Beatriz, O anjo suicida

Na noite em que a lua não aparecia, surgia Beatriz o anjo suicida, com cortes nos braços e uma dor insuportável no coração, ela não mais dormia ficava a vagar toda noite em ruas escuras.
Um anjo sem asas e sem luz, ela tinha apenas feridas na alma e vontade de chorar e morrer também mas em nenhuma das noites a morte queria ser seu bem.
Com os cabelos ao vento, olhos que refletiam a mais bela luz da noite, não poderiam refletir alegria pois era uma coisa que ela não sentia. Com suas roupas vermelhas cor de sangue e suas lâminas brilhantes no prédio abandonado ela subia.
Ela subiu até encontrar sua mais perigosa agonia, até encontrar as invenções de sua cabeça defeituosa. Ela encontrou seu coração de vidro, estilhaçado no chão e ao encostar nele de cortou. Cortou toda sua pele pálida, pintou com seu própria sangue sua pintura e viu que seu ex amor adormecia. Mas ele não podia estar lá, ele um dia também já foi um anjo suicida, só que ele não mais existia a morte o tinha levado.
Ele abriu os olhos e ela estava louca para correr para seus braços, mas algo nele havia mudado. Tinham demônios em seus olhos, isso ela podia ver, só não podia imaginar que mata-la seria seu prazer.
A máscara que os demônio tinham do seu amor caiu, agora era só seus medos, tormentos, lamentos e traumas juntos, ela iria partir para o outro mundo e não seria mais um anjo.
Ela tentou correr, mas não conseguiu acabou caindo da escada que era muito grande quando parou de cair teve sua cabeça e aberta a machadada e seu cérebro foi partido em pequenos pedaços, mas não pararia por ai, seu sangue serviu como vinho e banho para a morte e do seu corpo e coração foi feito um banquete. Sua alma por fim, ficou presa e abandonada naquela casa e gritava, como gritava era o mais horrível terror, espero que ninguém tente entrar naquela casa.

Sex, 24 de Maio de 2019

Os Contos dos Quatro Humores: Fleumática, a Água

Aquele que olhasse o céu naquela noite não sentiria alegria no que iria ver, estava completamente nublado e escuro, tão escuro que dava a impressão de ser possível agarrar as nuvens com as próprias mãos. Fazia dias que aquele fenômeno estava pairando sob o céu do planeta Úmmela, sem derramar uma única gota de chuva sequer, apenas espreitava a região como uma sombra sorrateira. Os moradores que viviam nos Vértices — prédios tão compridos que seus cumes tocavam as nuvens (alguns ultrapassavam) — praticamente sentiam na pele o toque úmido das nuvens quando abriam as janelas.

Do alto das centenas de apartamentos apinhados em cada Vértice a vista era sublime, Urd era uma cidade luminosa, cheia de vida e movimento, com multidões indo e vindo de todas as direções, veículos em rotas caoticamente bem organizadas sempre com trânsito lotado, mas estranhamente eficiente. Telões gigantescos — outros nem tanto — pululavam de inúmeros prédios comerciais com propagandas dos novos modelos de Sandbikers — FCC-200 Nevoeiro, KXP-100 Faísca e o luxuoso NNV-1 Tempestade —, peças para construção e máquinas, acessórios para casa, para uso pessoal e até mesmo mulheres seminuas de raças variadas, de humanas à nemurianas, cada uma delas famosa como uma das raças mais sensuais de toda a galáxia, o que acarretava na exploração das fêmeas pelo setor de entretenimento virtual ou físico, mas principalmente pelo Cartel Intersetorial que praticava todos os crimes contra os Direitos Individuais Galácticos: escravidão, sequestro, roubo, assassinatos e todo o tipo de crime. Se estava dentro de seu domínio, as leis Imperiais não alcançavam.

