A cartomante

A SEGUNDA VIDA
Monsenhor Caldas interrompeu a narração do desconhecido:
— Dá licença? é só um instante. Levantou-se, foi ao interior da casa, chamou o preto velho que o servia, e disse-lhe em voz baixa:
— João, vai ali à estação de urbanos, fala da minha parte ao comandante, e pede-lhe que venha cá com um ou dois homens, para livrar-me de um sujeito doido. Anda, vai depressa.
E, voltando à sala:
— Pronto, disse ele; podemos continuar.
— Como ia dizendo a Vossa Reverendíssima, morri no dia vinte de março de 1860, às cinco horas e quarenta e três minutos da manhã. Tinha então sessenta e oito anos de idade. Minha alma voou pelo espaço, até perder a terra de vista, deixando muito abaixo a lua, as estrelas e o sol; penetrou finalmente num espaço em que não havia mais nada, e era clareado tão-somente por uma luz difusa. Continuei a subir, e comecei a ver um pontinho mais luminoso ao longe, muito longe. O ponto cresceu, fez-se sol. Fui por ali dentro, sem arder, porque as almas são incombustíveis. A sua pegou fogo alguma vez?
— Não, senhor.
— São incombustíveis. Fui subindo, subindo; na distância de quarenta mil léguas, ouvi uma deliciosa música, e logo que cheguei a cinco mil léguas, desceu um enxame de almas, que me levaram num palanquim feito de éter e plumas. Entrei daí a pouco no novo sol, que é o planeta dos virtuosos da terra. Não sou poeta, monsenhor; não ouso descreverlhe as magnificências daquela estância divina. Poeta que fosse, não poderia, usando a
linguagem humana, transmitir-lhe a emoção da grandeza, do deslumbramento, da felicidade, os êxtases, as melodias, os arrojos de luz e cores, uma coisa indefinível e incompreensível. Só vendo. Lá dentro é que soube que completava mais um milheiro de almas; tal era o motivo das festas extraordinárias que me fizeram, e que duraram dois séculos, ou, pelas nossas contas, quarenta e oito horas. Afinal, concluídas as festas, convidaram-me a tornar à terra para cumprir uma vida nova; era o privilégio de cada alma que completava um milheiro. Respondi agradecendo e recusando, mas não havia recusar.
Era uma lei eterna. A única liberdade que me deram foi a escolha do veículo; podia nascer príncipe ou condutor de ônibus. Que fazer? Que faria Vossa Reverendíssima no meu lugar?
— Não posso saber; depende…
— Tem razão; depende das circunstâncias. Mas imagine que as minhas eram tais que não me davam gosto a tornar cá. Fui vítima da inexperiência, monsenhor, tive uma velhice ruim, por essa razão. Então lembrou-me que sempre ouvira dizer a meu pai e outras pessoas mais velhas, quando viam algum rapaz: — “Quem me dera aquela idade, sabendo o que sei hoje!” Lembrou-me isto, e declarei que me era indiferente nascer mendigo ou potentado, com a condição de nascer experiente. Não imagina o riso universal com que me ouviram. Jó, que ali preside a província dos pacientes, disse-me que um tal desejo era disparate; mas eu teimei e venci. Daí a pouco escorreguei no espaço: gastei nove meses a atravessá-lo até cair nos braços de uma ama de leite, e chamei-me José Maria. Vossa
Reverendíssima é Romualdo, não?
— Sim, senhor; Romualdo de Sousa Caldas.
— Será parente do padre Sousa Caldas?
— Não, senhor.
— Bom poeta o padre Caldas. Poesia é um dom; eu nunca pude compor uma décima. Mas, vamos ao que importa. Conto-lhe primeiro o que me sucedeu; depois lhe direi o que desejo de Vossa Reverendíssima. Entretanto, se me permitisse ir fumando…
Monsenhor Caldas fez um gesto de assentimento, sem perder de vista a bengala que José Maria conservava atravessada sobre as pernas. Este preparou vagarosamente um cigarro. Era um homem de trinta e poucos anos, pálido, com um olhar ora mole e apagado, ora inquieto e centelhante. Apareceu ali, tinha o padre acabado de almoçar, e pediu-lhe uma entrevista para negócio grave e urgente. Monsenhor fê-lo entrar e sentar-se; no fim de dez minutos, viu que estava com um lunático. Perdoava-lhe a incoerência das idéias ou o assombroso das invenções; pode ser até que lhe servissem de estudo. Mas o desconhecido teve um assomo de raiva, que meteu medo ao pacato clérigo. Que podiam fazer ele e o preto, ambos velhos, contra qualquer agressão de um homem forte e louco? Enquanto esperava o auxilio policial, monsenhor Caldas desfazia-se em sorrisos e assentimentos de cabeça, espantava-se com ele, alegrava-se com ele, política útil com os loucos, as mulheres e os potentados. José Maria acendeu finalmente o cigarro, e continuou:
— Renasci em cinco de janeiro de 1861. Não lhe digo nada da nova meninice, porque aí a experiência teve só uma forma instintiva. Mamava pouco; chorava o menos que podia para não apanhar pancada. Comecei a andar tarde, por medo de cair, e daí me ficou uma tal ou qual fraqueza nas pernas. Correr e rolar, trepar nas árvores, saltar paredões, trocar murros, coisas tão úteis, nada disso fiz, por medo de contusão e sangue. Para falar com franqueza, tive uma infância aborrecida, e a escola não o foi menos. Chamavam-me tolo e moleirão. Realmente, eu vivia fugindo de tudo. Creia que durante esse tempo não escorreguei, mas também não corria nunca. Palavra, foi um tempo de aborrecimento; e, comparando as cabeças quebradas de outro tempo com o tédio de hoje, antes as cabeças
quebradas. Cresci; fiz-me rapaz, entrei no período dos amores… Não se assuste; serei casto, como a primeira ceia. Vossa Reverendíssima sabe o que é uma ceia de rapazes e mulheres?
— Como quer que saiba?…
— Tinha dezenove anos, continuou José Maria, e não imagina o espanto dos meus amigos, quando me declarei pronto a ir a uma tal ceia… Ninguém esperava tal coisa de um rapaz tão cauteloso, que fugia de tudo, dos sonos atrasados, dos sonos excessivos, de andar sozinho a horas mortas, que vivia, por assim dizer, às apalpadelas. Fui à ceia; era no Jardim Botânico, obra esplêndida. Comidas, vinhos, luzes, flores, alegria dos rapazes, os olhos das damas, e, por cima de tudo, um apetite de vinte anos. Há de crer que não comi nada? A lembrança de três indigestões apanhadas quarenta anos antes, na primeira vida, fez-me recuar. Menti dizendo que estava indisposto. Uma das damas veio sentar-se à minha direita, para curar-me; outra levantou-se também, e veio para a minha esquerda, com o mesmo fim.
Você cura de um lado, eu curo do outro, disseram elas. Eram lépidas, frescas, astuciosas, e tinham fama de devorar o coração e a vida dos rapazes. Confesso-lhe que fiquei com medo e retraí-me. Elas fizeram tudo, tudo; mas em vão. Vim de lá de manhã, apaixonado por ambas, sem nenhuma delas, e caindo de fome. Que lhe parece? concluiu José Maria pondo as mãos nos joelhos, e arqueando os braços para fora.
— Com efeito…
— Não lhe digo mais nada; Vossa Reverendíssima adivinhará o resto. A minha segunda vida é assim uma mocidade expansiva e impetuosa, enfreada por uma experiência virtual e tradicional. Vivo como Eurico, atado ao próprio cadáver… Não, a comparação não é boa. Como lhe parece que vivo?
— Sou pouco imaginoso. Suponho que vive assim como um pássaro, batendo as asas e amarrado pelos pés…
— Justamente. Pouco imaginoso? Achou a fórmula; é isso mesmo. Um pássaro, um grande pássaro, batendo as asas, assim…
José Maria ergueu-se, agitando os braços, à maneira de asas. Ao erguer-se, caiu-lhe a bengala no chão; mas ele não deu por ela. Continuou a agitar os braços, em pé, defronte do padre, e a dizer que era isso mesmo, um pássaro, um grande pássaro… De cada vez que batia os braços nas coxas, levantava os calcanhares, dando ao corpo uma cadência de movimentos, e conservava os pés unidos, para mostrar que os tinha amarrados. Monsenhor aprovava de cabeça; ao mesmo tempo afiava as orelhas para ver se ouvia passos na escada.
Tudo silêncio. Só lhe chegavam os rumores de fora: — carros e carroças que desciam, quitandeiras apregoando legumes, e um piano da vizinhança. José Maria sentou-se finalmente, depois de apanhar a bengala, e continuou nestes termos:
— Um pássaro, um grande pássaro. Para ver quanto é feliz a comparação, basta a aventura que me traz aqui, um caso de consciência, uma paixão, uma mulher, uma viúva, D. Clemência. Tem vinte e seis anos, uns olhos que não acabam mais, não digo no tamanho, mas na expressão, e duas pinceladas de buço, que lhe completam a fisionomia. É filha de um professor jubilado. Os vestidos pretos ficam-lhe tão bem que eu às vezes digolhe rindo que ela não enviuvou senão para andar de luto. Caçoadas! Conhecemo-nos há um
ano, em casa de um fazendeiro de Cantagalo. Saímos namorados um do outro. Já sei o que me vai perguntar: por que é que não nos casamos, sendo ambos livres…
— Sim, senhor.
— Mas, homem de Deus! é essa justamente a matéria da minha aventura. Somos livres, gostamos um do outro, e não nos casamos: tal é a situação tenebrosa que venho expor a Vossa Reverendíssima, e que a sua teologia ou o que quer que seja, explicará, se puder. Voltamos para a Corte namorados. Clemência morava com o velho pai, e um irmão empregado no comércio; relacionei-me com ambos, e comecei a freqüentar a casa, em Matacavalos. Olhos, apertos de mão, palavras soltas, outras ligadas, uma frase, duas frases, e estávamos amados e confessados. Uma noite, no patamar da escada, trocamos o primeiro beijo… Perdoe estas coisas, monsenhor; faça de conta que me está ouvindo de confissão.
Nem eu lhe digo isto senão para acrescentar que saí dali tonto, desvairado, com a imagem de Clemência na cabeça e o sabor do beijo na boca. Errei cerca de duas horas, planeando uma vida única; determinei pedir-lhe a mão no fim da semana, e casar daí a um mês.
Cheguei às derradeiras minúcias, cheguei a redigir e ornar de cabeça as cartas de participação. Entrei em casa depois de meia-noite, e toda essa fantasmagoria voou, como as mutações à vista nas antigas peças de teatro. Veja se adivinha como.
— Não alcanço…
— Considerei, no momento de despir o colete, que o amor podia acabar depressa; tem-se visto algumas vezes. Ao descalçar as botas, lembrou-me coisa pior: — podia ficar o fastio. Concluí a toilette de dormir, acendi um cigarro, e, reclinado no canapé, pensei que o costume, a convivência, podia salvar tudo; mas, logo depois adverti que as duas índoles podiam ser incompatíveis; e que fazer com duas índoles incompatíveis e inseparáveis? Mas, enfim, dei de barato tudo isso, porque a paixão era grande, violenta; considerei-me casado, com uma linda criancinha… Uma? duas, seis, oito; podiam vir oito, podiam vir dez; algumas aleijadas. Também podia vir uma crise, duas crises, falta de dinheiro, penúria, doenças; podia vir alguma dessas afeições espúrias que perturbam a paz doméstica…
Considerei tudo e concluí que o melhor era não casar. O que não lhe posso contar é o meu desespero; faltam-me expressões para lhe pintar o que padeci nessa noite… Deixa-me fumar outro cigarro?
Não esperou resposta, fez o cigarro, e acendeu-o. Monsenhor não podia deixar de admirar-lhe a bela cabeça, no meio do desalinho próprio do estado; ao mesmo tempo notou que ele falava em termos polidos, e, que apesar dos rompantes mórbidos, tinha maneiras.
Quem diabo podia ser esse homem? José Maria continuou a história, dizendo que deixou de ir à casa de Clemência, durante seis dias, mas não resistiu às cartas e às lágrimas. No fim de uma semana correu para lá, e confessou-lhe tudo, tudo. Ela ouviu-o com muito interesse, e quis saber o que era preciso para acabar com tantas cismas, que prova de amor queria que ela lhe desse. — A resposta de José Maria foi uma pergunta.
— Está disposta a fazer-me um grande sacrifício? disse-lhe eu. Clemência jurou que sim. “Pois bem, rompa com tudo, família e sociedade; venha morar comigo; casamo-nos depois desse noviciado.” Compreendo que Vossa Reverendíssima arregale os olhos. Os dela encheram-se de lágrimas; mas, apesar de humilhada, aceitou tudo. Vamos; confesse que sou um monstro.
— Não, senhor…
— Como não? Sou um monstro. Clemência veio para minha casa, e não imagina as festas com que a recebi. “Deixo tudo, disse-me ela; você é para mim o universo.” Eu beijeilhe os pés, beijei-lhe os tacões dos sapatos. Não imagina o meu contentamento. No dia
seguinte, recebi uma carta tarjada de preto; era a notícia da morte de um tio meu, em Santana do Livramento, deixando-me vinte mil contos. Fiquei fulminado. “Entendo, disse a Clemência, você sacrificou tudo, porque tinha notícia da herança.” Desta vez, Clemência não chorou, pegou em si e saiu. Fui atrás dela, envergonhado, pedi-lhe perdão; ela resistiu.
Um dia, dois dias, três dias, foi tudo vão; Clemência não cedia nada, não falava sequer.
Então declarei-lhe que me mataria; comprei um revólver, fui ter com ela, e apresentei-lho: é este.
Monsenhor Caldas empalideceu. José Maria mostrou-lhe o revólver, durante alguns segundos, tornou a metê-lo na algibeira, e continuou:
— Cheguei a dar um tiro. Ela, assustada, desarmou-me e perdoou-me. Ajustamos precipitar o casamento, e, pela minha parte, impus uma condição: doar os vinte mil contos à Biblioteca Nacional. Clemência atirou-se-me aos braços, e aprovou-me com um beijo. Dei os vinte mil contos. Há de ter lido nos jornais… Três semanas depois casamo-nos. Vossa Reverendíssima respira como quem chegou ao fim. Qual! Agora é que chegamos ao trágico. O que posso fazer é abreviar umas particularidades e suprimir outras; restrinjo-me a Clemência. Não lhe falo de outras emoções truncadas, que são todas as minhas, abortos de prazer, planos que se esgarçam no ar, nem das ilusões de saia rota, nem do tal pássaro…
plás… plás… plás…
E, de um salto, José Maria ficou outra vez de pé, agitando os braços, e dando ao corpo uma cadência. Monsenhor Caldas começou a suar frio. No fim de alguns segundos, José Maria parou, sentou-se, e reatou a narração, agora mais difusa, mais derramada, evidentemente mais delirante. Contava os sustos em que vivia, desgostos e desconfianças.
Não podia comer um figo às dentadas, como outrora; o receio do bicho diminuía-lhe o sabor. Não cria nas caras alegres da gente que ia pela rua: preocupações, desejos, ódios, tristezas, outras coisas, iam dissimuladas por umas três quartas partes delas. Vivia a temer um filho cego ou surdo-mudo, ou tuberculoso, ou assassino, etc. Não conseguia dar um jantar que não ficasse triste logo depois da sopa, pela idéia de que uma palavra sua, um gesto da mulher, qualquer falta de serviço podia sugerir o epigrama digestivo, na rua, debaixo de um lampião. A experiência dera-lhe o terror de ser empulhado. Confessava ao padre que, realmente, não tinha até agora lucrado nada; ao contrário, perdera até, porque fora levado ao sangue… Ia contar-lhe o caso do sangue. Na véspera, deitara-se cedo, e sonhou… Com quem pensava o padre que ele sonhou?
— Não atino…
— Sonhei que o Diabo lia-me o Evangelho. Chegando ao ponto em que Jesus fala dos lírios do campo, o Diabo colheu alguns e deu-mos. “Toma, disse-me ele; são os lírios da Escritura; segundo ouviste, nem Salomão em toda a pompa, pode ombrear com eles.
Salomão é a sapiência. E sabes o que são estes lírios, José? São os teus vinte anos.” Fitei-os encantado; eram lindos como não imagina. O Diabo pegou deles, cheirou-os e disse-me que os cheirasse também. Não lhe digo nada; no momento de os chegar ao nariz, vi sair de dentro um réptil fedorento e torpe, dei um grito, e arrojei para longe as flores. Então, o Diabo, escancarando uma formidável gargalhada: “José Maria, são os teus vinte anos.” Era uma gargalhada assim: — cá, cá, cá, cá, cá…
José Maria ria à solta, ria de um modo estridente e diabólico. De repente, parou; levantou-se, e contou que, tão depressa abriu os olhos, como viu a mulher diante dele aflita e desgrenhada. Os olhos de Clemência eram doces, mas ele disse-lhe que os olhos doces também fazem mal. Ela arrojou-se-lhe aos pés… Neste ponto a fisionomia de José Maria estava tão transtornada que o padre, também de pé, começou a recuar, trêmulo e pálido.
“Não, miserável! não! tu não me fugirás!” bradava José Maria investindo para ele. Tinha os olhos esbugalhados, as têmporas latejantes; o padre ia recuando… recuando… Pela escada acima ouvia-se um rumor de espadas e de pés.

