Os Contos dos Quatro Humores: Colérico, o Fogo

O ruído de metal sendo soldado, cortado e batido era misturado com vozes, gritos e gargalhadas ressoando em todo o galpão. Grandes armários e prateleiras de ferro estavam soltas sem nenhuma organização prévia, com poças de óleo no chão, faíscas voando, ruídos de ferramentas se chocando umas nas outras… o lugar era uma algazarra.

Duas vastas linhas de pilastras que apontavam em direção à saída impediam que o teto desabasse, altas o suficiente para facilitar a locomoção pelos andaimes, e também resistentes para suportar todo aquele peso maciço. Espalhados por todo lugar haviam enormes máquinas triangulares feitas de metal Kyr pintadas de vermelho-sangue, os cascos completamente fechados com somente uma pequena abertura metros acima do bico em forma de broca — era por ali que o piloto enxergava.

Do alto do teto pendiam grandes soldas presas em tubos de energia bem acima dos veículos com vários humanos machos puxando ou arrastando a ponta avermelhada que lembrava uma gigantesca agulha de fogo.

— Thylon, quantas vezes eu já falei para não puxar a solda desse jeito? — disse um dos homens mais ao fundo da oficina; tinha a estatura baixa, mas o corpo era bastante musculoso; estava completamente sujo de óleo e marcas de queimadura nos braços e no rosto. Usava um macacão preto sem mangas — notadamente ele mesmo havia cortado por que os fios irregulares se soltavam — que cobria todo o corpo; a roupa oferecia uma proteção para cabeça, mas também foi removida, deixando apenas um grande par de óculos de lentes escuras que servia para proteger os olhos do fogo expelido pela solda. Era um homem de idade avançada, mas bastante conservado.

— Não enche o saco com seus sermões de merda, Kigi! — exclamou o rapaz poucos metros à frente. — Não tenho mais tempo para eles! — Thylon era bem mais novo que Kigi, tinha cabelos dourados quase raspados, olhos azuis e uma expressão triste; assim como Kigi, vestia o macacão preto e usava óculos para proteção, mas diferente do colega mais velho, as mangas do macacão estavam intactas, assim como a máscara de proteção. Era bem mais alto que Kigi, por sinal, porém menos musculoso. — Eu não tenho espaço para virar a maldita solda, então preciso força-la — puxou a ferramenta ao ponto do tubo se chocar com as passarelas, causando um forte barulho seco e oco. — Merda de solda pequena! — resmungou.

— Cuidado com a boca, moleque!  — a veia na testa de Kigi saltou. — Toda vez você diz a mesma coisa, mas por sua causa já mandamos consertar três soldas! Acha que temos tanto dinheiro e tempo para perder? Acha que é o único com pouco espaço, moleque mimado?

— É a verdade, velho maluco! Não faço isso de propósito! Se você não acredita, o problema é seu — apontou a solda para Kigi. — Eu tenho o direito de reclamar como todo mundo aqui; trabalho a mesma quantidade de horas que todos, às vezes bem mais que muitos! — Thylon sacudia a solda enquanto bradava, irado, com os colegas próximos. Quando finalmente se acalmou. — Agora me deixe trabalhar, tenho muito o que fazer! — deu as costas puxando a solda para fechar uma rachadura no casco do veículo.

— Não me dê as costas, Thylon, e pare de ficar se vitimizando. Em todo lugar encontramos pessoas com mais ou menos dificuldades que as nossas, então pare de olhar para o próprio umbigo feito uma criança que não ganhou o presente que queria! — a voz de Kigi ecoou tão alto e forte que cobriu todo o barulho de metal; os outros trabalhadores tinham interrompido o trabalho para ouvir. As mãos calejadas de pequeno homem largaram a solda e ele desceu do veículo-escavador em direção ao colega — Quem você pensa que é? Engula esse seu egoísmo de merda e faça o seu trabalho com o que você tem sem encher o saco dos outros!  — outra veia da testa de Kigi saltou, desta vez no lado esquerdo; ele abriu os braços como se falasse com os outros trabalhadores do alto de um púlpito; era um gesto simbólico que Thylon foi forçado a se segurar para não avançar sobre o colega.

— Você ainda continua falando, velho? Não cansa de bancar o homem maduro quando nem ao menos conseguiu manter o próprio casamento? Não dê lições de moral quando sua própria vida é o exemplo de fracasso.

— CALEM-A-DROGA-DA-BOCA! — outra voz bradou como um trovão, feroz e poderoso o suficiente para rivalizar com os sons agudos de metal batendo, cortando e soldando. Thylon e Kigi baixaram a cabeça na mesma hora, já sabendo que estavam com problemas.

— Reblas, desculpe por isso, mas o… — Thylon sequer conseguiu terminar a frase e novamente foi interrompido.

— Você é surdo, Thylon? Eu já falei para calar a boca! — exclamou, vendo o funcionário erguer as mãos pedindo calma. Reblas era um homem maduro, de corpo esbelto, não tão forte quanto Kigi, mas sua altura lhe proporcionava uma divisão melhor dos músculos. Os cabelos negros e lisos eram penteados para trás, quase lambidos, muito bem cuidados; os olhos eram tão escuros quanto os cabelos, mas sem dúvida muito mais cheios de vida, convergindo bem com seu rosto expressivo; a jaqueta vermelha de couro aberta, que lhe caía bem, cobria a camiseta simples por baixo; as caças eram de tecido mais justo e nos pés um par de botas cano relativamente longo. No peito esquerdo da jaqueta dava para ver em letras bordadas: Lak Escavações, bem acima do desenho de uma pirâmide cujo topo formava uma broca.

— Estou cansado de ouvir vocês dois brigando toda semana! Por acaso são crianças? — Reblas estava dentro de uma cabine localizada mais à direita, abaixo das passarelas, mas acima das máquinas e dos trabalhadores. Da janela a vista era privilegiada, garantia uma vista ampla de todo a oficina.

— Então é melhor que o Kigi me deixe trabalhar em paz.

Os olhos de Reblas estreitaram por alguns segundos, fixos em Thylon como uma fera fitando sua presa. As mãos, apoiadas sobre base da janela, apertaram com força a borda de maneira; os ombros de Reblas tensionaram, assim como seus braços.

— Sabe qual é o seu problema, Thylon? Você se comporta como se o mundo e os outros devessem algo a você — os dentes de Reblas também tensionaram, dava para notar a rigidez em seu maxilar. Respirou fundo antes de retomar sua fala e, por pura força de vontade, o corpo foi relaxando — Ninguém deve nada a você! — gotas de saliva voaram quando Reblas rugiu como um animal selvagem. Thylon não teve reação, estava paralisado pelo medo.

Todos os trabalhadores, sem exceção, interromperam suas atividades quando ouviram o berro do chefe; até mesmo os mais antigos, que estavam com Reblas desde a fundação da empresa, sentiram, por pura intuição, que deveriam ficar quietos; não era uma reação comum para todos eles, inclusive os mais antigos.

— Enquanto você reclama por bobagem, os outros precisam trabalhar cinco, dez, vinte, até mesmo uma hora a mais para cobrir o seu tempo desperdiçado! — ouviu-se o som abafado do metal se chocando contra o punho de Reblas de longe — Não importa se você acha ruim, se o Kigi começou, se isso cansa, se você não gosta dele… tudo o que importa aqui é que você aceitou o trabalho livremente. Ninguém o forçou a estar aqui e não estou o explorando como a maioria das empresas de escavações — mais uma vez Reblas respirou fundo para se acalmar; o punho vermelho estava de volta à janela. — Meus contratos são justos, mas se não está feliz aqui, procure emprego em outro lugar — apenas a voz de Reblas era ouvida, mesmo após o fim do sermão, ninguém ousou falar absolutamente nada, nem mesmo Thylon, ainda assustado com o que viu e ouviu.

— Chefe… — a voz falhou e Thlon engoliu seco; sua cor estava mais pálida e os olhos pareciam perdidos, não conseguiam se concentrar em um ponto fixo — eu não quis dizer que não gosto de trabalhar aqui, foi apenas uma maneira de dizer… foi o cansaço talvez… não sei… vamos deixar isso pra lá, tudo bem? Vou voltar ao trabalho.

— Essa foi a coisa mais inteligente que você disse hoje, Thylon — fitou o funcionário por um tempo antes de voltar a atenção para os demais trabalhadores — Voltem ao trabalho!

— Ah! Antes que eu esqueça… — Reblas olhou para Thylon. — Se você quebrar mais uma solda, vou fazer pior que descontar do seu pagamento, talvez eu mande uma hologravação para Shiima com as notas fiscais de todas as soldas que você quebrou.

— Também não precisa apelar, chefe! — reclamou. — Eu estou morto se Shiima souber!

— Então quer dizer que sua esposa não sabe? — Kigi deu uma gargalhada tão alta que outros funcionários foram contagiados. — Não vou deixar essa informação passar em branco.

— Chega de conversa! Voltem ao trabalho! — Reblas gritou, recolhendo-se para dentro da cabine e fechando a janela. Estava segurando o que parecia ser uma bola pequena numa das mãos, atento a uma tela virtual que flutuava no ar sobre uma luz em forma de cone emitida por um cubo transparente.

Problemas? — uma voz trêmula e robótica saiu da tela.

— Não foi nada.

Então vamos continuar.

— Mantenho a oferta de 5.000 denários pela T-500.

Já falamos sobre isso, Reblas, o valor está abaixo do mercado, e eu garanto que você não vai encontrar outra broca T-500 pelo valor que estou oferecendo.

            — Não tenho como oferecer mais do que isso, Konon, sem contar que a broca já é usada. Minha contraproposta é pagar o que você quer, mas pelo tempo que pedi — jogou a bola contra a parede que a rebateu, voltando para as mãos de Reblas num piscar de olhos.

Dois anos-setorial? Impossível! — retrucou a voz.

— Então não tem negócio. Por mais que eu precise dela, ainda tenho outras brocas e posso procurar o Ravir para negociar — aquele simples nome fez Konon esbravejar.

Tsc! Aquele ignorante? Não venha com essa! — ouviu-se um risinho de escárnio. — Não admito perder um cliente para aquele infame, ainda mais você! Façamos o seguinte: me dê 5.200 denários e a broca é sua!