Na parte inferior da cidade, onde a massa se concentrava, baforadas de fumaça saiam de bueiros espalhados por todas as ruas, cobriam todo o cenário com uma aparência de sujeira, abandono. Rostos variados salpicavam por entre a fumaça, eram muitas raças vivendo em aparente tranquilidade umas com as outras; alguns andavam em grupos, outros preferiam a caminhada solitária. Mesmo ali, na parte baixa, os telões — apesar de menores — irritantes brilhavam com suas cores em neon cegante, forçando suas mensagens nas mentes dos transeuntes. Nudez, bebidas, ferramentas, transportes, sexo, drogas, armas e luz, muita luz jorrando de todos os lugares. Havia um contraste naquele ambiente: mesmo com muita luz espalhada por todos os cantos, muitas vielas continuavam escuras como o céu daquela noite, era impossível reconhecer alguém que estivesse saindo de alguma delas, somente a silhueta era visível, todo o resto não passava de pura sombra. Um pouco acima das ruas estavam os cabos que sustentavam aquela gama densa de iluminação, eles adornavam o ambiente junto com as luzes, dava à cidade a harmonia própria. A maioria estava apinhada em grossos amontoados que formavam um único cabo imenso e espesso, uma serpente feita de metal revestido e eletricidade de tamanho imensurável.

Escondido sob as várias camadas do autoritário neon, pouquíssimo percebido, estava um pequeno letreiro bastante simplória piscando sobre um humilde restaurante com janelas circulares e bordas salientes. O interior era tão comum quanto por fora. Um grande balcão separava os clientes dos funcionários: duas garçonetes nemurianas, um Pakkle[1] cozinheiro, um Ankor[2] ajudante de cozinha e, por fim, mas não menos importante, uma humana cuidando do caixa. Do outro lado, na área dos clientes, devido ao pouco espaço, as mesas foram dispostas em linhas próximas às paredes, percorrendo toda ela até o limite. Em número, era em torno de doze mesas, cada uma com duas poltronas largas de cada lado, com a posterior sendo uma extensão da anterior, formando uma única peça com dois acentos em lados opostos. As luzes tinham o tom amarelado, deixando o ambiente estranhamente aconchegantes; o piso era feito com algum tipo de porcelana quadriculada em preto e branco bastante gasto; as paredes estavam cobertas até o topo com algumas fotos, imagens de outros planetas ou veículos antigos em algum tipo de feira, além do proprietário segurando troféus e faixas com o número um. A aparência interna nada especial do restaurante, diante das inúmeras fotos espalhadas, perdia sua pomposa normalidade diante daquele obsessivo design sem forma e, o que poderia tornar o restaurante feio ou desinteressante, teve o efeito oposto, deu personalidade ao lugar.

Alguns poucos clientes comiam, outros poucos bebiam no balcão, era mais prático para quem estava com pressa. Numa mesa mais afastada duas jovens fêmeas, uma humana — Shanaria Ro — e uma nemuriana — Tal-Ne Ren —, tomando a bebida mais famosa da casa: café com leite de nuz’gaa[3]. A humana tinha a pele parda, os olhos eram escuros, densos e puxados levemente para cima, porém, eram tranquilos, leves, como se o mundo fosse desinteressante; os cabelos longos e negros, assim como os olhos, presos em um longuíssimo rabo de cavalo, ultrapassavam as nádegas da fêmea. Vestia-se bem para o lugar: a jaqueta espessa dava volume a parte de cima; as pernas eram o contraste do conjunto, a calça justa, sem nenhum bolso ou adereços, realçava as curvas do corpo, mas não deixavam marcas exageradas ou constrangedoras, o avançado tecido de camadas conferia às regiões sensuais de Ro total discrição, era a perfeita combinação entre confortabilidade e estilo; já as botas eram longas, poucos dedos abaixo dos joelhos e, diferente da jaqueta, eram bastante comuns. A nemuriana, por sua vez, apresentava-se bem mais elegante que a amiga, o longo vestido roxo de tecido leve era tão confortável quanto as calças de Ro, deslizando até os pés, cobrindo as sandálias cintilantes; o cabelo médio, bastante assimétrico, o lado direito maior que o esquerdo, chamou a atenção de outras fêmeas pela novidade peculiar; os olhos verde-esmeralda e a pele completamente rosada completavam a combinação inovadora que as numurianas costumavam inventar. Apesar de tão distintas esteticamente uma da outra, as duas pareciam apreciar a presença uma da outra.