O Inferno de Gabriel

Gabriel. Nome de origem hebraica. “Homem de Deus”, “Homem forte de Deus” segundo algumas definições na web. Mas, eu preciso lhe contar algo leitor.  E que nessa historia, ele fará jus ao significado do nome que possui, devido o seu comportamento admirável para com o próximo. Mas, preciso lhe contar algo leitor. Gabriel é um empresário belenense que sempre reconhece o bom trabalho dos seus funcionários, agradecendo os pelas suas boas ideias e profissionalismo. Mas, eu preciso lhe contar algo leitor. Quando chegava para trabalhar na sua empresa, questionamentos cordiais do tipo “Como vai você?” ou “ E a família, está bem?” eram frequentes, logo, pela manhã. Mas, preciso lhe contar algo leitor

-Ideia estupida! Ninguém tem mais nada a acrescentar de interessante nessa reunião? Será que sou o único que, verdadeiramente, pensa nessa empresa? Burros! Aqui é um jornal e não o ensino fundamental patético de vocês. Parece que as boas ideias saem, somente, de mim.

Lamento leitor. Esse, de fato, é o verdadeiro Gabriel da nossa história.

Certa noite, ele chegou em casa, como de praxe, com o semblante fechado, postura imperiosa e as sobrancelhas arqueadas. Abriu a porta e olhou, por alguns instantes, aquela sala imensa com a sua decoração suntuosa. Ficou parado na entrada, como se esperasse alguém vim lhe receber com um “boa noite” amável ou com algum abraço caloroso. No entanto, não veio ninguém. Gabriel baixou a cabeça, balançou ela de um lado para o outro, suspirou forte e, logo em seguida, ergueu a coluna mais imponente do que nunca, entrou e subiu as escadas.

Depois do banho, sentou-se em frente a sua penteadeira camarim cor branca e começou a desembaraçar os cabelos. Parou. Mirou a sua imagem refletida naquele espelho e pensou um pouco. De repente, teve a impressão de que alguma presença estranha havia passado pela sua costa. Olhou para trás e não viu ninguém. Tornou a pentear os seus cachos e, pela segunda vez, algo passou como um vulto novamente atrás dele. Os poucos pelos dos braços se levantaram. Deu um salto abrupto e perguntou:

-Quem está aí? – Questionou Gabriel; segurando a escova de cabelo na mão direita com os olhos azuis arregalados.  

Caminhou até o closet. Ligou a luz, no qual roupas de grife e vários sapatos estavam organizados com perfeição, mas não havia ninguém por ali. “Estou ficando louco?” pensou o órfão rico. E no instante que colocaria o dedo no interruptor para desligar as luzes, escutou uma voz grave atrás dele.

– Gabriel, não é?                     

Um frio subiu pela coluna vertebral de Gabriel e a saliva desceu rasgando a garganta. Voltou-se para a direção da penteadeira, mas nada foi visto. Correu para a cama e embrulhou-se da cabeça aos pés. Pensou em gritar. Mas quem iria lhe socorrer? Os empregados? “Melhor não. Eles não podem me ver nessa situação. Seria patético.” pensou Gabriel. Em seguida, Dormiu.

De manhã, no jornal, Gabriel passou por alguns colaboradores sem cumprimenta-los, como se eles nem estivessem ali, executando as tarefas diárias. A cabeça erguida, de modo majestosa, e a postura ereta destacavam-se. Geralmente, algum empregado via escapar um rebolado daquele andar firme, mas que, Gabriel, logo, consertava, a fim de evitar comentários.  Um funcionário lhe entregou alguns relatórios, no qual ele passou a vista em uma só olhada, sem se desfazer das sobrancelhas arqueadas, atirou-os contra o peito daquele subordinado, sem agradece ló. Nunca agradecia. Entrou no elevador. E quando saiu dele para seguir em direção a sua sala, viu uma cena que lhe chamou a atenção: uma criança que visitava o pai no trabalho abraçava o forte. Os ombros de Gabriel foram murchando, como balões de final de festa ao ver aquele momento de carinho. O semblante dele entristeceu e os olhos fecharam-se por um instante para que uma lembrança perturbasse os seus ouvidos e o levasse para uma viagem dolorosa dentro de si.

– Pai! Pai! Vamos brincar? Pai! O senhor tá me ouvindo?

– Agora não, Gabriel. Estou trabalhando. Procure a sua babá e saia daqui!

Gabriel retornou daquela recordação, cambaleando um pouco. Quando caiu em si de novo, as sobrancelhas arquearam-se mais uma vez e a coluna voltara para posição imperiosa que estava. Em seguida, escancarou a porta daquela sala e gritou:

– O que está acontecendo aqui? Eu já não falei que é proibido a entrada de crianças? Você sabe com quem está falando?

O colaborador se desculpou e informou que aquilo não aconteceria mais. O “dono da empresa” saiu, batendo a porta com força, assustando a criança que, logo, colocou as duas mãos nos ouvidos.

Gabriel entrou na sua sala, trancou a porta e grudou-se nela de costas. Quis chorar. Caminhou até as janelas, fechou as persianas e apoiou nelas com as mãos. Abaixou a cabeça e inspirou e expirou fundo. Não lagrimou. E, logo em seguida, assustou-se quando uma sombra passou por trás dele. Gabriel sentiu um arrepio e caminhou com passos largos em direção à saída. Ao girar a maçaneta da porta, escutou a mesma voz que o assustara na noite anterior.

– Por que tanta pressa jovem Gabriel?

Ficou petrificado. Virou a cabeça bem devagar com a esperança de que não pudesse encontrar ninguém ali. Enganou-se. Um homem de estatura mediana estava parado em sua frente. Vestia um blazer escuro, calça de linho e sapatos pretos. Usava uma gravata vermelha cor de sangue e apoiava-se em uma bengala dourada cravejada de pedras preciosas. Os cabelos estavam penteados, como se estivessem sob o efeito molhado de algum gel capilar.

– Quem é voce? E o que faz  na minha empresa? A minha secretária não lhe anunciou. – Questionou Gabriel; disfarçando alguns tremores no corpo.

– Sou o diabo e serei bem objetivo.

– Diabo? – Gabriel deu um sorriso irônico. – Achava que eu era o próprio.

– Estou procurando alguém para assumir o inferno e você tem o perfil que procuro. Mas, antes, você deverá passar por um desafio: se você ganhar, será considerado como rei em todo o inferno. Terá muitas almas, trabalhando para você. Se fracassar, você, apenas, retornará para a sua… vida.

– Como pode ver – Gabriel abriu os braços, olhando ao seu redor. – Sou rico e não preciso ser rei em lugar nenhum. Eu já sou aqui mesmo.

            – Tens tudo mesmo Jovem Gabriel? – O diabo inclinou a cabeça para frente, como se soubesse a resposta daquela pergunta capciosa. – Poderá ser rei nos dois mundos: lá e aqui. Bom, aguardarei, de qualquer modo, a sua decisão até amanhã. Chame por mim.

E em um piscar de olhos, aquela figura desconhecida sumiu feito fumaça. O empresário andou de um lado para o outro, procurando aquele homem que acabara de fazer aquela proposta, mas nada viu. De qualquer forma, tudo aquilo havia mexido com ele. Não tinha mais cabeça para trabalhar. E quando teve? Precisava distrair-se com alguma coisa. Pegou o celular, falou com alguém e saiu.

Às 12:30 h, daquele mesmo dia, Gabriel estava parado na janela de um quarto; refletindo sobre a decisão que devia tomar. Fumava.

– Oh Biel, volta pra cama cara. Vamos começar um segundo round?

– O que você faria se pudesse ter mais poder? – Perguntou Gabriel, olhando pela janela.

– Hã? Que papo é esse cara? Ah, mano, se eu tivesse a oportunidade de ter mais poder, eu não perderia essa chance ora.  Li, em algum lugar, que quem tem mais poder tem menos dores e nunca se sente só.

– Isso! – Gritou Gabriel, apontando o dedo indicador para cima como se tivesse descoberto algo. – Você tem razão.

-Pra onde tu vai?

– Não interessa! Duzentos reais resolvem não é? Toma.

Na manhã seguinte, o diabo ficara satisfeito com a decisão do “dono do jornal”. No mesmo dia, Gabriel entrou em uma van, no qual todas as janelas estavam fechadas, com cortinas bem decoradas cor de vinho. Havia sido também proibido pelo motorista de abri-las sob quaisquer circunstância. A viagem não demorou.

A van parou. Gabriel desceu e deparou-se com uma imagem lúgubre; triste. O céu tinha cor laranjada e a paisagem era montanhosa; assemelhando-se a um deserto estadunidense, com vegetação rasteira e o clima seco. Lá, nunca anoitecia. Percebeu também que haviam casas organizadas como um vilarejo medieval. “Casas? No inferno?” questionou-se. Havia também pessoas que transitavam por alí. Pessoas normais; tangíveis. E não os demônios com tridentes enormes como Gabriel imaginava. Enfim, ele estava no inferno.  De repente, uma fumaça fantasmagórica apareceu próximo do jovem rico e o diabo surgiu dela, dizendo:

– Você acaba de chegar ao meu reino Jovem Gabriel.

– Ahhh. Achei lindo! Parece com um rabisco em uma cartolina preta de uma criança do maternal.

O diabo deu algumas orientações ao “suposto desafiado” e, logo em seguida, sumiu de novo. Gabriel caminhou até sair dos limites daquele que considerou um “vilarejo”. Olhou para trás e viu aquelas residências se afastando. Minúsculas, agora. Chegou a um lugar, no qual havia muitas grutas e pedras gigantescas. Sentiu um tremor na espinha, mas continuou explorando aquele ambiente. Escutou passos. E quando correu para se esconder, escorregou e ralou os joelhos. Levantou-se num salto e o medo abafou um grito de dor. Escondeu-se atrás de uma pedra que cobria suficiente todo o seu corpo e espreitou.

Alguém abaixou-se no local do tombo de Gabriel e examinou aquele rastro de sangue, olhou para um lado e para o outro, como um caçador, presumindo que a caça ainda estivesse ali.

– Sei que você ainda está aqui. – Disse um homem; dando voltas em si mesmo para verificar se encontrava algo. – Você está machucado. Posso te ajudar. Não deve ser desse mundo não é?

Gabriel não o conhecia de fato. E nem queria conhecer. As mãos suavam de nervoso e, em seguida, todo o seu corpo sentiu inveja disto também. Mas, quando espreitou mais uma vez aquele desconhecido, surpreendeu-se com algo inesperado

– Te achei! – Disse aquele homem estranho, aparecendo do outro lado, de onde Gabriel estava, como um movimento rápido semelhante a um tele transporte.

O jovem empresário virou-se num salto abrupto e não conseguiu conter um gritou de susto, mas também não correu. Ficou parado.

-Calma! Desculpa cara. Me chamo Simão. Posso te ajudar?

– Não preciso da sua ajuda. Foi só um arranhão. E nem está doendo tanto assim.

– Não está doendo? – Simão riu – Você só pode estar louco cara. Vem comigo. Vou fazer um curativo em você. Tudo vai ficar bem. Garanto.

Simão levou Gabriel para a sua casa. De volta ao “vilarejo”, ele limpou os joelhos machucados, enrolou um pedaço de pano neles e deu um nó para que o sangue estancasse. Enquanto isso, Gabriel parecia nem sentir mais dor. Os seus olhos demoravam a piscar, pois estavam fixados em Simão. A íris azul piscina movimentava-se de um lado para o outro pelo globo ocular, como um raio x, analisando cada parte do corpo daquele rapaz desconhecido. A boca não fechava, admirada, devido às “habilidades medicas” de Simão

– Fui enfermeiro em vida. Tive filhos também. Não se preocupe.

– Obrigado!

Os dias passaram-se. Simão apresentou outros lugares daquele inferno para Gabriel. Contava-lhe também historias curiosas para o recente amigo e Gabriel esquecia até mesmo dele, quando ouvia todas elas com muita atenção.  Gargalhava de algumas engraçadas. Engraçado? Havia alguma coisa naquele inferno que era divertido? Mas, esses questionamentos nem, sequer, passavam mais perto do imaginário de Gabriel. Ele nunca havia dado tanta atenção para alguém assim. Beijaram-se, um dia. O coração do empresário bateu tão rápido nesse momento, ao ponto de quase explodir. A respiração era de uma maratona percorrida. Mas…

– Foi só um beijo e nada mais. Não se iluda com isso.

– Por que a resistência?

– Amor traz consequências; dores; fraquezas. E eu não sou fraco. Nunca fui e não será agora que vai ser diferente.

Era tarde demais. Ele estava apaixonado. Começaram a andar de mãos dadas por todo o inferno.

Um dia, Gabriel lembrou-se do motivo inicial de ele estar naquele lugar. Deu um ar de riso bobo por conta desse esquecimento. Foi ao castelo do Diabo para saber sobre o desafio proposto ou até mesmo para desistir de tudo aquilo. Quando chegou lá, escutou algumas vozes que, a principio, não soube distinguir de quem se tratava. Mas, depois, identificou a voz do próprio diabo. Gabriel caminhou até o salão principal de onde achava que vinha aquela discussão, chegou até o local e espreitou. Viu um homem de frente para o diabo. Gesticulava muito com as mãos e braços. Gabriel não conseguiu identifica-lo, a principio, mas, aquela voz tornava-se cada vez mais familiar. Até que ele viu parte do rosto daquele rapaz. Reconheceu o e quis escutar um pouco mais a conversa.

