A sentença final

A sentença final

A notícia do crime bárbaro se espalhou rapidamente pela pacata cidadezinha, deixando a todos perplexos diante de tão inesperado e terrível acontecimento: um homem, que todos imaginavam acima de qualquer suspeita, sequestrou, violentou e matou uma pobre garotinha de apenas 13 anos. A investigação policial, logo após a notícia do desaparecimento da menina, e auxiliada por uma denúncia anônima, rapidamente levou à descoberta da identidade do suspeito: um cidadão comum, funcionário público, sem passagens pela polícia. Ao ser encontrado, não ofereceu resistência, e se entregou aos policiais, sendo conduzido para a prisão. Passados alguns dias, foi levado ao fórum da cidade para prestar seu depoimento diante do júri. E faria isso com uma fria riqueza de detalhes, impressionando a todos.

No dia marcado, uma multidão exaltada apareceu para acompanhar o desfecho daquela trágica história. Quando a viatura chegou ao fórum, e o prisioneiro saiu escoltado por dois policiais, os gritos e xingamentos do povo indignado logo se fizeram ouvir: “Assassino!”; “maldito, merece a morte!”; “vai pro inferno seu nojento!”, e outros tantos inomináveis palavrões, que raramente se ouvia da boca daquela gente simples. A família da vítima — formada pelo pai, a mãe e um irmão mais velho — chegou cedo ao local, para poder finalmente entender a razão disso tudo, e poder olhar nos olhos daquele que tirou, de forma tão desumana e doentia, a vida da sua caçula tão preciosa: Ana era o seu nome, em homenagem à querida avó já falecida.

Durante o depoimento, perante o juiz, advogado, promotor e os jurados, o criminoso confessou todos os detalhes de como encontrou e sequestrou Ana na saída da escola, o que fez com ela no seu cativeiro, e como finalmente a matou depois de alguns dias (detalhes esses que não comentarei aqui, para não chocar os corações mais sensíveis). E depois de tudo confessar perante o tribunal, não demonstrou arrependimento, permanecendo com a cabeça baixa, mas tinha a voz calma e perturbadoramente serena, o que chocou a todos, principalmente, aquela família humilde. Era nítido no rosto daquelas pessoas a indignação, a revolta e a dor de sofrer uma perda dessas: está além das palavras.

Depois de concluído o processo, foi lida a sentença pelo juiz: 20 anos de reclusão. Após a martelada final do Meritíssimo, os policiais o retiraram da sala e o encaminharam para a sua cela solitária da prisão. Nesse instante o irmão mais velho — revoltado e totalmente fora de si — tentou atacar o assassino, mas sua tentativa foi em vão, sendo logo contido por seu pai e por um policial. Fez-se um grande alvoroço, e todos puderam ver a revolta e o ódio estampado em seus olhos. Acredito que, se não o tivessem segurado a tempo, teria matado o assassino com suas próprias mãos ali mesmo. Mas, ainda muito transtornado e inconformado com o destino — o seu ver ameno daquele homem — o irmão da menina assassinada proferiu de sua boca a sua própria sentença para o condenado:

— “Assassino! A minha irmãzinha não merecia isso seu doente! Que o diabo lhe carregue!” — Foram estas as suas palavras.

Depois de acalmados os ânimos, o condenado foi enfim levado para a sua cela, isolado dos outros presos, e lá ficou em silêncio, continuando com sua atitude de não falar nada, e a cabeça sempre baixa.

* * *

Na manhã seguinte, quando os guardas levaram a sua refeição matinal, ao abrirem a cela, uma surpresa chocante: o assassino estava morto. Foi encontrado caído no chão, os olhos arregalados, a boca aberta escorrendo saliva, e uma horrível expressão de pavor estampada no rosto já frio. O laudo médico após a autópsia constatou um infarto agudo, o que surpreendeu a todos, pois aparentemente ele tinha boa saúde. Para os guardas da prisão e os médicos que viram seu corpo — a julgar pela expressão de seu rosto — ele tinha morrido literalmente de medo. Alguma coisa o deixou tão aterrorizado que seu coração não resistiu.

Realizou-se uma investigação. Os outros presos relataram, em seus depoimentos, que durante a noite ouvira gritos horripilantes vindos da cela do assassino, além de batidas na porta como se ele tivesse, em desespero, tentado fugir dali. A cela onde passou suas últimas horas foram minuciosamente examinada pela perícia e nada foi encontrado, a não ser por um estranho detalhe: ao abrirem-na, sentiram um fedor muito forte de enxofre. A sentença final estava cumprida.

* * *

O dia que tive tudo que sempre quis

Olá meu nome é Henrique tenho 17 anos e moro em Euclides da Cunha, uma cidade do interior da Bahia, mas isso não importa agora. Olha sei que esse início está bem chato, provavelmente monótono, e com certeza você pensa que sou apenas um garoto normal. Bem tenho que te dizer uma coisa: não existe essa coisa de normal, todos temos um lado louco.

Acho que vou recomeçar. Oi, de novo, meu nome é Henrique tenho 17 anos, e um dia realizei todos os meus sonhos. Mas antes de começarmos preciso que pense em seus sonhos, por mais loucos ou improváveis que sejam. Pensaram? Pois bem, então vamos nessa.

Tudo começou em uma manhã de quarta-feira. Acordei tomei café da manhã, escovei os dentes e fui pra escola, até aí tudo normal. Bom, só até eu começar o meu triste e solitário trajeto até a escola. Estava lá eu, caminhando pelas ruas da minha cidade quando eu vi um homem fazendo um show de rua. Eu sei, qual o absurdo disso? É que não era um show normal, já que tal homem estava dançando com uma porta.

Isso mesmo uma porta, nunca na minha vida tinha visto algo tão estranho. Porém, o que me parecia o cúmulo do absurdo foi as pessoas pagando e aplaudindo o show. Após alguns minutos decidi continuar meu trajeto, torcendo para nada estranho acontecer, para minha sorte cheguei na escola sem encontrar nada fora do normal.

Quando eu estava esperando o portão abrir, percebi que o porteiro estava conversando vivamente com outro homem, logo pensei que era algum amigo dele, mas quando eu vi o rosto do tal homem adivinhe. Meus parabéns se você falou que era o cara da porta, primeiramente fiquei surpreso, depois comecei a pensar e só consegui elaborar três possibilidades: a primeira era que ele era muito rápido, a segunda ele tinha um irmão gêmeo e a terceira e mais assustadora, era que esse homem estava me seguindo.

Foquei na última possibilidade e tentei descobrir o motivo da perseguição, porém fui interrompido quando o sinal da primeira aula tocou. Decidi na hora que entrei na sala que aquilo era uma mera coincidência e me concentrei na minha aula favorita: química. Na segunda aula senti vontade de ir ao banheiro e pedi ao professor para sair, ele deixou eu ir, mas falou para não demorar.

Eu fui o mais rápido que pude ao banheiro porque não queria perder o tempo precioso da aula de química, e claro também não queria levar uma boa bronca. Você deve estar se perguntando porque diabos estou narrando minha ida ao banheiro, pois bem vou explicar. Lembram daquele homem fazendo seu show estranho na rua, que reencontrei na minha escola, pois então imagine o susto que levei quando encontrei ele dentro do banheiro olhando diretamente para mim.