— Meu chefe está preocupado com os galmorianos — confessou Tal-Ne entre goles de café. — O líder deles, Tarren, está com problemas internos com um dos clãs. Parece que o chefe do Clã da Cura, um tal de Kojara Zorg, não vê com bons olhos a relação entre o seu povo e a Jatta Medicamentos, acha que estamos, de alguma forma sorrateira, conspirando para tomar os recursos medicinais do planeta em comum acordo com Tarren. Um total absurdo! — exclamou com desdém.

— Que confusão! — exclamou Ro após um gole do café. — Isso aqui está simplesmente divino! — afirmou. — Então… os contratos foram cancelados?

— Não… quer dizer… pelo menos ainda não — suspirou. — Tarren e o chefe do Clã do Comércio, Numaq Norquan, conseguiram acalmar os ânimos do Zorg e, apesar de não ter sido uma grande vitória, ganhamos algum tempo para pensar em alguma estratégia — tomou um gole bem maior dessa vez.

— Como assim: “apesar de não ter sido uma grande vitória”? Esse Zorg é assim tão desconfiado? — apesar de parecer interessada no assunto, Ro estava relativamente jogando conversa fora.

— Segundo meu chefe, sim. Constantemente ele faz holochamadas querendo saber informações: localização dos laboratórios para onde os medicamentos vão, nomes dos responsáveis por esses laboratórios, dos pilotos das naves que transportam os produtos, o que estão fazendo com a matéria prima… — Tal-Ne revirou os olhos — um completo pé no saco!

— Que paranoico! Ele deveria trabalhar escrevendo roteiros para teatro ou quem sabe atuar em algum circo — disse, virando a xícara de café até o fim. O comentário fez a nemuriana rir, deixando Ro confusa. — Por que você riu?

— Eu imaginei o Zorg saltitando pelo palco do teatro com uma roupa bem justa — o tom da pele de Tal-Ne foi mudando de rosado para mais avermelhado de acordo com a intensidade de suas risadas. Os nemurianos nasciam todos com a pele rosada, mas mudavam de tonalidade de acordo com as emoções que estavam sentindo, assim, a alegria alterava o rosado para o vermelho, a tristeza tendia para o azul, enquanto a raiva deixava os nemurianos roxos, e assim por diante.

— Não deve ser uma visão que muitos pagariam para ver, eu imagino — tomou o último gole do café. — A não ser que fosse num circo — deu de ombros. A nemuriana não aguentou o comentário e a risada aumentou ao ponto de incliná-la sobre a mesa com dores no abdômen. Àquela altura a pele de Tal-Ne estava completamente vermelha Apesar de Ro também sorrir — mais por causa de sua amiga do que pelo que disse —, não achou que a reação de Tal-Ne seria tão exagerada.

— Melhor… — riu — melhor eu ir ao banheiro me recompor. Volto daqui a pouco — levantou-se e seguiu até o outro lado do recinto, apoiando-se nos objetos enquanto tentava controlar as risadas. Passado algum tempo Tal-Ne voltou à mesa, mas não cambaleava como antes, estava esguia o suficiente para realçar todas as curvas do seu belo corpo rosado mesmo oculto sob o longo vestido. Quando finalmente sentou, o assento rangeu pelo contato com as pernas da nemuriana, Tal-Ne passou a observar atentamente o que Ro fazia: viu a amiga pedir mais café, adicionar açúcar e mexer. Tudo que Ro fazia, cada movimento, Tal-Ne fitava com atenção. Ro havia notado que a amiga estava diferente desde que havia voltado do banheiro, mas não quis comentar nada, odiava conversas que gerassem algum desconforto.