– Não quero mais fazer isso. Chega! Ele não merece.

– Tolo – o diabo gargalhou – Não percebe o que está em jogo aqui ou você não quer mais retornar á vida para rever seus filhos?

O diabo deu uma pausa, olhou por cima dos ombros daquele homem e falou:

– Olha quem veio nos visitar.

– Gabriel? Não é nada disso que você está pensando. – Disse Simão, erguendo os braços como se quisesse segurar o namorado. – Gabriel! Gabriel! Nãooo.

Gabriel saiu daquele lugar; passando a mão esquerda no rosto, enxugando as lágrimas. Simão virou-se, novamente, para o Diabo com olhos fulminantes, mas que, este, deu de ombros, como se não tivesse sido impressionado por aquela fúria.

Gabriel chegou a um penhasco que o próprio Simão havia o apresentado. Tinha uma visão privilegiada de todo o inferno dali de cima. Os cachos de seu cabelo batiam furiosos contra o seu rosto. Aproximou-se da beira do abismo, caiu de joelhos, olhou para o céu como se fosse suplicar algo para Deus. As lágrimas caiam como agua procedente de uma represa destroçada. Deixou a boca mais aberta possível e gritou. Deu socos de indignação em seu peito. “Idiota! Como fui tão burro?” questionava-se. Abaixou a cabeça e as duas mãos esconderam o rosto. Soluçava sem controle. De repente, sentiu passos atrás dele e alguém falou:

-Gabriel, eu ia te contar. Me perdoa cara? – Falou Simão não conseguindo esconder o choro.

O jovem rico ainda continuava com o rosto coberto pelas mãos, mas foi tirando em câmera lenta. Não chorava mais. Olhou para a frente e viu aquela paisagem lúgubre. As sobrancelhas arquearam-se, de modo estranho, dando um ar demoníaco a Gabriel. Os lábios cerraram-se e um sorriso irônico veio à tona. Logo em seguida, ele falou:

– E quem disse que eu também não fingi? – Gabriel levantou-se devagar do chão e virou-se para Simão – Eu também tenho um trato com o diabo. Estou aqui por isso e ainda continuo somente por isso também.  

– Bravo! – o diabo apareceu como um passe de mágica entre eles, batendo palmas. – Esse é, exatamente,  o perfil que procuro Jovem Gabriel.

Em seguida, o diabo fez aparecer duas taças em cada uma de suas mãos, com um líquido vermelho e misterioso, mas que não era vinho. Entregou elas para Gabriel e Simão. Em seguida, fez surgir uma para si mesmo em sua mão esquerda. Todos beberam. De repente, Simão colocou a mão no peito e o ar começou a lhe faltar. Gabriel não moveu, sequer, um musculo do corpo e olhava para Simão, como se ele fosse um inseto que deveria ser esmagado.

Simão caiu de joelhos e, depois, o seu corpo estendeu-se de lado no chão. Gabriel, aos poucos, desfazia aquele semblante sombrio e as suas lágrimas começavam a subir até o nível dos cílios. Logo em seguida, deu um pulo abrupto e correu em direção ao amado para socorrê-lo. Atirou-se junto ao corpo dele e disse:

– Estou aqui meu amor. – Gabriel pegou Simão no colo. – Vou te ajudar. Não se preocupe. Acredito em você. O que você fez com ele? – Gritou Gabriel, olhando para o diabo.

– Você acaba de perder o desafio Jovem Gabriel. Você é mais frágil do que eu imaginava. Esse é você. E esse pobre rapaz foi somente uma isca para pescar quem, realmente, você é. – Disse o diabo, com uma voz misteriosa, abaixando-se próximo ao casal. –Você não acha que esqueceu alguma coisa? – O diabo virou a cabeça, devagar, para o lugar de onde Gabriel tinha saído e corrido.

Quando Gabriel acompanhou o olhar do “dono do umbral”, viu que seu corpo estava no mesmo lugar; parado, como uma estatua de cera apresentada em um museu. Imagem perfeita. Na verdade, era ele com aquele mesmo semblante rígido ainda. Gabriel inclinou um pouco a cabeça para o lado esquerdo sem entender nada. Confuso. De repente, voltou-se para Simão e, este, estava se desfazendo em pó nos seus braços até sumir por completo. Gabriel procurou o diabo para questionar sobre aquele acontecimento. Mas não viu ninguém. Olhou para o céu, fechou os olhos e deu um grito que ecoou todo aquele lugar. Em seguida, quando caiu em si, viu-se deitado na sua própria cama, como se tivesse vindo de um sonho… Ou… de um pesadelo! Estava em seu quarto novamente; na sua casa; no seu mundo. As cortinas dançavam ao som da brisa penetrante que entrava pela janela. E o sol engatinhava em sua direção. Bem devagar. Bem devagar. Era um novo dia.

A tortura pela esperança

Ao Senhor Edouard Nieter
“Oh! Uma voz, uma voz, para gritar!…” Edgar Poe – O Poço e o Pêndulo.
Há muitos anos, ao cair da tarde, nos cárceres do Santo Ofício de Saragoça, o venerando Pedro
Arbuez de Espila – sexto prior dos dominicanos de Segóvia, terceiro Grande Inquisidor de Espanha
–, seguido de um frade redentor (mestre torturador) e precedido de dois encarregados da Inquisição,
os quais seguravam duas candeias, descia para uma enxovia perdida. Rangeu a fechadura de uma
enorme porta; entraram num mefítico in pace, no qual a janela gradeada lá em cima deixava
entrever, entre os anéis chumbados à parede, um cavalete escuro de sangue, um queimador, um
cântaro. Sobre uma cama de palha, preso por grilhões, canga de ferro ao pescoço, sentava-se,
desfigurado, um homem em trapos, de idade incerta.
O prisioneiro não era outro senão o rabino Aser Abarbanel, judeu aragonês acusado de usura e de
impiedoso desdém pelos pobres, que tem sido diariamente submetido a torturas, há mais de um ano.
Todavia, “sua cegueira é tão dura quanto o seu couro”, e ele recusa-se a abjurar sua fé.
O rabino, brioso de uma ascendência milenar, orgulhoso de seus antepassados – pois todos os
judeus dignos desse nome são ciosos do seu sangue -, descendia talmudicamente de Othoniel e, por
conseguinte, de Ipsiboe, mulher desse último Juiz de Israel, circunstância em que também
sustentara a sua coragem diante de incessantes suplícios.
Foi com lágrimas nos olhos, ao pensar que essa alma tão firme se escusava à salvação, que o
venerando Pedro Arbuez de Espila, tendo se aproximado do fremente rabino, pronunciou as
seguintes palavras:
– Meu filho, alegra-te: vão acabar agora as tuas provações neste mundo. Embora, em face de
tanta obstinação, eu tenha sido forçado, com lástima, a permitir o emprego de tantos rigores, o meu
encargo de fraterna correcção tem seus limites. És a figueira, que passando tanto tempo sem
frutificar, vem a mirrar, e só Deus lhe pode julgar a alma. Quem sabe se a infinita Misericórdia te
iluminará no teu último instante! Esperemos que assim seja. Tem havido exemplos. Dorme, pois,
em paz esta noite. Serás incluído amanhã no auto-de-fé: isto é, serás submetido ao queimadeiro,
fogueira premonitória das Chamas Eternas; como sabes, meu filho, só arde à distância e a Morte
leva duas horas para chegar (muitas vezes três), por causa dos panos molhados e gelados com que
temos o cuidado de proteger a frente e o coração dos holocaustos. Serão apenas quarenta e três.
Considere que, estando colocado na última fila, disporás do tempo necessário para invocar Deus,
para te ofertar esse baptismo do fogo, que é do Espírito Santo. Tem assim, esperança na Luz e
dorme.
Ao acabar este discurso, dom Arbuez, depois de, com um gesto, mandar desagrilhoar o infeliz,
abraçou-o ternamente. Depois coube a vez ao frade redentor, que, sussurrando, pediu ao judeu
perdão pelo que o obrigara a sofrer para o redimir; por fim, cingiram-no os dois encarregados cujo
beijo, dado através dos capuzes, foi silencioso. Terminada a cerimónia, deixaram o cativo nas
trevas, só e atónito.
* * *
O rabino Aser Abarbanel, de boca seca e olhar embrutecido de sofrimento começou por fitar, sem
muita atenção, a porta fechada. – “Fechada?…” Esta palavra, no mais íntimo de si, despertava, nos
seus confusos pensamentos, um devaneio. Acontecia que entrevira por um instante, pela fresta entre
a porta e a muralha, o cintilar de lanternas. Uma ideia mórbida de esperança, devido à fraqueza do
seu cérebro, convulsionou-lhe todo o ser. Arrastou-se para a insólita coisa que aparecera! E,
suavemente, inserindo um dedo com grande cautela na nesga, puxou a porta para si. Que assombro!
Por extraordinário acaso, o encarregado que a fechara rodara a grossa chave um pouco antes do
embate contra os montantes de pedra, de modo que a lingueta enferrujada não entrara no seu
encaixe, e a porta voltou a rodar nos gonzos.
O rabino arriscou um olhar para fora.
Encoberto por uma espécie de obscuridade lívida, distinguiu primeiro um semicírculo de paredes
terrosas recortadas por degraus em espiral; e, diante dele, cinco ou seis degraus de pedra acima, um
portal escuro, aberto para imenso corredor, do qual apenas as primeiras arcadas lhe eram visíveis.
Deitando-se rastejou até ao rés desse limiar – sim, era mesmo um corredor, mas de comprimento
desmedido! Iluminava-o uma luz pálida, um brilho onírico: suspensas das abóbadas, chamas de
vigia banhavam de tons azuis, a intervalos, o ar pardacento: – o fundo longínquo era todo sombra.
Nem uma porta lateral em toda essa extensão! De um só dos lados, à esquerda, havia seteiras, com
grelhas em cruz, abertas nas paredes, que deixavam perpassar o crepúsculo – que devia estar
anoitecendo, dadas as réstias rubras que de quando em quando riscavam o lajeado. E que silêncio
assustador!… Contudo, ao fundo, nas profundas dessas brumas, uma saída poderia dar para a
liberdade! A vacilante esperança do judeu era tenaz, pois era a última.
Sem hesitar, avançou, conservando-se junto à parede, e procurou camuflar-se com o tom sombrio
das longas muralhas. Avançou lentamente, arrastou-se com a respiração contida, e reprimia um
grito, quando lhe martirizava uma chaga mais recente.
De súbito, chegou até ele, no eco da senda de pedra, o ruído de sandálias que se aproximava.
Tremeu; a ansiedade abafava-o; escureceu se lhe a vista. Não era possível! Seria o fim? Agachou-se
num côncavo e, quase morto, esperou.
Era um encarregado apressado. Passou rapidamente, de lacerador na mão, de capuz rebaixado,
terrível, e desapareceu. A agonia do rabino parecia ter-lhe interrompido a própria vida, e ali ficou
ele, quase uma hora, incapaz de mover-se. Receando redobrados tormentos caso fosse apanhado,
assaltou-o a ideia de voltar ao calabouço. Mas a velha esperança sussurrou-lhe na alma o divino
talvez, que nos conforta sempre, nas mais dolorosas circunstâncias. Acontecera um milagre! Não
havia que duvidar mais! Pôs-se a rastejar de novo, para a possível fuga. Avançava extenuado de
sofrimento e de fome, trémulo de angústias – e esse sepulcral corredor parecia alongar-se
misteriosamente! E ele, avançando sem parar, continuava mirando a sombra distante, onde tinha de
estar a saída salvadora.
– Oh! Oh! – voltavam a soar passos, mas, desta vez, mais lentos e mais pesados. Surgiram, ao
fundo, emergindo no ar pardacento, com os seus chapéus compridos e de abas enroladas, as formas
brancas e negras de dois inquisidores. Conversavam em voz baixa e pareciam discutir sobre um
ponto importante, pois gesticulavam veementemente.
Ao vê-los, o rabino Aser Abarbanel fechou os olhos: batia-lhe tão desordenadamente o coração
que quase o sufocava; os seus andrajos estavam húmidos do suor da agonia; conservou-se imóvel,
estendido ao longo da parede, a boca aberta, sob os raios luminosos de uma chama de vigia, orando
ao Deus de David.
Diante dele, os dois inquisidores detiveram-se sob luz fraca da lâmpada – e isto certamente por
um acaso da discussão. Um deles, escutando o seu interlocutor, pôs-se a olhar para o rabino. E, sob
esse olhar, cuja expressão absorta começou por não compreender, o infeliz julgava sentir as tenazes
quentes a lacerarem-lhe de novo as pobres carnes; então ia voltar a ser um grito e uma chaga!
Desfalecendo, oprimido, com as pálpebras vibrantes, arrepiava-se ao roçar do burel do outro. Mas,
coisa estranha, mas natural, o olhar do inquisidor era evidentemente o de alguém profundamente
absorto na resposta que daria, absorto pelo que ouvia: estava fixo – e parecia olhar o judeu sem o
ver!
Com efeito, passados alguns minutos, os dois sinistros debatedores continuaram o seu caminho,
a passos lentos, sempre conversando em voz baixa, em direcção ao compito de onde viera o
prisioneiro: NÃO FORA VISTO!… No meio da horrível confusão dos pensamentos, brotou-lhe do
espírito esta ideia: “Não me vêem porque estou morto?” Uma horrível impressão tirou-o da letargia:
ao fitar o muro, junto ao rosto, julgou ver, diante dos seus, dois olhos ferozes que o espreitavam!…
Voltou a cabeça num súbito frenesi de pavor, arrepiando-se-lhe os cabelos!… Mas, não! Não.
Esfregou a argamassa com a mão: era o reflexo dos olhos do inquisidor, ainda impressos nos
seus, e deles projectados sobre duas manchas na muralha.
Adiante! Ele precisava apressar-se para a meta que imaginava (absurdamente, sem dúvida) ser a
sua salvação, para as sombras das qual não distava agora mais de trinta passos. Atirou-se de joelhos,
com as mãos espalmadas arrastou-se penosamente, e dai a pouco entrava no trecho escuro daquele
horrível corredor.
De súbito, o miserável sentiu um frio nas mãos que apoiava nas lajes: uma lufada de ar frio,
vinda de baixo de pequena porta, aonde iam ter as duas paredes. – Ah, Deus! Se esta porta desse
para o lado de fora! Sentiu-se invadido de uma vertigem de esperança! Examinou a porta de alto a
baixo, sem conseguir distingui-la bem, dada a escuridão que reinava à volta. – Pôs-se a tactear: nem
ferrolho, nem fechadura. – Uma simples aldrava!… Endireitou se: o trinco cedeu-lhe ao polegar: a
silenciosa porta abriu-se diante dele.
* * *
– ALELUIA!… – murmurou, num imenso suspiro de acção de graças, o rabino, que estava agora
em pé no limiar, contemplando a cena que tinha diante dos olhos.
Ao abrir se, a porta deixara ver jardins, uma noite estrelada! A primavera, a liberdade, a vida!
Dava para os campos que se prolongavam para as serras, cujas sinuosas linhas azuis se perfilavam
no horizonte – enfim, era a salvação! Ah, fugir! Havia de correr toda a noite por entre os limoeiros
cuja fragrância chagavam até ele. Uma vez nas montanhas, estaria salvo! Inalou o bom ar sagrado; o
vento reanimava-o, expandiram-se-lhe os pulmões. Sentiu, no coração dilatado, o Veni foras de
Lázaro! E, para voltar a abençoar o Deus que lhe concedia tal misericórdia, estendeu os braços à sua
frente, elevando os olhos ao firmamento. Era o êxtase da alegria!
Então, julgou ver a sombra dos seus braços virar-se para ele: – julgou sentir que esses braços o
abraçavam, o enlaçavam, e que o cingiam ternamente ao peito de alguém. De fato, havia uma alta
figura junto da sua. Confiante, desceu o olhar para essa figura – e ficou imóvel, ofegante,
estarrecido, de olhar baço, tremendo, de faces inchadas e espumando de terror.
– Horror! – estava nos braços do Grande Inquisidor, o venerável Pedro Arbuez de Espila, que o
fitava, com grossas lágrimas nos olhos, e um ar de bom pastor que voltou a encontrar a ovelha
tresmalhada!…
O tenebroso dominicano apertava o judeu ao peito com tão fervoroso impulso de caridade, que
os picos do cilício monástico lhe esgadanharam a pele. E, enquanto o rabino Aser Abarbanel, de
olhos revoltos sob as pálpebras, estrebuchava de angústia entre os braços do ascético Dom Arbuez e
percebia confusamente que todas as fases da fatal noite mais não eram do que um suplício previsto,
o da Esperança!, o Grande Inquisidor, num tom de pungente censura e de olhar consternado,
murmurava-lhe ao ouvido, com o hálito ardente e debilitado pelos jejuns:
– Então, meu filho, o que é isso? Então, na véspera talvez da salvação… querias deixar-nos?