Para mim já bastava, com certeza esse cara estava me seguindo, só tinha essa possibilidade. Era praticamente impossível encontrar uma pessoa três vezes seguidas em locais diferentes e em pouco tempo. Mas as coisas só começaram a piorar depois que o tal homem começou a falar.

— Olá Henrique meu nome é Dream.

— O que você quer?

— Eu tenho te observado.

— Isso explica porque te encontrei três vezes hoje. Mas não explica o motivo dessa perseguição.

— Ora, isso eu posso explicar.

— Então comece porque não tenho muito tempo.

— Eu venho da terra dos sonhos, e vim com a missão de realizar todos os seus sonhos.

Nessa hora comecei a dar risada, porque aquilo era muito maluco, provavelmente esse cara devia estar drogado ou bêbado. Porém, minha risada e cara de deboche não surtiu efeito algum porque o cara ficou com a mesma expressão de alegria no rosto.

— Você pode não acreditar Henrique, mas é a mais pura verdade.

— A claro que é. Só que quero uma prova.

Decidi entrar naquele jogo só para ver onde isso iria parar.

— Eu sei o que mais deseja. Você quer uma fortuna para comprar tudo que quiser, e mesmo assim continuar rico, eu sei que quer poder controlar as horas para não perder tempo, e sei que quer a maior coleção de histórias em quadrinhos, jogos e videogames da história.

Nesse momento fiquei sem palavras, pois tudo aquilo era verdade, mas não tinha como ele saber, eu nunca tinha contado nada daquilo para ninguém, e muito menos tinha anotado no meu diário. Então será que ele falava a verdade? Não, era impossível.

— Apenas acredite Henrique e será o homem mais feliz do mundo.

— Ok.  bom, então vai lá vossa criatura mágica realize meus sonhos.

— Muito bem Henrique. Tudo que precisa fazer é atravessar a porta e será feliz.

Eu já não sabia mais o que fazer, então só fiz o que ele pedia e atravessei a porta, pelo menos era a porta para o lado de fora, eu poderia correr e chamar ajuda. Eu caminhei até a porta, abri e a atravessei.

Eu só me lembro de ver uma luz forte que me fez fechar os olhos. Quando os abri novamente não estava mais na escola, eu tinha ido parar na minha cama, ou talvez nunca tivesse saído dela, naquele momento pensei “Ah meu Deus foi só um sonhoPorém, esse pensamento durou pouco tempo, pois uma mulher que eu nunca tinha visto na minha vida entrou com uma bandeja com meu prato favorito: panquecas com chocolate, e café com leite.

Ela me cumprimentou, deixou a bandeja e foi embora, achei aquilo muito estranho, então decidi deixar a comida na cama e investigar, no momento que abri a porta e olhei para minha casa e percebi que estava três ou até quatro vezes maior que antes. Tinha uma decoração minuciosa e grandes corredores, cocei os olhos pensando ser uma ilusão, mas tudo continuou lá.

Eu procurei minha mãe pelo que me pareceram horas mas não a encontrei, na verdade, não encontrei ninguém que conhecia, na casa só tinha mulheres e homens trabalhando.

Continuei a procurar até que encontrei uma porta que dizia “Zona do Paraíso”. Eu abri a porta e encontrei diversos jogos, videogames e histórias em quadrinhos. Aquele quarto, aquela casa, o tempo que demorava passar, mas não passava tudo isso eram os meus sonhos. O homem estranho falava a verdade, eu finalmente tinha tudo que sempre quis.

Comecei a explorar o paraíso por diversas horas, que, na verdade não passaram de alguns minutos, li muitas HQS e joguei alguns jogos, até que lembrei da escola, hoje provavelmente era quinta-feira e tinha aula. Eu precisava contar aquilo pros meus amigos, saí do quarto tomei o café da manhã e me preparei para ir para escola.

No caminho para a escola eu não conseguia parar de sorrir, o que assustou algumas pessoas, desculpa aí pessoal, mas vão ter que me aturar. Quando finalmente cheguei na escola eles já tinham aberto o portão, fui logo procurar o Yago, o meu melhor amigo. Ele estava na porta da nossa sala, eu fui até lá para cumprimentá-lo, mas ele reagiu indiferente comigo, como se não me conhece-se. Tentei explicar quem eu era e o que tinha acontecido, mas não adiantou nada.

Será que isso era um efeito colateral? Bom, eu precisava saber, por isso fui procurar todas as pessoas que eu conhecia, porém, foi uma perda de tempo, ninguém me reconheceu. Eu saí da escola para tentar pensar um pouco, mas tudo que conseguia argumentar era que aconteceu um erro na hora da mágica e por isso ninguém se lembrava de mim.

Deixei a escola e fui procurar o homem estranho, procurei por vários pontos da cidade, até bati em algumas portas para perguntar, mas sem sucesso ele não estava em lugar nenhum, eu voltei para o primeiro lugar que tinha visto ele, na esperança de encontrá-lo, porém quando cheguei lá não tinha ninguém, não aguentei e desabei, cai de joelhos e comecei a chorar.

As pessoas passavam e só comentavam o meu choro, ninguém me ajudava, claro como poderiam fazer isso, mas pelo menos se tentassem eu me sentiria melhor. Após muito tempo de choro e arrependimento, um homem parou para me ajudar. Ele estendeu a mão e me ajudou a levantar, eu já ia agradecendo quando vi seu rosto, era o homem dos sonhos não consegui me controlar e o abracei de felicidade.

Eu pedi sua ajuda, expliquei que tinha acontecido alguma coisa de errado, falei que ninguém se lembrava de mim e que ele precisava consertar as coisas, mas tudo que ele disse foi que era isso que acontecia, para realizar os sonhos era preciso apagar a nossa antiga vida, eu não podia acreditar naquilo, tinha que ter um jeito uma solução por mais ruim que fosse, eu precisava que todos se lembrassem de mim.

A única ideia que tive foi que ele precisava desfazer aquilo tudo, precisava que tudo voltasse ao normal, por mais chato que fosse eu tinha que voltar. De primeira ele não aceitou, mas consegui convencê-lo. Ele pediu para atravessar a porta de uma casa, eu fiz isso e vi a mesma luz branca. Quando abri os olhos estavam novamente na minha cama, abri a porta torcendo para tudo estar de volta ao normal e para minha sorte estava. Corri até a cozinha, abracei minha mãe e falei o quanto eu a amava, depois eu fui até a escola e cumprimentei todos e falei que os amava.

Bem essa foi a minha história, estranha e assustadora, mas eu agradeço que tenha acontecido, pois até hoje eu levo uma lição que aprendi: não vale a pena realizar os nossos sonhos, e deixar a família e as pessoas que amamos para trás, só é gratificante se tivermos alguém com quem compartilhar a felicidade.

O coração delator

É verdade! Nervoso, muito, muito nervoso mesmo eu estive e estou; mas por que você vai  dizer que estou louco? A doença exacerbou meus sentidos, não os destruiu, não os embotou. Mais que os outros estava aguçado o sentido da audição. Ouvi todas as coisas no céu e na terra. Ouvi muitas coisas no inferno. Como então posso estar louco? Preste atenção! E observe com que sanidade, com que calma, posso lhe contar toda a história.