— É assim que se fala! — sorriu, transferindo o dinheiro pela tela flutuante. Houve um som de alguma coisa sendo processada e então um “Pim!” seguido por um pequeno quadrado verde no centro da tela com as palavras: Transferência Finalizada. — O valor já está na sua conta. Já sabe para onde mandar o equipamento. Qual o prazo?

Certo… recebido — confirmou. — Deixa-me ver aqui… um, dois… — a voz ficou em silêncio por alguns segundos — em no máximo uma semana.

— Ótimo! — Reblas deu a volta para sentar na cadeira atrás da mesa. — Foi bom fazer negócios com você, Konon — despediu-se.

Você é um safado de um esperto, mas é um dos meus melhores e fieis clientes, não posso reclamar muito — a voz soltou uma risada. — Até mais, Reblas! Avise-me caso precise de mais alguma coisa — a voz se desconectou e a tela flutuante foi recolhida quando o cone de luz sumiu.

A cadeira rangeu quando Reblas sentou, forçando o espaldar para se espreguiçar, bocejando. O corpo todo estava tenso e dolorido devido ao longo tempo sentado; os olhos já estavam pesados àquela altura, até Reblas finalmente cair no sono.

O som da holochamada o acordou, fazendo-o saltar da cadeira com o susto. Olhou a hora na tela flutuante já ativada, era tarde e ele deveria ter ido embora. O ruído do comunicador não parava de soar, mas Reblas preferiu não atender.

Toque o quanto quiser, pensou, pegando a jaqueta sobre a mesa e seguindo em direção à saída.

Não vai atender, Lak Reblas? — disse a voz no holocomunicador que, em verdade, eram duas, uma masculina e outra feminina. Reblas virou em direção a mesa totalmente assustado. Não seria possível o equipamento ter feito o autoatendimento, ele não possuía essa função desde quando seu antigo dono a retirou.

Se não atender, serei forçada a ir até aí — ameaçou a voz, mas Reblas permaneceu em silêncio, aproximando-se do holocomunicador devagar, em passos curtos e quase inaudíveis. Próximo o bastante para tocá-lo, tomou outro susto.

Acha que não estou ouvindo você, Lak Reblas? Eu ouço, vejo e sinto TUDO! — as palavras do holocomunicador paralisaram Reblas por um momento, no entanto, não o suficiente para amedrontá-lo.

— Isso é algum tipo de brincadeira? Quem é você? — indagou. — É você, Méjja? Se for vo… — não deu tempo de continuar a frase, Reblas teve a sensação de que algo no ar estava diferente. No mesmo instante o espaço foi rasgado, bem ali, na frente da mesa dele, diante dele. A fenda era tão escura que não dava para saber o que havia do outro lado, ao menos não até duas mãos, dois braços e todo o corpo de uma mulher atravessar, como se um pedaço daquele breu estivesse ganhando vida.

Os olhos escuros de Reblas não piscavam, estavam esbugalhados; toda a face havia perdido o rubor e Reblas sentiu o corpo transpirar mais que o normal. Deixou a jaqueta cair sobre os próprios pés devido ao susto. A mulher tinha quase todo o corpo coberto por um manto incrivelmente escuro, com tiras negras que flutuavam se assemelhando à roupas desfiadas e as mãos, delicadas como seda, estavam amostra; o rosto era coberto por uma máscara branca com um sorriso de orelha a orelha, além dos olhos com expressões ferozes e audaciosas.

— Isso é um sonho? — indagou Reblas enquanto tocava o próprio corpo.

­Eu sou Íbilis, uma das quatro Deusas dos Humores — disse sem dar atenção a pergunta dele. — É de mim que os Coléricos obtêm sua estrutura mineral ao nascerem — afirmou, afastando os braços num gesto de autoelogio.

— Deusas dos humores? Você é uma deusa? — a entonação da palavra “deusa” saiu junto com um risinho de incredulidade, causando uma reação tensa de Íbilis.

Está zombando de mim, mortal? — disse se aproximando de Reblas, a mão se erguendo poucos metros antes de alcançar seu alvo, fazendo Reblas flutuar alguns centímetros do chão e voar em sua direção tão rápido que o deixou tonto. O encaixe da palma de Íbilis sobre o pescoço do rapaz foi perfeito, quase natural. Reblas tentou se desvencilhar, mas nada do que fazia era o suficiente, não tinha força para se soltar e não conseguia acertar um chute na mulher porque seus pés paravam antes de alcança-la.

— Tu-tu… tudo… be-bem… — balbuciou em desespero, o rosto completamente vermelho, bem diferente da palidez anterior. Íbilis por fim o largou.

Não sou como minhas irmãs, mortal, então tome cuidado com o que sair de sua boca enquanto estiver diante de mim! — exclamou. Seu ficou tão próximo ao de Reblas que o humano sentiu vontade de reagir, mas sua notável força de vontade o conteve.

— Tudo bem, Sra. Deusa dos…

Íbilis. Me chame de Íbilis.

— Certo… Íbilis. O que você quer de mim — por mais estranho que isso seja? — a voz falhou ligeiramente devido a dor na garganta. Reblas massageava toda a região com desconforto.

Direto ao ponto. Gosto disso. Sente-se — não esperou a resposta antes de erguer Reblas no ar com um único gesto, repousando-o sobre a cadeira.

Os humores são os temperamentos. O temperamento é a estrutura básica que forma toda a psique dos seres com inteligência, isto é, todos os seres inteligentes da galáxia possuem um ou mais temperamentos. No entanto, a imensa maioria possui um em destaque. Ora, o temperamento é responsável pelo modo como cada ser compreende o mundo ao seu redor, ou seja, todos recebem impressões do mundo e, naturalmente, devolvem essas impressões de uma maneira muito específica. Portanto, um melancólico não reagirá de forma natural diante de alguma circunstância do mesmo modo que um colérico, sanguíneo ou fleumático. Cada humor tem características específicas, apesar de serem apenas quatro.

— Hum… e qual seria o meu temperamento? — indagou ainda com a voz fraca.

Como a deusa ao qual os coléricos obtêm sua estrutura, e por ter vindo especificamente por sua causa, fica evidente que você é um ser de temperamento colérico — predominantemente colérico. Em você vejo a capacidade para liderar os seus, de guia-los rumo à verdade e de protege-los quando em perigo; vejo o ímpeto que o faz confiar nas suas escolhas, não se importando com as opiniões dos outros, porém, sem a arrogância ditatorial nem a rigidez da ira. Você é aquele que trouxe o fogo e, como tal, deve ser aquele quem os outros devem seguir. O fogo queima, mas o fogo aquece, e as duas coisas são fundamentais.

— Você é a deusa que representa os coléricos?

Não… eu sou a origem do qual os coléricos são coléricos — corrigiu.

— Então — levantou-se —, você é uma deusa que possui três outras deusas como irmãs, e cada uma é origem dessa estrutura psíquica ou mental de todos que você chama de temperamento, é isso? — não havia desdém nem zombaria nas palavras.

Correto.

— Eu aceito.

Tem certeza?

            ­— Sim.

Por que aceitou tão rápido?

— Meu avô contava estórias sobre você e suas irmãs e tinha fé nas suas existências — um pequeno sorriso se formou. — Fui criado por ele e adorava essas estórias, mas elas foram muito mais do que simples estórias para mim.

Eu lembro do seu avô, era um homem bom, cheio de energia, seu enorme coração lhe permitia olhar o próximo com empatia honesta, e isso o tornava adorável aos olhos de todos. Um legítimo Sanguíneo! — flutuou para frente. — Seu avô o educou bem, Lak Reblas. Vejo que fiz a escolha certa — Íbilis fez uma reverência.

— Ele era realmente o melhor dos melhores — suspirou. — A honra é minha em ter sido escolhido — retribuiu a reverência. — Quatro é Um e Um são Quatro — disse, sorrindo para Íbilis que não conteve a risada.

Esse é o retorno do religamento entre mortais e divindades, depois de anos de silêncio. Eu, Íbilis, uma das Quatro Deusas dos Humores, dou minha bênção a você, Lak Reblas, e o nomeio como meu Profeta de hoje até os teus últimos dias. Quatro é Um e Um são Quatro!

Houve um intenso brilho vindo dos olhos de Íbilis, forte o bastante para ofuscar tudo ao redor, cegando Reblas por alguns segundos e o acordando em seguida. Ele havia caído da cadeira por ter feito força demais para trás enquanto dormia.

— Foi um sonho? Mas pareceu tão real… — aquelas eram nítidas palavras de lamento. Levantando-se, colocou a cadeira no lugar e arrumou rapidamente a mesa, percebendo sua jaqueta mais ao canto. Foi até lá, inclinou-se e esticou a mão para pegá-la até notar uma mancha escura no dorso de sua mão: três linhas de tamanho idêntico, todas em posição vertical, com a linha central ligeiramente abaixo das outras duas. Instantaneamente Reblas começou a rir.

— Eu sabia que não era um sonho! — exclamou.

A sentença final

A sentença final

A notícia do crime bárbaro se espalhou rapidamente pela pacata cidadezinha, deixando a todos perplexos diante de tão inesperado e terrível acontecimento: um homem, que todos imaginavam acima de qualquer suspeita, sequestrou, violentou e matou uma pobre garotinha de apenas 13 anos. A investigação policial, logo após a notícia do desaparecimento da menina, e auxiliada por uma denúncia anônima, rapidamente levou à descoberta da identidade do suspeito: um cidadão comum, funcionário público, sem passagens pela polícia. Ao ser encontrado, não ofereceu resistência, e se entregou aos policiais, sendo conduzido para a prisão. Passados alguns dias, foi levado ao fórum da cidade para prestar seu depoimento diante do júri. E faria isso com uma fria riqueza de detalhes, impressionando a todos.

No dia marcado, uma multidão exaltada apareceu para acompanhar o desfecho daquela trágica história. Quando a viatura chegou ao fórum, e o prisioneiro saiu escoltado por dois policiais, os gritos e xingamentos do povo indignado logo se fizeram ouvir: “Assassino!”; “maldito, merece a morte!”; “vai pro inferno seu nojento!”, e outros tantos inomináveis palavrões, que raramente se ouvia da boca daquela gente simples. A família da vítima — formada pelo pai, a mãe e um irmão mais velho — chegou cedo ao local, para poder finalmente entender a razão disso tudo, e poder olhar nos olhos daquele que tirou, de forma tão desumana e doentia, a vida da sua caçula tão preciosa: Ana era o seu nome, em homenagem à querida avó já falecida.