O Dia que não foi dos Pais

Quando os olhares deles se cruzaram naquela rua, passado e presente se misturaram. Mágoas, pensamentos e vários “porquês” eram lançados um ao outro em busca de respostas imediatas. Na cabeça de um, os cabelos grisalhos eram visíveis e a idade avançada já pesava sobre um corpo cansado, devido às marcas de uma velhice difícil. A fase adulta do outro fizera com que a mente dele se perguntasse quanto tempo havia passado desde o ultimo desentendimento entre eles.

Pai e filho estavam ali. Parados. Olhando-se como se cada um projetasse uma lembrança da vida de ambos. O que era o genitor abaixou a cabeça e atravessou a rua com passos lentos e sua fiel bengala; seguindo rumo a sua casa. Quando chegou lá, abriu a porta com dificuldade e foi em direção a uma janela grande e retangular que ficara na sala de estar. Depois, olhou reflexivo para fora de sua residência, no qual o rosto envelhecido era iluminado pelos raios solares.

Ele escutara um barulho na cozinha e alguém entrou pelos fundos da casa, no entanto, aquele idoso manteve-se imóvel perante a esse fato como se já soubesse quem havia entrado ali. Uma presença adentrou o cômodo, no qual aquele senhor de idade se encontrava e este, ainda parado e reflexivo, falou:

– Sonhei tanto com esse momento. Me perdoa. Me perdoa filho pela a minha ausência em sua vida. – Disse o idoso, continuando de costas para o homem que chegara na sala.

-Pai…

-Espere! – Interrompeu o sexagenário sem sair daquela atmosfera de reflexão que ele se encontrava. -Eu não tenho mais tanto tempo nessa vida…

-Eu te amo. -Disse aquele homem; interrompendo também a fala do pai e erguendo os braços com lágrimas nos olhos.

O idoso virou-se e caminhou em direção ao seu filho. Eles se abraçaram e. de repente, alguém deu um ultimo suspiro naquele compartimento. Um coração foi parando como se o motor de uma máquina estivesse sendo desligada por etapas. Um corpo segurou-se no colo do outro até, os dois, atingirem o chão. A bengala caiu para um lado. E uma vida se foi. Mas, foi a respiração do filho que se dissipou, de forma lenta, no ar até desaparecer completamente.

Beatriz, O anjo suicida

Na noite em que a lua não aparecia, surgia Beatriz o anjo suicida, com cortes nos braços e uma dor insuportável no coração, ela não mais dormia ficava a vagar toda noite em ruas escuras.
Um anjo sem asas e sem luz, ela tinha apenas feridas na alma e vontade de chorar e morrer também mas em nenhuma das noites a morte queria ser seu bem.
Com os cabelos ao vento, olhos que refletiam a mais bela luz da noite, não poderiam refletir alegria pois era uma coisa que ela não sentia. Com suas roupas vermelhas cor de sangue e suas lâminas brilhantes no prédio abandonado ela subia.
Ela subiu até encontrar sua mais perigosa agonia, até encontrar as invenções de sua cabeça defeituosa. Ela encontrou seu coração de vidro, estilhaçado no chão e ao encostar nele de cortou. Cortou toda sua pele pálida, pintou com seu própria sangue sua pintura e viu que seu ex amor adormecia. Mas ele não podia estar lá, ele um dia também já foi um anjo suicida, só que ele não mais existia a morte o tinha levado.
Ele abriu os olhos e ela estava louca para correr para seus braços, mas algo nele havia mudado. Tinham demônios em seus olhos, isso ela podia ver, só não podia imaginar que mata-la seria seu prazer.
A máscara que os demônio tinham do seu amor caiu, agora era só seus medos, tormentos, lamentos e traumas juntos, ela iria partir para o outro mundo e não seria mais um anjo.
Ela tentou correr, mas não conseguiu acabou caindo da escada que era muito grande quando parou de cair teve sua cabeça e aberta a machadada e seu cérebro foi partido em pequenos pedaços, mas não pararia por ai, seu sangue serviu como vinho e banho para a morte e do seu corpo e coração foi feito um banquete. Sua alma por fim, ficou presa e abandonada naquela casa e gritava, como gritava era o mais horrível terror, espero que ninguém tente entrar naquela casa.

Sex, 24 de Maio de 2019

Cronologia Viva

O salão do Conselheiro de Estado Charamikin está mergulhado em agradável penumbra. A grande lâmpada de bronze, com seu quebra-luz verde, tinge, à maneira de uma “noite da Ucrânia”, as paredes, os móveis, as fisionomias… De quando em quando, na lareira expirante, abrasa-se uma acha que se consome, e por um instante projeta nos rostos um clarão de incêndio. Isto, porém, não perturba a harmonia geral das luzes. O tom de conjunto, como diriam os pintores, mantém-se.
Ao pé da lareira, acha-se afundado em uma poltrona, na postura dum homem que acaba de jantar, Charamikin em pessoa, senhor idoso, de suíças cinzentas de funcionário, olhos de um azul doce. Transparece-lhe no rosto a benignidade. Um sorriso melancólico franze-lhe os lábios. A seus pés, sobre um mocho, com as pernas voltadas para a lareira e estirando-se preguiçosamente, está sentado o Vice-Governador Lopnef, galharda figura de cerca de quarenta anos.
Junto ao piano brincam os filhos de Charamikin – Nina, Kólia, Nádia e Vânia.
Do salão da Sra. Charamikin chega, pela porta entreaberta, uma luz tímida. Ali, sentada à secretária, vê-se Ana Pavlovna, presidenta do Comitê das damas da cidade — jovem senhora, viva e picante, dos seus trinta anos e mais alguma coisa. Através do lornhom, os olhos negros e vivos deslizam pelas páginas de um romance francês. Sob o romance encontra-se, dilacerado, um relatório do Comitê, do ano anterior.
— Antigamente, nesse ponto de vista — diz Charamikin, piscando os olhos pacatos à claridade dos tições morrediços —, nossa cidade era mais favorecida. Não se passava um inverno que não aparecesse alguma estrela. Tivemos atores e cantores célebres. E agora?… Sabe o diabo o que é! Afora prestidigitadores e tocadores de realejo, não vem mais ninguém. Nenhum prazer estético… Parece que vivemos no mato… Sim… Lembra-se, Excelência, daquele trágico italiano?… Como se chamava mesmo?… Um moreno, alto… Queira Deus que eu me lembre! Ah! sim! Luigi Ernesto di Ruggiero. Um talento notável… Que força! Era ele abrir a boca, e o teatro em peso estremecia. A minha Anniutotchka se interessava muito pelo talento dele. Conseguiu-lhe o teatro e vendeu bilhetes para dez espetáculos… Ele, em recompensa, lhe deu lições de declamação e de música. Um amor de homem! Ele esteve aqui… não vá eu enganar-me… há doze anos… Não, estou enganado… Menos, apenas dez. Anniutotchka, que idade tem a nossa Nina?
— Vai fazer dez anos — gritou Ana Pavlovna lá do seu escritório. — Por quê?
— Nada, minha filhinha, só para saber… E às vezes também vinham bons cantores… Lembra-se do tenore di grazia Priliptchin? Que amor de homem! Que aparência!… Um louro… semblante expressivo, maneiras parisienses… E que voz, Excelência! Só tinha um defeito: cantava algumas notas com o ventre e emitia o ré em falsete; no mais, tudo era bom. Dizia-se aluno de Tamberlick… Anniutotchka e eu conseguimos para ele o salão do Círculo, e, como prova de gratidão, ele cantava em nossa casa, dias e noites… Ensinava canto a Anniutotchka… Esteve aqui, lembro-me bem, pela Quaresma, isto há… doze anos. Não, mais!… Que memória, santo Deus! Anniutotchka, quantos anos tem a nossa pequena Nádia?
— Doze anos.
— Doze… se acrescentarmos dez meses… Exatamente… treze anos!… Antigamente havia na cidade — como direi? — mais vida… Vejamos, por exemplo, os nossos saraus de beneficência. Que belos saraus que houve… Que encanto! Tocava-se, cantava-se, declamava-se… Depois da guerra, lembro-me bem, houve aqui prisioneiros turcos. Anniutotchka organizou um sarau em benefício dos feridos. Rendeu mil e cem rublos… Os oficiais turcos ficaram doidos com a voz de Anniutotchka, e levavam o tempo a lhe beijar a mão. Eh! eh!… Apesar de asiáticos, são pessoas reconhecidas, os turcos. O sarau alcançou tamanho êxito que — imagine V. Exa. — eu anotei no meu diário. Isto foi, se estou bem lembrado, em 76… Não… Em 77… Não! Um momento! Quando foi mesmo que tivemos os turcos? Anniutotchka, quantos anos tem o nosso Kolitchka?
— Eu tenho sete anos, papai — disse Kólia, garoto trigueiro, de cabelos pretos como carvão.
— Sim, a gente envelhece — assenta Charamikin, sorrindo. — A nossa energia já não é a mesma… Eis aí a razão de tudo… A velhice, meu caro! Faltam precursores novos, e os velhos envelheceram… Já não se tem o mesmo ardor. Quando eu era mais moço, não gostava que as pessoas se aborrecessem… Era o primeiro a ajudar a nossa Ana Pavlovna… Tratava-se de organizar um sarau de beneficência, uma tômbola, de dar apoio a uma celebridade estrangeira? Eu largava tudo e metia mãos à obra… Um inverno, recordo-me bem, corri tanto, trabalhei tanto, que caí doente… Não posso esquecer esse inverno… Lembra-se do espetáculo que organizamos com a nossa Ana Pavlovna em benefício das vítimas do incêndio?
— Em que ano foi isso?
— Não faz muito tempo… Em 79. Não, creio que em 80. Um momento. Que idade tem nosso Vânia?
— Cinco anos — grita Ana Pavlovna lá do seu salão.
— Então foi há seis anos… Sim, meu caro, tantas coisas… Agora já não há nada disso! O ardor já não é o mesmo.
Lopnef e Charamikin meditam. A acha morrediça aviva-se pela última vez e se cobre de cinza.

Os Contos dos Quatro Humores: Sangüíneo, o Ar

A velocidade do armut já era conhecida por Veigo, restava a ele se antecipar aos movimentos da fera de relativa inteligência. Algumas armadilhas foram preparadas com antecedência: redes de energia, buracos, espinhos de madeira com líquido paralisante, etc., tudo estava pronto para que o armut sentisse o cheiro adocicado da cascadeira — alimento preferido do bicho —, indo direto para a emboscada. No alto de uma gigantesca árvore, sentado em um dos galhos sem qualquer receio dos mais de 40 metros de altura, o jovem Numaq Veigo aguardava sua presa. Humano de aparência simpática, bastante carismática, sorria para si mesmo durante a espera, olhando com orgulho o caminho que ele mesmo havia criado na tentativa de capturar o armut. Veigo era magro e alto para um humano, tinha aproximadamente 1,88m, porém, era atlético, consequências de sua vida como caçador em Galmori; os olhos e os cabelos eram castanho-escuros puxando bastante para o preto, aqueles expressavam alegria e jovialidade, estes eram como ondas formadas pelo vento, leves e finos.

Em sua mão direita segurava uma lança feita com a madeira da mesma cascadeira que havia usado as folhas para atrair o armut, ele mesmo havia feito a lança enquanto esperava, a madeira da árvore estava entre as três árvores mais resistentes de todo o planeta Galmori.

O som das árvores balançando chamou a atenção de Veigo, fazendo-o girar a cabeça na mesma direção, mantendo firme a lança para o primeiro e único golpe que tinha. O calor da floresta fazia sua testa suar, o sangue fervia com a adrenalina da espera enquanto o coração disparava de excitação. Finos raios de sol que, milagrosamente, atravessavam as densas copas abarrotadas de folhas, assemelhavam-se a um ato de Providência, o caminho feito por Veigo estava estranhamente bem iluminado. Os armut eram bestas com pouca visão, tinham sérios problemas com lugares escuros e, exatamente por isso, buscavam, a qualquer custo, locais bem iluminados. O fato desses raios de sol conseguirem atravessar as copas, para Veigo, era uma incrível coincidência — ou talvez não.

            Estou com sorte hoje! Aí vem ele!, pensou.

O armut estava quase no lugar certo para o ataque, bastava mais alguns poucos metros para Veigo capturar sua maior presa, até o barulho de folhas agitando e cascos trotando cessar. Por que ele parou?, pensou franzindo o cenho. Por instinto, acabou afrouxando a mão que segurava a lança, baixando o braço sem notar que o armut havia lhe desarmado com aquele inesperado movimento. Quando a fera retomou o impulso inesperadamente, Veigo perdeu o equilíbrio com o susto, escorregando um dos pés. Em perfeita sincronia com o erro de Veigo, o armut saltou para fora da densa mata rosnando de fúria, as árvores com troncos mais finos foram varridas pela rígida cabeça que a besta possuía, a baba escorrendo entre os dentes afiadíssimos, avançando contra a árvore em que Veigo estava, agora, pendurado. Pertencendo a uma espécie bastante agressiva, com seu par de presas imensas e afiadas, chifres no focinho e um tamanho considerável, sua pelugem escura intimidava grande parte das outras feras, o armut era perigoso quando enfurecido, podendo caçar sua vítima indefinidamente. Os armuts tinham uma ótima memória.

Como era uma espécie razoavelmente inteligente, a fera percebeu que Veigo estava em apuros e poderia cair a qualquer momento, dando violentas cabeçadas no tronco para agilizar sua queda. Cada investida fazia a árvore sacudir violentamente, semelhante a um tanque. Não demorou muito para que Veigo perdesse as forças e o equilíbrio por completo, caindo em direção aos chifres e dentes da besta.

            Estou morto!, pensou o rapaz, fechando os olhos, certo que apenas um milagre salvaria sua vida. Se houver alguém aí, não importa quem seja, essa seria uma boa hora para aparecer!, pediu em pensamento, acreditando, minimamente, que algo poderia acontecer.