É impossível saber como a idéia penetrou pela primeira vez no meu cérebro, mas, uma vez concebida, ela me atormentou dia e noite. Objetivo não havia. Paixão não havia. Eu gostava do velho. Ele nunca me fez mal. Ele nunca me insultou. Seu ouro eu não desejava. Acho que era seu olho! É, era isso! Um de seus olhos parecia o de um abutre – um olho azul claro coberto por um véu. Sempre que caía sobre mim o meu sangue gelava, e então pouco a pouco, bem devagar, tomei a decisão de tirar a vida do velho, e com isso me livrar do olho, para sempre.

Agora esse é o ponto. O senhor acha que sou louco. Homens loucos de nada sabem. Mas deveria ter-me visto. Deveria ter visto com que sensatez eu agi — com que precaução —, com que prudência, com que dissimulação, pus mãos à obra! Nunca fui tão gentil com o velho como durante toda a semana antes de matá-lo. E todas as noites, por volta de meia-noite, eu girava o trinco da sua porta e a abria, ah, com tanta delicadeza! E então, quando tinha conseguido uma abertura suficiente para minha cabeça, punha lá dentro uma lanterna furta-fogo bem fechada, fechada para que nenhuma luz brilhasse, e então eu passava a cabeça.

Ah! o senhor teria rido se visse com que habilidade eu a passava. Eu a movia devagar, muito, muito devagar, para não perturbar o sono do velho. Levava uma hora para passar a cabeça toda pela abertura, o mais à frente possível, para que pudesse vê-lo deitado em sua cama. Aha! Teria um louco sido assim tão esperto? E então, quando minha cabeça estava bem dentro do quarto, eu abria a lanterna com cuidado — ah!, com tanto cuidado! —, com cuidado (porque a dobradiça rangia), eu a abria só o suficiente para que um raiozinho fino de luz caísse sobre o olho do abutre. E fiz isso por sete longas noites, todas as noites à meia-noite em ponto, mas eu sempre encontrava o olho fechado, e então era impossível fazer o trabalho, porque não era o velho que me exasperava, e sim seu Olho Maligno. E todas as manhãs, quando o dia raiava, eu entrava corajosamente no quarto e falava Com ele cheio de coragem, chamando-o pelo nome em tom cordial e perguntando como tinha passado a noite. Então, o senhor vê que ele teria que ter sido, na verdade, um velho muito astuto, para suspeitar que todas as noites, à meia-noite em ponto, eu o observava enquanto dormia.

Na oitava noite, eu tomei um cuidado ainda maior ao abrir a porta. O ponteiro de minutos de um relógio se move mais depressa do que então a minha mão. Nunca antes daquela noite eu sentira a extensão de meus próprios poderes, de minha sagacidade. Eu mal conseguia conter meu sentimento de triunfo. Pensar que lá estava eu, abrindo pouco a pouco a porta, e ele sequer suspeitava de meus atos ou pensamentos secretos. Cheguei a rir com essa idéia, e ele talvez tenha ouvido, porque de repente se mexeu na cama como num sobressalto. Agora o senhor pode pensar que eu recuei — mas não. Seu quarto estava preto como breu com aquela escuridão espessa (porque as venezianas estavam bem fechadas, de medo de ladrões) e então eu soube que ele não poderia ver a porta sendo aberta e continuei a empurrá-la mais, e mais.

Minha cabeça estava dentro e eu quase abrindo a lanterna quando meu polegar deslizou sobre a lingüeta de metal e o velho deu um pulo na cama, gritando:

— Quem está aí?

Fiquei imóvel e em silêncio. Por uma hora inteira não movi um músculo, e durante esse tempo não o ouvi se deitar. Ele continuava sentado na cama, ouvindo bem como eu havia feito noite após noite prestando atenção aos relógios fúnebres na parede.

Nesse instante, ouvi um leve gemido, e eu soube que era o gemido do terror mortal. Não era um gemido de dor ou de tristeza — ah, não! era o som fraco e abafado que sobe do fundo da alma quando sobrecarregada de terror. Eu conhecia bem aquele som. Muitas noites, à meia-noite em ponto, ele brotara de meu próprio peito, aprofundando, com seu eco pavoroso, os terrores que me perturbavam. Digo que os conhecia bem. Eu sabia o que sentia o velho e me apiedava dele embora risse por dentro. Eu sabia que ele estivera desperto, desde o primeiro barulhinho, quando se virara na cama. Seus medos foram desde então crescendo dentro dele. Ele estivera tentando fazer de conta que eram infundados, mas não conseguira. Dissera consigo mesmo: “Isto não passa do vento na chaminé; é apenas um camundongo andando pelo chão”, ou “É só um grilo cricrilando um pouco”.

É, ele estivera tentando confortar-se com tais suposições; mas descobrira ser tudo em vão. Tudo em vão, porque a Morte ao se aproximar o atacara de frente com sua sombra negra e com ela envolvera a vítima. E a fúnebre influência da despercebida sombra fizera com que sentisse, ainda que não visse ou ouvisse, sentisse a presença da minha cabeça dentro do quarto.

Quando já havia esperado por muito tempo e com muita paciência sem ouvi-lo se deitar, decidi abrir uma fenda — uma fenda muito, muito pequena na lanterna. Então eu a abri — o senhor não pode imaginar com que gestos furtivos, tão furtivos — até que afinal um único raio pálido como o fio da aranha brotou da fenda e caiu sobre o olho do abutre.

Ele estava aberto, muito, muito aberto, e fui ficando furioso enquanto o fitava. Eu o vi com perfeita clareza – todo de um azul fosco e coberto por um véu medonho que enregelou até a medula dos meus ossos, mas era tudo o que eu podia ver do rosto ou do corpo do velho, pois dirigira o raio, como por instinto, exatamente para o ponto maldito.

E agora, eu não lhe disse que aquilo que o senhor tomou por loucura não passava de hiperagudeza dos sentidos? Agora, repito, chegou a meus ouvidos um ruído baixo, surdo e rápido, algo como faz um relógio quando envolto em algodão. Eu também conhecia bem aquele som. Eram as batidas do coração do velho. Aquilo aumentou a minha fúria, como o bater do tambor instiga a coragem do soldado.

Mas mesmo então eu me contive e continuei imóvel. Quase não respirava. Segurava imóvel a lanterna. Tentei ao máximo possível manter o raio sobre o olho. Enquanto isso, aumentava o diabólico tamborilar do coração. Ficava a cada instante mais e mais rápido, mais e mais alto. O terror do velho deve ter sido extremo. Ficava mais alto, estou dizendo, mais alto a cada instante! — está me entendendo? Eu lhe disse que estou nervoso: estou mesmo. E agora, altas horas da noite, em meio ao silêncio pavoroso dessa casa velha, um ruído tão estranho quanto esse me levou ao terror incontrolável. Ainda assim por mais alguns minutos me contive e continuei imóvel. Mas as batidas ficaram mais altas, mais altas! Achei que o coração iria explodir. E agora uma nova ansiedade tomava conta de mim — o som seria ouvido por um vizinho! Chegara a hora do velho! Com um berro, abri por completo a lanterna e saltei para dentro do quarto.