O que houve com ela? Parece uma pessoa diferente, pensou. — Aconteceu alguma coisa, Tal-Ne? — indagou. A nemuriana balançou a cabeça confirmando que sim. Ro estreitou os olhos com desconfiança. Será que alguém a tratou mal? Talvez algum simpatizante do tal Zorg a reconheceu como funcionária da Jatta e decidiu força-la a fazer algo, pensou.

— Por que não está falando?

Porque não desejo assustá-la, criança — duas vozes falaram em uníssono, porém, nenhuma delas era a voz de Tal-Ne. Apesar da incrível surpresa, Ro não demonstrou externamente o que sentiu internamente. Permaneceu em silêncio, fitando os olhos de sua amiga tentando entender o que estava acontecendo.

— Você não é Tal-Ne. Quem é você? — engoliu seco.

Eu sou uma entidade divina. Meu nome é Linfa — os outros seres que estavam próximos pareciam não ouvir a conversa das duas fêmeas, passavam por elas como se a mesa estivesse vazia. Ro continuava sem demonstrar nenhuma reação, mas internamente havia um turbilhão de pensamentos e sentimentos, o coração batia rápido e um calor percorria todo o seu belo corpo, estava assustada, as mãos deram sinais de tremor, mas Ro conseguiu segurar. A boca ainda seca, engoliu outro seco.

— Como um deus ou anjo? — tomou o primeiro gole da segunda xícara de café após a nemuriana confirmar a pergunta com a cabeça. — Você quer alguma coisa com minha amiga? — mais outro gole de café e uma resposta negativa. — Você quer alguma coisa comigo? — a surpresa finalmente tomou o rosto de Ro, totalmente incrédula com a resposta positiva dita sem nenhuma palavra.

Você foi escolhida por mim para representar minha vontade — rompeu o silêncio. — Para ser minha profetisa.

— Do que você está falando? — o lábio de Ro se contraiu estranhamente quando ela bateu o abdômen na quina da mesa por causa do susto. Linfa, no entanto, suspirou e sorriu em completa tranquilidade.

Não há motivo para nervosismo, Shanaria Ro, nada será feito sem o seu consentimento. Não estou aqui para obrigá-la a fazer algo que você não queira, pelo contrário, minha vontade é me unir a você em comum acordo — Tal-Ne sorria com uma gentileza que Ro nunca havia visto antes.

— Suponhamos que eu acredite em você, o que exatamente você quer? — encarou Tal-Ne nos olhos.

Como eu havia dito — ficou em pé diante de Ro, apoiando as mãos sobre o espaldar da cadeira —, meu nome é Linfa, sou uma das quatro Deusas dos Humores. É de mim que os fleumáticos obtêm sua estrutura mineral ao nascerem — abriu os braços, sorrindo. — Os humores são os temperamentos. O temperamento é a estrutura básica que forma toda a psique dos seres com inteligência, isto é, todos os seres inteligentes da galáxia possuem um temperamento, e cada temperamento possui um modo de responder ao mundo — voltou a se sentar, tomando um gole do café de Ro.

A humana ficou olhando sua amiga fazer todos aqueles gestos, falar aquele monte de coisa — no mínimo estranhas —, tomar seu café e agir como se fosse tudo natural.

— Então, eu tenho esse tal de temperamento, certo? Qual é o meu? — arqueou uma das sobrancelhas.

Você é fleumática, Shanaria Ro — apontou para ela, depois para si mesma. — E o seu temperamento vem de mim. Eu sou a origem do temperamento fleumático, porque os fleumáticos compartilham características minhas. São seres calmos e tranquilos, que agradam a todos que estão ao seu redor. São pacientes com outros, envolvendo os seus, dando a eles a harmonia que desejam. Preferem a contração à expansão, porque é no concentrar que suas qualidades afloram, isto é, são seres que vivem para dentro, não para fora. A Água os representa não apenas porque envolve tudo, adapta-se, mas também porque acalma, esfria, umidifica tudo que toca — Tal-Ne não tirou os olhos dos de Ro, ambas as jovens se olhavam tentando compreender, ler uma a outra. Ro parecia buscar sinceridade nos olhos da amiga, enquanto Linfa — através de Tal-Ne — buscava expor sua honestidade. Finalmente, após outro gole de café já frio, que fez careta ao provar, Ro rompeu o silêncio.