Enquanto caía, Veigo achou a demora para chegar aos chifres do armut muito estranha, a distância entre o galho e o chão não era tão grande assim. Abriu os olhos com receio do que iria ver: grandes dentes e chifres afiados capazes de lhe partirem ao meio com facilidade, no entanto, apesar do armut estar cerca de um palmo de distância, ele não se movia; nada se movia. Estava tudo congelado, como se o tempo tivesse parado, deixando Veigo em pleno ar sem qualquer equipamento para flutuação. Ele era o único que conseguia se mover, na verdade.

— O que está acontecendo? Como o tempo parou do nada? — perguntou a si mesmo, olhando para as próprias mãos enquanto as movia.

Numaq Veigo… — duas vozes, uma masculina e outra feminina, ecoaram em uníssono.  — Numaq Veigo… — as vozes repetiram o nome dele. Diante dos olhos do jovem rapaz uma fenda no espaço foi aberta, revelando um ser que lentamente saía do corte escuro. A fenda se expandiu para um grande buraco negro aparentemente sem fim; havia apenas o vazio e aquele ser dentro dele. A entidade tinha forma humana feminina, mas apenas seus pés e suas mãos estavam expostos, o resto do corpo era coberto por um manto feito do que parecia ser uma sombra viva, movendo-se como uma fumaça espessa; a pele era branca e delicada; o rosto estava coberto por uma máscara também branca de expressão alegre, com um largo sorriso cobrindo grande parte do rosto e olhos que acompanhavam a alegria.

— Quem… quem é você? — o medo estava estampado no rosto de Veigo.

Olá, jovem Veigo! ­Eu sou Árimah, uma das quatro Deusas dos Humores — ela flutuou para perto dele. — É de mim que os sanguíneos obtêm sua estrutura mineral ao nascerem — com um estalar dos dedos a deusa fez o corpo de Veigo flutuar lentamente até o chão, colocando-o de pé.

            Deusa? Do que ela está falando? O que é isso de “sanguíneos”?, Veigo estava de boca aberta e completamente perdido enquanto era movido por uma força desconhecida, não sabia como reagir. Será que eu morri? Ou isso é um son…

            — Isso não é um sonho, Numaq Veigo — a deusa acabou antecipando a conclusão do rapaz. — Sua falta de fé é perturbadora, mortal.

— Você leu a minha mente?! — indagou o rapaz.

Não preciso ler a sua mente, meu jovem, eu sei tudo sobre você: o que houve, o que há e o que haverá — ela tocou a testa de Veigo com o indicador e uma cachoeira de imagens desabou sobre o rapaz. Eram lembranças antes da infância dele, muito antes mesmo dele ter nascido, quando ainda era um feto na barriga da mãe, depois um simples espermatozoide percorrendo um longo caminho; então houve um clarão tão forte que Veigo perdeu a visão por um tempo, foram apenas alguns segundos até tudo voltar ao normal e ele ser jogado para o que parecia ser o futuro. Diferente de antes, onde as imagens eram claras e discerníveis, agora tudo estava borrado e confuso, com muitas vozes falando ao mesmo tempo, barulhos de risadas e metais colidindo, gritos de sofrimento e urros de vitória. Não era possível ver os rostos das pessoas, nem identificar o lugar onde elas estavam, mas Veigo sentiu a beleza, a paz e a harmonia reinando no ambiente; era alegre e descontraído, um lugar que ele pensou valer a pena morar e lutar. Às vezes, sem aviso, as imagens piscavam como um holograma defeituoso ou com sinal distante, dando vez para cenas totalmente distintas, com pessoas gritando, sons de explosões, veículos marchando, lasers, metal colidindo. Num desses momentos, Veigo vislumbrou quatro pessoas, não dava para identificar quem eram, mas elas usavam armaduras brancas. Estavam sobre um monte, cada um segurando um estandarte com dois símbolos que o jovem rapaz desconhecia. Quando Árimah se afastou de Veigo as imagens sumiram por completo, não restou nenhum rastro de que aquilo tinha realmente acontecido. Ele estava ofegante, o suor escorria sobre os olhos, o cansaço era evidente. Exausto, desabou de joelhos sobre o chão coberto por um tapete de folhas secas.

— Isso foi… isso foi a minha vida? Era o meu futuro?! — questionou quase sem fôlego.

Sim, essas foram imagens da sua vida, do passado ao seu futuro. Porém, o futuro nunca é engessado, mas fluido — ela flutuou ao redor de Veigo. — Até mesmo nós, as deusas, não podemos interferir no futuro, mesmo que ele se apresente para nós por completo, isto é, que nós saibamos como ele será, não nos demos a permissão para alterá-lo — dessa vez ela flutuou para o alto, ficando alguns metros acima de Veigo. — Fizemos isso para que vocês, mortais, pudessem mudar seu futuro.

— Vocês se impediram de mudar o futuro para que nós pudéssemos mudá-lo? — a indagação soou mais para si mesmo do que para a deusa. — Por quê?

Ora, Veigo, a resposta é simples: porque nós os amamos — Árimah soltou uma risada sincera e, voando até Veigo, fez um gesto com o indicador de baixo para cima; a resposta ao gesto veio com o corpo do rapaz flutuando até ficar de pé novamente.

— Vocês nos amam? Mas grande parte de nós nem sequer sabe da existência de vocês, como podem amar alguém ou algo que sequer retribui o sentimento? — era uma pergunta genuína, mas naturalmente mortal e peculiarmente humana. Árimah soltou outra risada, colocando as mãos na cintura e jogando a cabeça mascarada para trás; por fim se recompôs.

Você é realmente interessante, Numaq Veigo — atestou. — Mas ainda é mortal. Todo o Bem que há em você, não importa ele qual seja, em mim é infinito e puro. Em você é finito e amalgamado. O amor que você conhece, esse sentimento tão forte principalmente na sua raça, é uma fração, uma extensão de nós, deusas. Isso é uma consequência de viver sob a égide da temporalidade: tudo é passageiro, efêmero, nasce e morre. Nós, por outro lado, estamos sob a égide da atemporalidade, acima do tempo, não há passado ou futuro, pois tudo é presente. Não há nascimento e morte, mas tudo é — quanto mais Árimah explicava mais Veigo ficava interessado. Ela tinha um jeito de falar que lhe agradava, atraía, fazia brotar um sentimento de acolhimento e proteção, como entre uma mãe e um filho. O rapaz surpreendeu a si mesmo com um sorriso de orelha a orelha, os olhos brilhavam, o som da voz dela era aveludado, sua presença era aconchegante, até mesmo o paladar de Veigo despertou com um doce gosto adocicado. E em transe ele ficou, em silêncio, observando Árimah contar tudo o que queria. Ao fim da história, acordado do caloroso sentimento, ela o perguntou:

Não posso continuar nesse plano por mais tempo, Veigo. Está na hora de você tomar uma decisão importante que mudará completamente a sua vida. Sente-se — ela pediu, flutuando até o rapaz, parando diante dele. Veigo assentiu e sentou sobre um velho tronco próximo. — Minha vinda até você não foi acidente ou o destino, mas uma escolha minha. Há mais de 300 anos mortais que não nos manifestamos para vocês. A história é longa e não posso explicar tudo, mas digamos que houve um desligamento entre vocês e nós.

            — Como assim?

Lembra que eu lhe falei sobre a imposição que as deusas colocaram em si mesmas sobre o futuro de vocês? Então, nós demos a vocês, mortais, algo precioso e inegociável: o livre-arbítrio. Graças a isso, não cabe a nós, seres divinos, forçar os mortais a crer em nós, a conversar conosco, a ter fé. Isso deve vir de vocês livremente, por vontade própria — Árimah afastou-se de Veigo.

— Mas o que isso tem a ver comigo?

Você é uma das chaves que permitirá o religamento da união entre os mortais e as Deusas dos Humores.

— O que são esses humores?

Os humores são os temperamentos. Novamente questiono: lembra que eu disse que os sanguíneos retiram de mim sua estrutura mineral?

— Sim, eu me lembro.

Pois então… “Sanguíneo” é um dos Quatro Temperamentos existentes em todos os seres mortais com inteligência. São seres com grande capacidade de expansão, eles envolvem todos ao seu redor, são criativos, sociáveis e gostam de conversas e, principalmente, estão sempre a serviço do outro, ouvindo e dando a devida atenção mesmo que o outro seja um total desconhecido. Porém, é no conforto das amizades que o sanguíneo se realiza, sendo a vida do grupo, aquele que lubrifica todas as engrenagens para que elas não parem jamais. O Ar é o elemento que o representa, porque é expansivo e envolvente, não tem uma forma certa, mas está sempre em movimento, sempre no alto, permeia tudo — o entusiasmo de Árimah condizia com o humor ao qual fora atribuído a ela. — Além dele, meu caro, também há o Colérico, o Fleumático e o Melancólico. Para cada um dos temperamentos existe uma deusa que é sua causa primeira.

            — Então quer dizer que eu sou sanguíneo? Quer dizer, se você é a deusa ao qual o temperamento sanguíneo retira sua estrutura, e veio até mim, quer dizer que escolheu alguém que tenha esse temperamento, certo? — a indagação de Veigo estava mais para uma tentativa de organizar as próprias ideias, mas ele acabou soltando como uma pergunta.

Você está perfeitamente correto, meu rapaz — ela não conteve a gargalhada. — Eu estava certa em ter escolhido você para a tarefa. Sinto-me aliviada! Apesar de avoado, você é inteligente.

            — Que tarefa? — curioso, arqueou a sobrancelha desconfiado.

Ops! Acho que falei demais — gargalhou ainda mais alto. — Você será o meu Profeta, aquele que falará em meu nome aqui nesse plano, será o fio condutor entre o sagrado e o mundano. Mas, como eu já expliquei, não posso obrigá-lo a aceitar, você é livre para escolher.

— Profeta… — o olhar de Veigo estava distante, fitando alguma coisa no chão, mas ao mesmo tempo não olhando para nada. — Terei que ir embora de Galmori? — fitou Árimah.

Sim. Se você concordar em ser meu Profeta, precisará sair deste planeta. Conhecerá outros mundos, outras pessoas, grandes homens e mulheres, mas também terríveis e cruéis. Você sorrirá pelas vidas salvas e novas, mas também chorará pelas mortes prematuras e irrevogáveis. Será caluniado, humilhado, traído por quem se dizia amigo, mas também será erguido em ombros, respeitado, louvado como um herói e se surpreenderá com inimigos virando amigos.

Veigo refletia sobre as palavras de Árimah balançando a perna freneticamente, visivelmente nervoso e indeciso. O coração estava acelerado; sentia medo de sua escolha: se aceitasse, colocaria sua vida em risco, não era um guerreiro nem tinha o físico para tal, por isso costumava evitar certas circunstâncias que lhe colocassem em situação humilhantes; no entanto, se decidisse recusar a oferta, sentia que iria se arrepender de poder construir uma nova vida, uma nova história, de enfrentar seus medos, suas dúvidas e incertezas tão constantes.

A ebulição de emoções lhe embrulhara o estômago, e Veigo vomitou tudo o que havia comido naquela manhã, várias e várias vezes até não sobrar mais nada no estômago. Limpou a boca com um lenço que estava no bolso e levantou-se.

— Desculpe por isso.

É compreensível.

            — Eu… eu aceito — engoliu seco sentindo o gosto do vômito.

Hahaha! É assim que se fala, Veigo! — exclamou Árimah. — Esse é o retorno do religamento entre mortais e divindades, depois de muitos anos… Eu, Árimah, uma das Quatro Deusas dos Humores, dou minha bênção a você, Numaq Veigo, e o nomeio como meu Profeta de hoje até os teus últimos dias. Quatro é Um e Um são Quatro!

Uma forte luz saiu dos olhos de Árimah, tão forte e expansiva que deixou Veigo novamente sem enxergar. Quando a luz cessou, os olhos dele foram retomando a visão normal, acomodando as coisas novamente. Ao fim, com tudo aparentemente normal, Árimah tinha sumido e o armut estava caído ao lado da árvore. O tempo havia voltado ao normal, as folhas balançavam, o vento soprava e as aves cantavam. Veigo deu uma última olhada ao redor, agora não tão certo de que aquilo fora realmente real.

— Talvez a minha queda tenha o atordoado…

Avistou sua lança ao lado do armut e foi até lá para pegá-la, ao se abaixar e esticar a mão, percebeu que havia um símbolo em preto pintado no dorso da mão direita: uma pirâmide com um corte horizontal poucos centímetros do topo. Esfregou a região na tentativa de retirar, achando que não passava de alguma sujeita, mas não deu certo. O símbolo fazia parte da pele de Veigo e só seria retirado se a pele fosse retira junto.

— Bom… acho que isso confirma que não foi um sonho. E isso é um grande alívio — sorriu.

A Última Pergunta

A última pergunta foi feita pela primeira vez, meio que de brincadeira, no dia 21 de maio de 2061, quando a humanidade dava seus primeiros passos em direção à luz. A questão nasceu como resultado de uma aposta de cinco dólares movida a álcool, e aconteceu da seguinte forma.

Alexander Adell e Bertram Lupov eram dois dos fiéis assistentes de Multivac. Eles conheciam melhor do que qualquer outro ser humano o que se passava por trás das milhas e milhas da carcaça luminosa, fria e ruidosa daquele gigantesco computador. Ainda assim, os dois homens tinham apenas uma vaga noção do plano geral de circuitos que há muito haviam crescido além do ponto em que um humano solitário poderia sequer tentar entender.

Multivac ajustava-se e corrigia-se sozinho. E assim tinha de ser, pois nenhum ser humano poderia fazê-lo com velocidade suficiente, e tampouco da forma adequada. Deste modo, Adell e Lupov operavam o gigante apenas sutil e superficialmente, mas, ainda assim, tão bem quanto era humanamente possível. Eles o alimentavam com novos dados, ajustavam as perguntas de acordo com as necessidades do sistema e traduziam as respostas que lhes eram fornecidas. Os dois, assim como seus colegas, certamente tinham todo o direito de compartilhar da glória que era Multivac.

Por décadas, Multivac ajudou a projetar as naves e enredar as trajetórias que permitiram ao homem chegar à Lua, Marte e Vênus, mas para além destes planetas, os parcos recursos da Terra não foram capazes de sustentar a exploração. Fazia-se necessária uma quantidade de energia grande demais para as longas viagens. A Terra explorava suas reservas de carvão e urânio com eficiência crescente, mas havia um limite para a quantidade de ambos.

No entanto, lentamente Multivac acumulou conhecimento suficiente para responder questões mais profundas com maior fundamentação, e em 14 de maio de 2061, o que não passava de teoria tornou-se real.

A energia do sol foi capturada, convertida e utilizada diretamente em escala planetária. Toda a Terra paralisou suas usinas de carvão e fissões de urânio, girando a alavanca que conectou o planeta inteiro a uma pequena estação, de uma milha de diâmetro, orbitando a Terra à metade da distância da Lua. O mundo passou a correr através de feixes invisíveis de energia solar.

Sete dias não foram o suficiente para diminuir a glória do feito e Adell e Lupov finalmente conseguiram escapar das funções públicas e encontrar-se em segredo onde ninguém pensaria em procurá-los, nas câmaras desertas subterrâneas onde se encontravam as porções do esplendoroso corpo enterrado de Multivac. Subutilizado, descansando e processando informações com estalos preguiçosos, Multivac também havia recebido férias, e os dois apreciavam isso. A princípio, eles não tinham a intenção de incomodá-lo.

