação social de alguma boca falante), quando o sol ainda muito tímido, porém sempre vaidoso, nos favorece a certeza do bom funcionamento das glândulas sudoríparas.

Acordei e logo tomei um café. Descendo as escadas sinto o frescor, ainda resguardado da madrugada, pelos corredores do prédio, embora refrescante, o isolamento térmico promove o cheiro de umidade que meu nariz jamais acostumará.

Antes de sair pelo portão, cruzo por Leonora, uma singela vizinha de olhos e cabelos castanhos de poucos atrativos, mas que certa vez por uma gentileza, me recompensou com 15 segundos de conversa…:

(Iniciando minha rotina diária, descendo as escadas vi Leonora subindo com muitas sacolas de supermercado)

– Deixa-me te ajudar vizinha! 

Falei com despretensiosa suavidade e ela sem muita escolha:

– Pode pegar essas da minha mão direita, obrigada, muito obrigada.

E ainda:

– Sabe como é, vida de secretária, passo muito tempo sentada, se não fosse esse emprego seria tudo diferente.

– É, seria tudo diferente. 

Retruquei, preenchendo o ar com algumas palavras.

Esse diálogo me despertou uma questão, caro leitor…

 

Dia 3 

Cova Alta é o nome que dei a essas terras que vim parar não sei como. Última coisa que me lembro é de conversar com Leonora nas escadas do prédio em que moro, ou morava. Pareci despertar de um desmaio repentino e quando vi, o pavor me tomou conta, parecia estar em uma cabana rústica feita de troncos com cortes quase cirúrgicos e acabamentos dignos de um Deus marceneiro, ousaria dizer que esta casa foi feita na carpintaria de José pelas mãos de Cristo. Ergui a cabeça do travesseiro com cheiro de mofo e a primeira e única coisa familiar que vejo é o rádio e a agenda. O que isso significaria?

Pela janela só vejo pinheiros fechando minha visão do horizonte, não parece dia nem noite, apenas um céu nublado com alguma claridade. Talvez o clima ou o ambiente me fez entender que este lugar é bem acima do nível do mar. Resolvo sair e olhar a cabana de fora, já que os pinheiros limitam a visão da clareira em que se encontra a cabana. A cabana por fora segue impecável, mas o que me chama atenção é que ela não é uma casa comum de quatro paredes, esta cabana é sextavada, assim como um caixão. Ângulos bastante sutis, mas ainda sim, sextavado. Batizei este lugar de Cova Alta.

Após vasculhar o lugar a procura de alguém, procuro lidar com o que já estou acostumado, ligo o rádio e clamo por ajuda. Como não obtive resposta, apelei para a leitura habitual do mantra:

“Perpétuo chamado do caminho sem sabor

Tão longa a espera que tenho que esperar

Mesmo fatigável que seja esse labor

Sou movido, sem chance de parar

 

As palavras são insuficientes então

A razão não pode compreender

A falta que faz um capitão

E alguém para se prender

 

Da madeira sextavada,

Para o sótão ou o porão

Ninguém escapa dessa espada

Que parte o coração

 

Oferenda e sacrifício

A labuta e o ofício

Palestra e o comício

A queda e o vício

 

Saudação

Comunicação

Satisfação

Opção”

A Voz da Vocação

Foi assim que terminei a faculdade de Psicologia, estava procurando emprego, deixando alguns currículos aqui e ali, falando com conhecidos, enfim, fazendo networking. Mais difícil do que eu pensava, por sinal, mas tive lá algum sucesso. O problema começou quando, de uma hora para a outra, parei de ouvir a voz das pessoas; não havia relação em conhecê-las ou não, a “voz muda” não distinguia conhecidos de desconhecidos.

A primeira vez foi no supermercado, eu estava passando as compras no caixa como de costume, mas, no momento que a atendente deveria perguntar qual seria a forma de pagamento, não houve som algum de sua boca; os lábios se moviam, os músculos do rosto se contorciam dando forma às letras, sílabas, palavras e frases, mas não havia nenhum som, sequer um ruído saindo da boca dela. Era como assistir a um filme mudo.