Ele deu um grito agudo — um só. Num instante, arrastei-o para o chão e derrubei sobre ele a cama pesada. Então sorri contente, ao ver meu ato tão adiantado. Mas por muitos minutos o coração bateu com um som amortecido. Aquilo, entretanto, não me exasperou; não seria ouvido através da parede. Por fim, cessou. O velho estava morto. Afastei a cama e examinei o cadáver. É, estava morto, bem morto. Pus a mão sobre seu coração e a mantive ali por muitos minutos. Não havia pulsação. Ele estava bem morto. Seu olho não me perturbaria mais.

Se ainda me acha louco, não mais pensará assim quando eu descrever as sensatas precauções que tomei para ocultar o corpo. A noite avançava, e trabalhei depressa, mas em silêncio. Antes de tudo desmembrei o cadáver. Separei a cabeça, os braços e as pernas.

Arranquei três tábuas do assoalho do quarto e depositei tudo entre as vigas. Recoloquei então as pranchas com tanta habilidade e astúcia que nenhum olho humano — nem mesmo o dele — poderia detectar algo de errado. Nada havia a ser lavado — nenhuma mancha de qualquer tipo — nenhuma marca de sangue. Eu fora muito cauteloso. Uma tina absorvera tudo – ha! ha!

Quando terminei todo aquele trabalho, eram quatro horas — ainda tão escuro quanto à meia-noite.
Quando o sino deu as horas, houve uma batida à porta da rua. Desci para abrir com o coração leve — pois o que tinha agora a temer? Entraram três homens, que se apresentaram, com perfeita suavidade, como oficiais de polícia. Um grito fora ouvido por um vizinho durante a noite; suspeitas de traição haviam sido levantadas; uma queixa fora apresentada à delegacia e eles (os policiais) haviam sido encarregados de examinar o local.

Sorri — pois o que tinha a temer? Dei as boas-vindas aos senhores. O grito, disse, fora meu, num sonho. O velho, mencionei, estava fora, no campo. Acompanhei minhas visitas por toda a casa. Incentivei-os a procurar — procurar bem. Levei-os, por fim, ao quarto dele. Mostrei-lhes seus tesouros, seguro, imperturbável. No entusiasmo de minha confiança, levei cadeiras para o quarto e convidei-os para ali descansarem de seus afazeres, enquanto eu mesmo, na louca audácia de um triunfo perfeito, instalei minha própria cadeira exatamente no ponto sob o qual repousava o cadáver da vítima.

Os oficiais estavam satisfeitos. Meus modos os haviam convencido. Eu estava bastante à vontade. Sentaram-se e, enquanto eu respondia animado, falaram de coisas familiares. Mas, pouco depois, senti que empalidecia e desejei que se fossem. Minha cabeça doía e me parecia sentir um zumbido nos ouvidos; mas eles continuavam sentados e continuavam a falar. O zumbido ficou mais claro — continuava e ficava mais claro: falei com mais vivacidade para me livrar da sensação: mas ela continuou e se instalou — até que, afinal, descobri que o barulho não estava dentro de meus ouvidos.

Sem dúvida agora fiquei muito pálido; mas falei com mais fluência, e em voz mais alta. Mas o som crescia – e o que eu podia fazer? Era um som baixo, surdo, rápido — muito parecido com o som que faz um relógio quando envolto em algodão. Arfei em busca de ar, e os policiais ainda não o ouviam. Falei mais depressa, com mais intensidade, mas o barulho continuava a crescer. Levantei-me e discuti sobre ninharias, num tom alto e gesticulando com ênfase; mas o barulho continuava a crescer. Por que eles não podiam ir embora? Andei de um lado para outro a passos largos e pesados, como se me enfurecessem as observações dos homens, mas o barulho continuava a crescer. Ai meu Deus! O que eu poderia fazer? Espumei — vociferei — xinguei! Sacudi a cadeira na qual estivera sentado e arrastei-a pelas tábuas, mas o barulho abafava tudo e continuava a crescer. Ficou mais alto — mais alto — mais alto! E os homens ainda conversavam animadamente, e sorriam. Seria possível que não ouvissem? Deus Todo-Poderoso! — não, não? Eles ouviam! — eles suspeitavam! — eles sabiam! – Eles estavam zombando do meu horror! — Assim pensei e assim penso. Mas qualquer coisa seria melhor do que essa agonia! Qualquer coisa seria mais tolerável do que esse escárnio. Eu não poderia suportar por mais tempo aqueles sorrisos hipócritas! Senti que precisava gritar ou morrer! — e agora — de novo — ouça! mais alto! mais alto! mais alto! mais alto!

— Miseráveis! — berrei — Não disfarcem mais! Admito o que fiz! levantem as pranchas! — aqui, aqui! — são as batidas do horrendo coração!

O Diário

Dia 1

Olho pela janela e vejo a cidade, taciturna e receosa como alguém que tem algo a dizer e nada diz. No primeiro plano desta, vejo meu reflexo, inquieto e falando sozinho em um rádio na esperança de obter uma resposta. Talvez a saudade de algo que não conhecemos (ou lembramos) possa ser chamado de esperança (ou fé). Isso é o que sinto todos os dias em que me recordo de ligar este rádio e ouvir a estática ensurdecendo meus pensamentos. Meu corpo, ora cansado, ora preguiçoso, reluta em permanecer ao pé da mesa do rádio com o comunicador em mãos.

– Boa noite, sou eu novamente, Bernardo… (sshhhhh) … Alguém na escuta? Câmbio.

– (Shhhhh)

Recito as palavras escritas em uma agenda tão velha quanto o rádio, quase como uma oração, na expectativa que haja alguma resposta.  Esse mantra, ora enfadonho, ora intrigante ainda não é conveniente expô-lo aqui…

A noite avança mais lenta que passos de tartaruga nos meridianos, porém aqui ela parece durar mais que o habitual, permitindo que a vaidosa lua ofusque o brilho das demais estrelas por mais tempo. Assim aprendemos, nas aulas do professor Oséias, há 3 anos, que a Lua e o Sol, arquitetam noite após noite, um complô contra os demais astros. Tomo um livro de astronomia e percebo Oséias via o cosmos com os olhos de Deus. Adormeço.

Dia 2

 

O dia, no verão, em Sombra D’água, começa a ser escaldante cerca de 15 minutos antes da aurora (é o que ouvi em alguma situação social de alguma boca falante), quando o sol ainda muito tímido, porém sempre vaidoso, nos favorece a certeza do bom funcionamento das glândulas sudoríparas.

Acordei e logo tomei um café. Descendo as escadas sinto o frescor, ainda resguardado da madrugada, pelos corredores do prédio, embora refrescante, o isolamento térmico promove o cheiro de umidade que meu nariz jamais acostumará.

Antes de sair pelo portão, cruzo por Leonora, uma singela vizinha de olhos e cabelos castanhos de poucos atrativos, mas que certa vez por uma gentileza, me recompensou com 15 segundos de conversa…:

(Iniciando minha rotina diária, descendo as escadas vi Leonora subindo com muitas sacolas de supermercado)

– Deixa-me te ajudar vizinha! 

Falei com despretensiosa suavidade e ela sem muita escolha:

– Pode pegar essas da minha mão direita, obrigada, muito obrigada.