— Não posso negar que seus olhos passam verdade, mas mesmo assim, não acho que seja o suficiente — respirou fundo. — Porém… — antes de concluir o que queria dizer, Linfa deixou o corpo de Tal-Ne como se o espírito dela deixasse o corpo. A nemuriana desabou sobre a mesa em sono profundo, deixando um fantasma de roupas sombrias, pele pálida e uma máscara com olhos tranquilos e sorriso meigo encarando Ro.

Ro estava tão perplexa com aquilo, os olhos arregalados, a respiração quase parando, que Linfa precisou se desculpar por ter se revelado daquele jeito.

— Acho que… acho que acredito em você dessa vez — engoliu outro seco. — Não é todo dia que isso acontece com alguém, digo… você saiu do corpo dela — Ro apontava repetidamente de Tal-Ne para Linfa, indo e voltando.

Realmente eu sinto muito por tê-la assustado, Shanaria Ro, não foi minha intenção.

— Não… tudo bem. Eu não iria acreditar em você se… — voltou a apontar para as duas — se isso não tivesse acontecido.

Então você aceita meu convite?

            — Isso foi inesperado. Nunca pensei que uma deusa viria falar comigo. Nunca pensei que deuses realmente existissem — confessou. — Digo, não é algo que você vê muito hoje em dia — Linfa concordou. — Vivemos em uma sociedade cética, com pouca ou nenhuma fé em seres divinos, talvez até hostil a qualquer coisa relacionada a isso.

Por que houve um desligamento entre nós e vocês. E é por isso que estou aqui: as deusas precisam de mortais para intervir no plano mundano e vo…

            — Fui escolhida por você. Eu entendi. Certamente terei de deixar Úmmela, meus amigos e minha família, porque essa não será uma coisa simples de fazer ou que poderia realizar daqui… estou correta? — Linfa concordou sem falar. — Bem, bem… — deu de ombros — talvez não seja uma má ideia conhecer a galáxia. Eu aceito — sorriu.

Você é inteligente, Shanaria Ro, isso me alegra! Agora tenho certeza que fiz a coisa certa em escolher você — confessou. — Esse é o retorno do religamento entre mortais e divindades, depois de anos de silêncio. Eu, Linfa, uma das Quatro Deusas dos Humores, dou minha bênção a você, Shanaria Ro, e a nomeio como minha Profetisa de hoje até os teus últimos dias. Quatro é Um e Um são Quatro!

Um intenso brilho saiu dos olhos de Linfa, impossibilitando a visão de qualquer coisa ao redor por alguns segundos, até finalmente cessar e tudo voltar ao normal.

Tal-Ne acordou de seu sono forçado, confusa, limpando a baba que escorria da boca. Ro deu risadas contidas quando viu o estado da amiga, mal sabendo ela tudo que havia acontecido.

— O que aconteceu? Eu dormi?

— Sim. Depois que você chegou do banheiro foi minha vez de ir, quando voltei você estava dormindo sobre a mesa. Acho que colocaram alguma coisa no leite — explicou Ro, rindo.

— Mas eu não lembro de ter voltado para a mesa. Eu estava lavando as mãos e… — Tal-Ne se esforçou para lembrar — não consigo lembrar nada depois disso.

— Deixa pra lá! — continuou sorrindo

— Por que você está rindo?

— Por nada. Só achei engraçado você toda descabelada — gargalhou.

— Isso não é coisa que se faça com uma amiga! — penteou os cabelos com as mãos o quanto conseguiu e a baba.

— Melhor pedir a conta e irmos embora. Vamos aproveitar o resto da noite enquanto podemos.