Durante o depoimento, perante o juiz, advogado, promotor e os jurados, o criminoso confessou todos os detalhes de como encontrou e sequestrou Ana na saída da escola, o que fez com ela no seu cativeiro, e como finalmente a matou depois de alguns dias (detalhes esses que não comentarei aqui, para não chocar os corações mais sensíveis). E depois de tudo confessar perante o tribunal, não demonstrou arrependimento, permanecendo com a cabeça baixa, mas tinha a voz calma e perturbadoramente serena, o que chocou a todos, principalmente, aquela família humilde. Era nítido no rosto daquelas pessoas a indignação, a revolta e a dor de sofrer uma perda dessas: está além das palavras.

Depois de concluído o processo, foi lida a sentença pelo juiz: 20 anos de reclusão. Após a martelada final do Meritíssimo, os policiais o retiraram da sala e o encaminharam para a sua cela solitária da prisão. Nesse instante o irmão mais velho — revoltado e totalmente fora de si — tentou atacar o assassino, mas sua tentativa foi em vão, sendo logo contido por seu pai e por um policial. Fez-se um grande alvoroço, e todos puderam ver a revolta e o ódio estampado em seus olhos. Acredito que, se não o tivessem segurado a tempo, teria matado o assassino com suas próprias mãos ali mesmo. Mas, ainda muito transtornado e inconformado com o destino — o seu ver ameno daquele homem — o irmão da menina assassinada proferiu de sua boca a sua própria sentença para o condenado:

— “Assassino! A minha irmãzinha não merecia isso seu doente! Que o diabo lhe carregue!” — Foram estas as suas palavras.

Depois de acalmados os ânimos, o condenado foi enfim levado para a sua cela, isolado dos outros presos, e lá ficou em silêncio, continuando com sua atitude de não falar nada, e a cabeça sempre baixa.

* * *

Na manhã seguinte, quando os guardas levaram a sua refeição matinal, ao abrirem a cela, uma surpresa chocante: o assassino estava morto. Foi encontrado caído no chão, os olhos arregalados, a boca aberta escorrendo saliva, e uma horrível expressão de pavor estampada no rosto já frio. O laudo médico após a autópsia constatou um infarto agudo, o que surpreendeu a todos, pois aparentemente ele tinha boa saúde. Para os guardas da prisão e os médicos que viram seu corpo — a julgar pela expressão de seu rosto — ele tinha morrido literalmente de medo. Alguma coisa o deixou tão aterrorizado que seu coração não resistiu.

Realizou-se uma investigação. Os outros presos relataram, em seus depoimentos, que durante a noite ouvira gritos horripilantes vindos da cela do assassino, além de batidas na porta como se ele tivesse, em desespero, tentado fugir dali. A cela onde passou suas últimas horas foram minuciosamente examinada pela perícia e nada foi encontrado, a não ser por um estranho detalhe: ao abrirem-na, sentiram um fedor muito forte de enxofre. A sentença final estava cumprida.

* * *

A prece atendida

Seitas se formam e se reúnem frequentemente a cada dia, o mundo se tornou tarado atrás do “bem” mais valioso que algum deus poderia conceder: uma prece atendida.

Um mundo baseado nas descobertas de uma cultura muito antiga que afinal foi validada e comprovada: os launitas. A cada década uma prece de algum ser humano teria sua prece daquele dia atendida, não importando qual fosse. Com o apoio da ciência que no último século, financiado pelas grandes famílias globalistas do mundo, conseguiram com uma boa propaganda e muita observação, identificar das nove preces, quatro incidentes de causas desproporcionais, que coincidiam com o desejo de um ser humano. Após essa descoberta, todas religiões caíram em apostasia geral, com seus fiéis convertendo-se ao launismo. Seitas formavam-se em uma mesma prece na tentativa de que o escolhido estivesse entre eles e satisfizesse um desejo comum daquela seita, assim como sua primeira heresia, os obvienistas, pessoas que como oração diária desejavam que o Sol se pusesse no Oeste e nascesse no Leste dia seguinte. O que obviamente, é uma obviedade…

O ferro que domina

Durante o século XIV, pós peste-negra, o exílio de um nobre sobrevivente Francisco Berlusconi, um jovem de 16 anos, tornou-se inevitável. O que seis séculos a frente viria a ser chamado de mutação genética, era chamado, como de fato seria, uma maldição, A Maldição da Amalgama.

Essa maldição que poderia ser facilmente chamada de dádiva para o portador, tornava sua vida um verdadeiro inferno, afinal a ameaça dos poderes desta maldição era o anseio e a insegurança de qualquer autoridade, o controle dos corações. Há quem diga que os grandes poderosos modernos, são portadores desta maldição, ou possuem subordinados ao seu dispôr.

A capacidade evolutiva e misteriosamente abismal do primate para o ser humano pareceu se repetir-se nesse caso, a peste-negra desencadeou um aumento espontâneo e absurdo da quantia de ferro no sangue do enfermo como resposta do sistema imunológico, desta forma garantindo uma certa imunidade a peste bubônica e dinâmica e os efeitos da maldição que citarei agora: todo corpo possue naturalmente um campo eletromagnético, sobretudo o corpo humano, visto que o sangue corre em nossas veias cerca de 2km/h, isso gera um campo eletromagnético ainda maior. O portador da maldição com esse adicional absurdo de ferro em seu sangue, é capaz de gerar um campo eletromagnético ainda maior.

Francisco uma bela tarde de primavera, montado em seu cavalo enquanto passeava, percebeu que seu corpo estava estranho pós recuperação da peste e olhando para ponta de seu indicador viu uma espécie de agulha negra se formando e conforme ele desejava, ela aumentava de tamanho. Aquela agulha parecia imantizada em direção ao peito do cavalo, como se desejasse beijar o coração de seu alazão. Francisco, curioso e imprudente, se deixou levar, poucos segundos, a agulha penetrava pelo lombo do cavalo, por entre as costelas, o coração equino. Lá cravado, Francisco que seus desejos, ou seja sinapses, o cavalo imediatamente obedecia, ele desejava ir para esquerda, o cavalo obedecia, ele desejava ir para direita o cavalo obedecia, seu campo magnético comandado pelas suas sinapses, influenciava diretamente o cérebro do cavalo, conduzido pelo sangue aquoso.. Assustado e obcecado em entender o que se passava ele guardou segredo. Precisava testar mais uma vez, Madalena, sua amiga de infância e confidente, se aproximou dela…

A mobília

No sepultamento do Seu Fabiano Mangueira, Inácio sentia dentro do seu peito um aperto sufocante que, se não fosse tamanha tristeza ao ver pela última vez seu avô, passaria facilmente por um caso de “pontada de pneumonia”. Porém sua consciência quase lhe culpava pelo seu cérebro regozijar-se por ser herdeiro de uma mansão, nem tão grande mas nem tão pequena, suficiente para caber uma vida inteira.

O Sol raiou após uma semana de luto e automatismo proletário, era hora de visitar sua nova propriedade e abandonar o aluguel. Chegando diante dos portões torneados e requintados da mansão, Inácio torna o rosto para sua velha amiga de infância, que estava ali para suportar qualquer crise emocional, Isabel, como quem busca força para girar a maçaneta, receoso:

– Melhor voltarmos outro dia, vai chover, ficará difícil de ir embora depois…

O sol rachava a tímida nuvem, base do argumento de Inácio.

– Inácio, isso precisa ser feito, lembra quando tu caiu de bicicleta no primário, ficou com um curativo três semanas inteiras, aquilo criou uma pereba e foi muito pior depois? Pois bem, vamos logo com isso!

Eles avançaram adentro da mansão, logo no hall de entrada havia seis cadeiras de formato e madeira diferente, em cada parede, de um lado um papel de parede azul com barquinhos e do outro listras brancas e pretas, no centro, três mesas de alturas diferentes tentavam se encaixar uma a outra, um tapete persa-chinês-hebreu-assírio-albanês-inglês-brasileiro forrava o chão, dentro outras mobílias que não era possível definir exatamente qual sua finalidade. Isso se repetia entre todos os cômodos, cada um com suas mobílias características e seus elementos estranhos.

– Nossa! Esse teu avô tinha uma pá de coisas estranhas hein?  – Exclamou Isabel.

– Sim, ele viajava pelo mundo e fazia questão de que a casa dele se tornasse uma amálgama de cada lugar. Ele queria poder iluminar sua leitura com um candelabro de uma igreja sueca demolida, enquanto sentava em uma poltrona russa, lendo um livro escrito por um paquistanês. 

– Mas já que você vai morar aqui, como fará? Acho que seria legal manteeer………OOOAAHH! – Disse Isabel, ao caindo de uma cadeira aparentemente forte para sustentar um elefante que quebrou – Esquece, tu vais se livrar disso tudo?

– Não sei, talvez. O vô deixou uma grana também, poderíamos ir à alguma loja.

Assim foi feito, deixaram a mansão naquela manhã ensolarada e foram a uma loja de móveis, chegando lá o vendedor com sua colônia inebriante e sorriso quase azul de tão branco:

– Pois vejam bem, temos aqui esse conjunto de mobília, um kit perfeito em termos de estética, irá harmonizar muito bem sua mansão Sr. Mangueira, material de primeira linha…

Inácio somente pensava “para que preciso de móveis novos se já tenho a maior variedade do mundo lá dentro de casa?”…

Então essa mentalidade acompanhou todas as visitas às lojas. Nada fora comprado.

– Inácio, não compramos nada! O que há contigo?

– Ah Isabel, já tenho tudo lá, para que preciso de mais?

– Não sei se tu percebeu, mas praticamente tudo lá dentro é duvidoso, tu não sabes de onde veio, quem fez, qual a procedência, só porque isso teve um valor para seu falecido avô, não quer dizer que tenha que ter para ti.

– Poxa mas aquela cadeira vinho quebrada na guarda foi comprada quando ele me levou para conhecer o Louvre, aos meus 12 anos de idade, e eu fiquei sentado quatro horas tentando adivinhar para onde a Mona Lisa olhava afinal. Ele comprou aquela cadeira como lembrança.

– Pois então, guarde essas que tu conheces e coloca fora o resto.