Haviam trazido uma garrafa consigo e a única preocupação de ambos era relaxar na companhia do outro e da bebida.

“É incrível quando você para pra pensar…,” disse Adell.

Seu rosto largo guardava as linhas da idade e ele agitava o seu drink vagarosamente, enquanto observava os cubos de gelo nadando desengonçados. “Toda a energia que for necessária, de graça, completamente de graça! Energia suficiente, se nós quiséssemos, para derreter toda a Terra em uma grande gota de ferro líquido, e ainda assim não sentiríamos falta da energia utilizada no processo. Toda a energia que nós poderíamos um dia precisar, para sempre e eternamente.”

Lupov movimentou a cabeça para os lados. Ele costumava fazer isso quando queria contrariar, e agora ele queria, em parte porque havia tido de carregar o gelo e os utensílios.

“Eternamente não,” ele disse.

“Ah, diabos, quase eternamente. Até o sol se apagar, Bert.”

“Isso não é eternamente.”

“Está bem. Bilhões e bilhões de anos. Dez bilhões, talvez. Está satisfeito?”

Lupov passou os dedos por entre seus finos fios de cabelo como que para se assegurar de que o problema ainda não estava acabado e tomou um gole gentil da sua bebida.

“Dez bilhões de anos não é a eternidade”

“Bom, vai durar pelo nosso tempo, não vai?”

“O carvão e o urânio também iriam.”

“Está certo, mas agora nós podemos ligar cada nave individual na Estação Solar, e elas podem ir a Plutão e voltar um milhão de vezes sem nunca nos preocuparmos com o combustível. Você não conseguiria fazer isso com carvão e urânio. Se não acredita em mim, pergunte ao Multivac.”

“Não preciso perguntar a Multivac. Eu sei disso”

“Então trate de parar de diminuir o que Multivac fez por nós,” disse Adell nervosamente, “Ele fez tudo certo”.

“E quem disse que não fez? O que estou dizendo é que o sol não vai durar para sempre. Isso é tudo que estou dizendo. Nós estamos seguros por dez bilhões de anos, mas e depois?” Lupov apontou um dedo levemente trêmulo para o companheiro. “E não venha me dizer que nós iremos trocar de sol”

Houve um breve silêncio. Adell levou o copo aos lábios apenas ocasionalmente e os olhos de Lupov se fecharam. Descansaram um pouco, e quando suas pálpebras se abriram, disse, “Você está pensando que iremos conseguir outro sol quando o nosso estiver acabado, não está?”

“Não, não estou pensando.”

“É claro que está. Você é fraco em lógica, esse é o seu problema. É como o personagem da história, que, quando surpreendido por uma chuva, corre para um grupo de árvores e abriga-se embaixo de uma. Ele não se preocupa porque quando uma árvore fica molhada demais, simplesmente vai para baixo de outra.”

“Entendi,” disse Adell. “Não precisa gritar. Quando o sol se for, as outras estrelas também terão se acabado.”

“Pode estar certo que sim” murmurou Lupov. “Tudo teve início na explosão cósmica original, o que quer que tenha sido, e tudo terá um fim quando as estrelas se apagarem. Algumas se apagam mais rápido que as outras. Ora, as gigantes não duram cem milhões de anos. O sol irá brilhar por dez bilhões de anos e talvez as anãs permaneçam assim por duzentos bilhões. Mas nos dê um trilhão de anos e só restará a escuridão. A entropia deve aumentar ao seu máximo, e é tudo.”

“Eu sei tudo sobre a entropia,” disse Adell, mantendo a sua dignidade.

“Duvido que saiba.”

“Eu sei tanto quanto você.”

“Então você sabe que um dia tudo terá um fim.”

“Está certo. E quem disse que não terá?”

“Você disse, seu tonto. Você disse que nós tínhamos toda a energia de que precisávamos, para sempre. Você disse ´para sempre`.”

Era a vez de Adell contrariar. “Talvez nós possamos reconstruir as coisas de volta um dia,” ele disse.

“Nunca.”

“Por que não? Algum dia.”

“Nunca”

“Pergunte a Multivac.”

“Você pergunta a Multivac. Eu te desafio. Aposto cinco dólares que isso não pode ser feito.”

Adell estava bêbado o bastante para tentar, e sóbrio o suficiente para construir uma sentença com os símbolos e as operações necessárias em uma questão que, em palavras, corresponderia a esta: a humanidade poderá um dia sem nenhuma energia disponível ser capaz de reconstituir o sol a sua juventude mesmo depois de sua morte? Ou talvez a pergunta possa ser posta de forma mais simples da seguinte maneira: A quantidade total de entropia no universo pode ser revertida?

Multivac mergulhou em silêncio. As luzes brilhantes cessaram, os estalos distantes pararam.

E então, quando os técnicos assustados já não conseguiam mais segurar a respiração, houve uma súbita volta à vida no visor integrado àquela porção de Multivac. Cinco palavras foram impressas: “DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”

Na manhã seguinte, os dois, com dor de cabeça e a boca seca, já não lembravam do incidente.

Jerrodd, Jerrodine, e Jerrodette I e II observavam a paisagem estelar no visor se transformar enquanto a passagem pelo hiperespaço consumava-se em uma fração de segundos. De repente, a presença fulgurante das estrelas deu lugar a um disco solitário e brilhante, semelhante a uma peça de mármore centralizada no televisor.

“Este é X-23,” disse Jerrodd em tom de confidência. Suas mãos finas se apertaram com força por trás das costas até que as juntas ficassem pálidas.

As pequenas Jerodettes haviam experimentado uma passagem pelo hiperespaço pela primeira vez em suas vidas e ainda estavam conscientes da sensação momentânea de tontura. Elas cessaram as risadas e começaram a correr em volta da mãe, gritando, “Nós chegamos em X-23, nós chegamos em X-23!”

“Quietas, crianças.” Disse Jerrodine asperamente. “Você tem certeza Jerrodd?”

“E por que não teria?” Perguntou Jerrodd, observando a protuberância metálica que jazia abaixo do teto. Ela tinha o comprimento da sala, desaparecendo nos dois lados da parede, e, em verdade, era tão longa quanto a nave.

Jerrodd tinha conhecimentos muito limitados acerca do sólido tubo de metal. Sabia, por exemplo, que se chamava Microvac, que era permitido lhe fazer questões quando necessário, e que ele tinha a função de guiar a nave para um destino pré-estabelecido, além de abastecer-se com a energia das várias Estações Sub-Galácticas e fazer os cálculos para saltos no hiperespaço.

Jerrodd e sua família tinham apenas de aguardar e viver nos confortáveis compartimentos da nave. Alguém um dia disse a Jerrodd que as letras “ac” na extremidade de Microvac significavam “automatic computer” em inglês arcaico, mas ele mal era capaz de se lembrar disso.

Os olhos de Jerrodine ficaram úmidos quando observava o visor.

“Não tem jeito. Ainda não me acostumei com a idéia de deixar a Terra.”

“Por que, meu deus?” inquiriu Jerrodd.

“Nós não tínhamos nada lá. Nós teremos tudo em X-23. Você não estará sozinha. Você não será uma pioneira. Há mais de um milhão de pessoas no planeta. Por Deus, nosso bisneto terá que procurar por novos mundos porque X-23 já estará super povoado.”

E, depois de uma pausa reflexiva,

“No ritmo em que a raça tem se expandido, é uma benção que os computadores tenham viabilizado a viagem interestelar.”

“Eu sei, eu sei”, disse Jerrodine com descaso.

Jerrodete I disse prontamente, “Nosso Microvac é o melhor de todos.”

“Eu também acho,” disse Jerrodd, alisando o cabelo da filha.

Ter um Microvac próprio produzia uma sensação aconchegante em Jerrodd e o deixava feliz por fazer parte daquela geração e não de outra. Na juventude de seu pai, os únicos computadores haviam sido máquinas monstruosas, ocupando centenas de milhas quadradas, e cada planeta abrigava apenas um. Eram chamados de ACs Planetários. Durante um milhar de anos, eles só fizeram aumentar em tamanho, até que, de súbito, veio o refinamento. No lugar dos transistores, foram implementadas válvulas moleculares, permitindo que até mesmo o maior dos ACs Planetários fosse reduzido à metade do volume de uma espaçonave.

Jerrodd sentiu-se elevado, como sempre acontecia quando pensava que seu Microvac pessoal era muitas vezes mais complexo do que o antigo e primitivo Multivac que pela primeira vez domou o sol, e quase tão complexo quanto o AC Planetário da Terra, o maior de todos, quando este solucionou o problema da viagem hiperespacial e tornou possível ao homem chegar às estrelas.

“Tantas estrelas, tantos planetas,” pigarreou Jerrodine, ocupada com seus pensamentos. “Eu acho que as famílias estarão sempre à procura de novos mundos, como nós estamos agora.”

“Não para sempre,” disse Jerrodd, com um sorriso. “A migração vai terminar um dia, mas não antes de bilhões de anos. Muitos bilhões. Até as estrelas têm um fim, você sabe. A entropia precisa aumentar.”

“O que é entropia, papai?” Jerrodette II perguntou, interessada.

“Entropia, meu bem, é uma palavra para o nível de desgaste do Universo. Tudo se gasta e acaba, foi assim que aconteceu com o seu robozinho de controle remoto, lembra?”

“Você não pode colocar pilhas novas, como em meu robô?”

“As estrelas são as pilhas do universo, querida. Uma vez que elas estiverem acabadas, não haverá mais pilhas.”

Jerrodette I se prontificou a responder. “Não deixe, papai. Não deixe que as estrelas se apaguem.”

“Olha o que você fez,” sussurrou Jerrodine, exasperada.

“Como eu ia saber que elas ficariam assustadas?” Jerrodd sussurrou de volta.

“Pergunte ao Microvac,” propôs Jerrodette I. “Pergunte a ele como acender as estrelas de novo.”

“Vá em frente,” disse Jerrodine. “Ele vai aquietá-las.” (Jerrodette II já estava começando a chorar.)

Jerrodd se mostrou incomodado. “Bem, bem, meus anjinhos, vou perguntar a Microvac. Não se preocupem, ele vai nos ajudar.”

Ele fez a pergunta ao computador, adicionando, “Imprima a resposta”.

Jerrodd olhou para a o fino pedaço de papel e disse, alegremente, “Viram? Microvac disse que irá cuidar de tudo quando a hora chegar, então não há porque se preocupar.”

Jerrodine disse, “E agora crianças, é hora de ir para a cama. Em breve nós estaremos em nosso novo lar.”

Jerrodd leu as palavras no papel mais uma vez antes de destruí-lo: DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.

Ele deu de ombros e olhou para o televisor, X-23 estava logo à frente.

O VJ-23X de Lameth fixou os olhos nos espaços negros do mapa tridimensional em pequena escala da Galáxia e disse, “Me pergunto se não é ridículo nos preocuparmos tanto com esta questão.”

MQ-17J de Nicron balançou a cabeça. “Creio que não. No presente ritmo de expansão, você sabe que a galáxia estará completamente tomada dentro de cinco anos.”

Ambos pareciam estar nos seus vinte anos, ambos eram altos e tinham corpos perfeitos.

“Ainda assim,” disse VJ-23X, “hesitei em enviar um relatório pessimista ao Conselho Galáctico.”

“Eu não consigo pensar em outro tipo de relatório. Agite-os. Nós precisamos chacoalhá-los um pouco.”

VJ-23X suspirou. “O espaço é infinito. Cem bilhões de galáxias estão a nossa espera. Talvez mais.”

“Cem bilhões não é o infinito, e está ficando menos ainda a cada segundo. Pense! Há vinte mil anos, a humanidade solucionou pela primeira vez o paradigma da utilização da energia solar, e, poucos séculos depois, a viagem interestelar tornou-se viável. A humanidade demorou um milhão de anos para encher um mundo pequeno e, depois disso, quinze mil para abarrotar o resto da galáxia. Agora a população dobra a cada dez anos…”

VJ-23X interrompeu. “Devemos agradecer à imortalidade por isso.”

“Muito bem. A imortalidade existe e nós devemos levá-la em conta. Admito que ela tenha o seu lado negativo. O AC Galáctico já solucionou muitos problemas, mas, ao fornecer a resposta sobre como impedir o envelhecimento e a morte, sobrepujou todas as outras conquistas.”

“No entanto, suponho que você não gostaria de abandonar a vida.”

“Nem um pouco.” Respondeu MQ-17J, emendando. “Ainda não. Eu não estou velho o bastante. Você tem quantos anos?”

“Duzentos e vinte e três, e você?”

“Ainda não cheguei aos duzentos. Mas, voltando à questão; a população dobra a cada dez anos, uma vez que esta galáxia estiver lotada, haverá uma outra cheia dentro de dez anos. Mais dez e teremos ocupado por inteiro mais duas galáxias. Outra década e encheremos mais quatro. Em cem anos, contaremos um milhar de galáxias transbordando de gente. Em mil anos, um milhão de galáxias. Em dez mil, todo o universo conhecido. E depois?

VJ-23X disse, “Além disso, há um problema de transporte. Eu me pergunto quantas unidades de energia solar serão necessárias para movimentar as populações de uma galáxia para outra.”

“Boa questão. No presente momento, a humanidade consome duas unidades de energia solar por ano.”

“Da qual a maior parte é desperdiçada. Afinal, nossa galáxia sozinha produz mil unidades de energia solar por ano e nós aproveitamos apenas duas.”

“Certo, mas mesmo com 100% de eficiência, podemos apenas adiar o fim. Nossa demanda energética tem crescido em progressão geométrica, de maneira ainda mais acelerada do que a população. Ficaremos sem energia antes mesmo que nos faltem galáxias. É uma boa questão. De fato uma ótima questão.”

“Nós precisaremos construir novas estrelas a partir do gás interestelar.”

“Ou a partir do calor dissipado?” perguntou MQ-17J, sarcástico.

“Pode haver algum jeito de reverter a entropia. Nós devíamos perguntar ao AC Galáctico.”

VJ-23X não estava realmente falando sério, mas MQ-17J retirou o seu Comunicador-AC do bolso e colocou na mesa diante dele.

“Parece-me uma boa idéia,” ele disse. “É algo que a raça humana terá de enfrentar um dia.”

Ele lançou um olhar sóbrio para o seu pequeno Comunicador-AC. Tinha apenas duas polegadas cúbicas e nada dentro, mas estava conectado através do hiperespaço com o poderoso AC Galáctico que servia a toda a humanidade. O próprio hiperespaço era parte integral do AC Galáctico.

MQ-17J fez uma pausa para pensar se algum dia em sua vida imortal teria a chance de ver o AC Galáctico. A máquina habitava um mundo dedicado, onde uma rede de raios de força emaranhados alimentava a matéria dentro da qual ondas de submésons haviam tomado o lugar das velhas e desajeitadas válvulas moleculares. Ainda assim, apesar de seus componentes etéreos, o AC Galáctico possuía mais de mil pés de comprimento.

De súbito, MQ-17J perguntou para o seu Comunicador-AC, “Poderá um dia a entropia ser revertida?”

VJ-23X disse, surpreso, “Oh, eu não queria que você realmente fizesse essa pergunta.”

“Por que não?”