E ainda:

– Sabe como é, vida de secretária, passo muito tempo sentada, se não fosse esse emprego seria tudo diferente.

– É, seria tudo diferente. 

Retruquei, preenchendo o ar com algumas palavras.

Esse diálogo me despertou uma questão, caro leitor…

 

Dia 3 

Cova Alta é o nome que dei a essas terras que vim parar não sei como. Última coisa que me lembro é de conversar com Leonora nas escadas do prédio em que moro, ou morava. Pareci despertar de um desmaio repentino e quando vi, o pavor me tomou conta, parecia estar em uma cabana rústica feita de troncos com cortes quase cirúrgicos e acabamentos dignos de um Deus marceneiro, ousaria dizer que esta casa foi feita na carpintaria de José pelas mãos de Cristo. Ergui a cabeça do travesseiro com cheiro de mofo e a primeira e única coisa familiar que vejo é o rádio e a agenda. O que isso significaria?

Pela janela só vejo pinheiros fechando minha visão do horizonte, não parece dia nem noite, apenas um céu nublado com alguma claridade. Talvez o clima ou o ambiente me fez entender que este lugar é bem acima do nível do mar. Resolvo sair e olhar a cabana de fora, já que os pinheiros limitam a visão da clareira em que se encontra a cabana. A cabana por fora segue impecável, mas o que me chama atenção é que ela não é uma casa comum de quatro paredes, esta cabana é sextavada, assim como um caixão. Ângulos bastante sutis, mas ainda sim, sextavado. Batizei este lugar de Cova Alta.

Após vasculhar o lugar a procura de alguém, procuro lidar com o que já estou acostumado, ligo o rádio e clamo por ajuda. Como não obtive resposta, apelei para a leitura habitual do mantra:

“Perpétuo chamado do caminho sem sabor

Tão longa a espera que tenho que esperar

Mesmo fatigável que seja esse labor

Sou movido, sem chance de parar

 

As palavras são insuficientes então

A razão não pode compreender

A falta que faz um capitão

E alguém para se prender

 

Da madeira sextavada,

Para o sótão ou o porão

Ninguém escapa dessa espada

Que parte o coração

 

Oferenda e sacrifício

A labuta e o ofício

Palestra e o comício

A queda e o vício

 

Saudação

Comunicação

Satisfação

Opção”

A prece atendida

Seitas se formam e se reúnem frequentemente a cada dia, o mundo se tornou tarado atrás do “bem” mais valioso que algum deus poderia conceder: uma prece atendida.

Um mundo baseado nas descobertas de uma cultura muito antiga que afinal foi validada e comprovada: os launitas. A cada década uma prece de algum ser humano teria sua prece daquele dia atendida, não importando qual fosse. Com o apoio da ciência que no último século, financiado pelas grandes famílias globalistas do mundo, conseguiram com uma boa propaganda e muita observação, identificar das nove preces, quatro incidentes de causas desproporcionais, que coincidiam com o desejo de um ser humano. Após essa descoberta, todas religiões caíram em apostasia geral, com seus fiéis convertendo-se ao launismo. Seitas formavam-se em uma mesma prece na tentativa de que o escolhido estivesse entre eles e satisfizesse um desejo comum daquela seita, assim como sua primeira heresia, os obvienistas, pessoas que como oração diária desejavam que o Sol se pusesse no Oeste e nascesse no Leste dia seguinte. O que obviamente, é uma obviedade…

O ferro que domina

Durante o século XIV, pós peste-negra, o exílio de um nobre sobrevivente Francisco Berlusconi, um jovem de 16 anos, tornou-se inevitável. O que seis séculos a frente viria a ser chamado de mutação genética, era chamado, como de fato seria, uma maldição, A Maldição da Amalgama.

Essa maldição que poderia ser facilmente chamada de dádiva para o portador, tornava sua vida um verdadeiro inferno, afinal a ameaça dos poderes desta maldição era o anseio e a insegurança de qualquer autoridade, o controle dos corações. Há quem diga que os grandes poderosos modernos, são portadores desta maldição, ou possuem subordinados ao seu dispôr.

A capacidade evolutiva e misteriosamente abismal do primate para o ser humano pareceu se repetir-se nesse caso, a peste-negra desencadeou um aumento espontâneo e absurdo da quantia de ferro no sangue do enfermo como resposta do sistema imunológico, desta forma garantindo uma certa imunidade a peste bubônica e dinâmica e os efeitos da maldição que citarei agora: todo corpo possue naturalmente um campo eletromagnético, sobretudo o corpo humano, visto que o sangue corre em nossas veias cerca de 2km/h, isso gera um campo eletromagnético ainda maior. O portador da maldição com esse adicional absurdo de ferro em seu sangue, é capaz de gerar um campo eletromagnético ainda maior.

Francisco uma bela tarde de primavera, montado em seu cavalo enquanto passeava, percebeu que seu corpo estava estranho pós recuperação da peste e olhando para ponta de seu indicador viu uma espécie de agulha negra se formando e conforme ele desejava, ela aumentava de tamanho. Aquela agulha parecia imantizada em direção ao peito do cavalo, como se desejasse beijar o coração de seu alazão. Francisco, curioso e imprudente, se deixou levar, poucos segundos, a agulha penetrava pelo lombo do cavalo, por entre as costelas, o coração equino. Lá cravado, Francisco que seus desejos, ou seja sinapses, o cavalo imediatamente obedecia, ele desejava ir para esquerda, o cavalo obedecia, ele desejava ir para direita o cavalo obedecia, seu campo magnético comandado pelas suas sinapses, influenciava diretamente o cérebro do cavalo, conduzido pelo sangue aquoso.. Assustado e obcecado em entender o que se passava ele guardou segredo. Precisava testar mais uma vez, Madalena, sua amiga de infância e confidente, se aproximou dela…

A mobília

No sepultamento do Seu Fabiano Mangueira, Inácio sentia dentro do seu peito um aperto sufocante que, se não fosse tamanha tristeza ao ver pela última vez seu avô, passaria facilmente por um caso de “pontada de pneumonia”. Porém sua consciência quase lhe culpava pelo seu cérebro regozijar-se por ser herdeiro de uma mansão, nem tão grande mas nem tão pequena, suficiente para caber uma vida inteira.

O Sol raiou após uma semana de luto e automatismo proletário, era hora de visitar sua nova propriedade e abandonar o aluguel. Chegando diante dos portões torneados e requintados da mansão, Inácio torna o rosto para sua velha amiga de infância, que estava ali para suportar qualquer crise emocional, Isabel, como quem busca força para girar a maçaneta, receoso:

– Melhor voltarmos outro dia, vai chover, ficará difícil de ir embora depois…

O sol rachava a tímida nuvem, base do argumento de Inácio.

– Inácio, isso precisa ser feito, lembra quando tu caiu de bicicleta no primário, ficou com um curativo três semanas inteiras, aquilo criou uma pereba e foi muito pior depois? Pois bem, vamos logo com isso!

