A cartomante

A SEGUNDA VIDA
Monsenhor Caldas interrompeu a narração do desconhecido:
— Dá licença? é só um instante. Levantou-se, foi ao interior da casa, chamou o preto velho que o servia, e disse-lhe em voz baixa:
— João, vai ali à estação de urbanos, fala da minha parte ao comandante, e pede-lhe que venha cá com um ou dois homens, para livrar-me de um sujeito doido. Anda, vai depressa.
E, voltando à sala:
— Pronto, disse ele; podemos continuar.
— Como ia dizendo a Vossa Reverendíssima, morri no dia vinte de março de 1860, às cinco horas e quarenta e três minutos da manhã. Tinha então sessenta e oito anos de idade. Minha alma voou pelo espaço, até perder a terra de vista, deixando muito abaixo a lua, as estrelas e o sol; penetrou finalmente num espaço em que não havia mais nada, e era clareado tão-somente por uma luz difusa. Continuei a subir, e comecei a ver um pontinho mais luminoso ao longe, muito longe. O ponto cresceu, fez-se sol. Fui por ali dentro, sem arder, porque as almas são incombustíveis. A sua pegou fogo alguma vez?
— Não, senhor.
— São incombustíveis. Fui subindo, subindo; na distância de quarenta mil léguas, ouvi uma deliciosa música, e logo que cheguei a cinco mil léguas, desceu um enxame de almas, que me levaram num palanquim feito de éter e plumas. Entrei daí a pouco no novo sol, que é o planeta dos virtuosos da terra. Não sou poeta, monsenhor; não ouso descreverlhe as magnificências daquela estância divina. Poeta que fosse, não poderia, usando a
linguagem humana, transmitir-lhe a emoção da grandeza, do deslumbramento, da felicidade, os êxtases, as melodias, os arrojos de luz e cores, uma coisa indefinível e incompreensível. Só vendo. Lá dentro é que soube que completava mais um milheiro de almas; tal era o motivo das festas extraordinárias que me fizeram, e que duraram dois séculos, ou, pelas nossas contas, quarenta e oito horas. Afinal, concluídas as festas, convidaram-me a tornar à terra para cumprir uma vida nova; era o privilégio de cada alma que completava um milheiro. Respondi agradecendo e recusando, mas não havia recusar.
Era uma lei eterna. A única liberdade que me deram foi a escolha do veículo; podia nascer príncipe ou condutor de ônibus. Que fazer? Que faria Vossa Reverendíssima no meu lugar?
— Não posso saber; depende…
— Tem razão; depende das circunstâncias. Mas imagine que as minhas eram tais que não me davam gosto a tornar cá. Fui vítima da inexperiência, monsenhor, tive uma velhice ruim, por essa razão. Então lembrou-me que sempre ouvira dizer a meu pai e outras pessoas mais velhas, quando viam algum rapaz: — “Quem me dera aquela idade, sabendo o que sei hoje!” Lembrou-me isto, e declarei que me era indiferente nascer mendigo ou potentado, com a condição de nascer experiente. Não imagina o riso universal com que me ouviram. Jó, que ali preside a província dos pacientes, disse-me que um tal desejo era disparate; mas eu teimei e venci. Daí a pouco escorreguei no espaço: gastei nove meses a atravessá-lo até cair nos braços de uma ama de leite, e chamei-me José Maria. Vossa
Reverendíssima é Romualdo, não?
— Sim, senhor; Romualdo de Sousa Caldas.
— Será parente do padre Sousa Caldas?
— Não, senhor.
— Bom poeta o padre Caldas. Poesia é um dom; eu nunca pude compor uma décima. Mas, vamos ao que importa. Conto-lhe primeiro o que me sucedeu; depois lhe direi o que desejo de Vossa Reverendíssima. Entretanto, se me permitisse ir fumando…
Monsenhor Caldas fez um gesto de assentimento, sem perder de vista a bengala que José Maria conservava atravessada sobre as pernas. Este preparou vagarosamente um cigarro. Era um homem de trinta e poucos anos, pálido, com um olhar ora mole e apagado, ora inquieto e centelhante. Apareceu ali, tinha o padre acabado de almoçar, e pediu-lhe uma entrevista para negócio grave e urgente. Monsenhor fê-lo entrar e sentar-se; no fim de dez minutos, viu que estava com um lunático. Perdoava-lhe a incoerência das idéias ou o assombroso das invenções; pode ser até que lhe servissem de estudo. Mas o desconhecido teve um assomo de raiva, que meteu medo ao pacato clérigo. Que podiam fazer ele e o preto, ambos velhos, contra qualquer agressão de um homem forte e louco? Enquanto esperava o auxilio policial, monsenhor Caldas desfazia-se em sorrisos e assentimentos de cabeça, espantava-se com ele, alegrava-se com ele, política útil com os loucos, as mulheres e os potentados. José Maria acendeu finalmente o cigarro, e continuou:
— Renasci em cinco de janeiro de 1861. Não lhe digo nada da nova meninice, porque aí a experiência teve só uma forma instintiva. Mamava pouco; chorava o menos que podia para não apanhar pancada. Comecei a andar tarde, por medo de cair, e daí me ficou uma tal ou qual fraqueza nas pernas. Correr e rolar, trepar nas árvores, saltar paredões, trocar murros, coisas tão úteis, nada disso fiz, por medo de contusão e sangue. Para falar com franqueza, tive uma infância aborrecida, e a escola não o foi menos. Chamavam-me tolo e moleirão. Realmente, eu vivia fugindo de tudo. Creia que durante esse tempo não escorreguei, mas também não corria nunca. Palavra, foi um tempo de aborrecimento; e, comparando as cabeças quebradas de outro tempo com o tédio de hoje, antes as cabeças
quebradas. Cresci; fiz-me rapaz, entrei no período dos amores… Não se assuste; serei casto, como a primeira ceia. Vossa Reverendíssima sabe o que é uma ceia de rapazes e mulheres?
— Como quer que saiba?…
— Tinha dezenove anos, continuou José Maria, e não imagina o espanto dos meus amigos, quando me declarei pronto a ir a uma tal ceia… Ninguém esperava tal coisa de um rapaz tão cauteloso, que fugia de tudo, dos sonos atrasados, dos sonos excessivos, de andar sozinho a horas mortas, que vivia, por assim dizer, às apalpadelas. Fui à ceia; era no Jardim Botânico, obra esplêndida. Comidas, vinhos, luzes, flores, alegria dos rapazes, os olhos das damas, e, por cima de tudo, um apetite de vinte anos. Há de crer que não comi nada? A lembrança de três indigestões apanhadas quarenta anos antes, na primeira vida, fez-me recuar. Menti dizendo que estava indisposto. Uma das damas veio sentar-se à minha direita, para curar-me; outra levantou-se também, e veio para a minha esquerda, com o mesmo fim.
Você cura de um lado, eu curo do outro, disseram elas. Eram lépidas, frescas, astuciosas, e tinham fama de devorar o coração e a vida dos rapazes. Confesso-lhe que fiquei com medo e retraí-me. Elas fizeram tudo, tudo; mas em vão. Vim de lá de manhã, apaixonado por ambas, sem nenhuma delas, e caindo de fome. Que lhe parece? concluiu José Maria pondo as mãos nos joelhos, e arqueando os braços para fora.
— Com efeito…
— Não lhe digo mais nada; Vossa Reverendíssima adivinhará o resto. A minha segunda vida é assim uma mocidade expansiva e impetuosa, enfreada por uma experiência virtual e tradicional. Vivo como Eurico, atado ao próprio cadáver… Não, a comparação não é boa. Como lhe parece que vivo?
— Sou pouco imaginoso. Suponho que vive assim como um pássaro, batendo as asas e amarrado pelos pés…
— Justamente. Pouco imaginoso? Achou a fórmula; é isso mesmo. Um pássaro, um grande pássaro, batendo as asas, assim…
José Maria ergueu-se, agitando os braços, à maneira de asas. Ao erguer-se, caiu-lhe a bengala no chão; mas ele não deu por ela. Continuou a agitar os braços, em pé, defronte do padre, e a dizer que era isso mesmo, um pássaro, um grande pássaro… De cada vez que batia os braços nas coxas, levantava os calcanhares, dando ao corpo uma cadência de movimentos, e conservava os pés unidos, para mostrar que os tinha amarrados. Monsenhor aprovava de cabeça; ao mesmo tempo afiava as orelhas para ver se ouvia passos na escada.
Tudo silêncio. Só lhe chegavam os rumores de fora: — carros e carroças que desciam, quitandeiras apregoando legumes, e um piano da vizinhança. José Maria sentou-se finalmente, depois de apanhar a bengala, e continuou nestes termos:
— Um pássaro, um grande pássaro. Para ver quanto é feliz a comparação, basta a aventura que me traz aqui, um caso de consciência, uma paixão, uma mulher, uma viúva, D. Clemência. Tem vinte e seis anos, uns olhos que não acabam mais, não digo no tamanho, mas na expressão, e duas pinceladas de buço, que lhe completam a fisionomia. É filha de um professor jubilado. Os vestidos pretos ficam-lhe tão bem que eu às vezes digolhe rindo que ela não enviuvou senão para andar de luto. Caçoadas! Conhecemo-nos há um
ano, em casa de um fazendeiro de Cantagalo. Saímos namorados um do outro. Já sei o que me vai perguntar: por que é que não nos casamos, sendo ambos livres…
— Sim, senhor.
— Mas, homem de Deus! é essa justamente a matéria da minha aventura. Somos livres, gostamos um do outro, e não nos casamos: tal é a situação tenebrosa que venho expor a Vossa Reverendíssima, e que a sua teologia ou o que quer que seja, explicará, se puder. Voltamos para a Corte namorados. Clemência morava com o velho pai, e um irmão empregado no comércio; relacionei-me com ambos, e comecei a freqüentar a casa, em Matacavalos. Olhos, apertos de mão, palavras soltas, outras ligadas, uma frase, duas frases, e estávamos amados e confessados. Uma noite, no patamar da escada, trocamos o primeiro beijo… Perdoe estas coisas, monsenhor; faça de conta que me está ouvindo de confissão.
Nem eu lhe digo isto senão para acrescentar que saí dali tonto, desvairado, com a imagem de Clemência na cabeça e o sabor do beijo na boca. Errei cerca de duas horas, planeando uma vida única; determinei pedir-lhe a mão no fim da semana, e casar daí a um mês.
Cheguei às derradeiras minúcias, cheguei a redigir e ornar de cabeça as cartas de participação. Entrei em casa depois de meia-noite, e toda essa fantasmagoria voou, como as mutações à vista nas antigas peças de teatro. Veja se adivinha como.
— Não alcanço…
— Considerei, no momento de despir o colete, que o amor podia acabar depressa; tem-se visto algumas vezes. Ao descalçar as botas, lembrou-me coisa pior: — podia ficar o fastio. Concluí a toilette de dormir, acendi um cigarro, e, reclinado no canapé, pensei que o costume, a convivência, podia salvar tudo; mas, logo depois adverti que as duas índoles podiam ser incompatíveis; e que fazer com duas índoles incompatíveis e inseparáveis? Mas, enfim, dei de barato tudo isso, porque a paixão era grande, violenta; considerei-me casado, com uma linda criancinha… Uma? duas, seis, oito; podiam vir oito, podiam vir dez; algumas aleijadas. Também podia vir uma crise, duas crises, falta de dinheiro, penúria, doenças; podia vir alguma dessas afeições espúrias que perturbam a paz doméstica…
Considerei tudo e concluí que o melhor era não casar. O que não lhe posso contar é o meu desespero; faltam-me expressões para lhe pintar o que padeci nessa noite… Deixa-me fumar outro cigarro?
Não esperou resposta, fez o cigarro, e acendeu-o. Monsenhor não podia deixar de admirar-lhe a bela cabeça, no meio do desalinho próprio do estado; ao mesmo tempo notou que ele falava em termos polidos, e, que apesar dos rompantes mórbidos, tinha maneiras.
Quem diabo podia ser esse homem? José Maria continuou a história, dizendo que deixou de ir à casa de Clemência, durante seis dias, mas não resistiu às cartas e às lágrimas. No fim de uma semana correu para lá, e confessou-lhe tudo, tudo. Ela ouviu-o com muito interesse, e quis saber o que era preciso para acabar com tantas cismas, que prova de amor queria que ela lhe desse. — A resposta de José Maria foi uma pergunta.
— Está disposta a fazer-me um grande sacrifício? disse-lhe eu. Clemência jurou que sim. “Pois bem, rompa com tudo, família e sociedade; venha morar comigo; casamo-nos depois desse noviciado.” Compreendo que Vossa Reverendíssima arregale os olhos. Os dela encheram-se de lágrimas; mas, apesar de humilhada, aceitou tudo. Vamos; confesse que sou um monstro.
— Não, senhor…
— Como não? Sou um monstro. Clemência veio para minha casa, e não imagina as festas com que a recebi. “Deixo tudo, disse-me ela; você é para mim o universo.” Eu beijeilhe os pés, beijei-lhe os tacões dos sapatos. Não imagina o meu contentamento. No dia
seguinte, recebi uma carta tarjada de preto; era a notícia da morte de um tio meu, em Santana do Livramento, deixando-me vinte mil contos. Fiquei fulminado. “Entendo, disse a Clemência, você sacrificou tudo, porque tinha notícia da herança.” Desta vez, Clemência não chorou, pegou em si e saiu. Fui atrás dela, envergonhado, pedi-lhe perdão; ela resistiu.
Um dia, dois dias, três dias, foi tudo vão; Clemência não cedia nada, não falava sequer.
Então declarei-lhe que me mataria; comprei um revólver, fui ter com ela, e apresentei-lho: é este.
Monsenhor Caldas empalideceu. José Maria mostrou-lhe o revólver, durante alguns segundos, tornou a metê-lo na algibeira, e continuou:
— Cheguei a dar um tiro. Ela, assustada, desarmou-me e perdoou-me. Ajustamos precipitar o casamento, e, pela minha parte, impus uma condição: doar os vinte mil contos à Biblioteca Nacional. Clemência atirou-se-me aos braços, e aprovou-me com um beijo. Dei os vinte mil contos. Há de ter lido nos jornais… Três semanas depois casamo-nos. Vossa Reverendíssima respira como quem chegou ao fim. Qual! Agora é que chegamos ao trágico. O que posso fazer é abreviar umas particularidades e suprimir outras; restrinjo-me a Clemência. Não lhe falo de outras emoções truncadas, que são todas as minhas, abortos de prazer, planos que se esgarçam no ar, nem das ilusões de saia rota, nem do tal pássaro…
plás… plás… plás…
E, de um salto, José Maria ficou outra vez de pé, agitando os braços, e dando ao corpo uma cadência. Monsenhor Caldas começou a suar frio. No fim de alguns segundos, José Maria parou, sentou-se, e reatou a narração, agora mais difusa, mais derramada, evidentemente mais delirante. Contava os sustos em que vivia, desgostos e desconfianças.
Não podia comer um figo às dentadas, como outrora; o receio do bicho diminuía-lhe o sabor. Não cria nas caras alegres da gente que ia pela rua: preocupações, desejos, ódios, tristezas, outras coisas, iam dissimuladas por umas três quartas partes delas. Vivia a temer um filho cego ou surdo-mudo, ou tuberculoso, ou assassino, etc. Não conseguia dar um jantar que não ficasse triste logo depois da sopa, pela idéia de que uma palavra sua, um gesto da mulher, qualquer falta de serviço podia sugerir o epigrama digestivo, na rua, debaixo de um lampião. A experiência dera-lhe o terror de ser empulhado. Confessava ao padre que, realmente, não tinha até agora lucrado nada; ao contrário, perdera até, porque fora levado ao sangue… Ia contar-lhe o caso do sangue. Na véspera, deitara-se cedo, e sonhou… Com quem pensava o padre que ele sonhou?
— Não atino…
— Sonhei que o Diabo lia-me o Evangelho. Chegando ao ponto em que Jesus fala dos lírios do campo, o Diabo colheu alguns e deu-mos. “Toma, disse-me ele; são os lírios da Escritura; segundo ouviste, nem Salomão em toda a pompa, pode ombrear com eles.
Salomão é a sapiência. E sabes o que são estes lírios, José? São os teus vinte anos.” Fitei-os encantado; eram lindos como não imagina. O Diabo pegou deles, cheirou-os e disse-me que os cheirasse também. Não lhe digo nada; no momento de os chegar ao nariz, vi sair de dentro um réptil fedorento e torpe, dei um grito, e arrojei para longe as flores. Então, o Diabo, escancarando uma formidável gargalhada: “José Maria, são os teus vinte anos.” Era uma gargalhada assim: — cá, cá, cá, cá, cá…
José Maria ria à solta, ria de um modo estridente e diabólico. De repente, parou; levantou-se, e contou que, tão depressa abriu os olhos, como viu a mulher diante dele aflita e desgrenhada. Os olhos de Clemência eram doces, mas ele disse-lhe que os olhos doces também fazem mal. Ela arrojou-se-lhe aos pés… Neste ponto a fisionomia de José Maria estava tão transtornada que o padre, também de pé, começou a recuar, trêmulo e pálido.
“Não, miserável! não! tu não me fugirás!” bradava José Maria investindo para ele. Tinha os olhos esbugalhados, as têmporas latejantes; o padre ia recuando… recuando… Pela escada acima ouvia-se um rumor de espadas e de pés.