— É melhor. Mas preciso ir ao banheiro antes! Não posso sair desse jeito — saiu correndo em direção ao banheiro. Ro continuou olhando e rindo a amiga em desespero.

 

***

 

[1] Um tipo de polvo humanoide com tentáculos no lugar das mãos e dos pés.

[2] Os Ankor eram homens-lagartos, extremamente calmos devido ao sangue frio, apesar da aparência intimidadora.

[3] Animal herbívoro abundante no planeta Galmori, muito procurado por sua carne saborosa e seu leite fermentado natural, porém difícil de ser capturado devido aos seus hábitos subterrâneos.

Meu Nome Era Maya

Amanhã será meu aniversário, mas ninguém se lembrará.

A data da morte é mais importante que a data do nascimento.” Quem foi mesmo que disse isso? Não importa. Minha mãe sempre disse que é bíblico, mas eu nunca vi isso escrito na Bíblia, e aposto que nem ela mesma. Ela é dessas que vive repetindo comentários alheios, ou melhor… ela era dessas. Ela teve a coragem que eu não tive, e cometeu o que, na opinião dela própria, é o maior pecado possível: o suicídio.

Nunca entendi muito bem a lógica disso. Eu entendo que tirar a própria vida seja horrível, afinal imagina quanta dor alguém tem que estar sentindo pra fazer isso. Mas como algo que só faz mal a si próprio (sem falar na dor dos familiares, é claro) pode ser menos perdoável que matar um semelhante, estuprar uma mulher ou violentar uma criança? A lógica divina definitivamente não bate com a minha.

E o motivo do suicídio dela também foi peculiar. Quer dizer, a maioria das pessoas que têm se suicidado nos últimos dias fez isso pelo desespero de sofrer uma morte lenta e dolorosa por causa do meteoro fatal que logo nos consumirá. Mas não a minha mãe. Posso dizer que ela estava até feliz pela chegada do Dia do Juízo Final. Acreditava que em algum momento do último sábado seria arrebatada.

Foi isso o que o Reverendo Mathias lhe disse, pelo menos. Ele levou os fiéis de sua igreja no bico, dizendo que recebera uma visão divina: no sábado, antes da última badalada, a Igreja seria arrebatada para Deus. Simples assim.

Não que eu tenha acreditado nele, mas será que minha minha realmente cogitou ser digna do arrebatamento? Ah, fala sério! Com toda aquela língua ferina contra tudo e todos, como se fosse a própria Jeová? Com toda soberba por ser uma das mais chegadas ao Reverendo, além, é claro, de ter mais “bens” do que os “irmãos”? Depois de ter se casado com o merda do meu padrasto unicamente pela conta bancária dele e, não contente, se fazer de cega aos olhares e carinhos dele comigo?

E aí ela se decepcionou com Deus, porque a carruagem não veio buscar a Cinderela, e se explodiu! Boom!

E até na morte ela quase ferrou com a minha vida! Assim que voltamos do enterro, o escroto provavelmente pensou que não haveria mais empecilho — como se minha mãe algum dia tivesse sido um — e veio pra cima de mim, no quarto. Mas o que ele não sabia é que eu já esperava por isso, e há tempos guardava uma faca debaixo do meu travesseiro.

Eu a atravessei nele até ter certeza de que estava morto. Não posso dizer que não me machuquei, mas não posso reclamar. Eu venci.

Mas também não importa, já que o meteoro vai acabar com nosso querido planeta azul. (Espero que você seja minimamente inteligente e consiga ler a ironia na última frase.)

O bom é que não vou passar minhas últimas horas vendo o Sol nascer quadrado. Não. Está uma confusão dos infernos lá fora. Minha casa já foi saqueada, e nada me restou além deste caderno e caneta.

Por que estou escrevendo — se ninguém vai ler -? Porque sim.

É o fim da aventura humana na Terra. Essa porra só é bonita nas canções. Se quer minha opinião, eu não a tenho de fato, mas sim duas hipóteses: (1)se Deus não existir, é meio óbvio — o fim veio pelo acaso e ponto final, game over!; mas se (2) ele existir, então todos fomos considerados imperfeitos demais para Vossa Santidade, e então ele decidiu limpar a Terra de nós e o Universo da Terra.