Assim Inácio o fez. Cerca de 95% da mobília havia sido vendida, doada, queimada, expurgada, exorcizada, enfim… Aquela percepção de kitnete não havia mais, apenas algumas mobílias e muitos vazios desesperadores, pedindo preenchimento, naquela casa. Dado este vazio decidiram retornar a loja de móveis.

Aquele 5% de memórias que lá estavam sugerem uma harmonia, aquilo tinha sentido, aquilo tinha verdade para Inácio e isso era parâmetro perfeito para saber o que servia e o que não servia para integrar naqueles vazios desesperadores. Cada mobília naquela loja, na simulação imaginativa de Inácio, parecia encaixar perfeitamente como um quebra cabeça ou simplesmente soar como um violino desafinado nos cômodos da casa. Pouco a pouco, recomendação de uma loja feita por um amigo, tinha o móvel perfeito, ou mesmo gastando mais fazendo sob medida. Tornava cada vez mais aquilo, que antes era uma projeção de Fernando Mangueira, agora seria integralmente Inácio Mangueira. 

O mendigo caolho e o milionário opulento

Robson, ou como gostava de ser chamado, Robinho quando ainda muito jovem brincava de pega-pega com sua irmã, Marisa, quando de repente, após um espirro violento, como uma cena de terror, seu olho esquerdo saiu da órbita de sua face, pouco ele sabia que 5 anos depois isso lhe garantiria um belo recipiente no rosto para sua bolinha de gude preferida.

Hoje após dramas familiares e sobretudo pessoais ele vive sob o teto dessa grande hospedaria chamada Ponte do Calabouço, a origem deste nome fica para outra história, mas que de fato é uma pequena ponte, quase um viaduto, que liga a cidade turística até a cidade industrial da região metropolitana. Isso lhe garante companhias inusitadas como o Zézinho da Colônia, um castelhano de 1,55m de altura, coxo, feio como uma tesourada no olho, cheirava a vinagre com ácido úrico, característico de quem viveu uma vida ao relento, e um bigode de marechal que lhe sugeria uma certa autoridade. O temperamento colérico e a fúria de um titã garante um ótimo guarda-costas para Robinho.

  • Ô Zézinho, tu não vai buscar marmita pra nóis hoje, vinte pratas e rende pra semana toda?
  • Vou não, hoje vou ir lá na rua de cima encontrar a Nandinha e se bobear já meto uma facada no bucho do Mariano que andou metendo a cara com uns dos meus.

Zézinho ladrava mais que mordia, mas mordia.

A tarde caía, na calçada da rua da quadra ao lado, começava a movimentação das pessoas, algumas mais importantes outras nem tanto. Happy hours, adultério, segundo turno, missa, cultos, enfim… Todo tipo de pessoa, e seria lá que Robinho faria seu ganha-pão. 

Um certo dia, passara um senhor, boina italiana, paletó corte inglês, bigode de marechal, como o do Zézinho, cantarolando um poema:

 

“Ferdinanda que lá está

Manda daqui ao Paraná

Anda sem saber como parar

Da varanda desatina meu olhar…”

 

Ao final do verso, caia de seu bolso, quase em câmera lenta, algo que era bom demais para ser verdade, uma bela nota de vinte pratas. Robinho num impasse moral de meio segundo, tomou a nota e guardou-a bem dobradinha no lugar mais seguro que conhecera, o antigo porta-bolinhas-de-gude.

Curiosamente isso se repetia, semana a semana. Sempre garantindo o “pão nosso de cada dia” de Robson, O Caolho. Lá pelas tantas, barriga cheia, Robinho lembra o amigo Zézinho da Colônia, nunca mais o havia visto. 

 

Ou havia.

O Bilhete Premiado

Ivan Dmítritch, homem remediado que vivia com a família na base de uns 1200 rublos por ano, muito satisfeito com seu destino, certa noite, depois do jantar, sentou-se no sofá e começou a ler o jornal.

— Esqueci de dar uma olhada no jornal de hoje — disse sua mulher tirando a mesa. — Dê uma espiada para ver se saiu o resultado do sorteio.

— Saiu — respondeu Ivan Dmítritch —, mas você não penhorou seu bilhete? Não. Paguei os juros na terça.

— Qual é o número?

— A série é 9499, bilhete 26.

— Então… Vejamos… 9499 e 26.

Ivan Dmítritch não acreditava na sorte da loteria e em outra ocasião jamais se daria ao trabalho de verificar a lista. Agora, porém, que não tinha nada para fazer e o jornal estava bem debaixo de seu nariz, percorreu com o dedo de cima para baixo Os números da série. E não é que logo de cara, corno que para zombar de sua descrença, já no alto da segunda coluna apareceu de repente, diante de seus olhos, o numero 9499! Sem conferir o número do bilhete nem verificar se tinha lido certo, deixou cair rapidamente o jornal no colo e corno se alguém lhe tivesse derramado água na barriga, sentiu um friozinho agradável no fundo do estômago. Era urna sensação de coceira terrível e deliciosa ao mesmo tempo.

— Macha — disse com voz surda — o 9499 está aqui. — A mulher olhou para seu rosto surpreso, assustado, e compreendeu que o marido não estava brincando.

— 9499? — perguntou ela, empalidecendo e deixando cair na mesa a toalha dobrada.

— Sim, sim… Está, de verdade!

— E o número do bilhete?

— É mesmo! Ainda falta o número do bilhete. Mas tenha paciência… espere. Então, que tal? De qualquer modo o número de nossa série está, hem? De qualquer modo, entendeu?…

Ivan Dmítritch olhou para a mulher e sorriu num sorriso largo e apalermado como uma criança a qual tivessem mostrado alguma coisa brilhante. A mulher também sorria. Sentia o mesmo prazer que o marido por ele ter lido somente a série e não ter tido pressa em saber do número do feliz bilhete. E tão delicioso, tão angustiante consumir-se e espicaçar-se na esperança de uma felicidade possível!

— A nossa série está — disse Ivan Dmítritch depois de um longo silêncio. — Significa que existe uma possibilidade de termos ganho. Apenas uma possibilidade, mas, apesar de tudo, ela existe!

— Está bem, mas agora, olhe.

— Espere. Ainda teremos tempo a vontade para nos desiludir. Se esta na segunda coluna de cima, quer dizer que o prêmio é de 75 mil. Isso não é dinheiro, é uma força, um capital! E se de repente eu olhar para a lista e lá estiver o numero 26? Hem? Escute, e se tivermos ganho de verdade?

Os cônjuges começaram a dar risada e a olhar demoradamente um para o outro, sem falar nada. A possibilidade da ventura deixara-os obnubilados, e eles não conseguiam sequer sonhar, dizer para que precisavam daqueles 75 mil, o que comprariam, para onde iriam. Imaginavam apenas os números 9499 e 75 mil, desenhavam-nos em sua imaginação, mas a idéia da felicidade, que estava tão próxima, parecia não lhes passar pela cabeça.

Ivan Dmítritch andou algumas vezes de um lado para outro com o jornal nas mãos e só quando a primeira impressão se acalmou é que, aos poucos, começou a sonhar.

— E se tivermos ganho? — disse. — Seria uma vida nova, uma catástrofe! O bilhete é seu, claro, mas se fosse meu, antes de mais nada, naturalmente eu compraria algum imóvel, algo como uma propriedade, no valor de, digamos, vinte e cinco mil; deixaria uns 10 mil para despesas extras: mobília nova… uma viagem… pagamento de dívidas e assim por diante. Os 80 mil restantes colocaria no banco, para render juros…

— Realmente, uma propriedade seria ótimo — disse a mulher sentando-se e deixando cair os braços no colo. — Nalgum canto, na região de Tula ou de Orlóv… Em primeiro lugar, não seria preciso alugar nenhuma casa de campo e, em segundo, não deixa de ser uma renda.

E na imaginação dele começaram a se aglomerar imagens, uma mais poética e aprazível que a outra. E em cada uma delas ele se via satisfeito, tranqüilo, saudável e chegou a sentir um calorzinho agradável, um calorzão, mesmo! Lá está ele, depois de ter comido uma sopa de legumes fria como o gelo, de barriga para cima na areia quente, na beira do rio ou no jardim mesmo, embaixo de uma tília… Faz calor… O filho e a filha rastejam perto dele, rolam na areia ou caçam algum bichinho na relva. Cochila docemente sem pensar em nada e sente com todo o corpo o que significa não ter de ir ao serviço nem hoje, nem amanhã, nem depois. E quando cansar de ficar deitado, pode ir ver cortar o feno, ou ao bosque, colher cogumelos, ou então ficar observando como os camponeses pescam os peixes com o arrastão. Ao pôr-do-sol, pega um pano, um sabonete e esgueira-se na casa de banho, onde se despe devagarzinho, passa um tempão alisando o peito nu com as palmas das mãos e finalmente cai na água. Na água, os peixinhos se agitam em volta das bolhas turvas de sabão e as plantas aquáticas balançam na corrente. Depois do banho, um chá com creme e rosquinhas doces… À noite, um passeio ou uma partida de uíste com os vizinhos.

— Sim, seria bom comprar uma propriedade — diz a mulher, também sonhando. Lê-se em seu rosto que está encantada com os próprios pensamentos.

Ivan Dmítritch imagina o outono chuvoso, as noites frias, o veranico. Nessa época é preciso andar um tempão pelo jardim, pela horta, pela margem do rio até sentir bem o frio e depois beber um copo cheinho de vodka junto com cogumelos salgados ou um pepino em salmoura e pronto, tomar outro trago. As crianças vêm correndo da horta, trazendo cenoura e nabo. Sente-se o cheiro fresco da terra… Depois, estirar-se no sofá e folhear uma revista qualquer, sem pressa, até que o sono chegue. Cobrir o rosto com a revista, desabotoar o colete e entregar-se…

Após o veranico o tempo é fechado, ruim. Chove dia e noite. As árvores despidas choram, o vento é úmido e frio. Os cachorros, os cavalos, as galinhas; não há quem não esteja molhado, melancólico, encolhido. Não se tem por onde passear; sair de casa, nem falar! Passa-se o dia inteiro andando de um canto para outro e olhando tristemente pelas janelas embaçadas. Que coisa enfadonha!

Ivan Dmítritch parou e olhou para a mulher.