O Inferno de Gabriel

Gabriel. Nome de origem hebraica. “Homem de Deus”, “Homem forte de Deus” segundo algumas definições na web. Mas, eu preciso lhe contar algo leitor.  E que nessa historia, ele fará jus ao significado do nome que possui, devido o seu comportamento admirável para com o próximo. Mas, preciso lhe contar algo leitor. Gabriel é um empresário belenense que sempre reconhece o bom trabalho dos seus funcionários, agradecendo os pelas suas boas ideias e profissionalismo. Mas, eu preciso lhe contar algo leitor. Quando chegava para trabalhar na sua empresa, questionamentos cordiais do tipo “Como vai você?” ou “ E a família, está bem?” eram frequentes, logo, pela manhã. Mas, preciso lhe contar algo leitor

-Ideia estupida! Ninguém tem mais nada a acrescentar de interessante nessa reunião? Será que sou o único que, verdadeiramente, pensa nessa empresa? Burros! Aqui é um jornal e não o ensino fundamental patético de vocês. Parece que as boas ideias saem, somente, de mim.

Lamento leitor. Esse, de fato, é o verdadeiro Gabriel da nossa história.

Certa noite, ele chegou em casa, como de praxe, com o semblante fechado, postura imperiosa e as sobrancelhas arqueadas. Abriu a porta e olhou, por alguns instantes, aquela sala imensa com a sua decoração suntuosa. Ficou parado na entrada, como se esperasse alguém vim lhe receber com um “boa noite” amável ou com algum abraço caloroso. No entanto, não veio ninguém. Gabriel baixou a cabeça, balançou ela de um lado para o outro, suspirou forte e, logo em seguida, ergueu a coluna mais imponente do que nunca, entrou e subiu as escadas.

Depois do banho, sentou-se em frente a sua penteadeira camarim cor branca e começou a desembaraçar os cabelos. Parou. Mirou a sua imagem refletida naquele espelho e pensou um pouco. De repente, teve a impressão de que alguma presença estranha havia passado pela sua costa. Olhou para trás e não viu ninguém. Tornou a pentear os seus cachos e, pela segunda vez, algo passou como um vulto novamente atrás dele. Os poucos pelos dos braços se levantaram. Deu um salto abrupto e perguntou:

-Quem está aí? – Questionou Gabriel; segurando a escova de cabelo na mão direita com os olhos azuis arregalados.  

Caminhou até o closet. Ligou a luz, no qual roupas de grife e vários sapatos estavam organizados com perfeição, mas não havia ninguém por ali. “Estou ficando louco?” pensou o órfão rico. E no instante que colocaria o dedo no interruptor para desligar as luzes, escutou uma voz grave atrás dele.

– Gabriel, não é?                     

Um frio subiu pela coluna vertebral de Gabriel e a saliva desceu rasgando a garganta. Voltou-se para a direção da penteadeira, mas nada foi visto. Correu para a cama e embrulhou-se da cabeça aos pés. Pensou em gritar. Mas quem iria lhe socorrer? Os empregados? “Melhor não. Eles não podem me ver nessa situação. Seria patético.” pensou Gabriel. Em seguida, Dormiu.

De manhã, no jornal, Gabriel passou por alguns colaboradores sem cumprimenta-los, como se eles nem estivessem ali, executando as tarefas diárias. A cabeça erguida, de modo majestosa, e a postura ereta destacavam-se. Geralmente, algum empregado via escapar um rebolado daquele andar firme, mas que, Gabriel, logo, consertava, a fim de evitar comentários.  Um funcionário lhe entregou alguns relatórios, no qual ele passou a vista em uma só olhada, sem se desfazer das sobrancelhas arqueadas, atirou-os contra o peito daquele subordinado, sem agradece ló. Nunca agradecia. Entrou no elevador. E quando saiu dele para seguir em direção a sua sala, viu uma cena que lhe chamou a atenção: uma criança que visitava o pai no trabalho abraçava o forte. Os ombros de Gabriel foram murchando, como balões de final de festa ao ver aquele momento de carinho. O semblante dele entristeceu e os olhos fecharam-se por um instante para que uma lembrança perturbasse os seus ouvidos e o levasse para uma viagem dolorosa dentro de si.

– Pai! Pai! Vamos brincar? Pai! O senhor tá me ouvindo?

– Agora não, Gabriel. Estou trabalhando. Procure a sua babá e saia daqui!

Gabriel retornou daquela recordação, cambaleando um pouco. Quando caiu em si de novo, as sobrancelhas arquearam-se mais uma vez e a coluna voltara para posição imperiosa que estava. Em seguida, escancarou a porta daquela sala e gritou:

– O que está acontecendo aqui? Eu já não falei que é proibido a entrada de crianças? Você sabe com quem está falando?

O colaborador se desculpou e informou que aquilo não aconteceria mais. O “dono da empresa” saiu, batendo a porta com força, assustando a criança que, logo, colocou as duas mãos nos ouvidos.

Gabriel entrou na sua sala, trancou a porta e grudou-se nela de costas. Quis chorar. Caminhou até as janelas, fechou as persianas e apoiou nelas com as mãos. Abaixou a cabeça e inspirou e expirou fundo. Não lagrimou. E, logo em seguida, assustou-se quando uma sombra passou por trás dele. Gabriel sentiu um arrepio e caminhou com passos largos em direção à saída. Ao girar a maçaneta da porta, escutou a mesma voz que o assustara na noite anterior.

– Por que tanta pressa jovem Gabriel?

Ficou petrificado. Virou a cabeça bem devagar com a esperança de que não pudesse encontrar ninguém ali. Enganou-se. Um homem de estatura mediana estava parado em sua frente. Vestia um blazer escuro, calça de linho e sapatos pretos. Usava uma gravata vermelha cor de sangue e apoiava-se em uma bengala dourada cravejada de pedras preciosas. Os cabelos estavam penteados, como se estivessem sob o efeito molhado de algum gel capilar.

– Quem é voce? E o que faz  na minha empresa? A minha secretária não lhe anunciou. – Questionou Gabriel; disfarçando alguns tremores no corpo.

– Sou o diabo e serei bem objetivo.

– Diabo? – Gabriel deu um sorriso irônico. – Achava que eu era o próprio.

– Estou procurando alguém para assumir o inferno e você tem o perfil que procuro. Mas, antes, você deverá passar por um desafio: se você ganhar, será considerado como rei em todo o inferno. Terá muitas almas, trabalhando para você. Se fracassar, você, apenas, retornará para a sua… vida.

– Como pode ver – Gabriel abriu os braços, olhando ao seu redor. – Sou rico e não preciso ser rei em lugar nenhum. Eu já sou aqui mesmo.

            – Tens tudo mesmo Jovem Gabriel? – O diabo inclinou a cabeça para frente, como se soubesse a resposta daquela pergunta capciosa. – Poderá ser rei nos dois mundos: lá e aqui. Bom, aguardarei, de qualquer modo, a sua decisão até amanhã. Chame por mim.

E em um piscar de olhos, aquela figura desconhecida sumiu feito fumaça. O empresário andou de um lado para o outro, procurando aquele homem que acabara de fazer aquela proposta, mas nada viu. De qualquer forma, tudo aquilo havia mexido com ele. Não tinha mais cabeça para trabalhar. E quando teve? Precisava distrair-se com alguma coisa. Pegou o celular, falou com alguém e saiu.

Às 12:30 h, daquele mesmo dia, Gabriel estava parado na janela de um quarto; refletindo sobre a decisão que devia tomar. Fumava.

– Oh Biel, volta pra cama cara. Vamos começar um segundo round?

– O que você faria se pudesse ter mais poder? – Perguntou Gabriel, olhando pela janela.

– Hã? Que papo é esse cara? Ah, mano, se eu tivesse a oportunidade de ter mais poder, eu não perderia essa chance ora.  Li, em algum lugar, que quem tem mais poder tem menos dores e nunca se sente só.

– Isso! – Gritou Gabriel, apontando o dedo indicador para cima como se tivesse descoberto algo. – Você tem razão.

-Pra onde tu vai?

– Não interessa! Duzentos reais resolvem não é? Toma.

Na manhã seguinte, o diabo ficara satisfeito com a decisão do “dono do jornal”. No mesmo dia, Gabriel entrou em uma van, no qual todas as janelas estavam fechadas, com cortinas bem decoradas cor de vinho. Havia sido também proibido pelo motorista de abri-las sob quaisquer circunstância. A viagem não demorou.

A van parou. Gabriel desceu e deparou-se com uma imagem lúgubre; triste. O céu tinha cor laranjada e a paisagem era montanhosa; assemelhando-se a um deserto estadunidense, com vegetação rasteira e o clima seco. Lá, nunca anoitecia. Percebeu também que haviam casas organizadas como um vilarejo medieval. “Casas? No inferno?” questionou-se. Havia também pessoas que transitavam por alí. Pessoas normais; tangíveis. E não os demônios com tridentes enormes como Gabriel imaginava. Enfim, ele estava no inferno.  De repente, uma fumaça fantasmagórica apareceu próximo do jovem rico e o diabo surgiu dela, dizendo:

– Você acaba de chegar ao meu reino Jovem Gabriel.

– Ahhh. Achei lindo! Parece com um rabisco em uma cartolina preta de uma criança do maternal.

O diabo deu algumas orientações ao “suposto desafiado” e, logo em seguida, sumiu de novo. Gabriel caminhou até sair dos limites daquele que considerou um “vilarejo”. Olhou para trás e viu aquelas residências se afastando. Minúsculas, agora. Chegou a um lugar, no qual havia muitas grutas e pedras gigantescas. Sentiu um tremor na espinha, mas continuou explorando aquele ambiente. Escutou passos. E quando correu para se esconder, escorregou e ralou os joelhos. Levantou-se num salto e o medo abafou um grito de dor. Escondeu-se atrás de uma pedra que cobria suficiente todo o seu corpo e espreitou.

Alguém abaixou-se no local do tombo de Gabriel e examinou aquele rastro de sangue, olhou para um lado e para o outro, como um caçador, presumindo que a caça ainda estivesse ali.

– Sei que você ainda está aqui. – Disse um homem; dando voltas em si mesmo para verificar se encontrava algo. – Você está machucado. Posso te ajudar. Não deve ser desse mundo não é?