E o ponto de impacto é o Brasil, o que é morbidamente cômico. Sempre enchemos a boca para nos gabar de que aqui não há vulcões, tornados e demais desastres naturais — como se a gente precisasse de mais tragédias! “Deus é brasileiro!”, dizíamos em nossa falsa segurança.

Brasileiro ou gringo, Ele já deu seu veredicto!

O comunicado oficial foi feito exatamente oito dias antes do suicídio da minha mãe, na sexta-feira 13. Pra quem duvidava que a data dá azar, eis sua prova. Não me recordo das proporções do meteoro, mencionadas no plantão urgente que interrompeu meu filme favorito (aliás, interromper O Morro dos Ventos Uivantes pra me falar que eu vou morrer é imperdoável), mas não faz diferença.

Ele é grande o suficiente para matar a todos, sem exceção. A todos os que sobreviverem, pelo menos. Lembra que eu disse que está uma algazarra lá fora? Pois então, só contextualizando: as ruas estão “cemiterizadas” com os corpos dos mais desesperados; alguns, é claro, foram assassinados em brigas e assaltos.

Primeiro veio o choro coletivo, seguido de preces a Deus. Ainda agora alguns acham que serão arrebatados momentos antes da queda do meteoro. Depois vieram os gritos, as brigas, os grupos criminosos que a polícia chamou de “gangues do apocalipse”. Rapidamente a maldade tomou conta de alguns; o medo de outros — e o desespero de todos.

Olavo, meu vizinho de infância, também se suicidou. Enforcamento numa árvore. Eu o vi, preso à corda, o rosto pálido pela falta de sangue… Mas é como se nada mais me chocasse de verdade.

Hoje vi uma vizinha, mãe solteira, esfaquear as duas filhas. Onde isso vai parar? Quer saber, não importa: TODOS VAMOS MORRER!

As ruas estão um caos: supermercados saqueados, veículos incendiados, pessoas perdendo a razão, a memória, a humanidade…

E ainda assim, a vida insiste em não me deixar. Ainda respiro. Ainda como. Ainda durmo e acordo. Ainda ando. E não espero mais nada. Ou quase nada: a exceção é o meteoro. Já que é inevitável, queria que chegasse logo e destruísse de uma vez a História da Terra.

Vou dormir. Amanhã é o Grande Dia. O dia do fim. Seremos esquecidos e todos os nossos esforços serão humilhantemente destroçados. Todas as lutas por igualdade, toda ciência, filosofia, toda forma de arte, tudo desaparecerá para sempre. Perda total.

Boa noite. Bem que eu poderia morrer dormindo…

***

Hoje não quero ver o sol. Esperarei o cataclismo em meu quarto. Fones de ouvido no último volume. Porta trancada. Janela fechada. Diário e caneta na mão. Mas meu destino é pior que o da própria Anne; alguém leu o diário dela, mas o meu nunca será sequer encontrado.

Essa noite sonhei que tudo isso era um trote, um engano. Nenhum meteoro caiu. Olavo morrera em vão, assim como as duas meninas esfaqueadas e tantos outros. O mundo prosseguiu. E eu segui viva.

O mundo então se tornou um lugar diferente, mais humano. A experiência de quase morte coletiva nos fez rever muitas coisas e nos transformou para a melhor.

Mas então não foi em vão? “, eu me perguntava no sonho. “Será dessa forma o Dia do Juízo, a peneira, a separação do joio e do trigo? Por quê inocentes precisaram pagar? O mal acaba aqui, ou é só temporário, e nossa natureza voltará a precisar de um novo meteoro?

Mas aquelas perguntas é que foram em vão. Eu acordei, e a realidade levou a esperança sonhada.