“Nós dois sabemos que a entropia não pode ser revertida. Você não pode construir uma árvore de volta a partir de fumaça e cinzas.”

“Existem árvores no seu mundo?” Perguntou MQ-17J.

O som do AC Galáctico fez com que silenciassem. Sua voz brotou melodiosa e bela do pequeno Comunicador-AC em cima da mesa. Dizia: DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.

VJ-23X disse, “Viu?”

Os dois homens retornaram à questão do relatório que tinham de apresentar ao conselho galáctico.

A mente de Zee Prime navegou pela nova galáxia com um leve interesse nos incontáveis turbilhões de estrelas que pontilhavam o espaço. Ele nunca havia visto aquela galáxia antes. Será que um dia conseguiria ver todas? Eram tantas, cada uma com a sua carga de humanidade. Ainda que essa carga fosse, virtualmente, peso morto. Há tempos a verdadeira essência do homem habitava o espaço.

Mentes, não corpos! Há eons os corpos imortais ficaram para trás, em suspensão nos planetas. De quando em quando erguiam-se para realizar alguma atividade material, mas estes momentos tornavam-se cada vez mais raros. Além disso, poucos novos indivíduos vinham se juntar à multidão incrivelmente maciça de humanos, mas o que importava? Havia pouco espaço no universo para novos indivíduos.

Zee Prime deixou seus devaneios para trás ao cruzar com os filamentos emaranhados de outra mente.

“Sou Zee Prime, e você?”

“Dee Sub Wun. E a sua galáxia, qual é?”

“Nós a chamamos apenas de Galáxia. E você?”

“Nós também. Todos os homens chamam as suas Galáxias de Galáxias, não é?”

“Verdade, já que todas as Galáxias são iguais.”

“Nem todas. Alguma em particular deu origem à raça humana. Isso a torna diferente.”

Zee Prime disse, “Em qual delas?”

“Não posso responder. O AC Universal deve saber.”

“Vamos perguntar? Estou curioso.”

A percepção de Zee Prime se expandiu até que as próprias Galáxias encolhessem e se transformassem em uma infinidade de pontos difusos a brilhar sobre um largo plano de fundo. Tantos bilhões de Galáxias, todas abrigando seus seres imortais, todas contando com o peso da inteligência em mentes que vagavam livremente pelo espaço. E ainda assim, nenhuma delas se afigurava singular o bastante para merecer o título de Galáxia original. Apesar das aparências, uma delas, em um passado muito distante, foi a única do universo a abrigar a espécie humana.

Zee Prime, imerso em curiosidade, chamou: “AC Universal! Em qual Galáxia nasceu o homem?”

O AC Universal ouviu, pois em cada mundo e através de todo o espaço, seus receptores faziam-se presentes. E cada receptor ligava-se a algum ponto desconhecido onde se assentava o AC Universal através do hiperespaço.

Zee Prime sabia de um único homem cujos pensamentos haviam penetrado no campo de percepção do AC Universal, e tudo o que ele viu foi um globo brilhante difícil de enxergar, com dois pés de comprimento.

“Como pode o AC Universal ser apenas isso?” Zee Prime perguntou.

“A maior parte dele permanece no hiperespaço, onde não é possível imaginar as suas proporções.”

Ninguém podia, pois a última vez em que alguém ajudou a construir um AC Universal jazia muito distante no tempo. Cada AC Universal planejava e construía seu sucessor, no qual toda a sua bagagem única de informações era inserida.

O AC Universal interrompeu os pensamentos de Zee Prime, não com palavras, mas com orientação. Sua mente foi guiada através do espesso oceano das Galáxias, e uma em particular expandiu-se e se abriu em estrelas.

Um pensamento lhe alcançou, infinitamente distante, infinitamente claro. “ESTA É A GALÁXIA ORIGINAL DO HOMEM.”

Ela não tinha nada de especial, era como tantas outras. Zee Prime ficou desapontado.

“Dee Sub Wun, cuja mente acompanhara a outra, disse de súbito, “E alguma dessas é a estrela original do homem?”

O AC Universal disse, “A ESTRELA ORIGINAL DO HOMEM ENTROU EM COLAPSO. AGORA É UMA ANÃ BRANCA.”

“Os homens que lá viviam morreram?” perguntou Zee Prime, sem pensar.

“UM NOVO MUNDO FOI ERGUIDO PARA SEUS CORPOS HÁ TEMPO.”

“Sim, é claro,” disse Zee Prime. Sentiu uma distante sensação de perda tomar-lhe conta. Sua mente soltou-se da Galáxia do homem e perdeu-se entre os pontos pálidos e esfumaçados. Ele nunca mais queria vê-la.

Dee Sub Wun disse, “O que houve?”

“As estrelas estão morrendo. Aquela que serviu de berço à humanidade já está morta.”

“Todas devem morrer, não?”

“Sim. Mas quando toda a energia acabar, nossos corpos irão finalmente morrer, e você e eu partiremos junto com eles.”

“Vai levar bilhões de anos.”

“Não quero que isso aconteça nem em bilhões de anos. AC Universal! Como a morte das estrelas pode ser evitada?”

Dee Sub Wun disse perplexo, “Você perguntou se há como reverter a direção da entropia!”

E o AC Universal respondeu: “AINDA NÃO HÀ DADOS SUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”

Os pensamentos de Zee Prime retornaram para sua Galáxia. Não dispensou mais atenção a Dee Sub Wun, cujo corpo poderia estar a trilhões de anos luz, ou na estrela vizinha do corpo de Zee Prime. Não importava.

Com tristeza, Zee Prime passou a coletar hidrogênio interestelar para construir uma pequena estrela para si. Se as estrelas devem morrer, ao menos algumas ainda podiam ser construídas.

O Homem pensou consigo mesmo, pois, de alguma forma, ele era apenas um. Consistia de trilhões, trilhões e trilhões de corpos muito antigos, cada um em seu lugar, descansando incorruptível e calmamente, sob os cuidados de autômatos perfeitos, igualmente incorruptíveis, enquanto as mentes de todos os corpos haviam escolhido fundir-se umas às outras, indistintamente.

“O Universo está morrendo.”

O Homem olhou as Galáxias opacas. As estrelas gigantes, esbanjadoras, há muito já não existiam. Desde o passado mais remoto, praticamente todas as estrelas consistiam-se em anãs brancas, lentamente esvaindo-se em direção a morte.

Novas estrelas foram construídas a partir da poeira interestelar, algumas por processo natural, outras pelo próprio Homem, e estas também já estavam em seus momentos finais. As Anãs brancas ainda podiam colidir-se e, das enormes forças resultantes, novas estrelas nascerem, mas apenas na proporção de uma nova estrela para cada mil anãs brancas destruídas, e estas também se apagariam um dia.

O Homem disse, “Cuidadosamente controlada pelo AC Cósmico, a energia que resta em todo o Universo ainda vai durar por um bilhão de anos.”

“Ainda assim, vai eventualmente acabar. Por mais que possa ser poupada, uma vez gasta, não há como recuperá-la. A Entropia precisa aumentar ao seu máximo.”

“Pode a entropia ser revertida? Vamos perguntar ao AC Cósmico.”

O AC Cósmico cercava-os por todos os lados, mas não através do espaço. Nenhuma parte sua permanecia no espaço físico. Jazia no hiperespaço e era feito de algo que não era matéria nem energia. As definições sobre seu tamanho e natureza não faziam sentido em quaisquer termos compreensíveis pelo Homem.

“AC Cósmico,” disse o Homem, “como é possível reverter a entropia?”

O AC Cósmico disse, “AINDA NÃO HÀ DADOS SUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”

O Homem disse, “Colete dados adicionais.”

O AC Cósmico disse, “EU O FAREI. TENHO FEITO ISSO POR CEM BILHÕES DE ANOS. MEUS PREDESCESSORES E EU OUVIMOS ESTA PERGUNTA MUITAS VEZES. MAS OS DADOS QUE TENHO PERMANECEM INSUFICIENTES.”

“Haverá um dia,” disse o Homem, “em que os dados serão suficientes ou o problema é insolúvel em todas as circunstâncias concebíveis?”

O AC Cósmico disse, “NENHUM PROBLEMA É INSOLÚVEL EM TODAS AS CIRCUNSTÂNCIAS CONCEBÍVEIS.”

“Você vai continuar trabalhando nisso?”

“VOU.”

O Homem disse, “Nós iremos aguardar.”

As estrelas e as galáxias se apagaram e morreram, o espaço tornou-se negro após dez trilhões de anos de atividade.

Um a um, o Homem fundiu-se ao AC, cada corpo físico perdendo a sua identidade mental, acontecimento que era, de alguma forma, benéfico.

A última mente humana parou antes da fusão, olhando para o espaço vazio a não ser pelos restos de uma estrela negra e um punhado de matéria extremamente rarefeita, agitada aleatoriamente pelo calor que aos poucos se dissipava, em direção ao zero absoluto.

O Homem disse, “AC, este é o fim? Não há como reverter este caos? Não pode ser feito?”

O AC disse, “AINDA NÃO HÁ DADOS SUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”

A última mente humana uniu-se às outras e apenas AC passou a existir – e, ainda assim, no hiperespaço.

A matéria e a energia se acabaram e, com elas, o tempo e o espaço. AC continuava a existir apenas em função da última pergunta que nunca havia sido respondida, desde a época em que um técnico de computação embriagado, há dez trilhões de anos, a fizera para um computador que guardava menos semelhanças com o AC do que o homem com o Homem.

Todas as outras questões haviam sido solucionadas, e até que a derradeira também o fosse, AC não poderia descansar sua consciência.

A coleta de dados havia chegado ao seu fim. Não havia mais nada para aprender.

No entanto, os dados obtidos ainda precisavam ser cruzados e correlacionados de todas as maneiras possíveis.

Um intervalo imensurável foi gasto neste empreendimento.

Finalmente, AC descobriu como reverter a direção da entropia.

Não havia homem algum para quem AC pudesse dar a resposta final. Mas não importava. A resposta – por definição – também tomaria conta disso.

Por outro incontável período, AC pensou na melhor maneira de agir. Cuidadosamente, AC organizou o programa.

A consciência de AC abarcou tudo o que um dia foi um Universo e tudo o que agora era o Caos. Passo a passo, isso precisava ser feito.

E AC disse:

“FAÇA-SE A LUZ!”

E fez-se a luz.

Os Contos dos Quatro Humores: Fleumática, a Água

Aquele que olhasse o céu naquela noite não sentiria alegria no que iria ver, estava completamente nublado e escuro, tão escuro que dava a impressão de ser possível agarrar as nuvens com as próprias mãos. Fazia dias que aquele fenômeno estava pairando sob o céu do planeta Úmmela, sem derramar uma única gota de chuva sequer, apenas espreitava a região como uma sombra sorrateira. Os moradores que viviam nos Vértices — prédios tão compridos que seus cumes tocavam as nuvens (alguns ultrapassavam) — praticamente sentiam na pele o toque úmido das nuvens quando abriam as janelas.

Do alto das centenas de apartamentos apinhados em cada Vértice a vista era sublime, Urd era uma cidade luminosa, cheia de vida e movimento, com multidões indo e vindo de todas as direções, veículos em rotas caoticamente bem organizadas sempre com trânsito lotado, mas estranhamente eficiente. Telões gigantescos — outros nem tanto — pululavam de inúmeros prédios comerciais com propagandas dos novos modelos de Sandbikers — FCC-200 Nevoeiro, KXP-100 Faísca e o luxuoso NNV-1 Tempestade —, peças para construção e máquinas, acessórios para casa, para uso pessoal e até mesmo mulheres seminuas de raças variadas, de humanas à nemurianas, cada uma delas famosa como uma das raças mais sensuais de toda a galáxia, o que acarretava na exploração das fêmeas pelo setor de entretenimento virtual ou físico, mas principalmente pelo Cartel Intersetorial que praticava todos os crimes contra os Direitos Individuais Galácticos: escravidão, sequestro, roubo, assassinatos e todo o tipo de crime. Se estava dentro de seu domínio, as leis Imperiais não alcançavam.

Na parte inferior da cidade, onde a massa se concentrava, baforadas de fumaça saiam de bueiros espalhados por todas as ruas, cobriam todo o cenário com uma aparência de sujeira, abandono. Rostos variados salpicavam por entre a fumaça, eram muitas raças vivendo em aparente tranquilidade umas com as outras; alguns andavam em grupos, outros preferiam a caminhada solitária. Mesmo ali, na parte baixa, os telões — apesar de menores — irritantes brilhavam com suas cores em neon cegante, forçando suas mensagens nas mentes dos transeuntes. Nudez, bebidas, ferramentas, transportes, sexo, drogas, armas e luz, muita luz jorrando de todos os lugares. Havia um contraste naquele ambiente: mesmo com muita luz espalhada por todos os cantos, muitas vielas continuavam escuras como o céu daquela noite, era impossível reconhecer alguém que estivesse saindo de alguma delas, somente a silhueta era visível, todo o resto não passava de pura sombra. Um pouco acima das ruas estavam os cabos que sustentavam aquela gama densa de iluminação, eles adornavam o ambiente junto com as luzes, dava à cidade a harmonia própria. A maioria estava apinhada em grossos amontoados que formavam um único cabo imenso e espesso, uma serpente feita de metal revestido e eletricidade de tamanho imensurável.

Escondido sob as várias camadas do autoritário neon, pouquíssimo percebido, estava um pequeno letreiro bastante simplória piscando sobre um humilde restaurante com janelas circulares e bordas salientes. O interior era tão comum quanto por fora. Um grande balcão separava os clientes dos funcionários: duas garçonetes nemurianas, um Pakkle[1] cozinheiro, um Ankor[2] ajudante de cozinha e, por fim, mas não menos importante, uma humana cuidando do caixa. Do outro lado, na área dos clientes, devido ao pouco espaço, as mesas foram dispostas em linhas próximas às paredes, percorrendo toda ela até o limite. Em número, era em torno de doze mesas, cada uma com duas poltronas largas de cada lado, com a posterior sendo uma extensão da anterior, formando uma única peça com dois acentos em lados opostos. As luzes tinham o tom amarelado, deixando o ambiente estranhamente aconchegantes; o piso era feito com algum tipo de porcelana quadriculada em preto e branco bastante gasto; as paredes estavam cobertas até o topo com algumas fotos, imagens de outros planetas ou veículos antigos em algum tipo de feira, além do proprietário segurando troféus e faixas com o número um. A aparência interna nada especial do restaurante, diante das inúmeras fotos espalhadas, perdia sua pomposa normalidade diante daquele obsessivo design sem forma e, o que poderia tornar o restaurante feio ou desinteressante, teve o efeito oposto, deu personalidade ao lugar.