Gabriel não o conhecia de fato. E nem queria conhecer. As mãos suavam de nervoso e, em seguida, todo o seu corpo sentiu inveja disto também. Mas, quando espreitou mais uma vez aquele desconhecido, surpreendeu-se com algo inesperado

– Te achei! – Disse aquele homem estranho, aparecendo do outro lado, de onde Gabriel estava, como um movimento rápido semelhante a um tele transporte.

O jovem empresário virou-se num salto abrupto e não conseguiu conter um gritou de susto, mas também não correu. Ficou parado.

-Calma! Desculpa cara. Me chamo Simão. Posso te ajudar?

– Não preciso da sua ajuda. Foi só um arranhão. E nem está doendo tanto assim.

– Não está doendo? – Simão riu – Você só pode estar louco cara. Vem comigo. Vou fazer um curativo em você. Tudo vai ficar bem. Garanto.

Simão levou Gabriel para a sua casa. De volta ao “vilarejo”, ele limpou os joelhos machucados, enrolou um pedaço de pano neles e deu um nó para que o sangue estancasse. Enquanto isso, Gabriel parecia nem sentir mais dor. Os seus olhos demoravam a piscar, pois estavam fixados em Simão. A íris azul piscina movimentava-se de um lado para o outro pelo globo ocular, como um raio x, analisando cada parte do corpo daquele rapaz desconhecido. A boca não fechava, admirada, devido às “habilidades medicas” de Simão

– Fui enfermeiro em vida. Tive filhos também. Não se preocupe.

– Obrigado!

Os dias passaram-se. Simão apresentou outros lugares daquele inferno para Gabriel. Contava-lhe também historias curiosas para o recente amigo e Gabriel esquecia até mesmo dele, quando ouvia todas elas com muita atenção.  Gargalhava de algumas engraçadas. Engraçado? Havia alguma coisa naquele inferno que era divertido? Mas, esses questionamentos nem, sequer, passavam mais perto do imaginário de Gabriel. Ele nunca havia dado tanta atenção para alguém assim. Beijaram-se, um dia. O coração do empresário bateu tão rápido nesse momento, ao ponto de quase explodir. A respiração era de uma maratona percorrida. Mas…

– Foi só um beijo e nada mais. Não se iluda com isso.

– Por que a resistência?

– Amor traz consequências; dores; fraquezas. E eu não sou fraco. Nunca fui e não será agora que vai ser diferente.

Era tarde demais. Ele estava apaixonado. Começaram a andar de mãos dadas por todo o inferno.

Um dia, Gabriel lembrou-se do motivo inicial de ele estar naquele lugar. Deu um ar de riso bobo por conta desse esquecimento. Foi ao castelo do Diabo para saber sobre o desafio proposto ou até mesmo para desistir de tudo aquilo. Quando chegou lá, escutou algumas vozes que, a principio, não soube distinguir de quem se tratava. Mas, depois, identificou a voz do próprio diabo. Gabriel caminhou até o salão principal de onde achava que vinha aquela discussão, chegou até o local e espreitou. Viu um homem de frente para o diabo. Gesticulava muito com as mãos e braços. Gabriel não conseguiu identifica-lo, a principio, mas, aquela voz tornava-se cada vez mais familiar. Até que ele viu parte do rosto daquele rapaz. Reconheceu o e quis escutar um pouco mais a conversa.

– Não quero mais fazer isso. Chega! Ele não merece.

– Tolo – o diabo gargalhou – Não percebe o que está em jogo aqui ou você não quer mais retornar á vida para rever seus filhos?

O diabo deu uma pausa, olhou por cima dos ombros daquele homem e falou:

– Olha quem veio nos visitar.

– Gabriel? Não é nada disso que você está pensando. – Disse Simão, erguendo os braços como se quisesse segurar o namorado. – Gabriel! Gabriel! Nãooo.

Gabriel saiu daquele lugar; passando a mão esquerda no rosto, enxugando as lágrimas. Simão virou-se, novamente, para o Diabo com olhos fulminantes, mas que, este, deu de ombros, como se não tivesse sido impressionado por aquela fúria.

Gabriel chegou a um penhasco que o próprio Simão havia o apresentado. Tinha uma visão privilegiada de todo o inferno dali de cima. Os cachos de seu cabelo batiam furiosos contra o seu rosto. Aproximou-se da beira do abismo, caiu de joelhos, olhou para o céu como se fosse suplicar algo para Deus. As lágrimas caiam como agua procedente de uma represa destroçada. Deixou a boca mais aberta possível e gritou. Deu socos de indignação em seu peito. “Idiota! Como fui tão burro?” questionava-se. Abaixou a cabeça e as duas mãos esconderam o rosto. Soluçava sem controle. De repente, sentiu passos atrás dele e alguém falou:

-Gabriel, eu ia te contar. Me perdoa cara? – Falou Simão não conseguindo esconder o choro.

O jovem rico ainda continuava com o rosto coberto pelas mãos, mas foi tirando em câmera lenta. Não chorava mais. Olhou para a frente e viu aquela paisagem lúgubre. As sobrancelhas arquearam-se, de modo estranho, dando um ar demoníaco a Gabriel. Os lábios cerraram-se e um sorriso irônico veio à tona. Logo em seguida, ele falou:

– E quem disse que eu também não fingi? – Gabriel levantou-se devagar do chão e virou-se para Simão – Eu também tenho um trato com o diabo. Estou aqui por isso e ainda continuo somente por isso também.  

– Bravo! – o diabo apareceu como um passe de mágica entre eles, batendo palmas. – Esse é, exatamente,  o perfil que procuro Jovem Gabriel.

Em seguida, o diabo fez aparecer duas taças em cada uma de suas mãos, com um líquido vermelho e misterioso, mas que não era vinho. Entregou elas para Gabriel e Simão. Em seguida, fez surgir uma para si mesmo em sua mão esquerda. Todos beberam. De repente, Simão colocou a mão no peito e o ar começou a lhe faltar. Gabriel não moveu, sequer, um musculo do corpo e olhava para Simão, como se ele fosse um inseto que deveria ser esmagado.

Simão caiu de joelhos e, depois, o seu corpo estendeu-se de lado no chão. Gabriel, aos poucos, desfazia aquele semblante sombrio e as suas lágrimas começavam a subir até o nível dos cílios. Logo em seguida, deu um pulo abrupto e correu em direção ao amado para socorrê-lo. Atirou-se junto ao corpo dele e disse:

– Estou aqui meu amor. – Gabriel pegou Simão no colo. – Vou te ajudar. Não se preocupe. Acredito em você. O que você fez com ele? – Gritou Gabriel, olhando para o diabo.

– Você acaba de perder o desafio Jovem Gabriel. Você é mais frágil do que eu imaginava. Esse é você. E esse pobre rapaz foi somente uma isca para pescar quem, realmente, você é. – Disse o diabo, com uma voz misteriosa, abaixando-se próximo ao casal. –Você não acha que esqueceu alguma coisa? – O diabo virou a cabeça, devagar, para o lugar de onde Gabriel tinha saído e corrido.

Quando Gabriel acompanhou o olhar do “dono do umbral”, viu que seu corpo estava no mesmo lugar; parado, como uma estatua de cera apresentada em um museu. Imagem perfeita. Na verdade, era ele com aquele mesmo semblante rígido ainda. Gabriel inclinou um pouco a cabeça para o lado esquerdo sem entender nada. Confuso. De repente, voltou-se para Simão e, este, estava se desfazendo em pó nos seus braços até sumir por completo. Gabriel procurou o diabo para questionar sobre aquele acontecimento. Mas não viu ninguém. Olhou para o céu, fechou os olhos e deu um grito que ecoou todo aquele lugar. Em seguida, quando caiu em si, viu-se deitado na sua própria cama, como se tivesse vindo de um sonho… Ou… de um pesadelo! Estava em seu quarto novamente; na sua casa; no seu mundo. As cortinas dançavam ao som da brisa penetrante que entrava pela janela. E o sol engatinhava em sua direção. Bem devagar. Bem devagar. Era um novo dia.

A tortura pela esperança

Ao Senhor Edouard Nieter
“Oh! Uma voz, uma voz, para gritar!…” Edgar Poe – O Poço e o Pêndulo.
Há muitos anos, ao cair da tarde, nos cárceres do Santo Ofício de Saragoça, o venerando Pedro
Arbuez de Espila – sexto prior dos dominicanos de Segóvia, terceiro Grande Inquisidor de Espanha
–, seguido de um frade redentor (mestre torturador) e precedido de dois encarregados da Inquisição,
os quais seguravam duas candeias, descia para uma enxovia perdida. Rangeu a fechadura de uma
enorme porta; entraram num mefítico in pace, no qual a janela gradeada lá em cima deixava
entrever, entre os anéis chumbados à parede, um cavalete escuro de sangue, um queimador, um
cântaro. Sobre uma cama de palha, preso por grilhões, canga de ferro ao pescoço, sentava-se,
desfigurado, um homem em trapos, de idade incerta.
O prisioneiro não era outro senão o rabino Aser Abarbanel, judeu aragonês acusado de usura e de
impiedoso desdém pelos pobres, que tem sido diariamente submetido a torturas, há mais de um ano.
Todavia, “sua cegueira é tão dura quanto o seu couro”, e ele recusa-se a abjurar sua fé.
O rabino, brioso de uma ascendência milenar, orgulhoso de seus antepassados – pois todos os
judeus dignos desse nome são ciosos do seu sangue -, descendia talmudicamente de Othoniel e, por
conseguinte, de Ipsiboe, mulher desse último Juiz de Israel, circunstância em que também
sustentara a sua coragem diante de incessantes suplícios.
Foi com lágrimas nos olhos, ao pensar que essa alma tão firme se escusava à salvação, que o
venerando Pedro Arbuez de Espila, tendo se aproximado do fremente rabino, pronunciou as
seguintes palavras:
– Meu filho, alegra-te: vão acabar agora as tuas provações neste mundo. Embora, em face de
tanta obstinação, eu tenha sido forçado, com lástima, a permitir o emprego de tantos rigores, o meu
encargo de fraterna correcção tem seus limites. És a figueira, que passando tanto tempo sem
frutificar, vem a mirrar, e só Deus lhe pode julgar a alma. Quem sabe se a infinita Misericórdia te
iluminará no teu último instante! Esperemos que assim seja. Tem havido exemplos. Dorme, pois,
em paz esta noite. Serás incluído amanhã no auto-de-fé: isto é, serás submetido ao queimadeiro,
fogueira premonitória das Chamas Eternas; como sabes, meu filho, só arde à distância e a Morte
leva duas horas para chegar (muitas vezes três), por causa dos panos molhados e gelados com que
temos o cuidado de proteger a frente e o coração dos holocaustos. Serão apenas quarenta e três.
Considere que, estando colocado na última fila, disporás do tempo necessário para invocar Deus,
para te ofertar esse baptismo do fogo, que é do Espírito Santo. Tem assim, esperança na Luz e
dorme.
Ao acabar este discurso, dom Arbuez, depois de, com um gesto, mandar desagrilhoar o infeliz,
abraçou-o ternamente. Depois coube a vez ao frade redentor, que, sussurrando, pediu ao judeu
perdão pelo que o obrigara a sofrer para o redimir; por fim, cingiram-no os dois encarregados cujo
beijo, dado através dos capuzes, foi silencioso. Terminada a cerimónia, deixaram o cativo nas
trevas, só e atónito.
* * *
O rabino Aser Abarbanel, de boca seca e olhar embrutecido de sofrimento começou por fitar, sem
muita atenção, a porta fechada. – “Fechada?…” Esta palavra, no mais íntimo de si, despertava, nos
seus confusos pensamentos, um devaneio. Acontecia que entrevira por um instante, pela fresta entre
a porta e a muralha, o cintilar de lanternas. Uma ideia mórbida de esperança, devido à fraqueza do
seu cérebro, convulsionou-lhe todo o ser. Arrastou-se para a insólita coisa que aparecera! E,
suavemente, inserindo um dedo com grande cautela na nesga, puxou a porta para si. Que assombro!
Por extraordinário acaso, o encarregado que a fechara rodara a grossa chave um pouco antes do
embate contra os montantes de pedra, de modo que a lingueta enferrujada não entrara no seu
encaixe, e a porta voltou a rodar nos gonzos.
O rabino arriscou um olhar para fora.
Encoberto por uma espécie de obscuridade lívida, distinguiu primeiro um semicírculo de paredes
terrosas recortadas por degraus em espiral; e, diante dele, cinco ou seis degraus de pedra acima, um
portal escuro, aberto para imenso corredor, do qual apenas as primeiras arcadas lhe eram visíveis.
Deitando-se rastejou até ao rés desse limiar – sim, era mesmo um corredor, mas de comprimento
desmedido! Iluminava-o uma luz pálida, um brilho onírico: suspensas das abóbadas, chamas de
vigia banhavam de tons azuis, a intervalos, o ar pardacento: – o fundo longínquo era todo sombra.
Nem uma porta lateral em toda essa extensão! De um só dos lados, à esquerda, havia seteiras, com
grelhas em cruz, abertas nas paredes, que deixavam perpassar o crepúsculo – que devia estar
anoitecendo, dadas as réstias rubras que de quando em quando riscavam o lajeado. E que silêncio
assustador!… Contudo, ao fundo, nas profundas dessas brumas, uma saída poderia dar para a
liberdade! A vacilante esperança do judeu era tenaz, pois era a última.
Sem hesitar, avançou, conservando-se junto à parede, e procurou camuflar-se com o tom sombrio
das longas muralhas. Avançou lentamente, arrastou-se com a respiração contida, e reprimia um
grito, quando lhe martirizava uma chaga mais recente.
De súbito, chegou até ele, no eco da senda de pedra, o ruído de sandálias que se aproximava.
Tremeu; a ansiedade abafava-o; escureceu se lhe a vista. Não era possível! Seria o fim? Agachou-se
num côncavo e, quase morto, esperou.
Era um encarregado apressado. Passou rapidamente, de lacerador na mão, de capuz rebaixado,
terrível, e desapareceu. A agonia do rabino parecia ter-lhe interrompido a própria vida, e ali ficou
ele, quase uma hora, incapaz de mover-se. Receando redobrados tormentos caso fosse apanhado,
assaltou-o a ideia de voltar ao calabouço. Mas a velha esperança sussurrou-lhe na alma o divino
talvez, que nos conforta sempre, nas mais dolorosas circunstâncias. Acontecera um milagre! Não
havia que duvidar mais! Pôs-se a rastejar de novo, para a possível fuga. Avançava extenuado de
sofrimento e de fome, trémulo de angústias – e esse sepulcral corredor parecia alongar-se
misteriosamente! E ele, avançando sem parar, continuava mirando a sombra distante, onde tinha de
estar a saída salvadora.
– Oh! Oh! – voltavam a soar passos, mas, desta vez, mais lentos e mais pesados. Surgiram, ao
fundo, emergindo no ar pardacento, com os seus chapéus compridos e de abas enroladas, as formas
brancas e negras de dois inquisidores. Conversavam em voz baixa e pareciam discutir sobre um
ponto importante, pois gesticulavam veementemente.
Ao vê-los, o rabino Aser Abarbanel fechou os olhos: batia-lhe tão desordenadamente o coração
que quase o sufocava; os seus andrajos estavam húmidos do suor da agonia; conservou-se imóvel,
estendido ao longo da parede, a boca aberta, sob os raios luminosos de uma chama de vigia, orando
ao Deus de David.
Diante dele, os dois inquisidores detiveram-se sob luz fraca da lâmpada – e isto certamente por
um acaso da discussão. Um deles, escutando o seu interlocutor, pôs-se a olhar para o rabino. E, sob
esse olhar, cuja expressão absorta começou por não compreender, o infeliz julgava sentir as tenazes
quentes a lacerarem-lhe de novo as pobres carnes; então ia voltar a ser um grito e uma chaga!
Desfalecendo, oprimido, com as pálpebras vibrantes, arrepiava-se ao roçar do burel do outro. Mas,
coisa estranha, mas natural, o olhar do inquisidor era evidentemente o de alguém profundamente
absorto na resposta que daria, absorto pelo que ouvia: estava fixo – e parecia olhar o judeu sem o
ver!
Com efeito, passados alguns minutos, os dois sinistros debatedores continuaram o seu caminho,
a passos lentos, sempre conversando em voz baixa, em direcção ao compito de onde viera o
prisioneiro: NÃO FORA VISTO!… No meio da horrível confusão dos pensamentos, brotou-lhe do
espírito esta ideia: “Não me vêem porque estou morto?” Uma horrível impressão tirou-o da letargia:
ao fitar o muro, junto ao rosto, julgou ver, diante dos seus, dois olhos ferozes que o espreitavam!…
Voltou a cabeça num súbito frenesi de pavor, arrepiando-se-lhe os cabelos!… Mas, não! Não.
Esfregou a argamassa com a mão: era o reflexo dos olhos do inquisidor, ainda impressos nos
seus, e deles projectados sobre duas manchas na muralha.
Adiante! Ele precisava apressar-se para a meta que imaginava (absurdamente, sem dúvida) ser a
sua salvação, para as sombras das qual não distava agora mais de trinta passos. Atirou-se de joelhos,
com as mãos espalmadas arrastou-se penosamente, e dai a pouco entrava no trecho escuro daquele
horrível corredor.
De súbito, o miserável sentiu um frio nas mãos que apoiava nas lajes: uma lufada de ar frio,
vinda de baixo de pequena porta, aonde iam ter as duas paredes. – Ah, Deus! Se esta porta desse
para o lado de fora! Sentiu-se invadido de uma vertigem de esperança! Examinou a porta de alto a
baixo, sem conseguir distingui-la bem, dada a escuridão que reinava à volta. – Pôs-se a tactear: nem
ferrolho, nem fechadura. – Uma simples aldrava!… Endireitou se: o trinco cedeu-lhe ao polegar: a
silenciosa porta abriu-se diante dele.
* * *
– ALELUIA!… – murmurou, num imenso suspiro de acção de graças, o rabino, que estava agora
em pé no limiar, contemplando a cena que tinha diante dos olhos.
Ao abrir se, a porta deixara ver jardins, uma noite estrelada! A primavera, a liberdade, a vida!
Dava para os campos que se prolongavam para as serras, cujas sinuosas linhas azuis se perfilavam
no horizonte – enfim, era a salvação! Ah, fugir! Havia de correr toda a noite por entre os limoeiros
cuja fragrância chagavam até ele. Uma vez nas montanhas, estaria salvo! Inalou o bom ar sagrado; o
vento reanimava-o, expandiram-se-lhe os pulmões. Sentiu, no coração dilatado, o Veni foras de
Lázaro! E, para voltar a abençoar o Deus que lhe concedia tal misericórdia, estendeu os braços à sua
frente, elevando os olhos ao firmamento. Era o êxtase da alegria!
Então, julgou ver a sombra dos seus braços virar-se para ele: – julgou sentir que esses braços o
abraçavam, o enlaçavam, e que o cingiam ternamente ao peito de alguém. De fato, havia uma alta
figura junto da sua. Confiante, desceu o olhar para essa figura – e ficou imóvel, ofegante,
estarrecido, de olhar baço, tremendo, de faces inchadas e espumando de terror.
– Horror! – estava nos braços do Grande Inquisidor, o venerável Pedro Arbuez de Espila, que o
fitava, com grossas lágrimas nos olhos, e um ar de bom pastor que voltou a encontrar a ovelha
tresmalhada!…
O tenebroso dominicano apertava o judeu ao peito com tão fervoroso impulso de caridade, que
os picos do cilício monástico lhe esgadanharam a pele. E, enquanto o rabino Aser Abarbanel, de
olhos revoltos sob as pálpebras, estrebuchava de angústia entre os braços do ascético Dom Arbuez e
percebia confusamente que todas as fases da fatal noite mais não eram do que um suplício previsto,
o da Esperança!, o Grande Inquisidor, num tom de pungente censura e de olhar consternado,
murmurava-lhe ao ouvido, com o hálito ardente e debilitado pelos jejuns:
– Então, meu filho, o que é isso? Então, na véspera talvez da salvação… querias deixar-nos?