Minutos depois voltou a acontecer no ponto de ônibus, agora com todas as pessoas que estavam presentes, cerca de sete. Três se conheciam e conversavam continuamente, sorrindo umas para as outras como boas amigas. No entanto, não se ouvia nenhum barulho, nenhum som das vozes ou risadas ou falas. As pessoas que falavam ao celular também não emitiam sons, como se uma bolha invisível estivesse bloqueando tudo.

Pouco-a-pouco, ao longo do dia, eu não conseguia mais ouvir nenhuma pessoa, apenas os sons da natureza e dos objetos não-naturais como veículos. Nenhuma voz. Foi assim após descer do ônibus, passar na padaria, farmácia e no consultório do doutor. Quando estava certo da minha insanidade, cogitando, talvez, me internar, entrei em um táxi para tentar chegar em casa mais cedo e deitar, talvez um bom descanso ajudasse a resolver aquela estranha situação. Antes do taxista perguntar, falei o endereço que desejava ir, foi no momento seguinte que tomei um tremendo susto: ele respondeu com um “Ok, chefe!” e, sem explicação, consegui ouvir sua voz perfeitamente.

“Será minha imaginação?”, era uma dúvida natural, até mesmo justa. “Eu consigo ouvir sua voz, senhor!”, falei pelo impulso da boa surpresa, o taxista franziu o cenho pelo retrovisor: “Como assim?”, perguntou confuso, “Por que o senhor não me ouviria?”, quis saber, “O senhor não acreditaria seu eu falasse.”

Aquilo aconteceu durante todo o dia. A maioria das pessoas continuava sem voz para mim, como se fizessem mímica, enquanto outras pouquíssimas conseguiam emitir sons normalmente: o guarda na esquina, o advogado com a pasta de couro marrom passando apressado, o vendedor de livros usados, a professora comprando sorvete. Tão diferentes uns dos outros… eu não entendia a relação entre eles. Enquanto pensava, parado em frente à porta de casa, meu celular tocou, era a mulher do RH com quem eu havia deixado um currículo. Conversamos por alguns minutos e marcamos uma entrevista para às 15h, eram 14:12 quando finalizamos a chamada. Eu estava transbordando de alegria que mal conseguia colocar a chave na fechadura para abrir a porta. Finalmente consegui! Adentrei impetuoso, sorrindo, o coração acelerado pela ansiedade.

Bastava abrir a segunda porta para entrar em casa, mas antes de conseguir girá-la uma voz disse meu nome, estava fraca, mas consegui ouvir; virei-me rápido e vi minha vizinha, uma senhora de sessenta e poucos anos, cabelos brancos finos, dava para ver sua cabeça pelada, pele enrugada como maracujá, olhos azuis como o céu, porém tristes. “Aconteceu alguma coisa, dona Iêda?”, ela balançou a cabeça dizendo que não, mas duas lágrimas caíram e ela se apoiou na parede. No ínfimo intervalo entre as lágrimas caindo e seu magro corpo cansado se recostar sobre a parede fria foi que eu entendi tudo o que havia acontecido durante todo aquele dia.

Sorri para ela com toda a ternura que já havia sentido na vida, então fui até lá aonde estava, passei o braço ao redor de seus ombros ossudos e a puxei contra mim: “Vamos entrar. Lá dentro podemos conversar com calma tomando um café. Sei que a senhora adora café.”, nós dois sorrimos. Fechei a porta com um dos pés sem desfazer o abraço. Ficamos até às 19h conversando antes dela cair no sono depois de quatro xícaras de café e um punhado de biscoitos de maisena. O mais incrível de tudo é como não consigo esquecer sua voz doce, mesmo após sua inesperada morte eu ainda lembro como se ela estivesse falando aos meus ouvidos.

Naquele dia eu perdi a entrevista, mas entendi qual era meu propósito neste mundo.