Voltei a escrever. Talvez esse fosse o último poema da humanidade:

DESOLAÇÃO

Se foram os sonhos

O amanhã é ilusão

Nada de arca desta vez

Apenas um meteoro em rota de colisão

Há pesar no olhar de cada um

Lágrimas e dor

Seres humanos sem esperança,

Sem humanidade ou amor

Há os que aceitaram seu frio destino

Pelo incandescente e cruel pedaço de céu

Há os que se tornaram monstros caçadores

Não importa, todos estamos ao léu

Nem sei porque escrevo isso

Ninguém quer ler agora, na verdade,

Mas, ainda assim, evita que eu fique louca,

Mais uma desvairada ateando fogo à cidade

A hora a se aproxima

E, no fim, ninguém acreditava realmente nas pregações

Todos estão, ou em fúria ou em desesperança

Todos sabemos que chega ao fim cada respiração

Cada batida de coração

Não há mais futuro, não para nós;

Estrelas continuarão a iluminar

Planetas continuarão a orbitá-las

Mas não haverá olho para observar

Agora nos despedimos

Daquilo que sempre desprezamos

Nossa Terra, família e amor

E nunca na verdade vivemos,

Sempre na verdade mentimos

É isso. Ouço os gritos à distância. Lamentos antes do fim. Ouço sons estrondosos também,um pouco mais distantes que os gritos. Logo chegará aqui. Adeus mundo.

Meu nome era Maya. Maya. Maya. Maya. May

Ventania de desejos

      Ventania de desejos 

Início de outono e as árvores já começaram a transformar suas folhas verdes em folhas secas em uma mistura de amarelo, laranja e vermelho. O outono é, com certeza, uma das estações mais revigorantes de todas, pois ela é uma preparação para o inverno. No outono, colhemos tudo o que plantamos durante a primavera e verão. Colhemos os frutos para sobrevivermos ao inverno.
Neste primeiro dia de outono, muitos ficam em suas casas para se proteger dos ventos. Porém, alguns corajosos se arriscam e aproveitam a paisagem do começo da estação. Durante a manhã uma garota, que conheço bem, pois a vi crescer nesta praça, estava em um banco lendo um livro. Está de óculos de armação azul, que combinam com as pontas tingidas de seu belo cabelo liso e curto. Seu nome é Lira. Como se espera, usa roupas quentes e um gorro para manter a cabeça aquecida.
Lembro que alguns anos atrás Lira se apaixonou, porém ele foi embora, e ela não pôde dizer o que sentia. Então veio à praça, nesta mesma estação e encontrou um taráxaco, também conhecido como dente de leão. Ela o pegou e o soprou. Conhecia a história que ao soprar a flor deve-se fazer um pedido sobre seu desejado amor. Se o vento trouxer de volta as pétalas o pedido será brevemente realizado. E, até onde sei, é a pura verdade.
Enquanto Lira lia seu livro calmamente, uma brisa soprou e logo se tornou uma ventania, fazendo-a perder o livro que foi levado pelo vento para perto da fonte. Depois de Lira se ajeitou e caminhou em direção ao livro, agachou-se e o pegou. Antes que se levantasse, uma voz a chamou.
– Lira? – Ela virou seu olhar em direção da voz e o viu: – Você é a Lira, não?
– Sim, sou eu! – Ela se levantou e avaliou bem o menino que a chamara. – Murilo?
– Sim. Acabei de voltar a cidade – Lira tinha um olhar de esperança e amor. – Lira, que tal darmos uma volta? Gostaria de matar a saudade da cidade. E de você. – Essa última parte a deixou surpresa, e um sincero sorriso apareceu, que ele correspondeu.
– Também senti sua falta. Então vamos dar uma volta. – Respondeu, ajeitando seu livro em sua bolsinha e indo com ele até a saída.
Então Lira e Murilo saíram juntos da praça e ao longe pude ver pequenas pétalas de taráxaco passando pelos pés de Lira, bem no momento em que Murilo segurou sua mão, fazendo ambos sorrirem. Uma brisa de paixão, sempre volta como uma ventania de amor.

(Conto do livro “A fonte dos desejos”)