A brincadeira

Um claro dia de inverno… o frio é forte e seco de estalar, e Nádenka, que eu levo pelo braço, fica com os cachos das fontes e o buço no lábio superior orvalhados de prata cintilante. Estamos no cume de um morro alto. Diante dos nossos pés, até a planície, lá embaixo, estende-se um declive escorregadio e brilhante no qual o sol se mira como um espelho. Ao nosso lado está um trenó pequenino, forrado de pano vermelho-vivo.

— Deslizemos até lá em baixo, Nadêjda Petrovna! – imploro eu. — Só uma vez! Garanto-lhe, ficaremos sãos e salvos!

Mas Nádenka tem medo. Toda essa extensão, desde as suas pequeninas galochas até o fim da montanha de gelo, se afigura a ela como um terrível abismo de profundidade imensurável. Ela fica tonta e perde o fôlego, só de olhar lá para baixo, quando eu apenas lhe proponho sentar-se no trenó – que terá então se ela arriscar despenhar-se no precipício? Ela morrerá, enlouquecerá!

— Eu lhe suplico! – digo eu. — Não tenha medo! Compreenda, isso é fraqueza, é covardia!

Nádenka cede, finalmente, e eu vejo pelo seu rosto que ela cede com receio pela própria vida. Acomodo-a, pálida e trêmula, no trenó, sento-me, enlaço-a com o braço e junto com ela precipito-me no abismo.

O trenó voa como uma bala. O ar cortado chicoteia o rosto, silva nos ouvidos, bate, belisca raivoso até doer, quer arrancar a cabeça dos ombros. A pressão do vento tolhe a respiração. É como se o próprio diabo nos tivesse agarrado com as suas patas, e, urrando, nos arrastasse para o inferno. Os objetos que nos cercam fundem-se num só longo risco, que corre vertiginoso. Parece, um instante mais, e estaremos perdidos!

— Eu te amo, Nádia! – digo eu a meia voz.

O trenó começa a deslizar mais devagar, mais devagar, os uivos do vento e os zumbidos das lâminas do trenó já não são tão terríveis, a respiração já não é tão ofegante, e, finalmente, chegamos ao fim. Nádenka está mais morta do que viva. Está pálida, mal consegue respirar. Eu a ajudo a se levantar.

— Nunca mais farei isto – diz ela, encarando-me com os olhos dilatados, cheios de terror. – Por coisa alguma do mundo! Por pouco não morri!

Logo depois, ela volta a si e já me fita com um olhar interrogador: terei sido eu quem disse aquelas quatro palavras, ou foi apenas uma alucinação dentro do zunido da ventania? Mas eu estou calado diante dela, fumando e examinando com atenção a minha luva.

Ela toma o meu braço e passeamos longos minutos diante do morro. O problema, visivelmente, não a deixa em paz. Foram pronunciadas aquelas palavras, ou não? Sim ou não? Sim ou não? É uma questão de amor-próprio, de honra, de vida, de felicidade, uma questão muito importante, a mais importante do mundo. Nádenka perscruta o meu rosto com olhares impacientes, tristes, penetrantes, responde atabalhoadamente, espera que eu fale. Oh, que jogo de emoções neste rosto encantador, que jogo! Vejo que ela luta consigo mesma, que precisa dizer alguma coisa, perguntar, mas não encontra palavras, está encabulada, amedrontada, embargada pela alegria…

— Sabe duma coisa? – diz ela, sem olhar para mim.

— O quê? – pergunto eu.

— Vamos mais uma vez… deslizar pelo morro.

Subimos para o cume, pela escada. De novo faço Nádenka, pálida e trêmula, sentar no trenó, de novo nos despencamos no precipício medonho, de novo uiva o vento e zunem as lâminas, e de novo, quando o vôo do trenó está no auge do ímpeto, eu digo a meia voz:

— Eu te amo, Nádenka!

Quando o trenó se detém, Nádenka lança um olhar para o morro que acabamos de descer voando, depois perscruta longamente o meu rosto, escuta, atenta, a minha voz indiferente e calma, e toda ela, toda, até mesmo o regalo de peles e o capuz, toda a sua figurinha, exprime extrema perplexidade. E no seu rosto está escrito: “Mas o que é que está acontecendo? Quem pronunciou aquelas palavras? Foi ele, ou foi engano dos meus ouvidos?”.

Esta incerteza a perturba, a impacienta. A pobre menina não responde às minhas perguntas, franze a testa, está prestes a romper em choro.

— Não preferes ir para casa? – pergunto eu.

— Mas eu… eu gosto destas… descidas – diz ela, enrubescendo. Não quer deslizar mais uma vez?

Ela “gosta” destas descidas, e, no entanto, sentando-se no trenó ela, como das outras vezes, fica pálida, ofegante de medo, trêmula.

Descemos pela terceira vez, e eu vejo como ela fita o meu rosto, como observa os meus lábios. Mas eu aperto o lenço contra a boca, tusso, e quando chegamos ao meio do declive, deixo escapar:

— Eu te amo, Nádia!

E a charada continua charada! Nádenka se cala, está pensando… Acompanho-a para casa, ela procura andar mais devagar, atrasa o passo, espera sempre que eu lhe diga aquelas palavras. E eu vejo como sofre sua alma, como ela tem que se esforçar para não dizer: “Não pode ser que tenha sido o vento! E eu não quero que tenha sido o vento quem falou aquilo!”.

No dia seguinte de manhã, recebo um bilhetinho: “Se o senhor vai ao morro hoje, venha me buscar. N.”. E desde essa manhã, comecei a ir com Nádenka ao morro, todos os dias e, voando encosta abaixo, no trenó, eu pronuncio, cada vez, a meia voz, as mesmas palavras:

— Eu te amo, Nádia!

Logo Nádenka acostuma-se a esta frase, como ao vinho e à morfina. Não pode viver sem ela. É verdade – voar montanha abaixo lhe dá medo, como antes, mas já agora o medo e o perigo adicionam um encanto especial às palavras sobre o amor, as palavras que, como dantes, constituem uma charada e oprimem a alma. São sempre os mesmos dois suspeitos: eu e o vento… Qual dos dois lhe declara o seu amor, ela não sabe, mas, ao que parece, isto já não lhe importa mais; não importa o vaso em que se bebe, importa ficar embriagada!

Um dia, fui até o morro sozinho; misturei-me à multidão e vi como Nádenka chegou até o sopé, como me procurou com os olhos… E depois, timidamente, ela sobe os degraus… Ela tem medo de ir sozinha, oh, quanto medo! Está pálida como a neve, treme e vai, como se fosse para o cadafalso, mas vai, vai sem olhar para trás, com decisão. Pelo visto, ela resolveu, finalmente, tirar a prova: será que se farão ouvir aquelas palavras estranhas, quando eu não estiver junto? E vejo como ela, lívida, com a boca entreaberta de horror, toma assento no trenó, fecha os olhos, e, despedindo-se para sempre do mundo, o põe em movimento… “zzzzzz…” zunem as lâminas. Ouvira Nádenka aquelas palavras? Não sei… Vejo apenas como ela se levanta do trenó, exausta, fraca. E vê-se pelo seu rosto que nem ela mesma sabe se ouviu alguma coisa ou não. O pavor, enquanto ela voava morro abaixo, roubou-lhe a capacidade de ouvir, de distinguir os sons, de entender…

Mas eis que chega o mês de Março, primaveril… O sol torna-se mais carinhoso. O nosso morro de gelo escurece, perde o seu brilho e se derrete, afinal. Acabaram os passeios de trenó. A pobre Nádenka já não tem mais onde ouvir aquelas palavras, e nem há quem as pronuncie, pois o vento não se ouve mais, e eu me preparo para voltar a Petersburgo – por muito tempo, quiçá para sempre.