Eles avançaram adentro da mansão, logo no hall de entrada havia seis cadeiras de formato e madeira diferente, em cada parede, de um lado um papel de parede azul com barquinhos e do outro listras brancas e pretas, no centro, três mesas de alturas diferentes tentavam se encaixar uma a outra, um tapete persa-chinês-hebreu-assírio-albanês-inglês-brasileiro forrava o chão, dentro outras mobílias que não era possível definir exatamente qual sua finalidade. Isso se repetia entre todos os cômodos, cada um com suas mobílias características e seus elementos estranhos.

– Nossa! Esse teu avô tinha uma pá de coisas estranhas hein?  – Exclamou Isabel.

– Sim, ele viajava pelo mundo e fazia questão de que a casa dele se tornasse uma amálgama de cada lugar. Ele queria poder iluminar sua leitura com um candelabro de uma igreja sueca demolida, enquanto sentava em uma poltrona russa, lendo um livro escrito por um paquistanês. 

– Mas já que você vai morar aqui, como fará? Acho que seria legal manteeer………OOOAAHH! – Disse Isabel, ao caindo de uma cadeira aparentemente forte para sustentar um elefante que quebrou – Esquece, tu vais se livrar disso tudo?

– Não sei, talvez. O vô deixou uma grana também, poderíamos ir à alguma loja.

Assim foi feito, deixaram a mansão naquela manhã ensolarada e foram a uma loja de móveis, chegando lá o vendedor com sua colônia inebriante e sorriso quase azul de tão branco:

– Pois vejam bem, temos aqui esse conjunto de mobília, um kit perfeito em termos de estética, irá harmonizar muito bem sua mansão Sr. Mangueira, material de primeira linha…

Inácio somente pensava “para que preciso de móveis novos se já tenho a maior variedade do mundo lá dentro de casa?”…

Então essa mentalidade acompanhou todas as visitas às lojas. Nada fora comprado.

– Inácio, não compramos nada! O que há contigo?

– Ah Isabel, já tenho tudo lá, para que preciso de mais?

– Não sei se tu percebeu, mas praticamente tudo lá dentro é duvidoso, tu não sabes de onde veio, quem fez, qual a procedência, só porque isso teve um valor para seu falecido avô, não quer dizer que tenha que ter para ti.

– Poxa mas aquela cadeira vinho quebrada na guarda foi comprada quando ele me levou para conhecer o Louvre, aos meus 12 anos de idade, e eu fiquei sentado quatro horas tentando adivinhar para onde a Mona Lisa olhava afinal. Ele comprou aquela cadeira como lembrança.

– Pois então, guarde essas que tu conheces e coloca fora o resto.

Assim Inácio o fez. Cerca de 95% da mobília havia sido vendida, doada, queimada, expurgada, exorcizada, enfim… Aquela percepção de kitnete não havia mais, apenas algumas mobílias e muitos vazios desesperadores, pedindo preenchimento, naquela casa. Dado este vazio decidiram retornar a loja de móveis.

Aquele 5% de memórias que lá estavam sugerem uma harmonia, aquilo tinha sentido, aquilo tinha verdade para Inácio e isso era parâmetro perfeito para saber o que servia e o que não servia para integrar naqueles vazios desesperadores. Cada mobília naquela loja, na simulação imaginativa de Inácio, parecia encaixar perfeitamente como um quebra cabeça ou simplesmente soar como um violino desafinado nos cômodos da casa. Pouco a pouco, recomendação de uma loja feita por um amigo, tinha o móvel perfeito, ou mesmo gastando mais fazendo sob medida. Tornava cada vez mais aquilo, que antes era uma projeção de Fernando Mangueira, agora seria integralmente Inácio Mangueira. 

O mendigo caolho e o milionário opulento

Robson, ou como gostava de ser chamado, Robinho quando ainda muito jovem brincava de pega-pega com sua irmã, Marisa, quando de repente, após um espirro violento, como uma cena de terror, seu olho esquerdo saiu da órbita de sua face, pouco ele sabia que 5 anos depois isso lhe garantiria um belo recipiente no rosto para sua bolinha de gude preferida.

Hoje após dramas familiares e sobretudo pessoais ele vive sob o teto dessa grande hospedaria chamada Ponte do Calabouço, a origem deste nome fica para outra história, mas que de fato é uma pequena ponte, quase um viaduto, que liga a cidade turística até a cidade industrial da região metropolitana. Isso lhe garante companhias inusitadas como o Zézinho da Colônia, um castelhano de 1,55m de altura, coxo, feio como uma tesourada no olho, cheirava a vinagre com ácido úrico, característico de quem viveu uma vida ao relento, e um bigode de marechal que lhe sugeria uma certa autoridade. O temperamento colérico e a fúria de um titã garante um ótimo guarda-costas para Robinho.

  • Ô Zézinho, tu não vai buscar marmita pra nóis hoje, vinte pratas e rende pra semana toda?
  • Vou não, hoje vou ir lá na rua de cima encontrar a Nandinha e se bobear já meto uma facada no bucho do Mariano que andou metendo a cara com uns dos meus.

Zézinho ladrava mais que mordia, mas mordia.

A tarde caía, na calçada da rua da quadra ao lado, começava a movimentação das pessoas, algumas mais importantes outras nem tanto. Happy hours, adultério, segundo turno, missa, cultos, enfim… Todo tipo de pessoa, e seria lá que Robinho faria seu ganha-pão. 

Um certo dia, passara um senhor, boina italiana, paletó corte inglês, bigode de marechal, como o do Zézinho, cantarolando um poema:

 

“Ferdinanda que lá está

Manda daqui ao Paraná

Anda sem saber como parar

Da varanda desatina meu olhar…”

 

Ao final do verso, caia de seu bolso, quase em câmera lenta, algo que era bom demais para ser verdade, uma bela nota de vinte pratas. Robinho num impasse moral de meio segundo, tomou a nota e guardou-a bem dobradinha no lugar mais seguro que conhecera, o antigo porta-bolinhas-de-gude.

Curiosamente isso se repetia, semana a semana. Sempre garantindo o “pão nosso de cada dia” de Robson, O Caolho. Lá pelas tantas, barriga cheia, Robinho lembra o amigo Zézinho da Colônia, nunca mais o havia visto. 

 

Ou havia.

O Bilhete Premiado

Ivan Dmítritch, homem remediado que vivia com a família na base de uns 1200 rublos por ano, muito satisfeito com seu destino, certa noite, depois do jantar, sentou-se no sofá e começou a ler o jornal.

— Esqueci de dar uma olhada no jornal de hoje — disse sua mulher tirando a mesa. — Dê uma espiada para ver se saiu o resultado do sorteio.

— Saiu — respondeu Ivan Dmítritch —, mas você não penhorou seu bilhete? Não. Paguei os juros na terça.

— Qual é o número?

— A série é 9499, bilhete 26.

— Então… Vejamos… 9499 e 26.

Ivan Dmítritch não acreditava na sorte da loteria e em outra ocasião jamais se daria ao trabalho de verificar a lista. Agora, porém, que não tinha nada para fazer e o jornal estava bem debaixo de seu nariz, percorreu com o dedo de cima para baixo Os números da série. E não é que logo de cara, corno que para zombar de sua descrença, já no alto da segunda coluna apareceu de repente, diante de seus olhos, o numero 9499! Sem conferir o número do bilhete nem verificar se tinha lido certo, deixou cair rapidamente o jornal no colo e corno se alguém lhe tivesse derramado água na barriga, sentiu um friozinho agradável no fundo do estômago. Era urna sensação de coceira terrível e deliciosa ao mesmo tempo.