— Sabe de uma coisa, Macha, eu iria é para o estrangeiro.

E ficou pensando como seria bom viajar para o estrangeiro, cruzar o oceano profundo e ir para algum lugar no sul da França, para a Itália… Para a Índia!

— Eu também iria para o estrangeiro correndo — disse a mulher. — Mas olhe o número do bilhete!

— Espere! Daqui a pouco…

Andou pelo quarto e continuou a pensar. E se a mulher fosse realmente para o estrangeiro? Viajar é bom sozinho, ou em companhia de mulheres despreocupadas, sem compromisso, que vivem o momento presente, e não com aquelas que ficam o tempo todo pensando e falando em crianças, suspirando, tremendo com medo de gastar um copeque que seja. Ivan Dmítritch imaginou sua mulher no vagão, cheia de embrulhos, cestas, pacotes: suspira e queixa-se que a viagem lhe deu dor de cabeça, que gastou muito dinheiro. É preciso correr na estação atrás de água quente, sanduíches, água potável. Almoçar ela não pode, custa caro…

“Tenho certeza que ela iria controlar cada copeque”, pensou ele, olhando para a mulher. “O bilhete é dela, não é meu! E pra que ela precisa ir para o estrangeiro! O que é que lhe falta ver lá de importante? Já sei. Ficará fechada o tempo todo no hotel e não me deixará desgrudar dela um só momento.”

E pela primeira vez em sua vida reparou que a mulher tinha envelhecido, ficara feia e cheirava a cozinha, enquanto ele ainda era moço, saudável, viçoso, bom para se casar uma segunda vez.

“Claro, tudo isso é bobagem, é besteira”, pensou. “Mas… para que iria ela ao estrangeiro? O que ela aproveitaria lá? Mas iria mesmo… Imagino. Para ela Nápoles ou Klin iriam ser a mesma coisa. Ficaria me atormentando e eu dependeria dela. Tenho certeza de que na hora em que recebesse o dinheiro, iria trancá-lo a sete chaves, como faz o mulherio… Iria escondê-lo de mim… Aos parentes dela tudo, mas para mim, contaria cada copeque.

Ivan Dmítritch ficou pensando na parentela. Logo que todos esses irmãozinhos, irmãzinhas, titias, titios soubessem do ganho, viriam se arrastando, bancando os mendigos, sorrindo untuosamente, bajulando. Eta gentinha sórdida! Se lhe oferecem a mão, pegam o braço. Se não lhe oferecem, amaldiçoam, rogam pragas, desejam todo tipo de desgraça.

Ivan Dmítritch lembrou-se de seus parentes e seus rostos, que ele sempre olhara com indiferença, pareciam-lhe agora odiosos, repulsivos.

“São uns canalhas”, ele pensou.

E o rosto da mulher começou também a parecer-lhe odioso, repulsivo. Em seu íntimo começou a ferver um ressentimento contra ela e ele pensou com alegria perversa: “Não entende nada de dinheiro, por isso é avarenta. Se ganhasse, mal me daria cem rublos, e o resto iria direto para o cofre”.

Já olhava agora para a mulher com ódio e não mais com um sorriso. Ela também olhava para ele com maldade e com ódio. Ela tinha seus próprios sonhos dourados, seus pianos, suas idéias e sabia perfeitamente no que estava pensando o marido. Sabia que seria o primeiro a avançar no que ela teria ganho.

“É bom sonhar por conta dos outros!”, dizia o olhar dela. “Não, você não conseguirá!”.

O marido compreendeu seu olhar: o ódio ferveu-lhe no peito e para decepcionar sua mulher e fazer-lhe mal olhou rápido na quarta página do jornal e anunciou solene:

— Série 9499, bilhete 46! Não 26!

A esperança e o ódio desapareceram ambos de repente e, no mesmo instante, Ivan Dmítritch e sua mulher acharam os aposentos escuros, pequenos e abafados, e o jantar que tinham acabado de comer pesado e insosso, e as noites longas e enfadonhas.

— Só o diabo sabe — disse Ivan Dmítritch, começando a implicar. — Por todo lado que eu pise, só há papéis, migalhas, casquinhas, sei lá. Será que nunca varreram esses quartos! Terei de ir embora de casa, o diabo que me carregue. Vou sair e me enforcar na primeira árvore.

SEIS ATRAVESSAM O MUNDO INTEIRO

SEIS ATRAVESSAM O MUNDO INTEIRO

Era uma vez um homem que sabia todos os ofícios. Servira na guerra com bravura e
coragem, mas no final fora mandado embora com apenas três tostões.
– Isso não vai ficar assim – ele protestou. – Quando eu achar o homem certo para me
ajudar, o rei me dará todos os tesouros do reino.
Cheio de raiva, ele entrou na floresta, viu um homem ao lado de seis árvores que havia
arrancado como se fossem pés de milho e lhe disse:
– Quer vir comigo e ser meu criado?
– Muito bem – ele respondeu. – Preciso apenas levar esta madeira para o meu pai e a
minha mãe. – Ele pegou uma das árvores e enrolou-a nas outras cinco, pôs o fardo sobre os
ombros e levou-o embora. Voltou rapidamente e passou a seguir seu líder, que disse:
– Juntos, nós dois podemos enfrentar o mundo.
Depois de caminhar um pouco, cruzaram com um caçador, que, de joelhos, mirava
cuidadosamente com um rifle.
– Caçador – perguntou o líder –, em que está mirando?
– A três quilômetros daqui – ele respondeu – há uma mosca no galho de um carvalho.
Pretendo acertar uma bala no olho esquerdo dela.
– Venha comigo – o líder propôs. – Juntos, nós três podemos enfrentar o mundo.
O caçador estava disposto a acompanhá-lo e assim o fez. E eles caminharam até
encontrar sete moinhos de vento cujas pás giravam rapidamente apesar de não haver
nenhum vento e de as folhas das árvores não se mexerem.
– Ora – disse o líder –, não entendo como estes moinhos se mexem sem vento. – E
prosseguiu com seus seguidores por mais três quilômetros, quando viu um homem sentado
no alto de uma árvore tampando uma narina e soprando com a outra.
– Ora, ora. O que está fazendo aí em cima? – quis saber o líder.
– A três quilômetros daqui – ele respondeu – há sete moinhos de vento. Eu sopro e eles se
mexem.
– Venha comigo – pediu o líder. – Juntos, nós quatro podemos enfrentar o mundo.
O sujeito desceu da árvore e seguiu com os demais, e depois de um tempo eles
encontraram um homem em pé em uma perna só. A outra tinha sido tirada e descansava no
chão, ao lado dele.
– Você parece ter achado uma boa maneira de descansar – observou-lhe o líder.
– Sou corredor – o homem respondeu. – Para não andar rápido demais, tiro uma das
pernas, pois, quando corro com as duas, vou mais depressa que um pássaro.
– Venha comigo – o líder pediu. – Juntos, nós cinco podemos enfrentar o mundo.
Eles seguiram todos juntos e não demorou muito para encontrarem um homem de
chapéu, que o usava sobre uma orelha apenas.

– Tenha modos! – exclamou o líder. – Com o chapéu desse jeito você fica parecendo um
idiota.
– Não ouso colocá-lo direito – respondeu o outro. – Se o fizesse, haveria tanto gelo que até
os pássaros congelariam e cairiam mortos do céu.
– Venha comigo – sugeriu o líder. – Juntos, nós seis podemos enfrentar o mundo.
Os seis prosseguiram até uma cidade onde o rei mandou anunciar que aquele que
apostasse uma corrida com sua filha e a vencesse se tornaria seu marido, mas, se perdesse,
perderia também a cabeça. O líder se adiantou e declarou que um de seus homens correria
por ele.
– Então a vida dele também entra na aposta – disse o rei. – Se ele perder, cortaremos a sua
cabeça e a dele.
Acordo feito, o líder chamou o corredor e colocou nele a outra perna.
– Agora vá e vença por nós – ele pediu.
Ficou combinado que quem voltasse primeiro com a água de um riacho distante seria
declarado vencedor. A filha do rei e o corredor pegaram um jarro cada um deles e
começaram a correr juntos. Em pouco tempo, porém, o corredor desaparecia de vista
enquanto a jovem tinha andado apenas um pouco. Logo ele chegou ao riacho, encheu o
jarro com água e voltou. No meio do caminho, porém, foi tomado pelo cansaço. Pousou o
jarro no chão e se deitou para dormir, mas colocou embaixo da cabeça o crânio de um cavalo

morto, a fim de que esse travesseiro duro não o deixasse dormir tempo demais. Nesse meio-
tempo, a filha do rei, que era boa corredora – boa o bastante para vencer um homem comum

–, chegou ao riacho e encheu seu jarro. Quando voltava, viu o corredor adormecido.
– Hoje é meu dia – ela disse, contente, e esvaziou o jarro dele. E tudo estaria perdido se o
caçador não estivesse encarapitado na muralha do castelo, vendo tudo.
– Não podemos deixar que a filha do rei nos passe a perna – ele disse e carregou o rifle.
Mirou com tanta precisão que acertou o crânio do cavalo. O corredor acordou, ficou em pé,
viu seu jarro vazio e a filha do rei já bem distante. Mas ele não desanimou. Correu até o
riacho, encheu de novo o jarro e chegou dez minutos antes da moça.
– Veja bem – ele revelou –, esta foi a primeira vez que corri de verdade.
O rei e sua filha ficaram aborrecidos por ela ter sido vencida por um simples soldado
demitido. E confabularam uma maneira de se livrar do soldado e de seus companheiros de
uma só vez.
– Eu tenho um plano – disse o rei. – Vamos nos livrar deles para sempre. – Ele se
aproximou dos homens e disse-lhes que eles deveriam festejar, comer e beber. E levou-os
para uma sala com piso de ferro, portas de ferro e janelas com barras de ferro. Lá dentro
havia uma mesa cheia de comidas caras.
– Fiquem à vontade – sugeriu o rei.
E quando todos entraram, ele os trancou. Então o rei chamou o cozinheiro e ordenou-lhe
que acendesse uma grande fogueira debaixo da sala, de modo que o piso ficasse em brasa.
Assim fez o cozinheiro. Os homens começaram a sentir a sala ficar cada vez mais quente,
mas acharam que era por causa da boa comida. No entanto, quando o calor aumentou
ainda mais e eles descobriram que portas e janelas estavam trancadas, começaram a
suspeitar de um plano maligno do rei para sufocá-los.
– Ele não vencerá – disse o homem de chapéu. – Vou trazer tanto frio que o fogo sentirá
vergonha.
Ele ajeitou o chapéu na cabeça, deixando-o reto, e logo surgiu um frio que afugentou o
calor e congelou a comida. Depois de uma ou duas horas, pensando que estivessem todos