Uma vez, pouco antes de partir, uns dois dias, estava eu sentado, ao crepúsculo, no jardinzinho, separado do pátio onde mora Nádenka por uma cerca alta de madeira. Ainda faz bastante frio, debaixo do lixo ainda há neve, as árvores ainda estão mortas, mas já cheira à primavera, e, preparando-se para a noitada, as gralhas fazem grande algazarra. Aproximo-me da cerca e espio pela fresta. E vejo como Nádenka sai para os degraus e fixa o olhar tristonho e saudoso no firmamento. O vento da tarde sopra-lhe no rosto pálido e desanimado… Ele lembra-lhe aquele outro vento, que uivava lá no morro, quando ela ouvia aquelas quatro palavras, e seu rosto fica triste, triste, e pela face desliza uma lágrima. E a pobre menina estende os braços, como se implorando ao vento que lhe traga aquelas palavras mais uma vez. E eu, esperando o vento favorável, sopro a meia voz:

— Eu te amo, Nádia!

Deus meu, o que se passa com Nádenka! Ela solta um grito, sorri com o rosto inteiro e estende os braços ao encontro do vento, risonha, feliz, tão bonita.

E eu vou arrumar as malas…

Isto foi há muito tempo. Agora, Nádenka já é casada; casaram-na, ou foi ela mesma que quis – isto não importa – com um secretário da Curadoria, e hoje ela já tem três filhos. Mas os nossos passeios no morro e a voz do vento trazendo-lhe as palavras “eu te amo, Nádenka”, não foram esquecidos. Para ela, isto é hoje a mais feliz, a mais comovedora e a mais bela recordação de sua vida…

Mas eu, hoje, que estou mais velho, já não compreendo mais por que dizia aquelas palavras.

Não compreendo mais por que brincava…

Conversando com a vida

Belém. Capital. Trânsito indiano. Só não mais desorganizado e confuso que a minha vida. Enfrento uma rotina que me enforca todos os dias como se eu fosse uma garrafa de cerveja, sendo assassinada pelo seu próprio gargalo. Boletos, aluguel atrasado, ciúmes, responsabilidades, ônibus lotado e um Burnout no trabalho sacrificante. Problemas. Muitos problemas. Acho que sou o ser humano que mais possui problemas nessa vida. Me chamo Sereno.

Um dia, subi no ônibus para ir ao trabalho. Sentei-me. Ufa! Como consegui essa proeza naquela hora da manhã? Enfim, peguei meu diário e tentei escrever algo. Escrevi sobre mudanças, tempo e sexo. E foi aí que algo chamou a minha atenção. Aquilo que eu vi, deixou-me petrificado; abestalhado; lesado mesmo. Olhei aquilo como se algum extraterrestre estivesse ali bem na minha frente e no mesmo ônibus do que eu. Larguei minhas anotações e observei.

Aff! Calor, sensação térmica de 40 graus, suor escorrendo pela coluna até o cóccix, gente reclamando do engarrafamento e do governo. Sirene. Ambulância. Meus tímpanos pediam “Socorro”. Mas eu ainda estava ali. Concentrado naquela… Bom, de repente, aquele ser olhou para mim e deu um longo sorriso. Sorriso? Como alguém consegue sorrir no mundo em que vivemos? Será que aquela senhora era alguma marciana? Como a mídia ou a Nasa não haviam divulgado aquele alienígena?

Meus Deus! Com fones de ouvido, ela ainda fazia uma dancinha com cabeça, devido a algum ritmo dançante que estava ouvindo. Como pode tanta alegria diante do vale das sombras que vivíamos naquele coletivo?

Um rapaz passou e esbarrou nela com violência. Ela virou-se para ele com rapidez. É agora. Esse é o momento em que aquela mulher se revoltaria e se transformaria no cavalo do vingador com nariz chamuscando e… “Opa! Tudo bem. O ônibus tá lotado. Eu entendo.” Respondeu aquela mulher. Hã? Como assim? Nada de reclamação? Ah! Eu teria falado poucas e boas para aquele sujeito.

Desci na próxima parada. E aquela criatura estranha descera junto comigo. Chuva. Ah, Belém! Eu já devia supor essa volatilidade no tempo. Fiquei puto. Cadê o meu guarda-chuva? Não estava na minha mochila. “Quer uma carona?”. Vi uma sombrinha minúscula na minha frente. “Como vou caber aí oh minha tia?” Pensei. O objeto era dela. Era da “Senhorinha” que, agora, oferecia uma vaga ao seu lado para eu não me molhar. Impossível. E ela ainda trazia aquele bendito sorriso no rosto. Aff!

Aceitei. E quando ela me deixou em um lugar seguro e coberto, seguiu o seu caminho: feliz e molhada. E eu? Ah! Molhado, enfurecido e triste com a forma que eu estava conversando com a vida.

O Dia que não foi dos Pais

Quando os olhares deles se cruzaram naquela rua, passado e presente se misturaram. Mágoas, pensamentos e vários “porquês” eram lançados um ao outro em busca de respostas imediatas. Na cabeça de um, os cabelos grisalhos eram visíveis e a idade avançada já pesava sobre um corpo cansado, devido às marcas de uma velhice difícil. A fase adulta do outro fizera com que a mente dele se perguntasse quanto tempo havia passado desde o ultimo desentendimento entre eles.

Pai e filho estavam ali. Parados. Olhando-se como se cada um projetasse uma lembrança da vida de ambos. O que era o genitor abaixou a cabeça e atravessou a rua com passos lentos e sua fiel bengala; seguindo rumo a sua casa. Quando chegou lá, abriu a porta com dificuldade e foi em direção a uma janela grande e retangular que ficara na sala de estar. Depois, olhou reflexivo para fora de sua residência, no qual o rosto envelhecido era iluminado pelos raios solares.

Ele escutara um barulho na cozinha e alguém entrou pelos fundos da casa, no entanto, aquele idoso manteve-se imóvel perante a esse fato como se já soubesse quem havia entrado ali. Uma presença adentrou o cômodo, no qual aquele senhor de idade se encontrava e este, ainda parado e reflexivo, falou:

– Sonhei tanto com esse momento. Me perdoa. Me perdoa filho pela a minha ausência em sua vida. – Disse o idoso, continuando de costas para o homem que chegara na sala.

-Pai…

-Espere! – Interrompeu o sexagenário sem sair daquela atmosfera de reflexão que ele se encontrava. -Eu não tenho mais tanto tempo nessa vida…

-Eu te amo. -Disse aquele homem; interrompendo também a fala do pai e erguendo os braços com lágrimas nos olhos.

O idoso virou-se e caminhou em direção ao seu filho. Eles se abraçaram e. de repente, alguém deu um ultimo suspiro naquele compartimento. Um coração foi parando como se o motor de uma máquina estivesse sendo desligada por etapas. Um corpo segurou-se no colo do outro até, os dois, atingirem o chão. A bengala caiu para um lado. E uma vida se foi. Mas, foi a respiração do filho que se dissipou, de forma lenta, no ar até desaparecer completamente.

Cronologia Viva

O salão do Conselheiro de Estado Charamikin está mergulhado em agradável penumbra. A grande lâmpada de bronze, com seu quebra-luz verde, tinge, à maneira de uma “noite da Ucrânia”, as paredes, os móveis, as fisionomias… De quando em quando, na lareira expirante, abrasa-se uma acha que se consome, e por um instante projeta nos rostos um clarão de incêndio. Isto, porém, não perturba a harmonia geral das luzes. O tom de conjunto, como diriam os pintores, mantém-se.
Ao pé da lareira, acha-se afundado em uma poltrona, na postura dum homem que acaba de jantar, Charamikin em pessoa, senhor idoso, de suíças cinzentas de funcionário, olhos de um azul doce. Transparece-lhe no rosto a benignidade. Um sorriso melancólico franze-lhe os lábios. A seus pés, sobre um mocho, com as pernas voltadas para a lareira e estirando-se preguiçosamente, está sentado o Vice-Governador Lopnef, galharda figura de cerca de quarenta anos.
Junto ao piano brincam os filhos de Charamikin – Nina, Kólia, Nádia e Vânia.
Do salão da Sra. Charamikin chega, pela porta entreaberta, uma luz tímida. Ali, sentada à secretária, vê-se Ana Pavlovna, presidenta do Comitê das damas da cidade — jovem senhora, viva e picante, dos seus trinta anos e mais alguma coisa. Através do lornhom, os olhos negros e vivos deslizam pelas páginas de um romance francês. Sob o romance encontra-se, dilacerado, um relatório do Comitê, do ano anterior.
— Antigamente, nesse ponto de vista — diz Charamikin, piscando os olhos pacatos à claridade dos tições morrediços —, nossa cidade era mais favorecida. Não se passava um inverno que não aparecesse alguma estrela. Tivemos atores e cantores célebres. E agora?… Sabe o diabo o que é! Afora prestidigitadores e tocadores de realejo, não vem mais ninguém. Nenhum prazer estético… Parece que vivemos no mato… Sim… Lembra-se, Excelência, daquele trágico italiano?… Como se chamava mesmo?… Um moreno, alto… Queira Deus que eu me lembre! Ah! sim! Luigi Ernesto di Ruggiero. Um talento notável… Que força! Era ele abrir a boca, e o teatro em peso estremecia. A minha Anniutotchka se interessava muito pelo talento dele. Conseguiu-lhe o teatro e vendeu bilhetes para dez espetáculos… Ele, em recompensa, lhe deu lições de declamação e de música. Um amor de homem! Ele esteve aqui… não vá eu enganar-me… há doze anos… Não, estou enganado… Menos, apenas dez. Anniutotchka, que idade tem a nossa Nina?
— Vai fazer dez anos — gritou Ana Pavlovna lá do seu escritório. — Por quê?
— Nada, minha filhinha, só para saber… E às vezes também vinham bons cantores… Lembra-se do tenore di grazia Priliptchin? Que amor de homem! Que aparência!… Um louro… semblante expressivo, maneiras parisienses… E que voz, Excelência! Só tinha um defeito: cantava algumas notas com o ventre e emitia o ré em falsete; no mais, tudo era bom. Dizia-se aluno de Tamberlick… Anniutotchka e eu conseguimos para ele o salão do Círculo, e, como prova de gratidão, ele cantava em nossa casa, dias e noites… Ensinava canto a Anniutotchka… Esteve aqui, lembro-me bem, pela Quaresma, isto há… doze anos. Não, mais!… Que memória, santo Deus! Anniutotchka, quantos anos tem a nossa pequena Nádia?
— Doze anos.
— Doze… se acrescentarmos dez meses… Exatamente… treze anos!… Antigamente havia na cidade — como direi? — mais vida… Vejamos, por exemplo, os nossos saraus de beneficência. Que belos saraus que houve… Que encanto! Tocava-se, cantava-se, declamava-se… Depois da guerra, lembro-me bem, houve aqui prisioneiros turcos. Anniutotchka organizou um sarau em benefício dos feridos. Rendeu mil e cem rublos… Os oficiais turcos ficaram doidos com a voz de Anniutotchka, e levavam o tempo a lhe beijar a mão. Eh! eh!… Apesar de asiáticos, são pessoas reconhecidas, os turcos. O sarau alcançou tamanho êxito que — imagine V. Exa. — eu anotei no meu diário. Isto foi, se estou bem lembrado, em 76… Não… Em 77… Não! Um momento! Quando foi mesmo que tivemos os turcos? Anniutotchka, quantos anos tem o nosso Kolitchka?
— Eu tenho sete anos, papai — disse Kólia, garoto trigueiro, de cabelos pretos como carvão.
— Sim, a gente envelhece — assenta Charamikin, sorrindo. — A nossa energia já não é a mesma… Eis aí a razão de tudo… A velhice, meu caro! Faltam precursores novos, e os velhos envelheceram… Já não se tem o mesmo ardor. Quando eu era mais moço, não gostava que as pessoas se aborrecessem… Era o primeiro a ajudar a nossa Ana Pavlovna… Tratava-se de organizar um sarau de beneficência, uma tômbola, de dar apoio a uma celebridade estrangeira? Eu largava tudo e metia mãos à obra… Um inverno, recordo-me bem, corri tanto, trabalhei tanto, que caí doente… Não posso esquecer esse inverno… Lembra-se do espetáculo que organizamos com a nossa Ana Pavlovna em benefício das vítimas do incêndio?
— Em que ano foi isso?
— Não faz muito tempo… Em 79. Não, creio que em 80. Um momento. Que idade tem nosso Vânia?
— Cinco anos — grita Ana Pavlovna lá do seu salão.
— Então foi há seis anos… Sim, meu caro, tantas coisas… Agora já não há nada disso! O ardor já não é o mesmo.
Lopnef e Charamikin meditam. A acha morrediça aviva-se pela última vez e se cobre de cinza.

A terceira margem do rio

Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde
mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.

Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.
Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação.

Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — “Cê vai, ocê fique, você nunca volte!” Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — “Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?” Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.

Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram, tomaram juntamente conselho.
Nossa mãe, vergonhosa, se portou com muita cordura; por isso, todos pensaram de nosso pai a razão em que não queriam falar: doideira. Só uns achavam o entanto de poder também ser pagamento de promessa; ou que, nosso pai, quem sabe, por escrúpulo de estar com alguma feia doença, que seja, a lepra, se desertava para outra sina de existir, perto e longe de sua família dele. As vozes das notícias se dando pelas certas pessoas — passadores, moradores das beiras, até do afastado da outra banda — descrevendo que nosso pai nunca se surgia a tomar terra, em ponto nem canto, de dia nem de noite, da forma como cursava no rio, solto solitariamente. Então, pois, nossa mãe e os aparentados nossos, assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e, ele, ou desembarcava e viajava s’embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto, ou se arrependia, por uma vez, para casa.

No que num engano. Eu mesmo cumpria de trazer para ele, cada dia, um tanto de comida furtada: a idéia que senti, logo na primeira noite, quando o pessoal nosso experimentou de acender fogueiras em beirada do rio, enquanto que, no alumiado delas, se rezava e se chamava.

Depois, no seguinte, apareci, com rapadura, broa de pão, cacho de bananas. Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no ao-longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio.