— Macha — disse com voz surda — o 9499 está aqui. — A mulher olhou para seu rosto surpreso, assustado, e compreendeu que o marido não estava brincando.

— 9499? — perguntou ela, empalidecendo e deixando cair na mesa a toalha dobrada.

— Sim, sim… Está, de verdade!

— E o número do bilhete?

— É mesmo! Ainda falta o número do bilhete. Mas tenha paciência… espere. Então, que tal? De qualquer modo o número de nossa série está, hem? De qualquer modo, entendeu?…

Ivan Dmítritch olhou para a mulher e sorriu num sorriso largo e apalermado como uma criança a qual tivessem mostrado alguma coisa brilhante. A mulher também sorria. Sentia o mesmo prazer que o marido por ele ter lido somente a série e não ter tido pressa em saber do número do feliz bilhete. E tão delicioso, tão angustiante consumir-se e espicaçar-se na esperança de uma felicidade possível!

— A nossa série está — disse Ivan Dmítritch depois de um longo silêncio. — Significa que existe uma possibilidade de termos ganho. Apenas uma possibilidade, mas, apesar de tudo, ela existe!

— Está bem, mas agora, olhe.

— Espere. Ainda teremos tempo a vontade para nos desiludir. Se esta na segunda coluna de cima, quer dizer que o prêmio é de 75 mil. Isso não é dinheiro, é uma força, um capital! E se de repente eu olhar para a lista e lá estiver o numero 26? Hem? Escute, e se tivermos ganho de verdade?

Os cônjuges começaram a dar risada e a olhar demoradamente um para o outro, sem falar nada. A possibilidade da ventura deixara-os obnubilados, e eles não conseguiam sequer sonhar, dizer para que precisavam daqueles 75 mil, o que comprariam, para onde iriam. Imaginavam apenas os números 9499 e 75 mil, desenhavam-nos em sua imaginação, mas a idéia da felicidade, que estava tão próxima, parecia não lhes passar pela cabeça.

Ivan Dmítritch andou algumas vezes de um lado para outro com o jornal nas mãos e só quando a primeira impressão se acalmou é que, aos poucos, começou a sonhar.

— E se tivermos ganho? — disse. — Seria uma vida nova, uma catástrofe! O bilhete é seu, claro, mas se fosse meu, antes de mais nada, naturalmente eu compraria algum imóvel, algo como uma propriedade, no valor de, digamos, vinte e cinco mil; deixaria uns 10 mil para despesas extras: mobília nova… uma viagem… pagamento de dívidas e assim por diante. Os 80 mil restantes colocaria no banco, para render juros…

— Realmente, uma propriedade seria ótimo — disse a mulher sentando-se e deixando cair os braços no colo. — Nalgum canto, na região de Tula ou de Orlóv… Em primeiro lugar, não seria preciso alugar nenhuma casa de campo e, em segundo, não deixa de ser uma renda.

E na imaginação dele começaram a se aglomerar imagens, uma mais poética e aprazível que a outra. E em cada uma delas ele se via satisfeito, tranqüilo, saudável e chegou a sentir um calorzinho agradável, um calorzão, mesmo! Lá está ele, depois de ter comido uma sopa de legumes fria como o gelo, de barriga para cima na areia quente, na beira do rio ou no jardim mesmo, embaixo de uma tília… Faz calor… O filho e a filha rastejam perto dele, rolam na areia ou caçam algum bichinho na relva. Cochila docemente sem pensar em nada e sente com todo o corpo o que significa não ter de ir ao serviço nem hoje, nem amanhã, nem depois. E quando cansar de ficar deitado, pode ir ver cortar o feno, ou ao bosque, colher cogumelos, ou então ficar observando como os camponeses pescam os peixes com o arrastão. Ao pôr-do-sol, pega um pano, um sabonete e esgueira-se na casa de banho, onde se despe devagarzinho, passa um tempão alisando o peito nu com as palmas das mãos e finalmente cai na água. Na água, os peixinhos se agitam em volta das bolhas turvas de sabão e as plantas aquáticas balançam na corrente. Depois do banho, um chá com creme e rosquinhas doces… À noite, um passeio ou uma partida de uíste com os vizinhos.

— Sim, seria bom comprar uma propriedade — diz a mulher, também sonhando. Lê-se em seu rosto que está encantada com os próprios pensamentos.

Ivan Dmítritch imagina o outono chuvoso, as noites frias, o veranico. Nessa época é preciso andar um tempão pelo jardim, pela horta, pela margem do rio até sentir bem o frio e depois beber um copo cheinho de vodka junto com cogumelos salgados ou um pepino em salmoura e pronto, tomar outro trago. As crianças vêm correndo da horta, trazendo cenoura e nabo. Sente-se o cheiro fresco da terra… Depois, estirar-se no sofá e folhear uma revista qualquer, sem pressa, até que o sono chegue. Cobrir o rosto com a revista, desabotoar o colete e entregar-se…

Após o veranico o tempo é fechado, ruim. Chove dia e noite. As árvores despidas choram, o vento é úmido e frio. Os cachorros, os cavalos, as galinhas; não há quem não esteja molhado, melancólico, encolhido. Não se tem por onde passear; sair de casa, nem falar! Passa-se o dia inteiro andando de um canto para outro e olhando tristemente pelas janelas embaçadas. Que coisa enfadonha!

Ivan Dmítritch parou e olhou para a mulher.

— Sabe de uma coisa, Macha, eu iria é para o estrangeiro.

E ficou pensando como seria bom viajar para o estrangeiro, cruzar o oceano profundo e ir para algum lugar no sul da França, para a Itália… Para a Índia!

— Eu também iria para o estrangeiro correndo — disse a mulher. — Mas olhe o número do bilhete!

— Espere! Daqui a pouco…

Andou pelo quarto e continuou a pensar. E se a mulher fosse realmente para o estrangeiro? Viajar é bom sozinho, ou em companhia de mulheres despreocupadas, sem compromisso, que vivem o momento presente, e não com aquelas que ficam o tempo todo pensando e falando em crianças, suspirando, tremendo com medo de gastar um copeque que seja. Ivan Dmítritch imaginou sua mulher no vagão, cheia de embrulhos, cestas, pacotes: suspira e queixa-se que a viagem lhe deu dor de cabeça, que gastou muito dinheiro. É preciso correr na estação atrás de água quente, sanduíches, água potável. Almoçar ela não pode, custa caro…

“Tenho certeza que ela iria controlar cada copeque”, pensou ele, olhando para a mulher. “O bilhete é dela, não é meu! E pra que ela precisa ir para o estrangeiro! O que é que lhe falta ver lá de importante? Já sei. Ficará fechada o tempo todo no hotel e não me deixará desgrudar dela um só momento.”

E pela primeira vez em sua vida reparou que a mulher tinha envelhecido, ficara feia e cheirava a cozinha, enquanto ele ainda era moço, saudável, viçoso, bom para se casar uma segunda vez.