mortos, o rei abriu a porta. Encontrou-os muito bem dispostos. Eles lhe disseram que
estavam prontos para sair e se aquecer, pois o frio fizera a comida congelar nos pratos.
Furioso, o rei foi até o cozinheiro perguntar por que ele não tinha cumprido suas ordens.
– A sala está quente, sim – respondeu o cozinheiro. – Veja por si mesmo.
Então o rei viu uma imensa fogueira acesa debaixo da sala de ferro e começou a achar
que não conseguiria se livrar dos seis daquela maneira. Pensando em um novo plano,
dirigiu-se ao líder:
– Se você abrir mão do direito de casar com minha filha, pode levar quanto ouro quiser.
– Certamente, meu senhor – o líder respondeu. – Levarei tanto ouro quanto meu criado
conseguir carregar, e desistirei de sua filha.
O rei concordou e disse-lhe que voltasse dali a duas semanas para pegar o ouro. Em
seguida o rei chamou todos os alfaiates da corte e ordenou-lhes que fizessem um saco. A
tarefa demorou duas semanas. Quando o saco ficou pronto, o homem que arrancara árvores
pela raiz o pegou e foi até o rei.
– Quem é esse grandalhão que carrega um fardo grande como uma casa? – o rei gritou,
aterrorizado ao pensar em todo o ouro que ele poderia carregar. Uma tonelada de ouro foi
trazida por dezesseis homens, mas o grandalhão pôs tudo no saco com uma só mão e disse:
– Por que não trazem mais? Isto aqui não cobre nem o fundo do saco.
Então, pouco a pouco, o rei ordenou que trouxessem todo o seu tesouro, mas nem assim o
saco ficou cheio.
– Tragam mais! – o homem berrou. – Isto aqui não dá para nada.
Finalmente, chegaram sete mil carroças carregadas com o ouro recolhido em todo o reino,
e o grandalhão colocou-as todas no saco, com bois e tudo.
– Não vou ficar inspecionando. Levarei o que puder, desde que o saco fique cheio – ele
disse. Mas quando tudo foi colocado lá dentro, ainda sobrou muito espaço. – Vou dar um
fim nisto – ele continuou. – Já que o saco não está cheio, fica mais fácil amarrá-lo.
O homem jogou o saco sobre as costas e foi encontrar os companheiros. Quando o rei viu
toda a sua fortuna carregada por único homem, encheu-se de raiva. Ordenou que a
cavalaria alcançasse os seis companheiros e trouxessem o saco de volta.
Dois regimentos logo os alcançaram e lhes deram voz de prisão. Eles deveriam devolver o
saco se não quisessem ser esquartejados.
– Somos prisioneiros? – perguntou o homem que soprava com o nariz. – Antes, porém,
vocês vão dançar um pouco.
Tampando uma narina e soprando o ar com a outra, o homem mandou os dois
regimentos pelos ares, para bem longe. Mas um sargento que tinha nove ferimentos e era
muito corajoso implorou que não lhe causassem aquela vergonha. Então o outro diminuiu
um pouco a força do sopro até o sargento pousar no chão em segurança.
– Vá até seu rei e diga-lhe que todos os regimentos que ele mandar irão pelos ares.
Quando recebeu a mensagem, o rei disse:
– Vamos deixá-los ir. Eles têm um pouco de razão.
E assim os seis companheiros levaram embora o seu tesouro e viveram felizes até morrer.

João e Maria

JOÃO E MARIA

Perto de uma grande floresta viviam um lenhador pobre, sua esposa e seus dois filhos. O
menino se chamava João e a menina se chamava Maria. Eles sempre tiveram muito pouco
para comer, mas, certa vez, quando houve uma grande fome na terra, o homem já não
conseguia sequer ganhar o pão de cada dia. Uma noite, enquanto se revirava na cama
pensando sobre o assunto, ele suspirou profundamente e disse à esposa:
– O que será de nós? Não conseguimos nem alimentar nossos filhos. Não sobrou nada para
nós.
– Eu lhe digo o que faremos, marido – a mulher respondeu. – Levaremos as crianças para
a floresta amanhã bem cedo, no lugar onde o mato é mais espesso. Faremos uma fogueira e
daremos um pedaço de pão a cada um. Então iremos para o nosso trabalho e os deixaremos
lá. Eles jamais encontrarão o caminho de volta, e assim nos livraremos deles.
– Não, mulher! – o homem exclamou. – Não posso fazer isso. Não consigo nem imaginar a
ideia de levar meus filhos à floresta e deixá-los lá sozinhos. Logo eles seriam devorados pelas
feras.
– Você é um tolo – ela protestou. – Vamos todos morrer de fome. É melhor providenciar já
os caixões. – E não lhe deu sossego até que ele concordasse com o plano.
– Mas tenho muita pena das crianças – disse o homem.
Como estavam famintos, os dois irmãos não conseguiam dormir e acabaram ouvindo tudo
o que a madrasta dissera ao seu pai.
Maria chorou de tristeza e disse a João:
– É o nosso fim.
– Fique calma, Maria. Eu vou dar um jeito nisso.
Quando os pais adormeceram, João se levantou, vestiu seu casaquinho, abriu a porta dos
fundos e esgueirou-se para fora. A lua brilhava no céu, e as pedrinhas brancas em frente da
casa cintilavam como moedas de prata. João recolheu-as e encheu o bolso com elas. Então
entrou em casa e disse a Maria:
– Sossega, irmãzinha, e durma tranquila, pois Deus não nos abandonará – e voltou a
deitar-se.
Nas primeiras horas da manhã, antes de o sol nascer, a mulher acordou as duas crianças.
– Acordem, preguiçosos. Vamos para a floresta cortar lenha – ela ordenou.
E então deu a cada um um pedaço de pão.
– É para o jantar – disse-lhes. – Não comam antes, porque não temos mais.
Maria colocou os pães debaixo do avental, pois João levava os bolsos cheios de pedrinha.
Partiram todos juntos para a floresta. Quando haviam caminhado um tanto, João parou e
virou-se na direção da casa. Fez isso várias vezes.
Por fim, seu pai lhe perguntou:

– João, para o que você está olhando? Ande para a frente, menino.
– Mas, pai – João disse –, estou olhando para o meu gatinho, que está no telhado para me
dizer adeus.
– Não seja bobo – a mulher o repreendeu. – Aquilo não é o gato, mas o sol batendo na
chaminé.
É claro que João não estava olhando para o gatinho. Na verdade, ia tirando as pedrinhas
do bolso e jogando-as pelo caminho.
Quando chegaram ao meio da floresta, o pai pediu aos filhos que fossem pegar madeira
para acender uma fogueira e se aquecer. João e Maria fizeram um pequeno monte com
galhos e acenderam o fogo.
E então a mulher ordenou:
– Agora deitem-se ao lado da fogueira e descansem, crianças. Eu e seu pai vamos cortar
lenha. Quando terminarmos, viremos buscá-los.
João e Maria sentaram-se ao lado do fogo e, ao meio-dia, comeram seus pedaços de pão.
Eles achavam que o pai ficara na floresta o tempo todo, pois pensavam ouvir o barulho do
machado, mas na verdade o ruído vinha de um galho pendurado em uma árvore ressecada,
que o vento fazia balançar para lá e para cá. Depois de um tempo longo, seus olhos se
fecharam de cansaço e eles adormeceram. Quando acordaram, já era noite. Maria começou
a chorar:
– Como vamos sair desta floresta?
Mas João a confortou:
– Espere um pouco mais, até a lua surgir. Então encontraremos facilmente o caminho de
casa.
Quando a lua cheia se levantou no céu, João pegou a irmãzinha pela mão e os dois
seguiram a trilha de pedrinhas brancas que brilhavam ao luar e iluminavam o caminho de
casa. Passaram a noite inteira andando. Ao raiar do dia, chegaram à casa do pai e bateram
na porta. A madrasta atendeu. Quando ela viu João e Maria, disse:
– Mas que crianças levadas! Por que ficaram tanto tempo dormindo na floresta?
Pensamos que vocês não mais voltariam.
O pai ficou feliz, pois estava com o coração doendo por tê-los deixado sozinhos na floresta.
Não tardou muito para que outra fase de escassez voltasse, e as crianças ouviram a madrasta
dizer ao pai, à noite, na cama:
– Acabou a comida. Temos apenas meio pão. Chega. As crianças devem ir embora. Dessa
vez vamos penetrar ainda mais na floresta, para que não consigam achar o caminho de
volta. Essa é a nossa única opção.
O homem ficou triste.
– Seria melhor dividirmos o último bocado com eles – respondeu ele.
Sua mulher, porém, não queria saber e o repreendeu. Quando um homem cede uma vez,
acaba cedendo de novo.
As crianças não estavam dormindo e ouviram toda a conversa. Quando os pais
adormeceram, João se levantou para recolher mais pedrinhas brancas do que na primeira
vez, mas a madrasta tinha trancado a porta e ele não conseguiu sair. João consolou a
irmãzinha, dizendo:
– Não chore, Maria. Vá dormir que Deus vai nos ajudar.
Na manhã seguinte, a mulher tirou as crianças da cama bem cedo. Ela deu um pedaço
de pão para cada um deles; menos do que antes. A caminho da floresta, João esmigalhou o
pão e guardo-o no bolso. De tempos em tempos ele parava para jogar no chão uma migalha.