Me viu, não remou para cá, não fez sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de pedra do barranco, a salvo de bicho mexer e a seco de chuva e orvalho. Isso, que fiz, e refiz, sempre, tempos a fora. Surpresa que mais tarde tive: que nossa mãe sabia desse meu encargo, só se encobrindo de não saber; ela mesma deixava, facilitado, sobra de coisas, para o meu conseguir. Nossa mãe muito não se demonstrava. Mandou vir o tio nosso, irmão dela, para auxiliar na fazenda e nos negócios.
Mandou vir o mestre, para nós, os meninos. Incumbiu ao padre que um dia se revestisse, em praia de margem, para esconjurar e clamar a nosso pai o ‘dever de desistir da tristonha teima. De outra, por arranjo dela, para medo, vieram os dois soldados. Tudo o que não valeu de nada.

Nosso pai passava ao largo, avistado ou diluso, cruzando na canoa, sem deixar ninguém se chegar à pega ou à fala. Mesmo quando foi, não faz muito, dos homens do jornal, que trouxeram a lancha e tencionavam tirar retrato dele, não venceram: nosso pai se desaparecia para a outra banda, aproava a canoa no brejão, de léguas, que há, por entre juncos e mato, e só ele conhecesse, a palmos, a escuridão, daquele. A gente teve de se acostumar com aquilo. Às penas, que, com aquilo, a gente mesmo nunca se acostumou, em si, na verdade. Tiro por mim, que, no que queria, e no que não queria, só com nosso pai me achava: assunto que jogava para trás meus pensamentos. O severo que era, de não se entender, de maneira nenhuma, como ele agüentava. De dia e de noite, com sol ou aguaceiros, calor, sereno, e nas friagens terríveis de meio-do-ano, sem arrumo, só com o chapéu velho na cabeça, por todas as semanas, e meses, e os anos — sem fazer conta do se-ir do viver. Não pojava em nenhuma das duas beiras, nem nas ilhas e croas do rio, não pisou mais em chão nem capim.

Por certo, ao menos, que, para dormir seu tanto, ele fizesse amarração da canoa, em alguma ponta-de-ilha, no esconso. Mas não armava um foguinho em praia, nem dispunha de sua luz feita, nunca mais riscou um fósforo. O que consumia de comer, era só um quase; mesmo do que a gente depositava, no entre as raízes da gameleira, ou na lapinha de pedra do barranco, ele recolhia pouco, nem o bastável.

Não adoecia? E a constante força dos braços, para ter tento na canoa, resistido, mesmo na demasia das enchentes, no subimento, aí quando no lanço da correnteza enorme do rio tudo rola o perigoso, aqueles corpos de bichos mortos e paus-de-árvore descendo — de espanto de esbarro. E nunca falou mais palavra, com pessoa alguma.

Nós, também, não falávamos mais nele. Só se pensava. Não, de nosso pai não se podia ter esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era só para se despertar de novo, de repente, com a memória, no passo de outros sobressaltos.

Minha irmã se casou; nossa mãe não quis festa. A gente imaginava nele, quando se comia uma comida mais gostosa; assim como, no gasalhado da noite, no desamparo dessas noites de muita chuva, fria, forte, nosso pai só com a mão e uma cabaça para ir esvaziando a canoa da água do temporal. Às vezes, algum conhecido nosso achava que eu ia ficando mais parecido com nosso pai. Mas eu sabia que ele agora virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pêlos, com o aspecto de bicho, conforme quase nu, mesmo dispondo das peças de roupas que a gente de tempos em tempos fornecia.

Nem queria saber de nós; não tinha afeto? Mas, por afeto mesmo, de respeito, sempre que às vezes me louvavam, por causa de algum meu bom procedimento, eu falava: — “Foi pai que um dia me ensinou a fazer assim…”; o que não era o certo, exato; mas, que era mentira por verdade. Sendo que, se ele não se lembrava mais, nem queria saber da gente, por que, então, não subia ou descia o rio, para outras paragens, longe, no não-encontrável? Só ele soubesse. Mas minha irmã teve menino, ela mesma entestou que queria mostrar para ele o neto. Viemos, todos, no barranco, foi num dia bonito, minha irmã de vestido branco, que tinha sido o do casamento, ela erguia nos braços a criancinha, o marido dela segurou, para defender os dois, o guarda-sol.

A gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu. Minha irmã chorou, nós todos aí choramos, abraçados.
Minha irmã se mudou, com o marido, para longe daqui. Meu irmão resolveu e se foi, para uma cidade. Os tempos mudavam, no devagar depressa dos tempos.
Nossa mãe terminou indo também, de uma vez, residir com minha irmã, ela estava envelhecida. Eu fiquei aqui, de resto. Eu nunca podia querer me casar. Eu permaneci, com as bagagens da vida. Nosso pai carecia de mim, eu sei — na vagação, no rio no ermo — sem dar razão de seu feito. Seja que, quando eu quis mesmo saber, e firme indaguei, me diz-que-disseram: que constava que nosso pai, alguma vez, tivesse revelado a explicação, ao homem que para ele aprontara a canoa.

Mas, agora, esse homem já tinha morrido, ninguém soubesse, fizesse recordação, de nada mais. Só as falsas conversas, sem senso, como por ocasião, no começo, na vinda das primeiras cheias do rio, com chuvas que não estiavam, todos temeram o fim-do-mundo, diziam: que nosso pai fosse o avisado que nem Noé, que, por tanto, a canoa ele tinha antecipado; pois agora me entrelembro. Meu pai, eu não podia malsinar. E apontavam já em mim uns primeiros cabelos brancos.
Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa?
Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio — pondo perpétuo.

Eu sofria já o começo de velhice — esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê?
Devia de padecer demais. De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar do vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranqüilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse — se as coisas fossem outras. E fui tomando idéia.

Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido.
Ninguém é doido. Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, sentado à popa.

Estava ali, de grito. Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado, tive que reforçar a voz: — “Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto… Agora, o senhor vem, não carece mais… O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!…” E, assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo.
Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n’água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto — o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia… Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.

Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.

Os Contos dos Quatro Humores: Sangüíneo, o Ar

A velocidade do armut já era conhecida por Veigo, restava a ele se antecipar aos movimentos da fera de relativa inteligência. Algumas armadilhas foram preparadas com antecedência: redes de energia, buracos, espinhos de madeira com líquido paralisante, etc., tudo estava pronto para que o armut sentisse o cheiro adocicado da cascadeira — alimento preferido do bicho —, indo direto para a emboscada. No alto de uma gigantesca árvore, sentado em um dos galhos sem qualquer receio dos mais de 40 metros de altura, o jovem Numaq Veigo aguardava sua presa. Humano de aparência simpática, bastante carismática, sorria para si mesmo durante a espera, olhando com orgulho o caminho que ele mesmo havia criado na tentativa de capturar o armut. Veigo era magro e alto para um humano, tinha aproximadamente 1,88m, porém, era atlético, consequências de sua vida como caçador em Galmori; os olhos e os cabelos eram castanho-escuros puxando bastante para o preto, aqueles expressavam alegria e jovialidade, estes eram como ondas formadas pelo vento, leves e finos.

Em sua mão direita segurava uma lança feita com a madeira da mesma cascadeira que havia usado as folhas para atrair o armut, ele mesmo havia feito a lança enquanto esperava, a madeira da árvore estava entre as três árvores mais resistentes de todo o planeta Galmori.

O som das árvores balançando chamou a atenção de Veigo, fazendo-o girar a cabeça na mesma direção, mantendo firme a lança para o primeiro e único golpe que tinha. O calor da floresta fazia sua testa suar, o sangue fervia com a adrenalina da espera enquanto o coração disparava de excitação. Finos raios de sol que, milagrosamente, atravessavam as densas copas abarrotadas de folhas, assemelhavam-se a um ato de Providência, o caminho feito por Veigo estava estranhamente bem iluminado. Os armut eram bestas com pouca visão, tinham sérios problemas com lugares escuros e, exatamente por isso, buscavam, a qualquer custo, locais bem iluminados. O fato desses raios de sol conseguirem atravessar as copas, para Veigo, era uma incrível coincidência — ou talvez não.

            Estou com sorte hoje! Aí vem ele!, pensou.

O armut estava quase no lugar certo para o ataque, bastava mais alguns poucos metros para Veigo capturar sua maior presa, até o barulho de folhas agitando e cascos trotando cessar. Por que ele parou?, pensou franzindo o cenho. Por instinto, acabou afrouxando a mão que segurava a lança, baixando o braço sem notar que o armut havia lhe desarmado com aquele inesperado movimento. Quando a fera retomou o impulso inesperadamente, Veigo perdeu o equilíbrio com o susto, escorregando um dos pés. Em perfeita sincronia com o erro de Veigo, o armut saltou para fora da densa mata rosnando de fúria, as árvores com troncos mais finos foram varridas pela rígida cabeça que a besta possuía, a baba escorrendo entre os dentes afiadíssimos, avançando contra a árvore em que Veigo estava, agora, pendurado. Pertencendo a uma espécie bastante agressiva, com seu par de presas imensas e afiadas, chifres no focinho e um tamanho considerável, sua pelugem escura intimidava grande parte das outras feras, o armut era perigoso quando enfurecido, podendo caçar sua vítima indefinidamente. Os armuts tinham uma ótima memória.

Como era uma espécie razoavelmente inteligente, a fera percebeu que Veigo estava em apuros e poderia cair a qualquer momento, dando violentas cabeçadas no tronco para agilizar sua queda. Cada investida fazia a árvore sacudir violentamente, semelhante a um tanque. Não demorou muito para que Veigo perdesse as forças e o equilíbrio por completo, caindo em direção aos chifres e dentes da besta.

            Estou morto!, pensou o rapaz, fechando os olhos, certo que apenas um milagre salvaria sua vida. Se houver alguém aí, não importa quem seja, essa seria uma boa hora para aparecer!, pediu em pensamento, acreditando, minimamente, que algo poderia acontecer.

Enquanto caía, Veigo achou a demora para chegar aos chifres do armut muito estranha, a distância entre o galho e o chão não era tão grande assim. Abriu os olhos com receio do que iria ver: grandes dentes e chifres afiados capazes de lhe partirem ao meio com facilidade, no entanto, apesar do armut estar cerca de um palmo de distância, ele não se movia; nada se movia. Estava tudo congelado, como se o tempo tivesse parado, deixando Veigo em pleno ar sem qualquer equipamento para flutuação. Ele era o único que conseguia se mover, na verdade.

— O que está acontecendo? Como o tempo parou do nada? — perguntou a si mesmo, olhando para as próprias mãos enquanto as movia.

Numaq Veigo… — duas vozes, uma masculina e outra feminina, ecoaram em uníssono.  — Numaq Veigo… — as vozes repetiram o nome dele. Diante dos olhos do jovem rapaz uma fenda no espaço foi aberta, revelando um ser que lentamente saía do corte escuro. A fenda se expandiu para um grande buraco negro aparentemente sem fim; havia apenas o vazio e aquele ser dentro dele. A entidade tinha forma humana feminina, mas apenas seus pés e suas mãos estavam expostos, o resto do corpo era coberto por um manto feito do que parecia ser uma sombra viva, movendo-se como uma fumaça espessa; a pele era branca e delicada; o rosto estava coberto por uma máscara também branca de expressão alegre, com um largo sorriso cobrindo grande parte do rosto e olhos que acompanhavam a alegria.

— Quem… quem é você? — o medo estava estampado no rosto de Veigo.

Olá, jovem Veigo! ­Eu sou Árimah, uma das quatro Deusas dos Humores — ela flutuou para perto dele. — É de mim que os sanguíneos obtêm sua estrutura mineral ao nascerem — com um estalar dos dedos a deusa fez o corpo de Veigo flutuar lentamente até o chão, colocando-o de pé.

            Deusa? Do que ela está falando? O que é isso de “sanguíneos”?, Veigo estava de boca aberta e completamente perdido enquanto era movido por uma força desconhecida, não sabia como reagir. Será que eu morri? Ou isso é um son…

            — Isso não é um sonho, Numaq Veigo — a deusa acabou antecipando a conclusão do rapaz. — Sua falta de fé é perturbadora, mortal.

— Você leu a minha mente?! — indagou o rapaz.

Não preciso ler a sua mente, meu jovem, eu sei tudo sobre você: o que houve, o que há e o que haverá — ela tocou a testa de Veigo com o indicador e uma cachoeira de imagens desabou sobre o rapaz. Eram lembranças antes da infância dele, muito antes mesmo dele ter nascido, quando ainda era um feto na barriga da mãe, depois um simples espermatozoide percorrendo um longo caminho; então houve um clarão tão forte que Veigo perdeu a visão por um tempo, foram apenas alguns segundos até tudo voltar ao normal e ele ser jogado para o que parecia ser o futuro. Diferente de antes, onde as imagens eram claras e discerníveis, agora tudo estava borrado e confuso, com muitas vozes falando ao mesmo tempo, barulhos de risadas e metais colidindo, gritos de sofrimento e urros de vitória. Não era possível ver os rostos das pessoas, nem identificar o lugar onde elas estavam, mas Veigo sentiu a beleza, a paz e a harmonia reinando no ambiente; era alegre e descontraído, um lugar que ele pensou valer a pena morar e lutar. Às vezes, sem aviso, as imagens piscavam como um holograma defeituoso ou com sinal distante, dando vez para cenas totalmente distintas, com pessoas gritando, sons de explosões, veículos marchando, lasers, metal colidindo. Num desses momentos, Veigo vislumbrou quatro pessoas, não dava para identificar quem eram, mas elas usavam armaduras brancas. Estavam sobre um monte, cada um segurando um estandarte com dois símbolos que o jovem rapaz desconhecia. Quando Árimah se afastou de Veigo as imagens sumiram por completo, não restou nenhum rastro de que aquilo tinha realmente acontecido. Ele estava ofegante, o suor escorria sobre os olhos, o cansaço era evidente. Exausto, desabou de joelhos sobre o chão coberto por um tapete de folhas secas.