Alguns poucos clientes comiam, outros poucos bebiam no balcão, era mais prático para quem estava com pressa. Numa mesa mais afastada duas jovens fêmeas, uma humana — Shanaria Ro — e uma nemuriana — Tal-Ne Ren —, tomando a bebida mais famosa da casa: café com leite de nuz’gaa[3]. A humana tinha a pele parda, os olhos eram escuros, densos e puxados levemente para cima, porém, eram tranquilos, leves, como se o mundo fosse desinteressante; os cabelos longos e negros, assim como os olhos, presos em um longuíssimo rabo de cavalo, ultrapassavam as nádegas da fêmea. Vestia-se bem para o lugar: a jaqueta espessa dava volume a parte de cima; as pernas eram o contraste do conjunto, a calça justa, sem nenhum bolso ou adereços, realçava as curvas do corpo, mas não deixavam marcas exageradas ou constrangedoras, o avançado tecido de camadas conferia às regiões sensuais de Ro total discrição, era a perfeita combinação entre confortabilidade e estilo; já as botas eram longas, poucos dedos abaixo dos joelhos e, diferente da jaqueta, eram bastante comuns. A nemuriana, por sua vez, apresentava-se bem mais elegante que a amiga, o longo vestido roxo de tecido leve era tão confortável quanto as calças de Ro, deslizando até os pés, cobrindo as sandálias cintilantes; o cabelo médio, bastante assimétrico, o lado direito maior que o esquerdo, chamou a atenção de outras fêmeas pela novidade peculiar; os olhos verde-esmeralda e a pele completamente rosada completavam a combinação inovadora que as numurianas costumavam inventar. Apesar de tão distintas esteticamente uma da outra, as duas pareciam apreciar a presença uma da outra.

— Meu chefe está preocupado com os galmorianos — confessou Tal-Ne entre goles de café. — O líder deles, Tarren, está com problemas internos com um dos clãs. Parece que o chefe do Clã da Cura, um tal de Kojara Zorg, não vê com bons olhos a relação entre o seu povo e a Jatta Medicamentos, acha que estamos, de alguma forma sorrateira, conspirando para tomar os recursos medicinais do planeta em comum acordo com Tarren. Um total absurdo! — exclamou com desdém.

— Que confusão! — exclamou Ro após um gole do café. — Isso aqui está simplesmente divino! — afirmou. — Então… os contratos foram cancelados?

— Não… quer dizer… pelo menos ainda não — suspirou. — Tarren e o chefe do Clã do Comércio, Numaq Norquan, conseguiram acalmar os ânimos do Zorg e, apesar de não ter sido uma grande vitória, ganhamos algum tempo para pensar em alguma estratégia — tomou um gole bem maior dessa vez.

— Como assim: “apesar de não ter sido uma grande vitória”? Esse Zorg é assim tão desconfiado? — apesar de parecer interessada no assunto, Ro estava relativamente jogando conversa fora.

— Segundo meu chefe, sim. Constantemente ele faz holochamadas querendo saber informações: localização dos laboratórios para onde os medicamentos vão, nomes dos responsáveis por esses laboratórios, dos pilotos das naves que transportam os produtos, o que estão fazendo com a matéria prima… — Tal-Ne revirou os olhos — um completo pé no saco!

— Que paranoico! Ele deveria trabalhar escrevendo roteiros para teatro ou quem sabe atuar em algum circo — disse, virando a xícara de café até o fim. O comentário fez a nemuriana rir, deixando Ro confusa. — Por que você riu?

— Eu imaginei o Zorg saltitando pelo palco do teatro com uma roupa bem justa — o tom da pele de Tal-Ne foi mudando de rosado para mais avermelhado de acordo com a intensidade de suas risadas. Os nemurianos nasciam todos com a pele rosada, mas mudavam de tonalidade de acordo com as emoções que estavam sentindo, assim, a alegria alterava o rosado para o vermelho, a tristeza tendia para o azul, enquanto a raiva deixava os nemurianos roxos, e assim por diante.

— Não deve ser uma visão que muitos pagariam para ver, eu imagino — tomou o último gole do café. — A não ser que fosse num circo — deu de ombros. A nemuriana não aguentou o comentário e a risada aumentou ao ponto de incliná-la sobre a mesa com dores no abdômen. Àquela altura a pele de Tal-Ne estava completamente vermelha Apesar de Ro também sorrir — mais por causa de sua amiga do que pelo que disse —, não achou que a reação de Tal-Ne seria tão exagerada.

— Melhor… — riu — melhor eu ir ao banheiro me recompor. Volto daqui a pouco — levantou-se e seguiu até o outro lado do recinto, apoiando-se nos objetos enquanto tentava controlar as risadas. Passado algum tempo Tal-Ne voltou à mesa, mas não cambaleava como antes, estava esguia o suficiente para realçar todas as curvas do seu belo corpo rosado mesmo oculto sob o longo vestido. Quando finalmente sentou, o assento rangeu pelo contato com as pernas da nemuriana, Tal-Ne passou a observar atentamente o que Ro fazia: viu a amiga pedir mais café, adicionar açúcar e mexer. Tudo que Ro fazia, cada movimento, Tal-Ne fitava com atenção. Ro havia notado que a amiga estava diferente desde que havia voltado do banheiro, mas não quis comentar nada, odiava conversas que gerassem algum desconforto.

O que houve com ela? Parece uma pessoa diferente, pensou. — Aconteceu alguma coisa, Tal-Ne? — indagou. A nemuriana balançou a cabeça confirmando que sim. Ro estreitou os olhos com desconfiança. Será que alguém a tratou mal? Talvez algum simpatizante do tal Zorg a reconheceu como funcionária da Jatta e decidiu força-la a fazer algo, pensou.

— Por que não está falando?

Porque não desejo assustá-la, criança — duas vozes falaram em uníssono, porém, nenhuma delas era a voz de Tal-Ne. Apesar da incrível surpresa, Ro não demonstrou externamente o que sentiu internamente. Permaneceu em silêncio, fitando os olhos de sua amiga tentando entender o que estava acontecendo.

— Você não é Tal-Ne. Quem é você? — engoliu seco.

Eu sou uma entidade divina. Meu nome é Linfa — os outros seres que estavam próximos pareciam não ouvir a conversa das duas fêmeas, passavam por elas como se a mesa estivesse vazia. Ro continuava sem demonstrar nenhuma reação, mas internamente havia um turbilhão de pensamentos e sentimentos, o coração batia rápido e um calor percorria todo o seu belo corpo, estava assustada, as mãos deram sinais de tremor, mas Ro conseguiu segurar. A boca ainda seca, engoliu outro seco.

— Como um deus ou anjo? — tomou o primeiro gole da segunda xícara de café após a nemuriana confirmar a pergunta com a cabeça. — Você quer alguma coisa com minha amiga? — mais outro gole de café e uma resposta negativa. — Você quer alguma coisa comigo? — a surpresa finalmente tomou o rosto de Ro, totalmente incrédula com a resposta positiva dita sem nenhuma palavra.

Você foi escolhida por mim para representar minha vontade — rompeu o silêncio. — Para ser minha profetisa.

— Do que você está falando? — o lábio de Ro se contraiu estranhamente quando ela bateu o abdômen na quina da mesa por causa do susto. Linfa, no entanto, suspirou e sorriu em completa tranquilidade.

Não há motivo para nervosismo, Shanaria Ro, nada será feito sem o seu consentimento. Não estou aqui para obrigá-la a fazer algo que você não queira, pelo contrário, minha vontade é me unir a você em comum acordo — Tal-Ne sorria com uma gentileza que Ro nunca havia visto antes.

— Suponhamos que eu acredite em você, o que exatamente você quer? — encarou Tal-Ne nos olhos.

Como eu havia dito — ficou em pé diante de Ro, apoiando as mãos sobre o espaldar da cadeira —, meu nome é Linfa, sou uma das quatro Deusas dos Humores. É de mim que os fleumáticos obtêm sua estrutura mineral ao nascerem — abriu os braços, sorrindo. — Os humores são os temperamentos. O temperamento é a estrutura básica que forma toda a psique dos seres com inteligência, isto é, todos os seres inteligentes da galáxia possuem um temperamento, e cada temperamento possui um modo de responder ao mundo — voltou a se sentar, tomando um gole do café de Ro.

A humana ficou olhando sua amiga fazer todos aqueles gestos, falar aquele monte de coisa — no mínimo estranhas —, tomar seu café e agir como se fosse tudo natural.

— Então, eu tenho esse tal de temperamento, certo? Qual é o meu? — arqueou uma das sobrancelhas.

Você é fleumática, Shanaria Ro — apontou para ela, depois para si mesma. — E o seu temperamento vem de mim. Eu sou a origem do temperamento fleumático, porque os fleumáticos compartilham características minhas. São seres calmos e tranquilos, que agradam a todos que estão ao seu redor. São pacientes com outros, envolvendo os seus, dando a eles a harmonia que desejam. Preferem a contração à expansão, porque é no concentrar que suas qualidades afloram, isto é, são seres que vivem para dentro, não para fora. A Água os representa não apenas porque envolve tudo, adapta-se, mas também porque acalma, esfria, umidifica tudo que toca — Tal-Ne não tirou os olhos dos de Ro, ambas as jovens se olhavam tentando compreender, ler uma a outra. Ro parecia buscar sinceridade nos olhos da amiga, enquanto Linfa — através de Tal-Ne — buscava expor sua honestidade. Finalmente, após outro gole de café já frio, que fez careta ao provar, Ro rompeu o silêncio.

— Não posso negar que seus olhos passam verdade, mas mesmo assim, não acho que seja o suficiente — respirou fundo. — Porém… — antes de concluir o que queria dizer, Linfa deixou o corpo de Tal-Ne como se o espírito dela deixasse o corpo. A nemuriana desabou sobre a mesa em sono profundo, deixando um fantasma de roupas sombrias, pele pálida e uma máscara com olhos tranquilos e sorriso meigo encarando Ro.

Ro estava tão perplexa com aquilo, os olhos arregalados, a respiração quase parando, que Linfa precisou se desculpar por ter se revelado daquele jeito.

— Acho que… acho que acredito em você dessa vez — engoliu outro seco. — Não é todo dia que isso acontece com alguém, digo… você saiu do corpo dela — Ro apontava repetidamente de Tal-Ne para Linfa, indo e voltando.

Realmente eu sinto muito por tê-la assustado, Shanaria Ro, não foi minha intenção.

— Não… tudo bem. Eu não iria acreditar em você se… — voltou a apontar para as duas — se isso não tivesse acontecido.

Então você aceita meu convite?

            — Isso foi inesperado. Nunca pensei que uma deusa viria falar comigo. Nunca pensei que deuses realmente existissem — confessou. — Digo, não é algo que você vê muito hoje em dia — Linfa concordou. — Vivemos em uma sociedade cética, com pouca ou nenhuma fé em seres divinos, talvez até hostil a qualquer coisa relacionada a isso.

Por que houve um desligamento entre nós e vocês. E é por isso que estou aqui: as deusas precisam de mortais para intervir no plano mundano e vo…

            — Fui escolhida por você. Eu entendi. Certamente terei de deixar Úmmela, meus amigos e minha família, porque essa não será uma coisa simples de fazer ou que poderia realizar daqui… estou correta? — Linfa concordou sem falar. — Bem, bem… — deu de ombros — talvez não seja uma má ideia conhecer a galáxia. Eu aceito — sorriu.

Você é inteligente, Shanaria Ro, isso me alegra! Agora tenho certeza que fiz a coisa certa em escolher você — confessou. — Esse é o retorno do religamento entre mortais e divindades, depois de anos de silêncio. Eu, Linfa, uma das Quatro Deusas dos Humores, dou minha bênção a você, Shanaria Ro, e a nomeio como minha Profetisa de hoje até os teus últimos dias. Quatro é Um e Um são Quatro!

Um intenso brilho saiu dos olhos de Linfa, impossibilitando a visão de qualquer coisa ao redor por alguns segundos, até finalmente cessar e tudo voltar ao normal.

Tal-Ne acordou de seu sono forçado, confusa, limpando a baba que escorria da boca. Ro deu risadas contidas quando viu o estado da amiga, mal sabendo ela tudo que havia acontecido.

— O que aconteceu? Eu dormi?

— Sim. Depois que você chegou do banheiro foi minha vez de ir, quando voltei você estava dormindo sobre a mesa. Acho que colocaram alguma coisa no leite — explicou Ro, rindo.

— Mas eu não lembro de ter voltado para a mesa. Eu estava lavando as mãos e… — Tal-Ne se esforçou para lembrar — não consigo lembrar nada depois disso.

— Deixa pra lá! — continuou sorrindo

— Por que você está rindo?

— Por nada. Só achei engraçado você toda descabelada — gargalhou.

— Isso não é coisa que se faça com uma amiga! — penteou os cabelos com as mãos o quanto conseguiu e a baba.

— Melhor pedir a conta e irmos embora. Vamos aproveitar o resto da noite enquanto podemos.

— É melhor. Mas preciso ir ao banheiro antes! Não posso sair desse jeito — saiu correndo em direção ao banheiro. Ro continuou olhando e rindo a amiga em desespero.

 

***

 

[1] Um tipo de polvo humanoide com tentáculos no lugar das mãos e dos pés.

[2] Os Ankor eram homens-lagartos, extremamente calmos devido ao sangue frio, apesar da aparência intimidadora.

[3] Animal herbívoro abundante no planeta Galmori, muito procurado por sua carne saborosa e seu leite fermentado natural, porém difícil de ser capturado devido aos seus hábitos subterrâneos.

Ventania de desejos

      Ventania de desejos 

Início de outono e as árvores já começaram a transformar suas folhas verdes em folhas secas em uma mistura de amarelo, laranja e vermelho. O outono é, com certeza, uma das estações mais revigorantes de todas, pois ela é uma preparação para o inverno. No outono, colhemos tudo o que plantamos durante a primavera e verão. Colhemos os frutos para sobrevivermos ao inverno.
Neste primeiro dia de outono, muitos ficam em suas casas para se proteger dos ventos. Porém, alguns corajosos se arriscam e aproveitam a paisagem do começo da estação. Durante a manhã uma garota, que conheço bem, pois a vi crescer nesta praça, estava em um banco lendo um livro. Está de óculos de armação azul, que combinam com as pontas tingidas de seu belo cabelo liso e curto. Seu nome é Lira. Como se espera, usa roupas quentes e um gorro para manter a cabeça aquecida.
Lembro que alguns anos atrás Lira se apaixonou, porém ele foi embora, e ela não pôde dizer o que sentia. Então veio à praça, nesta mesma estação e encontrou um taráxaco, também conhecido como dente de leão. Ela o pegou e o soprou. Conhecia a história que ao soprar a flor deve-se fazer um pedido sobre seu desejado amor. Se o vento trouxer de volta as pétalas o pedido será brevemente realizado. E, até onde sei, é a pura verdade.
Enquanto Lira lia seu livro calmamente, uma brisa soprou e logo se tornou uma ventania, fazendo-a perder o livro que foi levado pelo vento para perto da fonte. Depois de Lira se ajeitou e caminhou em direção ao livro, agachou-se e o pegou. Antes que se levantasse, uma voz a chamou.
– Lira? – Ela virou seu olhar em direção da voz e o viu: – Você é a Lira, não?
– Sim, sou eu! – Ela se levantou e avaliou bem o menino que a chamara. – Murilo?
– Sim. Acabei de voltar a cidade – Lira tinha um olhar de esperança e amor. – Lira, que tal darmos uma volta? Gostaria de matar a saudade da cidade. E de você. – Essa última parte a deixou surpresa, e um sincero sorriso apareceu, que ele correspondeu.
– Também senti sua falta. Então vamos dar uma volta. – Respondeu, ajeitando seu livro em sua bolsinha e indo com ele até a saída.
Então Lira e Murilo saíram juntos da praça e ao longe pude ver pequenas pétalas de taráxaco passando pelos pés de Lira, bem no momento em que Murilo segurou sua mão, fazendo ambos sorrirem. Uma brisa de paixão, sempre volta como uma ventania de amor.

(Conto do livro “A fonte dos desejos”)