– João, por que você fica aí parado? – perguntou o pai.
– Estou olhando a pombinha sentada no telhado – João respondeu.
– Que bobo! – a mulher protestou. – Não é a pomba, mas o sol da manhã batendo na
chaminé.
João continuou andando e espalhando migalhas de pão pela estrada afora. A mulher
levou as crianças até o coração da floresta, onde nunca eles haviam estado. Mais uma vez
fizeram uma fogueira e a madrasta disse:
– Sentem-se crianças. Quando se cansarem, podem dormir. Nós vamos cortar lenha e à
noite viremos buscá-los.
Ao meio-dia Maria dividiu com João seu pedaço de pão, uma vez que o outro fora
espalhado ao longo do caminho. Então eles dormiram e a tarde passou. Ninguém foi buscar
os pobrezinhos. Quando eles acordaram, já era noite. João consolou a irmãzinha, dizendo:
– Espere um pouco Maria, só até a lua aparecer. Então conseguiremos ver as migalhas de
pão que deixei pelo caminho.
Quando a lua surgiu no céu, eles se levantaram, mas não acharam nenhuma migalha de
pão, pois os pássaros haviam comido todas elas. João pensou que ainda assim eles achariam o
caminho de volta, mas isso não aconteceu. Os irmãos caminharam toda a noite e todo o dia
seguinte, mas não conseguiram sair da floresta. Eles estavam famintos, pois a única coisa
que tinham para comer eram algumas frutinhas silvestres. Quando se sentiram cansados a
ponto de não conseguir dar mais nem um passo, deitaram-se embaixo de uma árvore e
adormeceram.
Aquela era a terceira manhã desde que haviam deixado a casa do pai. Estavam tentando
voltar para lá, mas afundavam cada vez mais na floresta. Se não encontrassem socorro
rapidamente, morreriam de fome.
Perto do meio-dia, João e Maria avistaram um lindo passarinho branco empoleirado em
um galho. O bichinho entoava uma melodia tão doce que eles pararam para escutar. Assim
que terminou de cantar, a ave abriu as asas e voejou na frente das crianças, que a seguiram
até uma casinha. Quando João e Maria se aproximaram, perceberam que as paredes da casa
eram feitas de pão, que o telhado era feito de bolos e que as janelas eram de açúcar
transparente.
– Vamos provar – disse João – e fazer uma ótima refeição. Eu vou comer um pedaço do
telhado, Maria, e você pode comer a janela, que deve ser bem doce.
E assim João esticou a mão e quebrou um pedacinho do telhado, para ver que gosto tinha.
Maria aproximou-se da janela e deu-lhe uma dentada. De repente, porém, eles ouviram
uma voz fina vindo de dentro da casa:
Ora, ora, ora.
Quem rói minha casinha a esta hora?
E os irmãos responderam:
Não duvide por um momento
que foi apenas o vento.
E continuaram comendo. João, que tinha gostado muito do sabor do telhado, pegou um
pedaço maior, e Maria arrancou uma fatia grande da janela, sentando-se para comê-la.
Nesse momento a porta se abriu e uma velha saiu de lá de dentro apoiada em uma bengala.

João e Maria ficaram assustados e derrubaram a comida no chão. A velha, porém, sacudiu a
cabeça, dizendo:
– Ah, crianças, como vão vocês? Entrem e me façam companhia. Está tudo bem.
A velha pegou as crianças pela mão e levou-as para dentro da casa. Serviu-lhes leite e
panquecas com açúcar, maçã e castanhas. A seguir, mostrou-lhes duas camas. João e Maria
se deitaram, achando que estavam no céu.
Embora parecesse boa, a velha era na verdade uma bruxa má que vivia à espera de
crianças e havia construído aquela casa com o objetivo de atraí-las. Assim que as crianças
entravam, ela as matava, cozinhava e comia. Os olhos da bruxa eram vermelhos e ela não
enxergava muito bem, mas tinha um olfato excelente e sabia muito bem quando havia seres
humanos por perto. Quando percebeu que João e Maria estavam se aproximando, soltou
uma gargalhada e disse, triunfante:
– Eu os peguei. Eles não vão escapar.
Na manhã do dia seguinte, antes que as crianças acordassem, ela foi vê-los. Os irmãos
dormiam tranquilamente e tinham as bochechas rosadas.
– Que banquete eu vou ter! – a bruxa exclamou.

Ela agarrou João com sua mão ressecada e levou-o para um pequeno estábulo, trancando-
o atrás de uma grade. Não adiantou o menino gritar. Então ela voltou para a casa e começou

a sacudir Maria, gritando:
– Acorde, preguiçosa. Vá pegar água e cozinhe alguma coisa gostosa para o seu irmão. Ele
está lá fora no estábulo e precisa engordar. E quando ele estiver bem gordinho vou comê-lo.
Maria pôs-se a chorar, mas não adiantou nada. Teve de fazer o que lhe ordenara a bruxa
má.
E foi assim que a melhor comida foi servida para João. Para Maria sobraram apenas cascas
de caranguejos. Todas as manhãs a bruxa ia ao estábulo e gritava:
– João, ponha o dedo para fora para eu ver se você já engordou.
João, no entanto, mostrava-lhe um ossinho, e, como a velha enxergava mal, achava que o
menino continuava magro. Ela não entendia por quê. Depois de quatro semanas, perdeu a
paciência.
– Maria, vá logo pegar água – ela gritou para a menina. Esteja gordo ou esteja magro,
amanhã vou matá-lo e comê-lo.
Oh, que agonia para a pobre Maria ter de pegar água para cozinhar o próprio irmão!
Lágrimas rolaram por seu rosto.
– Por favor, meu bom Deus, ajude-nos. Se tivéssemos sido devorados pelas feras da
floresta, pelo menos teríamos morrido juntos.
– Deixe de lamentações – protestou a velha. – Elas não servem para nada.
Na manhã seguinte, Maria teve de se levantar bem cedo, acender o fogo e encher a
chaleira.
– Primeiro vamos fazer o assado – a velha disse. – Já aqueci o forno e sovei a massa.
Ela empurrou Maria na direção do forno, onde as chamas brilhavam.
– Entre – ordenou a bruxa – e veja se está bem quente para assar o pão.
Assim que Maria entrasse no forno, a bruxa pretendia fechá-la lá dentro para assá-la e
comê-la também, mas Maria percebeu suas intenções e disse:
– Eu não sei fazer isso. Como é que se entra no forno?
– Garota burra – a velha respondeu. – A abertura é bem grande, não está vendo? Até eu
consigo entrar. – E a velha esticou o tronco e pôs a cabeça na boca do forno. Então Maria
deu-lhe um empurrão, enfiou-a lá dentro e trancou a porta. A velha urrou! Mas Maria saiu

correndo e deixou a bruxa má assando. Foi direto até onde estava João e soltou-o.
– João, estamos livres. A bruxa velha está morta.
Tão logo a porta se abriu, João saiu de sua prisão. Como os dois estavam felizes! Eles se
abraçaram e começaram a dançar. E como não havia nada mais a temer, vasculharam a
casa da bruxa. Encontraram caixas de joias com pérolas e pedras preciosas por todos os
cantos.
– Isto é muito melhor do que pedrinhas brancas – João constatou, enchendo os bolsos,
enquanto Maria, pensando que também deveria levar algumas para casa, começou e encher
o avental.
– Agora vamos tentar sair da floresta da bruxa – propôs João.
Depois de algumas horas de caminhada, surgiu um rio imenso.
– Não vamos conseguir atravessar – João disse. – Não estou vendo pedras nem ponte.
– Não há nenhum barco também – Maria acrescentou. – Mas veja ali um pato branco! Se
eu pedir, ele vai nos ajudar. Maria gritou:
Pato, pato, aqui estamos,
João e Maria, na margem do rio.
Não temos pedras nem ponte,
leve-nos em seu dorso branco.
O pato se aproximou. João montou nele e chamou a irmã.
– Não – Maria disse. É peso demais para o pato. Vamos separados, um depois do outro.
E assim eles se arranjaram e cruzaram o rio. Depois de um tempo a paisagem começou a
lhes parecer familiar. De repente, avistaram a casa do pai a distância. Os dois irmãos
correram até lá, entraram esbaforidos e se agarraram ao pescoço do pai. O homem não tivera
um minuto de sossego desde que deixara os filhos na floresta; a mulher tinha morrido.
Maria abriu seu avental, espalhando as pérolas e as pedras preciosas pelo chão. E João
pegou outro punhado delas no bolso. Assim tudo ficou resolvido, e ao final eles viveram
juntos e felizes.

Milagre de Natal

O bairro do Andaraí é muito triste e muito úmido. As montanhas que enfeitam a nossa cidade, aí tomam maior altura e ainda conservam a densa vegetação que as devia adornar com mais força em tempos idos. O tom plúmbeo das árvores como que enegrece o horizonte e torna triste o arrabalde.

Nas vertentes dessas mesmas montanhas, quando dão para o mar, este
quebra a monotonia dó quadro e o sol se espadana mais livremente, obtendo as cousas humanas, minúsculas e mesquinhas, uma garridice e uma alegria que não estão nelas, mas que sê percebem nelas. As tacanhas casas de Botafogo se nos afigura assim; as bombásticas “vilas” de Copacabana, também; mas, no Andaraí, tudo fica esmagado pela alta montanha e sua sombria vegetação.

Era numa rua desse bairro que morava Feliciano Campossolo Nunes, chefe
de seção do Tesouro Nacional, ou antes e melhor: subdiretor. A casa era própria e tinha na cimalha este dístico pretensioso: “Vila Sebastiana”. O gosto da fachada, as proporções da casa não precisam ser descritas: todos conhecem um e as outras.

Na frente, havia um jardinzinho que se estendia para a esquerda, oitenta centímetros a um metro, além da fachada. Era o vão que correspondia à varanda lateral, quase a correr todo o prédio. Campossolo era um homem grave, ventrudo, calvo, de mãos polpudas e dedos curtos. Não largava a pasta de marroquim em que trazia para a casa os papéis da repartição com o fito de não lê-los; e também o guarda-chuva de castão de ouro e forro de seda. Pesado e de pernas curtas, era com grande dificuldade que ele vencia os dous degraus dos “Minas Gerais” da Light, atrapalhado com semelhantes cangalhas: a pasta e o guarda chuva de ” ouro”.

Usava chapéu de coco e cavanhaque.
Morava ali com sua mulher mais a filha solteira e única, a Mariazinha.
A mulher, Dona Sebastiana, que batizara a vila e com cujo dinheiro a fizeram, era mais alta do que ele e não tinha nenhum relevo de fisionomia, senão um
artificial, um aposto. Consistia num pequeno pince-nez de aros de ouro, preso, por detrás da orelha, com trancelim de seda. Não nascera com ele, mas era como se tivesse nascido, pois jamais alguém havia visto Dona Sebastiana sem aquele
adendo, acavalado no nariz. fosse de dia, fosse de noite. Ela, quando queria olhar alguém ou alguma cousa com jeito e perfeição, erguia bem a cabeça e toda Dona Sebastiana tomava um entono de magistrado severo.