— Isso foi… isso foi a minha vida? Era o meu futuro?! — questionou quase sem fôlego.

Sim, essas foram imagens da sua vida, do passado ao seu futuro. Porém, o futuro nunca é engessado, mas fluido — ela flutuou ao redor de Veigo. — Até mesmo nós, as deusas, não podemos interferir no futuro, mesmo que ele se apresente para nós por completo, isto é, que nós saibamos como ele será, não nos demos a permissão para alterá-lo — dessa vez ela flutuou para o alto, ficando alguns metros acima de Veigo. — Fizemos isso para que vocês, mortais, pudessem mudar seu futuro.

— Vocês se impediram de mudar o futuro para que nós pudéssemos mudá-lo? — a indagação soou mais para si mesmo do que para a deusa. — Por quê?

Ora, Veigo, a resposta é simples: porque nós os amamos — Árimah soltou uma risada sincera e, voando até Veigo, fez um gesto com o indicador de baixo para cima; a resposta ao gesto veio com o corpo do rapaz flutuando até ficar de pé novamente.

— Vocês nos amam? Mas grande parte de nós nem sequer sabe da existência de vocês, como podem amar alguém ou algo que sequer retribui o sentimento? — era uma pergunta genuína, mas naturalmente mortal e peculiarmente humana. Árimah soltou outra risada, colocando as mãos na cintura e jogando a cabeça mascarada para trás; por fim se recompôs.

Você é realmente interessante, Numaq Veigo — atestou. — Mas ainda é mortal. Todo o Bem que há em você, não importa ele qual seja, em mim é infinito e puro. Em você é finito e amalgamado. O amor que você conhece, esse sentimento tão forte principalmente na sua raça, é uma fração, uma extensão de nós, deusas. Isso é uma consequência de viver sob a égide da temporalidade: tudo é passageiro, efêmero, nasce e morre. Nós, por outro lado, estamos sob a égide da atemporalidade, acima do tempo, não há passado ou futuro, pois tudo é presente. Não há nascimento e morte, mas tudo é — quanto mais Árimah explicava mais Veigo ficava interessado. Ela tinha um jeito de falar que lhe agradava, atraía, fazia brotar um sentimento de acolhimento e proteção, como entre uma mãe e um filho. O rapaz surpreendeu a si mesmo com um sorriso de orelha a orelha, os olhos brilhavam, o som da voz dela era aveludado, sua presença era aconchegante, até mesmo o paladar de Veigo despertou com um doce gosto adocicado. E em transe ele ficou, em silêncio, observando Árimah contar tudo o que queria. Ao fim da história, acordado do caloroso sentimento, ela o perguntou:

Não posso continuar nesse plano por mais tempo, Veigo. Está na hora de você tomar uma decisão importante que mudará completamente a sua vida. Sente-se — ela pediu, flutuando até o rapaz, parando diante dele. Veigo assentiu e sentou sobre um velho tronco próximo. — Minha vinda até você não foi acidente ou o destino, mas uma escolha minha. Há mais de 300 anos mortais que não nos manifestamos para vocês. A história é longa e não posso explicar tudo, mas digamos que houve um desligamento entre vocês e nós.

            — Como assim?

Lembra que eu lhe falei sobre a imposição que as deusas colocaram em si mesmas sobre o futuro de vocês? Então, nós demos a vocês, mortais, algo precioso e inegociável: o livre-arbítrio. Graças a isso, não cabe a nós, seres divinos, forçar os mortais a crer em nós, a conversar conosco, a ter fé. Isso deve vir de vocês livremente, por vontade própria — Árimah afastou-se de Veigo.

— Mas o que isso tem a ver comigo?

Você é uma das chaves que permitirá o religamento da união entre os mortais e as Deusas dos Humores.

— O que são esses humores?

Os humores são os temperamentos. Novamente questiono: lembra que eu disse que os sanguíneos retiram de mim sua estrutura mineral?

— Sim, eu me lembro.

Pois então… “Sanguíneo” é um dos Quatro Temperamentos existentes em todos os seres mortais com inteligência. São seres com grande capacidade de expansão, eles envolvem todos ao seu redor, são criativos, sociáveis e gostam de conversas e, principalmente, estão sempre a serviço do outro, ouvindo e dando a devida atenção mesmo que o outro seja um total desconhecido. Porém, é no conforto das amizades que o sanguíneo se realiza, sendo a vida do grupo, aquele que lubrifica todas as engrenagens para que elas não parem jamais. O Ar é o elemento que o representa, porque é expansivo e envolvente, não tem uma forma certa, mas está sempre em movimento, sempre no alto, permeia tudo — o entusiasmo de Árimah condizia com o humor ao qual fora atribuído a ela. — Além dele, meu caro, também há o Colérico, o Fleumático e o Melancólico. Para cada um dos temperamentos existe uma deusa que é sua causa primeira.

            — Então quer dizer que eu sou sanguíneo? Quer dizer, se você é a deusa ao qual o temperamento sanguíneo retira sua estrutura, e veio até mim, quer dizer que escolheu alguém que tenha esse temperamento, certo? — a indagação de Veigo estava mais para uma tentativa de organizar as próprias ideias, mas ele acabou soltando como uma pergunta.

Você está perfeitamente correto, meu rapaz — ela não conteve a gargalhada. — Eu estava certa em ter escolhido você para a tarefa. Sinto-me aliviada! Apesar de avoado, você é inteligente.

            — Que tarefa? — curioso, arqueou a sobrancelha desconfiado.

Ops! Acho que falei demais — gargalhou ainda mais alto. — Você será o meu Profeta, aquele que falará em meu nome aqui nesse plano, será o fio condutor entre o sagrado e o mundano. Mas, como eu já expliquei, não posso obrigá-lo a aceitar, você é livre para escolher.

— Profeta… — o olhar de Veigo estava distante, fitando alguma coisa no chão, mas ao mesmo tempo não olhando para nada. — Terei que ir embora de Galmori? — fitou Árimah.

Sim. Se você concordar em ser meu Profeta, precisará sair deste planeta. Conhecerá outros mundos, outras pessoas, grandes homens e mulheres, mas também terríveis e cruéis. Você sorrirá pelas vidas salvas e novas, mas também chorará pelas mortes prematuras e irrevogáveis. Será caluniado, humilhado, traído por quem se dizia amigo, mas também será erguido em ombros, respeitado, louvado como um herói e se surpreenderá com inimigos virando amigos.

Veigo refletia sobre as palavras de Árimah balançando a perna freneticamente, visivelmente nervoso e indeciso. O coração estava acelerado; sentia medo de sua escolha: se aceitasse, colocaria sua vida em risco, não era um guerreiro nem tinha o físico para tal, por isso costumava evitar certas circunstâncias que lhe colocassem em situação humilhantes; no entanto, se decidisse recusar a oferta, sentia que iria se arrepender de poder construir uma nova vida, uma nova história, de enfrentar seus medos, suas dúvidas e incertezas tão constantes.

A ebulição de emoções lhe embrulhara o estômago, e Veigo vomitou tudo o que havia comido naquela manhã, várias e várias vezes até não sobrar mais nada no estômago. Limpou a boca com um lenço que estava no bolso e levantou-se.

— Desculpe por isso.

É compreensível.

            — Eu… eu aceito — engoliu seco sentindo o gosto do vômito.

Hahaha! É assim que se fala, Veigo! — exclamou Árimah. — Esse é o retorno do religamento entre mortais e divindades, depois de muitos anos… Eu, Árimah, uma das Quatro Deusas dos Humores, dou minha bênção a você, Numaq Veigo, e o nomeio como meu Profeta de hoje até os teus últimos dias. Quatro é Um e Um são Quatro!

Uma forte luz saiu dos olhos de Árimah, tão forte e expansiva que deixou Veigo novamente sem enxergar. Quando a luz cessou, os olhos dele foram retomando a visão normal, acomodando as coisas novamente. Ao fim, com tudo aparentemente normal, Árimah tinha sumido e o armut estava caído ao lado da árvore. O tempo havia voltado ao normal, as folhas balançavam, o vento soprava e as aves cantavam. Veigo deu uma última olhada ao redor, agora não tão certo de que aquilo fora realmente real.

— Talvez a minha queda tenha o atordoado…

Avistou sua lança ao lado do armut e foi até lá para pegá-la, ao se abaixar e esticar a mão, percebeu que havia um símbolo em preto pintado no dorso da mão direita: uma pirâmide com um corte horizontal poucos centímetros do topo. Esfregou a região na tentativa de retirar, achando que não passava de alguma sujeita, mas não deu certo. O símbolo fazia parte da pele de Veigo e só seria retirado se a pele fosse retira junto.

— Bom… acho que isso confirma que não foi um sonho. E isso é um grande alívio — sorriu.

Os Contos dos Quatro Humores: Colérico, o Fogo

O ruído de metal sendo soldado, cortado e batido era misturado com vozes, gritos e gargalhadas ressoando em todo o galpão. Grandes armários e prateleiras de ferro estavam soltas sem nenhuma organização prévia, com poças de óleo no chão, faíscas voando, ruídos de ferramentas se chocando umas nas outras… o lugar era uma algazarra.

Duas vastas linhas de pilastras que apontavam em direção à saída impediam que o teto desabasse, altas o suficiente para facilitar a locomoção pelos andaimes, e também resistentes para suportar todo aquele peso maciço. Espalhados por todo lugar haviam enormes máquinas triangulares feitas de metal Kyr pintadas de vermelho-sangue, os cascos completamente fechados com somente uma pequena abertura metros acima do bico em forma de broca — era por ali que o piloto enxergava.

Do alto do teto pendiam grandes soldas presas em tubos de energia bem acima dos veículos com vários humanos machos puxando ou arrastando a ponta avermelhada que lembrava uma gigantesca agulha de fogo.

— Thylon, quantas vezes eu já falei para não puxar a solda desse jeito? — disse um dos homens mais ao fundo da oficina; tinha a estatura baixa, mas o corpo era bastante musculoso; estava completamente sujo de óleo e marcas de queimadura nos braços e no rosto. Usava um macacão preto sem mangas — notadamente ele mesmo havia cortado por que os fios irregulares se soltavam — que cobria todo o corpo; a roupa oferecia uma proteção para cabeça, mas também foi removida, deixando apenas um grande par de óculos de lentes escuras que servia para proteger os olhos do fogo expelido pela solda. Era um homem de idade avançada, mas bastante conservado.

— Não enche o saco com seus sermões de merda, Kigi! — exclamou o rapaz poucos metros à frente. — Não tenho mais tempo para eles! — Thylon era bem mais novo que Kigi, tinha cabelos dourados quase raspados, olhos azuis e uma expressão triste; assim como Kigi, vestia o macacão preto e usava óculos para proteção, mas diferente do colega mais velho, as mangas do macacão estavam intactas, assim como a máscara de proteção. Era bem mais alto que Kigi, por sinal, porém menos musculoso. — Eu não tenho espaço para virar a maldita solda, então preciso força-la — puxou a ferramenta ao ponto do tubo se chocar com as passarelas, causando um forte barulho seco e oco. — Merda de solda pequena! — resmungou.

— Cuidado com a boca, moleque!  — a veia na testa de Kigi saltou. — Toda vez você diz a mesma coisa, mas por sua causa já mandamos consertar três soldas! Acha que temos tanto dinheiro e tempo para perder? Acha que é o único com pouco espaço, moleque mimado?

— É a verdade, velho maluco! Não faço isso de propósito! Se você não acredita, o problema é seu — apontou a solda para Kigi. — Eu tenho o direito de reclamar como todo mundo aqui; trabalho a mesma quantidade de horas que todos, às vezes bem mais que muitos! — Thylon sacudia a solda enquanto bradava, irado, com os colegas próximos. Quando finalmente se acalmou. — Agora me deixe trabalhar, tenho muito o que fazer! — deu as costas puxando a solda para fechar uma rachadura no casco do veículo.

— Não me dê as costas, Thylon, e pare de ficar se vitimizando. Em todo lugar encontramos pessoas com mais ou menos dificuldades que as nossas, então pare de olhar para o próprio umbigo feito uma criança que não ganhou o presente que queria! — a voz de Kigi ecoou tão alto e forte que cobriu todo o barulho de metal; os outros trabalhadores tinham interrompido o trabalho para ouvir. As mãos calejadas de pequeno homem largaram a solda e ele desceu do veículo-escavador em direção ao colega — Quem você pensa que é? Engula esse seu egoísmo de merda e faça o seu trabalho com o que você tem sem encher o saco dos outros!  — outra veia da testa de Kigi saltou, desta vez no lado esquerdo; ele abriu os braços como se falasse com os outros trabalhadores do alto de um púlpito; era um gesto simbólico que Thylon foi forçado a se segurar para não avançar sobre o colega.

— Você ainda continua falando, velho? Não cansa de bancar o homem maduro quando nem ao menos conseguiu manter o próprio casamento? Não dê lições de moral quando sua própria vida é o exemplo de fracasso.

— CALEM-A-DROGA-DA-BOCA! — outra voz bradou como um trovão, feroz e poderoso o suficiente para rivalizar com os sons agudos de metal batendo, cortando e soldando. Thylon e Kigi baixaram a cabeça na mesma hora, já sabendo que estavam com problemas.

— Reblas, desculpe por isso, mas o… — Thylon sequer conseguiu terminar a frase e novamente foi interrompido.

— Você é surdo, Thylon? Eu já falei para calar a boca! — exclamou, vendo o funcionário erguer as mãos pedindo calma. Reblas era um homem maduro, de corpo esbelto, não tão forte quanto Kigi, mas sua altura lhe proporcionava uma divisão melhor dos músculos. Os cabelos negros e lisos eram penteados para trás, quase lambidos, muito bem cuidados; os olhos eram tão escuros quanto os cabelos, mas sem dúvida muito mais cheios de vida, convergindo bem com seu rosto expressivo; a jaqueta vermelha de couro aberta, que lhe caía bem, cobria a camiseta simples por baixo; as caças eram de tecido mais justo e nos pés um par de botas cano relativamente longo. No peito esquerdo da jaqueta dava para ver em letras bordadas: Lak Escavações, bem acima do desenho de uma pirâmide cujo topo formava uma broca.