“Claro, tudo isso é bobagem, é besteira”, pensou. “Mas… para que iria ela ao estrangeiro? O que ela aproveitaria lá? Mas iria mesmo… Imagino. Para ela Nápoles ou Klin iriam ser a mesma coisa. Ficaria me atormentando e eu dependeria dela. Tenho certeza de que na hora em que recebesse o dinheiro, iria trancá-lo a sete chaves, como faz o mulherio… Iria escondê-lo de mim… Aos parentes dela tudo, mas para mim, contaria cada copeque.

Ivan Dmítritch ficou pensando na parentela. Logo que todos esses irmãozinhos, irmãzinhas, titias, titios soubessem do ganho, viriam se arrastando, bancando os mendigos, sorrindo untuosamente, bajulando. Eta gentinha sórdida! Se lhe oferecem a mão, pegam o braço. Se não lhe oferecem, amaldiçoam, rogam pragas, desejam todo tipo de desgraça.

Ivan Dmítritch lembrou-se de seus parentes e seus rostos, que ele sempre olhara com indiferença, pareciam-lhe agora odiosos, repulsivos.

“São uns canalhas”, ele pensou.

E o rosto da mulher começou também a parecer-lhe odioso, repulsivo. Em seu íntimo começou a ferver um ressentimento contra ela e ele pensou com alegria perversa: “Não entende nada de dinheiro, por isso é avarenta. Se ganhasse, mal me daria cem rublos, e o resto iria direto para o cofre”.

Já olhava agora para a mulher com ódio e não mais com um sorriso. Ela também olhava para ele com maldade e com ódio. Ela tinha seus próprios sonhos dourados, seus pianos, suas idéias e sabia perfeitamente no que estava pensando o marido. Sabia que seria o primeiro a avançar no que ela teria ganho.

“É bom sonhar por conta dos outros!”, dizia o olhar dela. “Não, você não conseguirá!”.

O marido compreendeu seu olhar: o ódio ferveu-lhe no peito e para decepcionar sua mulher e fazer-lhe mal olhou rápido na quarta página do jornal e anunciou solene:

— Série 9499, bilhete 46! Não 26!

A esperança e o ódio desapareceram ambos de repente e, no mesmo instante, Ivan Dmítritch e sua mulher acharam os aposentos escuros, pequenos e abafados, e o jantar que tinham acabado de comer pesado e insosso, e as noites longas e enfadonhas.

— Só o diabo sabe — disse Ivan Dmítritch, começando a implicar. — Por todo lado que eu pise, só há papéis, migalhas, casquinhas, sei lá. Será que nunca varreram esses quartos! Terei de ir embora de casa, o diabo que me carregue. Vou sair e me enforcar na primeira árvore.

A Voz da Vocação

Foi assim que terminei a faculdade de Psicologia, estava procurando emprego, deixando alguns currículos aqui e ali, falando com conhecidos, enfim, fazendo networking. Mais difícil do que eu pensava, por sinal, mas tive lá algum sucesso. O problema começou quando, de uma hora para a outra, parei de ouvir a voz das pessoas; não havia relação em conhecê-las ou não, a “voz muda” não distinguia conhecidos de desconhecidos.

A primeira vez foi no supermercado, eu estava passando as compras no caixa como de costume, mas, no momento que a atendente deveria perguntar qual seria a forma de pagamento, não houve som algum de sua boca; os lábios se moviam, os músculos do rosto se contorciam dando forma às letras, sílabas, palavras e frases, mas não havia nenhum som, sequer um ruído saindo da boca dela. Era como assistir a um filme mudo.

Minutos depois voltou a acontecer no ponto de ônibus, agora com todas as pessoas que estavam presentes, cerca de sete. Três se conheciam e conversavam continuamente, sorrindo umas para as outras como boas amigas. No entanto, não se ouvia nenhum barulho, nenhum som das vozes ou risadas ou falas. As pessoas que falavam ao celular também não emitiam sons, como se uma bolha invisível estivesse bloqueando tudo.

Pouco-a-pouco, ao longo do dia, eu não conseguia mais ouvir nenhuma pessoa, apenas os sons da natureza e dos objetos não-naturais como veículos. Nenhuma voz. Foi assim após descer do ônibus, passar na padaria, farmácia e no consultório do doutor. Quando estava certo da minha insanidade, cogitando, talvez, me internar, entrei em um táxi para tentar chegar em casa mais cedo e deitar, talvez um bom descanso ajudasse a resolver aquela estranha situação. Antes do taxista perguntar, falei o endereço que desejava ir, foi no momento seguinte que tomei um tremendo susto: ele respondeu com um “Ok, chefe!” e, sem explicação, consegui ouvir sua voz perfeitamente.

“Será minha imaginação?”, era uma dúvida natural, até mesmo justa. “Eu consigo ouvir sua voz, senhor!”, falei pelo impulso da boa surpresa, o taxista franziu o cenho pelo retrovisor: “Como assim?”, perguntou confuso, “Por que o senhor não me ouviria?”, quis saber, “O senhor não acreditaria seu eu falasse.”

Aquilo aconteceu durante todo o dia. A maioria das pessoas continuava sem voz para mim, como se fizessem mímica, enquanto outras pouquíssimas conseguiam emitir sons normalmente: o guarda na esquina, o advogado com a pasta de couro marrom passando apressado, o vendedor de livros usados, a professora comprando sorvete. Tão diferentes uns dos outros… eu não entendia a relação entre eles. Enquanto pensava, parado em frente à porta de casa, meu celular tocou, era a mulher do RH com quem eu havia deixado um currículo. Conversamos por alguns minutos e marcamos uma entrevista para às 15h, eram 14:12 quando finalizamos a chamada. Eu estava transbordando de alegria que mal conseguia colocar a chave na fechadura para abrir a porta. Finalmente consegui! Adentrei impetuoso, sorrindo, o coração acelerado pela ansiedade.

Bastava abrir a segunda porta para entrar em casa, mas antes de conseguir girá-la uma voz disse meu nome, estava fraca, mas consegui ouvir; virei-me rápido e vi minha vizinha, uma senhora de sessenta e poucos anos, cabelos brancos finos, dava para ver sua cabeça pelada, pele enrugada como maracujá, olhos azuis como o céu, porém tristes. “Aconteceu alguma coisa, dona Iêda?”, ela balançou a cabeça dizendo que não, mas duas lágrimas caíram e ela se apoiou na parede. No ínfimo intervalo entre as lágrimas caindo e seu magro corpo cansado se recostar sobre a parede fria foi que eu entendi tudo o que havia acontecido durante todo aquele dia.

Sorri para ela com toda a ternura que já havia sentido na vida, então fui até lá aonde estava, passei o braço ao redor de seus ombros ossudos e a puxei contra mim: “Vamos entrar. Lá dentro podemos conversar com calma tomando um café. Sei que a senhora adora café.”, nós dois sorrimos. Fechei a porta com um dos pés sem desfazer o abraço. Ficamos até às 19h conversando antes dela cair no sono depois de quatro xícaras de café e um punhado de biscoitos de maisena. O mais incrível de tudo é como não consigo esquecer sua voz doce, mesmo após sua inesperada morte eu ainda lembro como se ela estivesse falando aos meus ouvidos.

Naquele dia eu perdi a entrevista, mas entendi qual era meu propósito neste mundo.