Era baiana, como o marido, e a Única queixa que tinha do Rio cifrava-se em
não haver aqui bons temperos para as moquecas, carurus e outras comidas da Bahia, que ela sabia preparar com perfeição, auxiliada pela preta Inácia, que, com eles. viera do Salvador, quando o marido foi transferido para São Sebastião. Se oferecia portador, mandava-os buscar; e. quando, aqui chegavam e ela preparava uma boa moqueca, esquecia-se de tudo, até que estará muito longe da sua querida cidade de Tomé de Sousa.

Sua filha, a Mariazinha, não era assim e até se esquecera que por lá nascera:
cariocara-se inteiramente. Era uma moça de vinte anos, fina de talhe, poucas carnes, mais alta que o pai, entestando com a mãe, bonita e vulgar. O seu traço de beleza eram os seus olhos de topázio com estilhas negras. Nela, não havia neminvento, nem novidade como — as outras.

Eram estes os habitantes da “Vila Sebastiana” , além de um molecote que
nunca era o mesmo. De dous em dous meses, por isso ou por aquilo, era substituído por outro, mais claro ou mais escuro, conforme a sorte calhava.
Em certos domingos, o Senhor Campossolo convidava alguns dos seus
subordinados a irem almoçar ou jantar com eles. Não era um qualquer. Ele os escolhia com acerto e sabedoria.

Tinha uma filha solteira e não podia pôr dentro de casa um qualquer, mesmo que fosse empregado de fazenda.
Aos que mais constantemente convidava, eram os terceiros escriturários
Fortunato Guaicuru e Simplício Fontes, os seus braços direitos na seção. Aquele era bacharel em Direito e espécie de seu secretário e consultor em assuntos difíceis; e o último chefe do protocolo da sua seção, cargo de extrema responsabilidade, para que não houvesse extravio de processos e se acoimasse a sua subdiretoria de relaxada e desidiosa. Eram eles dous os seus mais constantes comensais, nos seus bons domingos de efusões familiares. Demais, ele tinha uma filha a casar e era bom que…

Os senhores devem ter verificado que os pais sempre procuram casar as
filhas na classe que pertencem: os negociantes com negociantes ou caixeiros; os militares com outros militares; os médicos com outros médicos e assim por diante.

Não é de estranhar, portanto, que o chefe Campossolo quisesse casar sua filha com um funcionário público que fosse da sua repartição e até da sua própria seção.

Guaicuru era de Mato Grosso. Tinha um tipo acentuadamente índio. Malares salientes, face curta, mento largo e duro, bigodes de cerdas de javali, testa fugidia e as pernas um tanto arqueadas. Nomeado para a alfândega de Corumbá, transferira-se para a delegacia fiscal de Goiás. Aí, passou três ou quatro anos, formando-se, na
respectiva faculdade de Direito, porque não há cidade do Brasil, capital ou não, em que não haja uma. Obtido o título, passou-se para a Casa da Moeda e, desta repartição, para o Tesouro. Nunca se esquecia de trazer o anel de rubi, à mostra.

Era um rapaz forte, de ombros largos e direitos; ao contrário de Simplício que era franzino, peito pouco saliente, pálido, com uns doces e grandes olhos negros e de uma timidez de donzela.
Era carioca e obtivera o seu lugar direitinho, quase sem pistolão e sem
nenhuma intromissão de políticos na sua nomeação.
Mais ilustrado, não direi; mas muito mais instruído que Guaicuru, a audácia
deste o superava, não no coração de Mariazinha, mas no interesse que tinha a mãe desta no casamento da filha. Na mesa, todas as atenções tinha Dona Sebastiana pelo hipotético bacharel:
— Porque não advoga? perguntou Dona Sebastiana, rindo, com seu
quádruplo olhar altaneiro, da filha ao caboclo que, na sua frente e a seu mando, se sentavam juntos.

— Minha senhora, não tenho tempo…
— Como não tem tempo? O Felicianinho consentiria – não é Felicianinho?
Campossolo fazia solenemente :
— Como não, estou sempre disposto a auxiliar a progressividade dos
colegas.

Simplício, à esquerda de Dona Sebastiana, olhava distraído para a fruteira e
nada dizia. Guaicuru, que não queria dizer que a verdadeira . razão estava em não ser a tal faculdade “reconhecida”, negaceava:
— Os colegas podiam reclamar.
Dona Sebastiana acudia com vivacidade :
— Qual o que . O senhor reclamava, Senhor Simplício?
Ao ouvir o seu nome, o pobre rapaz tirava os olhos da fruteira e perguntava
com espanto:
— O que, Dona Sebastiana ?
— O senhor reclamaria se Felicianinho consentisse que o Guaicuru saísse,
para ir advogar?
— Não.
E voltava a olhar a fruteira, encontrando-se rapidamente com os olhos de
topázio de Mariazinha. Campossolo continuava a comer e Dona Sebastiana insistia:
— Eu, se fosse o senhor ia advogar.
— Não posso. Não é só a repartição que me toma o tempo. Trabalho em um
livro de grandes proporções.

Todos se espantaram. Mariazinha olhou Guaicuru; Dona Sebastiana levantou mais a cabeça com pince-nez e tudo; Simplício que, agora, contemplava esse quadro célebre nas salas burguesas, representando uma ave, dependurada pelas pernas e faz pendante com a ceia do Senhor – Simplício, dizia, cravou resolutamente o olhar sobre o colega, e Campossolo perguntou:
— Sobre o que trata?
— Direito administrativo brasileiro.
Campossolo observou:
— Deve ser uma obra de peso.
— Espero.
Simplício continuava espantado, quase estúpido a olhar Guaicuru.
Percebendo isto, o mato-grossense apressou-se:
— Você vai ver o plano. Quer ouvi-lo ?
Todos, menos Mariazinha, responderam, quase a um tempo só:
— Quero.

O bacharel de Goiás endireitou o busto curto na cadeira e começou:

— Vou entroncar o nosso Direito administrativo no antigo Direito
administrativo português. Há muita gente que pensa que no antigo regímen não havia um Direito administrativo. Havia. Vou estudar o mecanismo do Estado nessa época, no que toca a Portugal. V ou ver as funções dos ministros e dos seus subordinados, por intermédio de letra-morta dos alvarás, portarias, cartas régias e mostrarei então como a engrenagem do Estado funcionava; depois, verei como esse curioso Direito público se transformou, ao influxo de concepções liberais; e, como ele transportado para aqui com Dom João VI, se adaptou ao nosso meio, modificandose aqui ainda, sob o influxo das idéias da Revolução.
Simplício, ouvindo-o falar assim dizia com os seus botões: “Quem teria
ensinado isto a ele?”
Guaicuru, porém, continuava:
— Não será uma seca enumeração de datas e de transcrição de alvarás,
portarias, etc. Será uma cousa inédita. Será cousa viva.
Por aí, parou e Campossolo com toda a gravidade disse:
— V ai ser uma obra de peso.
— Já tenho editor!
— Quem é? perguntou o Simplício.
— É o Jacinto. Você sabe que vou lá todo o dia, procurar livros a respeito.
— Sei; é a livraria dos advogados, disse Simplício sem querer sorrir.
— Quando pretende publicar a sua obra, doutor? perguntou Dona Sebastiana.
— Queria publicar antes do Natal. porque as promoções serão feitas antes do
Natal, mas…
— Então há mesmo promoções antes do Natal, Felicianinho ?
O marido respondeu:
— Creio que sim. O gabinete já pediu as propostas e eu já dei as minhas ao
diretor.
— Devias ter-me dito, ralhou-lhe a mulher.
— Essas cousas não se dizem às nossas mulheres; são segredos de Estado,
sentenciou Campossolo.
O jantar foi. acabando triste, com essa história de promoções para o Natal.
Dona Sebastiana quis ainda animar a conversa, dirigindo-se ao marido:
— Não queria que me dissesses os nomes, mas pode acontecer que seja o
promovido o doutor Fortunato ou… O “Seu” Simplício, e eu estaria prevenida para a uma “festinha”.

Foi pior. A tristeza tornou-se mais densa e quase calados tomaram café.
Levantaram-se todos com o semblante anuviado, exceto a boa Mariazinha,
que procurava dar corda à conversa. Na sala de visitas, Simplício ainda pôde olhar mais duas vezes furtivamente os olhos topazinos de Mariazinha, que tinha um sossegado sorriso a banhar-lhe a face toda; e se foi. O colega Fortunato ficou, mas tudo estava tão morno e triste que, em breve, se foi também Guaicuru.

No bonde, Simplício pensava unicamente em duas cousas: no Natal próximo
e no “Direito” de Guaicuru. Quando pensava nesta .’ perguntava de si para si: “Quem lhe ensinou aquilo tudo? Guaicuru é absolutamente ignorante” Quando pensava naquilo, implorava: “Ah! Se Nosso Senhor Jesus Cristo quisesse…”
Vieram afinal as promoções. Simplício foi promovido porque era muito mais
antigo na classe que Guaicuru. O Ministro não atendera a pistolões nem a títulos de Goiás.
Ninguém foi preterido; mas Guaicuru que tinha em gestação a obra de um
outro, ficou furioso sem nada dizer.
Dona Sebastiana deu uma consoada à moda do Norte. Na hora da ceia,
Guaicuru, como de hábito, ia sentar-se ao lado de Mariazinha, quando Dona
Sebastiana, com pince-nez e cabeça, tudo muito bem erguido, chamou-o:
— Sente-se aqui a meu lado, doutor, aí vai sentar-se o “Seu” Simplício.
Casaram-se dentro de um ano; e, até hoje, depois de um lustro de casados
ainda teimam.
Ele diz:
— Foi Nosso Senhor Jesus Cristo que nos casou.
Ela obtempera:
— Foi a promoção.
Fosse uma cousa ou outra, ou ambas, o certo é que se casaram. É um fato. A
obra de Guaicuru, porém, é que até hoje não saiu…

Careta, Rio, 24-12-1921.

Fim