— Estou cansado de ouvir vocês dois brigando toda semana! Por acaso são crianças? — Reblas estava dentro de uma cabine localizada mais à direita, abaixo das passarelas, mas acima das máquinas e dos trabalhadores. Da janela a vista era privilegiada, garantia uma vista ampla de todo a oficina.

— Então é melhor que o Kigi me deixe trabalhar em paz.

Os olhos de Reblas estreitaram por alguns segundos, fixos em Thylon como uma fera fitando sua presa. As mãos, apoiadas sobre base da janela, apertaram com força a borda de maneira; os ombros de Reblas tensionaram, assim como seus braços.

— Sabe qual é o seu problema, Thylon? Você se comporta como se o mundo e os outros devessem algo a você — os dentes de Reblas também tensionaram, dava para notar a rigidez em seu maxilar. Respirou fundo antes de retomar sua fala e, por pura força de vontade, o corpo foi relaxando — Ninguém deve nada a você! — gotas de saliva voaram quando Reblas rugiu como um animal selvagem. Thylon não teve reação, estava paralisado pelo medo.

Todos os trabalhadores, sem exceção, interromperam suas atividades quando ouviram o berro do chefe; até mesmo os mais antigos, que estavam com Reblas desde a fundação da empresa, sentiram, por pura intuição, que deveriam ficar quietos; não era uma reação comum para todos eles, inclusive os mais antigos.

— Enquanto você reclama por bobagem, os outros precisam trabalhar cinco, dez, vinte, até mesmo uma hora a mais para cobrir o seu tempo desperdiçado! — ouviu-se o som abafado do metal se chocando contra o punho de Reblas de longe — Não importa se você acha ruim, se o Kigi começou, se isso cansa, se você não gosta dele… tudo o que importa aqui é que você aceitou o trabalho livremente. Ninguém o forçou a estar aqui e não estou o explorando como a maioria das empresas de escavações — mais uma vez Reblas respirou fundo para se acalmar; o punho vermelho estava de volta à janela. — Meus contratos são justos, mas se não está feliz aqui, procure emprego em outro lugar — apenas a voz de Reblas era ouvida, mesmo após o fim do sermão, ninguém ousou falar absolutamente nada, nem mesmo Thylon, ainda assustado com o que viu e ouviu.

— Chefe… — a voz falhou e Thlon engoliu seco; sua cor estava mais pálida e os olhos pareciam perdidos, não conseguiam se concentrar em um ponto fixo — eu não quis dizer que não gosto de trabalhar aqui, foi apenas uma maneira de dizer… foi o cansaço talvez… não sei… vamos deixar isso pra lá, tudo bem? Vou voltar ao trabalho.

— Essa foi a coisa mais inteligente que você disse hoje, Thylon — fitou o funcionário por um tempo antes de voltar a atenção para os demais trabalhadores — Voltem ao trabalho!

— Ah! Antes que eu esqueça… — Reblas olhou para Thylon. — Se você quebrar mais uma solda, vou fazer pior que descontar do seu pagamento, talvez eu mande uma hologravação para Shiima com as notas fiscais de todas as soldas que você quebrou.

— Também não precisa apelar, chefe! — reclamou. — Eu estou morto se Shiima souber!

— Então quer dizer que sua esposa não sabe? — Kigi deu uma gargalhada tão alta que outros funcionários foram contagiados. — Não vou deixar essa informação passar em branco.

— Chega de conversa! Voltem ao trabalho! — Reblas gritou, recolhendo-se para dentro da cabine e fechando a janela. Estava segurando o que parecia ser uma bola pequena numa das mãos, atento a uma tela virtual que flutuava no ar sobre uma luz em forma de cone emitida por um cubo transparente.

Problemas? — uma voz trêmula e robótica saiu da tela.

— Não foi nada.

Então vamos continuar.

— Mantenho a oferta de 5.000 denários pela T-500.

Já falamos sobre isso, Reblas, o valor está abaixo do mercado, e eu garanto que você não vai encontrar outra broca T-500 pelo valor que estou oferecendo.

            — Não tenho como oferecer mais do que isso, Konon, sem contar que a broca já é usada. Minha contraproposta é pagar o que você quer, mas pelo tempo que pedi — jogou a bola contra a parede que a rebateu, voltando para as mãos de Reblas num piscar de olhos.

Dois anos-setorial? Impossível! — retrucou a voz.

— Então não tem negócio. Por mais que eu precise dela, ainda tenho outras brocas e posso procurar o Ravir para negociar — aquele simples nome fez Konon esbravejar.

Tsc! Aquele ignorante? Não venha com essa! — ouviu-se um risinho de escárnio. — Não admito perder um cliente para aquele infame, ainda mais você! Façamos o seguinte: me dê 5.200 denários e a broca é sua!

— É assim que se fala! — sorriu, transferindo o dinheiro pela tela flutuante. Houve um som de alguma coisa sendo processada e então um “Pim!” seguido por um pequeno quadrado verde no centro da tela com as palavras: Transferência Finalizada. — O valor já está na sua conta. Já sabe para onde mandar o equipamento. Qual o prazo?

Certo… recebido — confirmou. — Deixa-me ver aqui… um, dois… — a voz ficou em silêncio por alguns segundos — em no máximo uma semana.

— Ótimo! — Reblas deu a volta para sentar na cadeira atrás da mesa. — Foi bom fazer negócios com você, Konon — despediu-se.

Você é um safado de um esperto, mas é um dos meus melhores e fieis clientes, não posso reclamar muito — a voz soltou uma risada. — Até mais, Reblas! Avise-me caso precise de mais alguma coisa — a voz se desconectou e a tela flutuante foi recolhida quando o cone de luz sumiu.

A cadeira rangeu quando Reblas sentou, forçando o espaldar para se espreguiçar, bocejando. O corpo todo estava tenso e dolorido devido ao longo tempo sentado; os olhos já estavam pesados àquela altura, até Reblas finalmente cair no sono.

O som da holochamada o acordou, fazendo-o saltar da cadeira com o susto. Olhou a hora na tela flutuante já ativada, era tarde e ele deveria ter ido embora. O ruído do comunicador não parava de soar, mas Reblas preferiu não atender.

Toque o quanto quiser, pensou, pegando a jaqueta sobre a mesa e seguindo em direção à saída.

Não vai atender, Lak Reblas? — disse a voz no holocomunicador que, em verdade, eram duas, uma masculina e outra feminina. Reblas virou em direção a mesa totalmente assustado. Não seria possível o equipamento ter feito o autoatendimento, ele não possuía essa função desde quando seu antigo dono a retirou.

Se não atender, serei forçada a ir até aí — ameaçou a voz, mas Reblas permaneceu em silêncio, aproximando-se do holocomunicador devagar, em passos curtos e quase inaudíveis. Próximo o bastante para tocá-lo, tomou outro susto.

Acha que não estou ouvindo você, Lak Reblas? Eu ouço, vejo e sinto TUDO! — as palavras do holocomunicador paralisaram Reblas por um momento, no entanto, não o suficiente para amedrontá-lo.

— Isso é algum tipo de brincadeira? Quem é você? — indagou. — É você, Méjja? Se for vo… — não deu tempo de continuar a frase, Reblas teve a sensação de que algo no ar estava diferente. No mesmo instante o espaço foi rasgado, bem ali, na frente da mesa dele, diante dele. A fenda era tão escura que não dava para saber o que havia do outro lado, ao menos não até duas mãos, dois braços e todo o corpo de uma mulher atravessar, como se um pedaço daquele breu estivesse ganhando vida.

Os olhos escuros de Reblas não piscavam, estavam esbugalhados; toda a face havia perdido o rubor e Reblas sentiu o corpo transpirar mais que o normal. Deixou a jaqueta cair sobre os próprios pés devido ao susto. A mulher tinha quase todo o corpo coberto por um manto incrivelmente escuro, com tiras negras que flutuavam se assemelhando à roupas desfiadas e as mãos, delicadas como seda, estavam amostra; o rosto era coberto por uma máscara branca com um sorriso de orelha a orelha, além dos olhos com expressões ferozes e audaciosas.

— Isso é um sonho? — indagou Reblas enquanto tocava o próprio corpo.

­Eu sou Íbilis, uma das quatro Deusas dos Humores — disse sem dar atenção a pergunta dele. — É de mim que os Coléricos obtêm sua estrutura mineral ao nascerem — afirmou, afastando os braços num gesto de autoelogio.

— Deusas dos humores? Você é uma deusa? — a entonação da palavra “deusa” saiu junto com um risinho de incredulidade, causando uma reação tensa de Íbilis.

Está zombando de mim, mortal? — disse se aproximando de Reblas, a mão se erguendo poucos metros antes de alcançar seu alvo, fazendo Reblas flutuar alguns centímetros do chão e voar em sua direção tão rápido que o deixou tonto. O encaixe da palma de Íbilis sobre o pescoço do rapaz foi perfeito, quase natural. Reblas tentou se desvencilhar, mas nada do que fazia era o suficiente, não tinha força para se soltar e não conseguia acertar um chute na mulher porque seus pés paravam antes de alcança-la.

— Tu-tu… tudo… be-bem… — balbuciou em desespero, o rosto completamente vermelho, bem diferente da palidez anterior. Íbilis por fim o largou.

Não sou como minhas irmãs, mortal, então tome cuidado com o que sair de sua boca enquanto estiver diante de mim! — exclamou. Seu ficou tão próximo ao de Reblas que o humano sentiu vontade de reagir, mas sua notável força de vontade o conteve.

— Tudo bem, Sra. Deusa dos…

Íbilis. Me chame de Íbilis.

— Certo… Íbilis. O que você quer de mim — por mais estranho que isso seja? — a voz falhou ligeiramente devido a dor na garganta. Reblas massageava toda a região com desconforto.

Direto ao ponto. Gosto disso. Sente-se — não esperou a resposta antes de erguer Reblas no ar com um único gesto, repousando-o sobre a cadeira.

Os humores são os temperamentos. O temperamento é a estrutura básica que forma toda a psique dos seres com inteligência, isto é, todos os seres inteligentes da galáxia possuem um ou mais temperamentos. No entanto, a imensa maioria possui um em destaque. Ora, o temperamento é responsável pelo modo como cada ser compreende o mundo ao seu redor, ou seja, todos recebem impressões do mundo e, naturalmente, devolvem essas impressões de uma maneira muito específica. Portanto, um melancólico não reagirá de forma natural diante de alguma circunstância do mesmo modo que um colérico, sanguíneo ou fleumático. Cada humor tem características específicas, apesar de serem apenas quatro.

— Hum… e qual seria o meu temperamento? — indagou ainda com a voz fraca.

Como a deusa ao qual os coléricos obtêm sua estrutura, e por ter vindo especificamente por sua causa, fica evidente que você é um ser de temperamento colérico — predominantemente colérico. Em você vejo a capacidade para liderar os seus, de guia-los rumo à verdade e de protege-los quando em perigo; vejo o ímpeto que o faz confiar nas suas escolhas, não se importando com as opiniões dos outros, porém, sem a arrogância ditatorial nem a rigidez da ira. Você é aquele que trouxe o fogo e, como tal, deve ser aquele quem os outros devem seguir. O fogo queima, mas o fogo aquece, e as duas coisas são fundamentais.

— Você é a deusa que representa os coléricos?

Não… eu sou a origem do qual os coléricos são coléricos — corrigiu.

— Então — levantou-se —, você é uma deusa que possui três outras deusas como irmãs, e cada uma é origem dessa estrutura psíquica ou mental de todos que você chama de temperamento, é isso? — não havia desdém nem zombaria nas palavras.

Correto.

— Eu aceito.

Tem certeza?

            ­— Sim.

Por que aceitou tão rápido?

— Meu avô contava estórias sobre você e suas irmãs e tinha fé nas suas existências — um pequeno sorriso se formou. — Fui criado por ele e adorava essas estórias, mas elas foram muito mais do que simples estórias para mim.

Eu lembro do seu avô, era um homem bom, cheio de energia, seu enorme coração lhe permitia olhar o próximo com empatia honesta, e isso o tornava adorável aos olhos de todos. Um legítimo Sanguíneo! — flutuou para frente. — Seu avô o educou bem, Lak Reblas. Vejo que fiz a escolha certa — Íbilis fez uma reverência.

— Ele era realmente o melhor dos melhores — suspirou. — A honra é minha em ter sido escolhido — retribuiu a reverência. — Quatro é Um e Um são Quatro — disse, sorrindo para Íbilis que não conteve a risada.

Esse é o retorno do religamento entre mortais e divindades, depois de anos de silêncio. Eu, Íbilis, uma das Quatro Deusas dos Humores, dou minha bênção a você, Lak Reblas, e o nomeio como meu Profeta de hoje até os teus últimos dias. Quatro é Um e Um são Quatro!

Houve um intenso brilho vindo dos olhos de Íbilis, forte o bastante para ofuscar tudo ao redor, cegando Reblas por alguns segundos e o acordando em seguida. Ele havia caído da cadeira por ter feito força demais para trás enquanto dormia.

— Foi um sonho? Mas pareceu tão real… — aquelas eram nítidas palavras de lamento. Levantando-se, colocou a cadeira no lugar e arrumou rapidamente a mesa, percebendo sua jaqueta mais ao canto. Foi até lá, inclinou-se e esticou a mão para pegá-la até notar uma mancha escura no dorso de sua mão: três linhas de tamanho idêntico, todas em posição vertical, com a linha central ligeiramente abaixo das outras duas. Instantaneamente Reblas começou a rir.

— Eu sabia que não era um sonho! — exclamou.